sexta-feira, 1 de maio de 2015

DIA INTERNACIONAL DO TRABALHADOR

 
 

 
 
As referências simbólicas deste período do ano vêm de longe. Os romanos festejavam entre 30 de Abril e 3 de Maio as "Floralias", festa dos cereais e das flores. A Idade Média manteve viva a tradição, em comemorações pela "expansão da primavera" ou o "signo da alegria". Ainda no século XVI, surgiu a primeira associação da estação com o mundo do trabalho, quando legislações corporativas instituíram a jornada de trabalho de oito horas. Foi o caso da legislação de Felipe II, de Espanha, que estabeleceu este direito para os mineiros em 1573 e para os demais trabalhadores em 1593.
Celebrado anualmente em numerosos países do Mundo, o dia 1 de Maio também conhecido como o Dia do Trabalhador ou Dia Internacional dos Trabalhadores, sendo também um dia de feriado em alguns países do Mundo.
 
 

                                               

                                                                                 Deusa romana Flora proveniente de Villa Adriana
                                                                                                                    (col. priv.)


                                                 Representação das "Floralias", segundo um quadro de Prosper Piatti 1899 (col. priv.)



                                            Calendário de trabalhos agrícolas de Pietro Crescenzi, século XV
                                                                                                                (col. priv.)


                                 Pormenor de iluminura da Idade Média com trabalhadores e senhor feudal (col. priv.)
                                        


No século XIX, esta simbologia foi retomada pelo proletariado moderno, que começava a organizar-se. Antes mesmo da consagração da data, reivindicações trabalhistas inspiravam-se naquele período do ano. O movimento de padeiros irlandeses contra o trabalho noturno e o dominical no século XIX resultou nos "comícios de Maio", como os descreveu Karl Marx (1818-1883). As condições de trabalho, que eram em muitos casos de autêntica exploração, nomeadamente desde o inicio da Revolução Industrial iniciada em finais do Séc. XVIII, sendo os operários forçados a trabalhar 12, 14, 16 e mais horas por dia, num regime de brutalidades e privações, na indústria, comércio e agricultura, em ambientes sem qualquer condições para o trabalho; muitos não tinham ventilação e iluminação adequada, eram extremamente sujos, etc. . Nem crianças nem grávidas eram poupadas. O militante anarquista norte americano desse período Oscar Neebe (1850-1916), fez uma descrição do contexto da época na sua autobiografia:
“Eu trabalhava numa fábrica que fazia latas de óleo e caixas para chá. Foi o primeiro lugar em que vi crianças de 8 a 12 anos trabalharem como escravos nas máquinas. Quase todos os dias, acontecia de um dedo ser mutilado. Mas o que isso importa… Eles eram remunerados e mandados para casa, e outros tomariam seus lugares. Acredito que o trabalho infantil nas fábricas tenha feito, nos últimos vinte anos, mais vítimas do que a guerra com o sul, e que os dedos mutilados e os corpos destroçados trouxeram ouro aos monopólios e produtores.”



                                                                              Exploração do trabalho infantil e feminino em tecelagem
                                                                               no início da Revolução Industrial do séc. XIX (arq. pess.)



          
                                                                                                               Karl Marx (arq. priv.)






      Aspetos da exploração do trabalho feminino e infantil em diversos setores nos finais do sec. XIX (arq. priv.)



Mas tudo remonta ao ano de 1886 quando nos EUA se realizou uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago no dia 1 de Maio, convocada pela Federação dos Trabalhadores dos EUA, manifestação essa que tinha como objetivo reivindicar melhores condições para os trabalhadores. A exploração desmedida, sem qualquer tipo de escrúpulos, do trabalho infantil e feminino era uma fonte suplementar de lucro para empresários e capitalistas. Pretendeu-se com esta manifestação a redução das horas de trabalho para 8 horas diárias, tendo tido a participação de milhares de pessoas. Nesse mesmo dia teve início uma greve geral por todos os EUA, três dias depois houve um pequeno levantamento que acabou em escaramuças entre manifestantes e polícia, com a morte de alguns manifestantes. No dia seguinte nova manifestação é organizada com protestos pelos acontecimentos ocorridos nos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba para o meio da polícia que começava a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. Por sua vez, a polícia abriu fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Tais acontecimentos passaram a ser conhecidos como a revolta de Haymarket. O episódio desencadeou uma perseguição a líderes do movimento operário. Depois de um processo suspeito, com caráter marcadamente político, sete deles foram condenados à morte por enforcamento, um deles cometeu o suicídio antes do enforcamento e três remanescentes receberam sentenças de prisão, mais tarde em 1893 revogadas, quando o governador concluiu que todos os oito acusados eram inocentes. 



      
        Apelo ao manifesto de Haymarket em 1886 (arq. priv.)
 
                                                                         


 Acontecimentos de Haymarket no dia 1º de Maio de 1886 (arq. pess.)
                                                                           


                                                       Explosão de bomba durante a revolta de Haymarket em 1886 (arq. pess.)



                                                    Tiroteio da policia em Chicago sobre manifestantes em Maio de 1886 (arq. pess.)



                                                Confrontos na revolta de Haymarket em 1886 (arq. pess.)



Cena da execução de alguns dos chamados Mártires de Chicago (arq. pess.)
 






A 20 de Junho de 1889 o congresso operário internacional, reúne em Paris e decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objetivo de lutar pelos direitos dos trabalhadores e as 8 horas diárias. O dia 1 de Maio foi escolhido como homenagem às lutas sindicais e aos "Mártires de Chicago". No ano de 1890 os operários americanos conseguem conquistar finalmente a jornada de trabalho das 8 horas. Em 1 de Maio de 1891 numa manifestação levada a cabo no norte da França, a polícia dispersa a manifestação resultando na morte de dez manifestantes. Este novo drama vem reforçar este dia como um dia de luta dos trabalhadores, tendo sido proclamado meses depois em Bruxelas pela Internacional Socialista como dia internacional de reivindicação de condições laborais. Passa a ser um dia de feriado em vários países como na França em 1919 e mais tarde em 1920 também na Rússia, tendo sido este exemplo seguindo por muitos outros países, principalmente após a II Guerra Mundial.
 


                                                                           Gravura de Walter Crane de 1894 em solidariedade
                                                           aos anarquistas de Chicago, executados após a Revolta de Haymarket 
   (col. priv.)     
 



                                                              Luta dos trabalhadores pelas 8 horas diária de trabalho (arq. priv.)



Cartaz da Rússia, alusivo ao dia 1 de Maio de 1919 (col. priv.)
                      
 


Rapidamente as comemorações do 1º de Maio chegaram a Portugal e os trabalhadores portugueses assinalaram-no logo em 1890, o primeiro ano da sua realização internacional. Mas neste dia os trabalhadores limitavam-se inicialmente a comemorar com alguns piqueniques de confraternização, com discursos pelo meio alusivos ao dia e algumas romagens aos cemitérios em homenagem aos operários e ativistas caídos na luta pelos seus direitos laborais. Os operários portugueses sempre comemoraram ativamente este dia com a solidariedade internacionalista, reclamando junto do patronato e das autoridades portuguesas o estabelecimento das 8 horas de trabalho diário e a melhoria das suas condições de vida e de trabalho.



               
         
                                                                     Capa da revista A Parodia de 1900  alusiva ao 1º de Maio (col. pess.)
                                                                                 
 


          
                                       
          
                    Comemorações do 1º de Maio de 1904 na Praça José Fontana em Lisboa (arq. pess.)
 

     Concentração de trabalhadores portugueses em Santos-Lisboa em 1910 exigindo os seus direitos (arq. priv.)



                                                                           Manifestação do 1º de Maio de 1913 no Porto (arq. priv.)



Em 1919, após algumas das mais gloriosas lutas do sindicalismo e dos trabalhadores portugueses, foi finalmente conquistada a lei das 8 horas de trabalho para os trabalhadores do comércio e da indústria. Durante o período do Estado Novo apesar das proibições e repressão houve por diversas vezes manifestações de trabalhadores de diversas áreas. Como marco na história do operariado português ficaram as revoltas dos assalariados agrícolas dos campos do Alentejo no 1º de Maio de 1962, que até então trabalhavam de sol a sol.
Só a partir do ano da revolução do 25 de Abril de 1974, 6 dias após a manhã da liberdade, há 41 anos precisamente, é que se volta a comemorar livremente o dia 1º de Maio, organizado pela Intersindical criada em 1970 e este dia passou a ser feriado nacional. Neste dia há 41 anos, fizeram-se as maiores comemorações do dia 1º de Maio que há memória em liberdade e na nova democracia que estava a nascer. Era a consagração popular do dia 25 de Abril. Cerca de 500 a 600 mil pessoas nas ruas de Lisboa, talvez um milhão em todo o País (numa população de nove milhões), sem um único incidente a registar. Conseguem-se a partir daí profundas transformações económicas e sociais, conquistam-se liberdades e direitos fundamentais, melhorias nas condições de vida e de trabalho dos operários e suas famílias.


 
        

                                                                                                                       Assalariadas agrícolas no Alentejo na década de 60 (arq. priv.)





                                                               Comemorando com cravos um Portugal livre em 1974 (arq. priv.)



    
                                                           Imagens do 1º de Maio de 1974 em Lisboa, comemorado em liberdade
                                                                                                               (arq. priv.)



                                                     Comemorações do primeiro 1º de Maio no Barreiro em 1974 (arq. priv.)


              
                                                 Imagem da manifestação do 1º de Maio de 1974 na Alameda em Lisboa (arq. priv.)

 

                                                    Capa da revista O Século Ilustrado alusiva ao primeiro 1º de Maio livre de 1974
                                                                                                              (col. pess.)



                                                                                   Página do jornal Diário de Noticias de 1974
                                                                                              alusivo ao 1º de Maio (arq. priv.)




Este dia 1º de Maio, é comemorado por todo o País com manifestações, comícios e festas de caráter reivindicativo promovidas pelas centrais sindicais CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses), Confederação fundada a 1 de Outubro de 1970 em Lisboa e UGT ( União Geral dos Trabalhadores), Central Sindical fundada a 28 de Outubro de 1978 em Lisboa. Nalgumas zonas do país organizam-se festas e piqueniques. As comemorações do 1º de Maio, em honra dos "Mártires de Chicago" e da luta de gerações e gerações de revolucionários, muitos deles sacrificando as suas vidas contra a exploração capitalista, constituem uma imponente jornada internacionalista de unidade e de luta por uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, sem exploradores nem explorados. De salientar, que no calendário litúrgico se celebra neste dia a memória de S. José Operário, por se tratar do santo padroeiro dos trabalhadores.

         


                                             Manifestação do dia 1º de Maio em Lisboa em 2012 (arq. priv.)
 

                                                                            Manifestantes desfilando no 1º de Maio (arq. priv.)
                                                         
        
                                                             


                                                                       Manifestação do 1º de Maio no Porto em 2013 (arq. priv.)
                     

 

   
                                     Comemorações do 1º de Maio de 2014 em Lisboa, foto Nuno Ferreira Santos (arq. PUBLICO)


                                                        Comemorações do 1º de Maio de 2014 junto à Alameda em Lisboa (arq. LUSA)


    

                                                           S. José Operário, padroeiro dos trabalhadores
                                                                                                             (col. pess.)











Texto:
Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:

LIMA, Sebastião de Magalhães, O primeiro de Maio, Casa Bertrand-José Bastos, Chiado Lisboa, 1894
DEL ROIO, José Luiz. O 1º de Maio, Cem Anos de Luta. 1886-1986. São Paulo: Global, 1986
Organizado pelo Centro de Memória sindical
DOMANGET, Maurice. Historia del Primero de Mayo. Buenos Aires: Editorial América, 1956
THOMAS, Michael, May Day in the USA: A Forgotten History. Oscar Neebe. Autobiography