quarta-feira, 7 de outubro de 2015

EXPRESSÕES POPULARES...






Muitas das expressões populares que utilizamos no dia-a-dia, têm uma razão de ser e por vezes significados que assentam em factos históricos, quer da nossa cultura quer da cultura mundial. Existem aquelas expressões muito portuguesas assim como outras traduzidas. Estas expressões acabaram por se enraizar na linguagem do dia-a-dia, de Norte a Sul do país, sendo usadas sem que se saiba por vezes a sua origem. As suas origens são controversas mas fundamentam-se em alguns factos, uns mais curiosos que outros, que aqui se irão relatar.

 

"Santo do pau oco", é uma expressão popular bastante usada quer em Portugal quer no Brasil há séculos, para designar um indivíduo de caráter duvidoso, com ações fraudulentas, uma pessoa falsa, mentirosa ou hipócrita. Em sentido figurado, esta expressão também serve para indicar que determinada pessoa aparenta algo que não é, iludindo todos à sua volta.

Como exemplos:
 
"Não se iluda com a simpatia daquele rapaz, ele é um santo do pau oco…"
 
"Aquilo santo? Um santinho do pau oco…"

 

Existem algumas divergências sobre qual seria a verdadeira história da origem desta expressão "santo do pau oco", no entanto, a mais credível data do final do século XVII e começo do século XVIII, quando o Brasil ainda no Período Colonial, estava no auge da exploração do ouro e dos diamantes. Acredita-se que a expressão teria nascido no estado de Minas Gerais onde esta exploração proliferava. Os mineiros, para tentar escapar do "quinto", ou seja, o imposto de 20% que era cobrado na época pela Coroa Portuguesa sobre todos os metais preciosos que fossem garimpados em território brasileiro, fabricavam imagens de santos em madeira esculpida, oca, para que pudessem ser recheados com ouro em pó e passar despercebidos pelos postos de fiscalização. Com esta tática, muitos mineiros conseguiam ludibriar as Casas de Fundição, as responsáveis por arrecadar todos os tributos sobre o minério no país, em nome da Coroa Portuguesa. Os santos de pau oco também eram utilizados por contrabandistas para enviar moedas de ouro, pedras preciosas e outros tesouros para Portugal ou outras províncias do Brasil. Neste tipo de contrabando estavam envolvidos governadores, escravos e membros do clérigo. Muitas fortunas teriam sido feitas a partir deste truque fraudulento. 
No entanto, na Europa desde o período da Idade Média, havia por hábito fazer certas imagens em madeira oca para as tornar mais leves e evitar que elas rachassem.

 

 
                                                    Vila Rica ou Ouro Preto, Minas Gerais em 1820 por Arnaud Julien Pallière
                                                                               (col. do Museu da Inconfidência, Ouro Preto)



Lavagem de minério por escravos no Brasil do séc. XVIII (col. priv.)
                              


                                          Lavragem de ouro em Itacolomi, Minas Gerais, litogravura de Rugendas, 1827 (col. priv.)




                                              Barra em ouro, frente e verso com a marca do império do início do séc. XIX (col. priv.)



                                                            Imagem do séc. XVIII esculpida em madeira designada "do pau oco"
                                                                                  (col. do Museu da Inconfidência, Ouro Preto)

 



"Custar os olhos da cara", é uma expressão popular utilizada em Portugal e países lusófonos que significa algo custar muito caro, ter um preço muito caro ou um preço acima da média esperada.

Como exemplos:



"Tenho um novo automóvel mas custou-me os olhos da cara…"

"Que bela casa tu tens! Sim, mas custou-me os olhos da cara…"
 

Esta expressão tem uma origem mais controversa e é associada a vários acontecimentos ao longo da história. Também ela ao longo do tempo sofreu adaptações diversas e até de índole mais brejeira. Segundo algumas teorias a expressão "custar os olhos da cara", terá tido origem em antigos costumes bárbaros. Os povos da Mesopotâmia tinham por hábito bárbaro, arrancar os olhos a quem pudesse colocar em risco a estabilidade do seu governo, já os assírios, por exemplo, organizavam guerras sangrentas e os seus prisioneiros eram mutilados, cortando-lhes as mãos, pés, orelhas e arrancando-lhes os olhos, para assim os dominar. Outra das teorias atribuí esta expressão a uma lenda da mitologia nórdica, na qual o deus Odin ou Wotan (consoante a tradução e atributos), diz que para beber de uma certa fonte que lhe daria a "sabedoria total", vendeu um dos seus olhos ao gigante Mimir, que tomava conta dessa fonte. Por isso o senhor de todos os deuses nórdicos é representado, iconograficamente, com um olho tapado. Na Grécia antiga, vários poetas eram cegos. O primeiro deles foi Tâmires, que se vangloriou de ser melhor cantor que as Musas, filhas de Zeus. Diz a lenda que as Musas zangaram-se e na sua cólera, tê-lo-iam tornado cego. Da mesma maneira, Dáfnis, Teiresias, Estesícoro e até o próprio Homero, ficaram cegos. Obvio que tudo isto para além de mitologia era mais que uma coincidência. Havia um motivo definido para privar os poetas da visão e não eram as Musas da mitologia que os cegavam, mas os reis gregos. Estes reis que teriam ciúmes dos seus poetas, mandando prende-los e arrancando-lhes os olhos como castigo por vezes como era hábito. Tito Mácio Plauto, dramaturgo romano, que viveu durante o período republicano, já se refere a essa expressão numa das suas peças.
A outra teoria á origem desta expressão, esta ligada ao conquistador espanhol Diego de Almagro (1479-1538), companheiro do general Pizarro na sua conquista do continente americano. Almagro perdeu um olho numa batalha quando tentava invadir uma fortaleza inca. Depois da disputa, ao apresentar-se a Carlos I de Espanha, terá afirmado: "Defender os interesses da coroa espanhola custou-me um olho da cara". O conquistador terá continuado a espalhar o seu feito e o custo que para ele teve, para quem quisesse ouvir. A frase de tão repetida, chegou aos ouvidos dos soldados e deles para a boca do povo.


 
    A crueldade das torturas dos povos assírios (col. priv.)

 
 
A lenda de Odin e o gigante Mimir numa ilustração do início do séc. XX (col. pess.)
    

                                                                              Odin deus da mitologia nórdica, patrono da magia,
                                                                                        poesia, profecia e da guerra (col. pess.)


Três musas em um baixo-relevo de Mantineia atribuído ao escultor de Praxíteles, século IV a. C.
 (col. Museu Arqueológico Nacional, Atenas)
 
          
                                                                               Homero cego no Monte Ida, guiado por Glaucus,
                                                                                     por William A. Bouguereau 1874 (col. priv.)



                                                    Cena da batalha de Chupas. Gravura de do livro "Ocho Décadas",
                                                                                 de Antonio de Herrera Amberes, 1728 (col. priv.)


Diego de Almagro 1479-1538 (col. priv.) 








Texto:
Paulo Nogueira



Fontes e bibliografia:

SANTOS, António Nogueira, Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas, Edições João Sá da Costa, Lisboa
NEVES, Orlando, Dicionário das Origens das Frases Feitas, Lello & Irmãos Editores, Porto