quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal

 A origem e o significado da comemoração



                                          Adoração dos Magos, óleo sobre tela de André Gonçalves  (s data)
                                                                             (Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra)


Contar a história e as origens do Natal, é algo controverso, e discutível por muitos entendidos assim como estudiosos da matéria, no entanto, e segundo a tradição da religião católica, é comemorado anualmente em 25 de dezembro. Já nos países eslavos e ortodoxos cujos calendários eram baseados no calendário juliano, o Natal é comemorado no dia 7 de janeiro. A data é o centro das festas de fim de ano e no cristianismo, o marco inicial do ciclo de Natal que dura 12 dias, pois segundo a lenda, este foi o tempo que levou para os três reis Magos chegarem até a cidade de Belém e entregarem os presentes (ouro, mirra e incenso) ao menino Jesus.
 
 

                                         Iluminura alusiva à Natividade de Master Francke  séc. XV (col. priv.)
 
 

Originalmente destinada a celebrar o nascimento do Deus Sol no solstício de inverno, na Roma antiga, o 25 de Dezembro era a data em que os romanos comemoravam o início do inverno. A Escandinávia pagã comemorava um festival de inverno chamado Yule, realizado do final de dezembro ao período de início do janeiro. Como o Norte da Europa foi a última parte do continente a ser cristianizada, as suas tradições pagãs tinham uma grande influência sobre o Natal. Os escandinavos continuam a chamar ao Natal  Jul. Portanto, acredita-se que haja uma relação deste fato com a oficialização da comemoração do Natal e por volta do séc. III, para estimular a conversão dos povos pagãos sob o domínio do império romano, a igreja Católica passou a comemorar o nascimento de Jesus da Nazaré neste dia. Esta comemoração começou em Roma, enquanto no cristianismo oriental o nascimento de Jesus já era celebrado em conexão com a Epifania (revelação ou a primeira aparição de Jesus aos reis magos), em 6 de janeiro.
A comemoração em 25 de dezembro foi importada para o oriente mais tarde, por João Crisóstomo já no final do séc. IV provavelmente, em 388, e em Alexandria, somente no século seguinte. Mesmo no ocidente, a celebração da Natividade de Jesus em 6 de janeiro parece ter continuado até depois de 380. No ano de 350 o Papa Júlio I, levou a efeito uma investigação pormenorizada, fazendo proclamar o dia 25 de dezembro como data oficial e o Imperador Justiniano em 529 declarou-o feriado nacional. Do ponto de vista cronológico, o Natal é uma data de grande importância para o Ocidente, pois marca o ano 1 da nossa História.



                                                              Sol sobre Stonehenge no solstício de inverno (por Simon Wakefield)



                                                                          Cena da Natividade num sarcófago romano do séc. IV
                                                                                          ( Palazzo Massimo alla Terma Roma)




 
O Presépio e Árvore de Natal

 
Na Roma antiga, os romanos penduravam máscaras de Baco em pinheiros para comemorar uma festa chamada de "Saturnália" entre os dias 17 e 23 de dezembro, que mais tarde viria a coincidir com o nosso Natal. As esculturas e quadros que enfeitavam os templos para ensinar os fiéis, além das representações teatrais semi litúrgicas que aconteciam durante a Missa de Natal serviram de inspiração para que se criasse o presépio. A tradição católica diz que o presépio (do lat. praesepio) surgiu em 1223, quando São Francisco de Assis quis celebrar o Natal de um modo o mais realista possível e, com a permissão do Papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, da Virgem Maria e de José, juntamente com um boi e um jumento vivos e vários outros animais. Nesse cenário, foi celebrada a Missa de Natal
   


                                                 Mosaico com festejos romanos a Saturnália (arq. pess)


A principal celebração religiosa entre os membros da igreja católica e de diversos outros grupos cristãos é o serviço religioso da véspera de Natal ou o da manhã do dia de Natal. Durante os quarenta dias que levam ao Natal, a igreja ortodoxa pratica o chamado jejum da natividade, enquanto que a maioria das congregações cristãs (incluindo a igreja Católica, a comunhão Anglicana, muitas igrejas Protestantes e os Batistas) iniciam a observância da temporada litúrgica do advento quatro domingos antes do Natal, os dois grupos entendem que o período é de limpeza espiritual e de renovação para a celebração do nascimento de Jesus. Os evangelhos canónicos de Lucas e Mateus contam que Jesus nasceu em Belém, na província romana da Judeia de uma mãe ainda virgem. No relato do Evangelho segundo S. Lucas, os pais de Jesus, José e Maria, viajaram de Nazaré para Belém, para comparecer a um censo e Jesus nasceu durante a viagem numa simples manjedoura. Anjos o proclamaram salvador do Mundo e pastores vieram adorá-lo. No relato de Mateus, astrónomos seguiram uma estrela até Belém para levar presentes a Jesus, nascido o "rei dos judeus". O rei Herodes ordena então o massacre de todos os meninos com menos de dois anos da cidade, mas a família de Jesus escapa para o Egipto e depois volta para Nazaré, um evento que tradicionalmente marca o fim do período conhecido como "Natividade".




                                                              A fuga para o Egito, por Fra Angélico ( Mus. de San Marco, Florença)




                                                                   Natal numa ilustração do século XII (arq. Wikimedia Commons)





 

                                                              Iluminura do Livro das Horas do Duque de Berry
                                                                                                          (arq. pess.)





As representações da Natividade,  têm sido um grande tema para os artistas cristãos desde o séc. IV. O presépio desde o século XIII enfatiza a humildade de Jesus e promove uma imagem mais terna d'Ele, um importante ponto de inflexão em relação às mais antigas imagens do "Senhor e Mestre", o que acabou por influenciar o ministério pastoral do cristianismo.
O sucesso dessa representação do Presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália, logo se introduziu nas casas nobres europeias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. Em Espanha, a tradição chegou pela mão do rei Carlos III, que a importou de Nápoles no século XVIII. A sua popularidade nos lares espanhóis e latino-americanos estendeu-se ao longo do século XIX e na França, não se fez até inícios do século XX. Em todas as religiões cristãs, é consensual que o Presépio é o único símbolo do Natal de Jesus verdadeiramente inspirado nos Evangelhos.



Presépio em alto relevo de retábulo espanhol do séc. XVII
                                                                                                              (arq. pess.)



                                                                       Presépio, óleo sobre tela do séc. XVIII, escola portuguesa
                                                                                                              (col. pess.)




                                                                             Presépio de finais do séc. XVIII ( Col. Mus. de Aveiro)





                                                                                    Atual presépio em porcelana (col. pess.)




                                                  Representação de presépio moderno em espaço comercial de Lisboa (arq, pess.)



A árvore de Natal é considerada por alguns como uma "cristianização da tradições e rituais pagãos em torno do solstício de inverno, que incluía o uso de ramos verdes, além de ser uma adaptação de adoração pagã das árvores. Outra versão sobre a procedência da árvore de Natal, a maioria delas indicando a Alemanha como país de origem, uma das mais populares, atribui a novidade a Martinho Lutero, autor da Reforma Protestante do século XVI. Conta a lenda que por volta de 1530, olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam a trilha, viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa e colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Decorando-o um pouco mais com papéis e enfeites coloridos. Era o que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Nascia assim a árvore de Natal. Queria, desta forma, mostrar às crianças como deveria ser o céu na noite do nascimento de Jesus.



                                                                              Retrato de Martinho Lutero por Lucas Cranach
                                                                                                               (arq. pess.)




Cromo vitoriano de Natal com a árvore Luterana (col. pess.)




Esta tradição foi levada para o continente americano por alguns alemães, que foram viver  para os  EUA durante o período colonial. No Brasil, país de maioria cristã, as árvores de Natal estão presentes em todos os lares, pois, além de decorar, simbolizam alegria, paz e esperança. A tradição da árvore de Natal, é trazida para Portugal pelo rei consorte D. Fernando II (1816 - 1885), de origem alemã, em meados do século XIX. Em quase todos os países do mundo, as pessoas montam árvores de Natal para decorar casas e outros ambientes. Em conjunto com as decorações natalícias, as árvores proporcionam um clima especial neste período. Nas encenações diante das igrejas colocavam-se nas árvores maçãs para lembrar da história de Adão e Eva no paraíso. Mais tarde, as maçãs foram substituídas pelas bolas de vidro, um artesão soprador de vidro da cidade de Lauscha, no leste da Alemanha, inventou no século XIX os adereços em vidro colorido para decorar a árvore de Natal. Assim nasceram as bolas usadas até hoje como decoração.






                                                                      Gravuras do séc. XIX alusivas ao ritual da árvore de Natal
                                                                                                             (col. pess.)





                                                               Enfeites e bolas de Natal de início do séc. XX em vidro (col. pess.)





                                                      Ambiente e árvore de Natal em meados dos anos 20 (arq. pess.)




                                                    Árvore de Natal clássica com presentes (arq. priv.)




                                                       Exemplo de árvore de Natal moderna ( arq. priv.)





O Pai Natal: origem e tradição

A mais famosa e difundida destas figuras na comemoração moderna do Natal em todo o mundo é o Pai Natal, um mítico portador de presentes, vestido de vermelho, cujas origens têm diversas fontes. A origem do nome em inglês Santa Claus pode ser rastreada até o Sinterklaas, holandês, que significa simplesmente São Nicolau. Nicolau foi bispo de Mira, na actual Turquia, durante o século IV, por volta de 280 d. C.. Entre outros atributos dados ao santo, ele foi associado ao cuidado das crianças, à generosidade e à doação de presentes, como saquinhos com moedas próximo das chaminés das casa. Foi transformado em santo (São Nicolau) pela igreja Católica, após várias pessoas relatarem milagres atribuídos a ele.


                                         


                                           
                                                       São Nicolau, Bispo de Mira, a alegria das crianças
                                                                                                             (col. pess.)



                                                                        Postal ilustrado de meados do séc. XIX com o Pai Natal
                                                                                                               (col. pess.)




                                         

                                                        Postais de finais do séc. XIX com a representação de S. Nicolau (col. pess.)




A associação da imagem de São Nicolau ao Natal aconteceu na Alemanha e espalhou-se pelo mundo em pouco tempo. Uma série de figuras de origem cristã e mítica têm sido associadas ao Natal e às doações sazonais de presentes. O Pai Natal em Portugal, Papai Noel no Brasil também conhecido como Santa Claus (na anglofonia), Père Noël e o Weihnachtsmann; São Nicolau ou Sinterklaas, Christkind, Kris Kringle, Joulupukki, Babbo Natale, São Basílio e Ded Moroz.
Até o final do século XIX, o Pai Natal era representado com uma roupa de inverno na cor castanho ou verde escura. Por volta de 1886, o cartunista alemão Thomas Nast (1840 - 1902), criou uma nova imagem para o bom velhinho. A roupa nas cores vermelha e branca, com cinto preto, criada por Nast foi apresentada na revista "Harper’s Weeklys" neste mesmo ano. Em 1931, uma campanha publicitária da Coca-Cola mostrou o Pai Natal com o mesmo figurino criado por Nast, que também eram as cores do famoso refrigerante. A campanha publicitária fez um grande sucesso, ajudando a espalhar a nova imagem do Pai Natal pelo mundo.



                                                               Ilustração de Thomas Nast de 1886 para a revista Hrper's Weeklys
                                                                                                                  (col. pess.)
  


                                      Anúncio promocional da Coca Cola de 1931 na revista "Harper's Weekleys"
                                                                                                            (col. pess.)




                                                               Enfeite e decoração com figura do Pai Natal iluminado (col. pess.)




Em Portugal, é costume montar a árvore de Natal no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do país. No dia 6 de janeiro, comemora-se o Dia de Reis, data que assinala a chegada dos três reis magos a Belém, encerrando a magia do Natal. Uma outra tradição do Natal é a decoração de casas, edifícios, elementos estáticos, como postes, pontes e árvores, estabelecimentos comerciais, prédios públicos e cidades com elementos que representam o Natal, como, por exemplo, as luzes de Natal. Havendo em algumas zonas até uma competição para ver qual casa, ou estabelecimento, teve a decoração mais bonita, com direito a receber um premio. O Natal é, sem dúvida, uma das celebrações mais complexas do calendário português, no qual se observam elementos de cultos solsticiais e dos mortos, cerimónias da liturgia cristã comemorativas do nascimento de Jesus, entre outros.




                                                        Iluminação de Natal na Rua do Carmo em 1959, foto de Armando Serôdio
                                                                                                         (arq. da C.M.L.)



  
                                                                                 Árvore de Natal caseira clássica (col. pess.)



                                                                            Iluminação de Natal na Baixa Lisboeta (arq. priv.)



                                                      Pormenor da iluminação da árvore de Natal Millenium em Lisboa (arq. pess.)



                                               Árvore de Natal no Largo de Camões em Lisboa (arq. priv.)




Actualmente, devido a uma crescente globalização, o Natal português começa a ser influenciado por outras culturas, sobretudo através dos filmes americanos, um dos factos que comprova este tendência é a substituição do menino Jesus pelo Pai Natal na entrega dos presentes; os tradicionais presépios, que representam o nascimento de Jesus (e que constituem um dos motivos mais notórios da estatuária popular portuguesa) têm agora de coexistir com a árvore de Natal, de origem germânica. Contudo, isto não quer dizer que as tradições natalícias portuguesas desapareceram, no dia 24 dezembro, véspera de Natal, à noite, em certas partes do país (especialmente no norte) tem lugar a ceia de Natal chamada de consoada. O termo propriamente dito de "Consoada" só surgiu no século XVII e era constituída então por uma refeição ligeira de peixe. Só se generalizou quando as pessoas mais abastadas passaram a comer uma refeição após terem assistido à Missa da Vigília do Natal. Nesta serve-se tradicionalmente bacalhau ou polvo cozido e a doçaria cerimonial como rabanadas, sonhos, mexidos, aletria (especialidades do norte) o arroz doce, coscorões e filhoses (especialidades do sul) também o famoso bolo rei (de origem francesa e divulgado em Portugal pela confeitaria Nacional em Lisboa) assim como as broas Castelar, começaram a fazer parte da tradicional doçaria portuguesa na mesa de Natal. Um costume já quase esquecido é o de durante a ceia do dia 24 evocar-se os mortos, com o seu lugar à mesa, fazendo-se uma duplicação da ceia para eles numa outra sala. Em certas zonas queima-se o madeiro do Natal, particular (nos lares), ou público (nos adros), à volta do qual se cantam canções tradicionais portuguesas. Com a consoada segue-se a oferta de presentes. Ainda no dia 24, no final da ceia, há a missa do galo à meia-noite, embora actualmente esta missa esteja a cair em desuso.
No dia 25 de dezembro, há um jantar melhorado com carnes diversas, em algumas zonas do país no almoço do dia 25 é servida a tradicional roupa-velha, feita com os restos da consoada do dia anterior.





 

                                                                      Mesa de consoada portuguesa com doces típicos de Natal

                                                                                        e as tradicionais filhoses (arq. priv.)

                         


 

 

                                                                          O tradicional bacalhau cozido da consoada (arq. priv.)




Mesa de jantar pronta para a consoada (arq. priv.)




                         
                                                           Queima do tradicional madeiro do Natal na aldeia de Sta Margarida
                                                                                                              (arq. priv.)
                                    


 


   Papa Francisco presidindo à Missa do Galo na Basílica de S. Pedro
                                                                                (foto de Leggi L'Articolo AFP  La Repubblica Itália)

 
 
 
 
 

Como o Natal simboliza Alegria, Paz, Amor e Esperança, votos de um Feliz Natal.

 
  
Árvore de Natal e presépio pessoal de 2014
 
 
 
 
 
 
 

 Texto:                                                                                                                                                                                            
 Paulo Nogueira
 
 
Fontes e bibliografia:
Catolicismo Romano in publicação on line
WALSH, Joseph J. Were They Wise Men Or Kings?: The Book of Christmas Questions. Louisville, Ky: Westminster John Knox Press, 2001. p. 8
KAUL, Vivek. "How Coca-Cola turned Santa Claus red", 5 Julho 2010