quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

BOLO REI

 
Tradição gastronómica de Natal






Não é possível falar nas tradições de Natal, sem falar de Bolo Rei, entre outras iguarias gastronómicas, sendo este quase presença obrigatória em todas as mesas na época natalícia. A origem do Bolo Rei remonta, ao que se sabe, ao tempo dos romanos. Na Roma antiga, durante as festas pagãs a Saturno, tinham por hábito eleger o rei da festa durante os banquetes festivos, o que era feito tirando à sorte com favas, pelo que era também designado por vezes de rei da fava. A Igreja Católica aproveitou o facto de aquele jogo ser característico do mês de dezembro e decidiu relacioná-lo com a Natividade e com a Epifânia, ou seja, com os dias 25 de dezembro e 6 de janeiro, substituindo assim a festa pagã romana. Já na Idade Média, a influência da Igreja Católica determinou que esta última data fosse designada por Dia de Reis e simbolizada por uma fava introduzida num bolo, a receita de como seria confeccionado esse bolo na actualidade é desconhecida. Segundo uma antiga lenda que surge, este doce representa os presentes oferecidos pelos Reis Magos ao Menino Jesus aquando do seu nascimento. A côdea simbolizava o ouro, os frutos secos e cristalizadas representavam a mirra, e o aroma do bolo assinalava o incenso. Ainda na base desse imaginário, a existência duma fava também tem a sua explicação: Quando os Reis Magos viram a Estrela de Belém que anunciava o nascimento de Jesus, disputaram entre si, qual dos três teria a honra de ser o primeiro a entregar ao menino os presentes que levavam. Como não teriam conseguido chegar a um acordo e com vista a acabar com a discussão, um padeiro confeccionou um bolo escondendo no interior da massa uma fava. De seguida cada um dos três Reis Magos pegaria numa fatia, o que tivesse a sorte de retirar a fatia contendo a fava seria o que ganharia o direito de entregar em primeiro lugar os presentes a Jesus. O dilema ficou solucionado, embora não se saiba se foi, Gaspar, Baltazar, ou Belchior o feliz contemplado. No entanto os teólogos tentam acabar com este uso do Bolo Rei, que, em seu entender, tinha muito de paganismo. Havia ainda a tradição de que os cristãos deveriam comer 12 Bolos Reis, entre o Natal e o Dia de Reis, festa que muito cedo começou a ser celebrada na corte dos reis de França. O Bolo Rei que atualmente conhecemos terá surgido em França na corte de Luís XIV "rei sol" (1638 - 1715), para ser consumido nas festas do Ano Novo e do Dia de Reis, segundo o testemunho de alguns escritores como Madame Françoise de Mottevile (1621 – 1689), Saint Simon (1760 – 1825), entre outros. Até mesmo o pintor Jean-Baptiste Greuze (1725 – 1805), celebrizou o Bolo Rei num famoso quadro, com o nome de "Gateau dês Róis". Com a Revolução Francesa em 1789 o Bolo Rei foi proibido por fazer alusão a realeza, como mais tarde iria acontecer em Portugal. Nova reacção que o próprio Antoine Fouquier Tinville (1746 – 1795), revolucionário francês, teve de acatar. Só que os pasteleiros que tinham um excelente negócio em mãos em vez de o eliminarem decidiram continuar a confecciona-lo chamando-lhe Gâteau dês Sans-cullotes. De referir que este termo dos Sans-cullotes, era dado pelos aristocratas franceses aos trabalhadores rurais e artesãos que iniciaram a Revolução Francesa e que usavam calças largas e compridas, ao contrário das calças curtas e justas  à altura dos joelhos da aristocracia. Como curiosidade, estes bolos são proibidos de confeccionar em França a partir de 1711, devido à fome que alastrava, servindo a farinha apenas para o fabrico de pão. No entanto só em Paris esta lei se cumpriu, em toda a França a tradição manteve-se. Com isto parece não haver dúvidas que o Bolo Rei tem verdadeiras origens francesas, apesar do Bolo Rei popularizado em Portugal no século XIX não ter a ver com o bolo simbólico da festa dos reis existente na maior parte das províncias francesas a norte do rio Loire, na região de Paris, onde o bolo é uma rodela de massa folhada recheada de creme designado Galette des Rois.  O Bolo Rei que se passa a confeccionar em Portugal a partir dos anos 70 do século XIX, segue a receita a sul de Loire, um bolo em forma de coroa feito de massa lêveda. Acrescenta-se que ambos os bolos continham uma fava simbólica, podendo conter um objecto de porcelana como brinde.




Mosaico romano representando festa pagão a Saturno realizadas entre 
os dias 17 e 23 do mês de dezembro (col. priv.)
 
 

Representação das Saturnalias por Antoine-François Callet em 1783
(col. Museu do Louvre, Paris)
 
                                        


Representação da adoração dos Reis Magos a Jesus em relevo de sarcófago do século IV d.C.
proveniente das catacumbas de St. Agnes (col. Museu do Vaticano)

 
 
Pormenor de mosaico do século VI representando os Reis Magos
(Igreja de Santo Apolinari Novo, Ravena, Itália)
 

Adoração dos Reis Magos por Andrea-Mantegna 1280 (col. J. Paul Getty Museum, Los Angeles)



Celebração com o Bolo Rei no Dia de Reis na Idade Média
in Livro das Horas de Adélaïde de Savoie (col. priv.)
 
 
 
Comemoração popular do Dia de Reis no século XVII com Bolo Rei (col. priv.)
 
 
 
 Rei Luís XIV da França 1638 - 1715 (col. priv.)
                       

Famoso quadro intitulada "Gateau des Rois" de Jean-Baptiste Greuze de 1774 (col. priv.)
 
 
 
Representação dos designados Sans-culottes
da Revolução Francesa
 (col. pess.)
 
 

Comemorações populares do Dia de Reis em França com Bolo Rei
em finais do século XVIII (col. pess.)



 
Postais ilustrados franceses do início do século XX
alusivos ao Gateau des Rois (col. pess.)


Tradicional Bolo Rei francês Galette des Rois bolo em forma de rodela
de massa folhada recheada de creme (arq. priv.)


Tradicional Bolo Rei francês Gateau des Rois receita a sul de Loire, 
bolo em forma de coroa feito de massa leveda (arq. priv.)
 
 
 
Miniaturas em porcelana de brinde dos Bolos Rei franceses
alusivas ao presépio de Natal
(col. pess.)



Em Portugal, o Bolo Rei tem também o seu culto e tradições. Tanto quanto se sabe, a primeira casa onde se produziu e vendeu Bolo Rei em Portugal foi a Confeitaria Nacional na Baixa Pombalina em Lisboa. A Confeitaria Nacional, foi fundada em 1829 por Balthazar Roiz Castanheiro e ainda se mantem na atualidade, na posse da mesma família que a fundou. Foi um filho deste fundador de seu nome Balthazar Castanheiro Júnior, que numa das suas viagens a França, trouxe de Paris e de Madrid vários confeiteiros, que melhoraram a qualidade das especialidades daquela casa e que granjearam grande fama no nosso país. Um deles foi o celebre confeiteiro Gregório, que se baseou numa receita secreta de Bolo Rei que Baltazar Castanheiro Júnior trouxera de Toulouse em 1869, contrariando outros relatos que indicam como ter vindo de Paris. Orgulha-se esta confeitaria de haver trazido a receita e a manter integralmente essa receita francesa do sul de Loire. Balthazar Castanheiro Júnior, que aos seus méritos de confeiteiro juntava os de artista, trouxe uma cópia do quadro "Gateau des Rois" de Jean-Baptiste Greuze, que durante anos teve exposto no seu estabelecimento como alusão a este famoso bolo. Como curiosidade é interessante ainda relembrar que, inicialmente, além da fava, posta em todos os Bolos Rei, alguns ocultavam prémios valiosos em ouro ou prata. Durante a Quadra Natalícia a Confeitaria Nacional oferecia aos lisboetas uma exposição de tudo quanto de mais delicado e original a arte dos doces podia então produzir e claro o Bolo Rei. Assim o Bolo Rei atravessou com êxito os reinados de D. Luiz I, D. Carlos e D. Manuel II. De referir que a Confeitaria Nacional devido à grande qualidade dos seus produtos, recebeu em 1873 do rei D. Luiz I de Portugal o alvará que a torna fornecedora oficial da Casa Real, condição essa que se manteve até à implantação da República em 1910. Esteve anda presente e ganhou prémios em exposições internacionais como a Exposição Universal de Viena de Áustria de 1873, a de Filadélfia de 1876, recebeu uma medalha na Exposição Universal de Paris de 1878 e na de Lisboa de 1884. A Confeitaria Nacional, um dos ex libris da cidade de Lisboa, é uma casa que conta já com 187 anos de actividade comercial e industrial, sem nunca ter saído da mesma família, sempre no mesmo local e sempre com o mesmo critério. E a especialidade que a marcou, o famoso Bolo Rei. Aos poucos, outras confeitarias da cidade passaram também a fabricar o Bolo Rei, originando assim várias versões diferentes. Tradicionalmente este bolo de forma redonda, com um grande buraco no centro, é feito de uma massa fofa e branca, misturada com passas, frutos secos, e frutas cristalizadas.
Na cidade do Porto, o Bolo Rei foi introduzido em 1890, por iniciativa da Confeitaria Cascais, segundo uma receita que o proprietário, Francisco Júlio Cascais, trouxera de Paris, numa receita muito semelhante à da Confeitaria Nacional.

 
 
 
Confeitaria Nacional em 1829 na Baixa Pombalina de Lisboa (arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



Factura da Confeitaria Nacional de 1872 (arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



Publicidade da Confeitaria Nacional do século XIX e o seu tradicional Bolo Rei
(arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)

Tradicional Bolo Rei português da Confeitaria Nacional (arq. priv.)



Brindes miniatura dos Bolos Rei da Confeitaria Nacional de 1875
(col. Confeitaria Nacional, Lisboa)
 


Aspecto do edifício na Baixa Pombalina da Confeitaria Nacional in gravura do Diário Illustrado de 1872
 (arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



Medalhas da atribuídas à Confeitaria Nacional em 1873 afixadas no exterior do estabelecimento 
(arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)
 
 

Exterior da Confeitaria Nacional em meados dos anos 30 (arq. priv.)




Pasteleiros e forneiros da Confeitaria Nacional colocando bolos no forno em 1931
(arq. Confeitaria Nacional)



Exterior da Confeitaria Nacional na atualidade (arq. priv.)


Embalagem de luxo atual do afamado Bolo Rei da Confeitaria Nacional
(arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



 Exterior da Confeitaria Nacional em período de Natal na atualidade (arq. priv.)
                                 


Ingredientes do tradicional Bolo Rei português, como os frutos secos e frutos cristalizados (arq. priv.)





Publicidade do início do século XX da Confeitaria Cascais no Porto
(col. priv.)

 

Bolo Rei tradicional português e fatia numa receita de outra variante (arq. priv.)

 

Com a proclamação da República, em 5 de outubro de 1910, a existência do afamado Bolo Rei ficou em risco, tudo por causa do nome conter a palavra "rei". De acordo com a lógica vigente, deixando este símbolo hierárquico nacional (o rei) de existir, também o nome do bolo tinha que desaparecer. Os confeiteiros, partindo mais uma vez do princípio de que negócio é negócio e política é política, continuaram a fabricar o bolo sob outra designação. Os menos imaginativos deram-lhe o nome de "ex-bolo-rei", mas a maioria chamou-lhe "bolo de Natal" ou "bolo de Ano Novo". Ainda assim, a designação de "bolo Nacional" seria a melhor, uma vez que remetia para a confeitaria que o tinha introduzido em Portugal, e também por estar relacionado com o país, o que ficava bem em período revolucionário. Não contentes com nenhuma destas designações, alguns republicanos passaram a chamar-lhe "bolo-presidente" ou mesmo "bolo-Arriaga". Não se sabe como reagiu o então Presidente da República, Manuel de Arriaga (1840 – 1917), mas convenhamos que a homenagem não tivesse sido a melhor. Passado esse período negro, a história deste bolo continuou tendo grande sucesso. A receita do Bolo Rei correu mundo, muito contribui para isso a fama que o bolo ganhou por proporcionar expectativa a quem comesse a fatia que continha a fava ou o brinde. A fava, que uma vez mais reza outra lenda, era amaldiçoada pelos sacerdotes egípcios que a viam como alojamento para os espíritos, é considerado o elemento negativo, representando uma espécie de azar, tendo quem a encontra duas opções segundo a tradição: Assumir o pagamento do próximo bolo ou correr perigo de engoli-la. Por sua vez o brinde era colocado no bolo com o objectivo de presentear os convidados com quem se partilhava o bolo. Havia quem colocasse nos bolos pequenas adivinhas complicadas por sinal, mas cuja recompensa seria meia libra de ouro. Porem outros incluíam propositadamente moedas de ouro na massa, por uma forma requintada de agradecimento, como se o próprio bolo não chegasse. Infelizmente com o passar do tempo o brinde passou a ser um pequeno objecto metálico ou em cerâmica sem outro valor que não o do símbolo e pouco evidente para a maioria das pessoas. Vieram depois o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano e a Revolução de 25 de Abril de 1974 e o Bolo Rei sempre se manteve fiel às suas tradições. Já mais recentemente, como não bastasse, as leis comunitárias ditaram o fim da tradição, proibindo que no interior do bolo se encontre uma fava ou um brinde. Brinde esse que mesmo sem valor quer miúdos quer graúdos achavam piada à pequena miniatura. No entanto alguns fabricantes ainda hoje mantêm a tradição da fava. Surgem mais recentemente versões diferentes desta iguaria Natalícia, como o designado Bolo Rainha e até mesmo de chocolate e maçã. Mesmo assim o Bolo Rei continua a ser um símbolo da época Natalícia, e hoje os confeiteiros e pasteleiros por todo o país não se poupam a esforços na sua promoção, por isso se enchem de clientes para adquirir o rei das iguarias nesta quadra festiva do ano. Muitos estabelecimentos comerciais chegam a ter grandes filas para o adquirir. Não há mesa de Natal portuguesa que não tenha um Bolo Rei. O Bolo Rei não se limita a ser um bolo com um gosto e aspecto agradável, ele é um verdadeiro símbolo desta época de Natal.

 


Postal ilustrado de 1910 alusivo ao primeiro presidente da República portuguesa Manuel de Arriaga
(col. pess.)


Tradicional Bolo Rei produzido em Portugal (arq. priv.)




Libra em ouro, outrora oferecida como brinde no Bolo Rei
(col. priv.)




A tradicional presença do Bolo Rei na mesa de Natal portuguesa
ao longo dos tempos
 (arq. pess.)
 


Fatia do tradicional Bolo Rei no período de Natal (arq. priv.)
 


Brindes miniatura metálicos usados nos Bolos Rei em Portugal
em meados dos anos 80/90 do séc. XX (col. pess.)
 

Tradicional brindes oferecidos nos Bolo Rei portugueses,
a fava que em alguns casos ainda se mantém (arq. priv.)



Fase da confecção do tradicional Bolo Rei (arq. priv.)

 
                                             Tradicionais Bolos Rei prontos a ir ao forno em cru (arq. priv.)
 
 
O tradicional Bolo Rei e fatia em mesa de Natal (arq. pess.)
 


Bolo Rainha derivado do tradicional Bolo Rei (arq. priv.)




Tradicionais Bolos Rei em montra de pastelaria na atualidade (arq. priv.)
 

Mesa de Natal portuguesa com doces tracionais e a presença do Bolo Rei (arq. pess.)
 

O tradicional Bolo Rei que não pode faltar na mesa de Natal portuguesa (arq. priv.)




Bolo Rei na mesa da consoada de Natal 2016 (foto Paulo Nogueira)





Votos de Festas Felizes!








Texto:
Paulo Nogueira



Fontes e bibliografia:
Diário Illustrado de 22 de dezembro de 1872
MODESTO, Maria de Lourdes, COZINHA TRADICIONAL PORTUGUESA, Edição Verbo, 2002, Lisboa
Confeitaria Nacional publicação on line