domingo, 22 de fevereiro de 2015

ASCENSORES E ELEVADORES DE LISBOA

  
 

   Por colinas, encostas e ladeiras...

                                                                                                                                             Vista aérea de Lisboa (arq. priv.)                                                                      


Um dos mais graves problemas a vencer em Lisboa, no domínio dos transportes, residiu sempre nos fortes desníveis existentes entre a cidade baixa e a cidade alta, que tornaram difícil o acesso entre as duas zonas, mesmo quando a distância que os separava era insignificante. Não admira pois, que a aplicação da força motriz, pelo sistema da cremalheira, designado de Riggenbach (inventado por Niklaus Riggenbach), difundido a partir da Suíça, para mover transportes em rampa ou verticais, cedo conhecesse larga aplicação em Lisboa, onde foram construídos vários ascensores e funiculares. Nota que os transportes colectivos de passageiros em movimento vertical (denominados elevadores) e movimento ascendente/descendente sobre carris (denominados ascensores). Coube então ao engenheiro de origem francesa, nascido na cidade do Porto e radicado em Portugal, Raoul Mesnier de Ponsard (1849-1914), a responsabilidade da execução de vários ascensores, nos finais do séc. XIX, que muito viriam a beneficiar e facilitar a circulação em Lisboa. Data de 1882 a concessão autorizada aquele engenheiro a estabelecer e a explorar planos inclinados no interior da cidade para o transporte de passageiros e mercadorias. No mesmo dia em que assinava o contrato com a Câmara Municipal de Lisboa para a construção dos funiculares do "systema Riggenbach-Mesnier", Raul Mesnier fundava uma empresa para o financiamento e exploração da obra, a Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, para a qual transferia todos os seus direitos.


 
                                 Retrato de Raoul Mesniers de Ponsard (col. priv.)                                            
   
 
 
 
                                                                                  Sistema de cremalheira Riggenbach (col. priv.)


 
 
Cabeçalho de título de obrigação da nova companhia de Raoul Mesnier (col. CCFL) 




Ascensor do Lavra

Com projecto de Raoul Mesnier de Ponsard, é a primeira obra desta Companhia e em meados de Abril de 1884, estavam terminadas as obras deste ascensor do tipo funicular, que após vistoria camarária presidida pelo engenheiro Ressano Garcia, inaugura a 19, abrindo ao público em 20 de abril de 1884, na Calçada do Lavra. Efetuando a ligação entre o Largo da Anunciada e a Travessa do Forno do Torel (atual Rua Câmara Pestana). Nesse dia, dado que a viagem foi gratuita, transportou mais de 3 mil passageiros, tendo funcionado 16 horas consecutivas. Com uma inclinação média de 23%, um desnível de 43 metros e um trajecto de 188 metros, inicialmente o sistema de locomoção dos carros foi o da cremalheira lateral, "systema Riggenbach-Mesnier" e cabo por contrapeso de água, encastrado na calçada, ou seja, os dois veículos, interligados por cabos, que continham reservatórios com água no tejadilho de cada carro, que se esvaziavam assim que chegavam ao Largo da Anunciada, para serem depois enchidos no Largo do Torel. Estava equipado com um travão manual e um automotor que funcionava de imediato caso se desse a fratura do cabo. À medida que descia, o guarda freio ascensorista, que o controlava, tocavam uma corneta, a qual foi posteriormente substituída por um sinal luminoso. Todo o equipamento foi construído pela conceituada firma alemã Maschinenfabrik Esselingen sob licença Riggenbach. Este sistema era eficaz, mas tinha algumas condicionantes para o seu bom funcionamento devido as eventuais falhas no abastecimento de água, sendo por isso mais tarde montada uma caldeira a vapor e maquinismo da firma alemã Maschinenfabrik Esselingen, para fazer movimentar o cabo, sendo esta substituía mais tarde por uma caldeira de alta pressão da firma Theodor Bell & Cie, assim como as maquinas por outras de maior potencia, da firma Buckau Wolf. Concluída com êxito aquela primeira experiência e transformada a empresa em Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, (NCAML), popularmente conhecida pela Ascensores, "tout court". Alguns incidentes ensombraram os primeiros anos de vida deste ascensor. O mais grave ocorreu em dezembro de 1897 quando os dois carros e grande parte da linha ficaram inutilizados, devido a uma fratura no cabo provocada pela utilização simultânea dos dois travões. Quando meses mais tarde voltou a funcionar os carros tinham, ao que parece, novas carroçarias a que era necessário levantar os estribos para não roçarem nas paredes. O preço dos bilhetes no inicio do séc. XX eram da 20 réis para subida e descida.
 



                                         Vista aérea do percurso do ascensor do Lavra (foto Google maps)


 
Gravura da inauguração do ascensor do Lavra
 in Ilustração Universal de 1884 (col pess.)
 
 
 


Estação e tomada de água do ascensor do Lavra na Travessa do Forno do Torel in Ilustração Universal de 1884 (col. pess.)
 
 


Ascensor e Calçada do Lavra, vendo-se o edifício das caldeiras e máquina a vapor
no inicio do séc. XX  (arq. pess.)
 



                                                                        Desenho esquemático de maquina a vapor semelhante
                                                                                           à do ascensor do Lavra (col. pess.)



                                                     Ascensor do Lavra na estação inferior do Largo da Anunciada meados de 1909,
                                                                                                   foto Joshua Benoliel  (arq. pess.)

  


                                                                                               Bilhete do início do séc. XX
                                                                                                       (col. Carlos Caria)


 
 
A electrificação do ascensor do Lavra acontece em 1915, desaparecendo o sistema de cremalheira. A transmissão da corrente aos motores era feita por pantógrafos instalados no tejadilho, dispondo cada carro de 1 motor elétrico auxiliar General Electric GE59 de 18 Kw (300 Volt dc) de 25 Cv, alimentados por 600 Volt da catenária, ligados em série, de modo a que só podiam pôr-se em andamento com a manobra conjunta dos dois guarda freios ascensoristas, e controladores General Electric R38D, dispondo ainda de travões manuais e hidráulicos por compressor. As novas caixas dos carros são da firma United Electric Car Company e os chassis Maley & Taunton 234. Constituído por dois carros que sobem e descem alternadamente, simultaneamente ao longo de duas vias paralelas de carris de ferro, bitola de 90 cm e uma fenda central que alberga o cabo subterrâneo encastrado na calçada, que os une, dispondo cada um de duas cabines condução, passam também a dispor de campainhas como os carros eléctricos para alertar os transeuntes. Propriedade da (NCAML), após a sua dissolução, passou a ser propriedade da Companhia de Carris de Ferro de Lisboa (CCFL) em 1926. Foi também na década de trinta que as carroçarias receberam a cor amarela, típica de todos os carros ao serviço da (CCFL) e que desde então mantém. Em 1984 sofreu importantes trabalhos de conservação e passam a estar equipados a partir de finais dos anos 90, de validadores eletrónicos para os títulos de viagem recarregáveis. É desde fevereiro de 2002 classificado como Monumento Nacional.

O seu horário de funcionamento é: De 2ª feira a 6ª feira: 7:50 - 19:55 horas
Sábado, domingo e feriado: 9:00 - 21:00 horas
O seu tarifário atual é:
Bilhete simples uma ida  3,60 €
Cartão Lisboa Viva, 7Colinas ou Viva Viagem, carregados com títulos válidos na CARRIS
Bilhetes dos circuitos  Yellow Bus
Bilhetes  Lisboa Card



  Desenho do novo tipo de ascensor do Lavra na década 30 (arq. CCFL)
 
 
 
Ascensor do Lavra por volta de 1960, foto  Arnaldo Madureira (arq. AML)
 
 
 
 
   Bilhete de finais dos anos 80
     (col. Carlos Caria) 
 
 
 
                                           Cruzamento dos dois ascensores na Calçada do Lavra em 1979,
                                                                                           foto Olle S. Nevenius (arq. priv.)
                                                                                               
   

Largo da Anunciada, junto a estação inferior do ascensor do Lavra em 1979,
foto Olle S. Nevenius (arq. priv.)
 
 
 
 
 Trabalhos de manutenção dos ascensor do Lavra em meados dos anos 90
 (arq. priv.)
 
 
 
Ascensor do Lavra na estação inferior do Largo da Anunciada meados dos anos 90 (arq. priv.)
 
 
Modulo de transporte
de meados dos anos 90
 (col. Carlos Caria)
 
 
 
 
 
 Estação do ascensor do Lavra na Rua Câmara Pestana na actualidade (foto Paulo Nogueira)
 
 
 
Entrada do ascensor do Lavra na Rua Câmara Pestana
na actualidade (foto L. Marques) 
 
 
 
 
Ascensor do Lavra na actualidade, na estação superior da Rua Câmara Pestana (arq. priv.) 
 
 
      Estação superior do ascensor do Lavra (grafitado) na
         Rua Câmara Pestana, na actualidade 
(foto L. Marques)
 
 
 
Estação superior e antigo edifício da caldeira e casa das máquinas
 do ascensor do Lavra na Rua Câmara Pestana (foto L. Marques) 
 
 
 
Cabine de condução do ascensor do Lavra na actualidade (arq. priv.) 
 
 
Controlador GE do ascensor do Lavra (arq. priv.) 
 
 
 
 
 Ascensor na Calçada do Lavra na actualidade (foto L. Marques)
 
 
 
Aspecto geral da Calçada do Lavra e ascensor
 (arq. priv.) 
 
 
 
 Ascensor do Lavra na estação inferior do Largo da Anunciada
       na actualidade (arq. pess.) 




Ascensor da Glória

Entretanto Raoul Mesnier vai prosseguir, no cumprimento do projecto dos prazos estipulados e como segunda obra da (NCAML), o ascensor da Glória, também do tipo funicular, é inaugurado em 24 de outubro de 1885. Este ascensor liga a Avenida da Liberdade à Rua de São Pedro de Alcântara no Bairro Alto, através da Calçada da Glória. "(…) O primeiro carro que alcançou S. Pedro de Alcântara depois de ter subido aquella pavorosa ladeira da Gloria foi acolhido em triumpho, com palmas, vivas e flores…" citação feita na Illustração Portugueza, nº 155, 8 de fevereiro de 1909. Com uma inclinação média de 18%, um desnível de 45 metros e um trajecto de 276 metros, o seu mecanismo, dispondo igualmente os carros como no do Lavra, de um sistema de cremalheira Riggenbach lateral, carril e cabo encastrados na calçada. Funcionado por contrapeso de água (sendo necessários 400 metro cúbicos diários de água),  ligados entre si pelo cabo, tal como no do Lavra, existiam no entanto condicionantes no seu funcionamento, devido aos constantes cortes no abastecimento de água em Lisboa que obrigavam à sua interrupção, por isso, também aqui foi o motivo para a substituição do sistema original, optando por ser comprada à firma Maschinenfabrick Esslingen AG, uma máquina a vapor para o funcionamento do cabo. Sendo instaladas máquinas e caldeiras num edifício construído para o efeito no Largo da Oliveirinha. As unidades deste ascensor eram construídas em mogno, e possuíam dois pisos, dispondo do piso superior que era aberto, com bancos corridos de frente para a rua, o que permitia uma maior opção de visão relativamente a paisagem envolvente, no piso inferior de costas para a rua. O acesso era feito por uma escada interna em caracol na plataforma, a iluminação era feita por velas de estearina, dispondo ainda de uma lanterna a petróleo de sinalização no topo. O preço de cada bilhete em inícios do séc. XX, era de 20 réis para subida e descida.
 
 
 

                                             Vista aérea do percurso do ascensor da Glória (foto Google maps)
 
 


                                                                    Ascensor da Glória na sua inauguração em 1885 (arq. pess.)


                                                             Ascensor da Glória na época da sua inauguração, vendo-se a roda de
                                                              de cremalheira lateral "systema Riggenbach-Mesnier" (arq. da CCFL)


                                                         Ascensor da Glória na estação inferior da Avenida da Liberdade em 1909,
                                                                                              foto  Joshua Benoliel (arq. pess.)






                                                                             Notícias do Diário Ilustrado alusivas a inauguração
                                                                                       do ascensor da Glória em 1886 (arq. priv.)



                                                                        Cabeçalho de título de obrigação da NCAML (col. CCFL)




                                                                   Maquinaria a vapor idêntica à utilizada no ascensor da Glória
                                                                                                            (arq. pess.)
 


 
                                                    Calçada e ascensor da Glória em meados de 1900,
                                                                                   foto  Charles Chusseau-Flaviens (arq. pess.)
  

 
                                              Aspetos do ascensor da Glória no início do séc. XX (arq. priv.)  
                                                     


                             Palácio Foz na Avenida da Liberdade e estação do ascensor da Glória, vendo-se a chaminé
                                                                  da caldeira da máquina a vapor no início do séc. XX (arq. AML)


                                                Ascensor da Glória na estação inferior da Avenida da Liberdade, início do séc.XX
                                                                                                            (arq. AML)




                                                                                     Bilhetes de início do séc. XX (col. Carlos Caria)



Em meados de 1912, o novo contrato de concessão do ascensor com a autarquia permitiu a electrificação do equipamento, após firmar acordo com a Lisbon Electric Tramways Limited. Em 1915, iniciaram-se as obras para a electrificação desta linha, assim como da do Lavra, inaugurada anteriormente. Estes novos veículos pesavam cerca de 10 toneladas, de um só piso, e funcionavam cada carro, por meio de 1 motor eléctrico auxiliar General Electric GE59 de 18 Kw (300 Volt dc) de 25 Cv cada, ligados em série, alimentados a 600 Volts por pantógrafo instalado no tejadilho de cada carro, de modo a que só podiam pôr em andamento com a manobra conjunta dos dois guarda freios ascensoristas, dispondo de controladores General Electric R38D. Também aqui o sistema de cremalheira desapareceu após a electrificação. Equipados ainda com dois tipos de travão, um de garra, ainda hoje em funcionamento, que atua apertando os carris centrais entre duas sapatas, e o outro por pressão sobre os carris, um do tipo manual e outro hidráulico por compressor. Sendo as caixas de cada carro da firma United Electric Car Company e os chassis Maley & Taunton 234. Tal como no do Lavra, os dois carros sobem e descem alternadamente, simultaneamente ao longo de duas vias paralelas de carris de ferro com bitola de 90 cm e uma fenda central que alberga o cabo subterrâneo encastrado na calçada, que os une, dispondo de duas cabines de condução cada carro, viajando os passageiros na zona central do corpo do veículo, onde se encontram dois bancos fronteiros corridos de costas para a rua. Passando a dispor também de campainhas de aviso para os transeuntes, acionadas pelo ascensorista guarda freio, idênticas às dos carros eléctricos. Também foi transferido para a (CCFL), após a dissolução da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa a quem pertencia até 1926. Na década de trinta as carroçarias receberam a cor amarela, típica de todos os carros ao serviço da Carris e que desde então mantém. Em meado dos anos 90, passam a ser equipados com validadores electrónicos para os títulos de viagem recarregáveis. Classificado em 2002 com monumento Nacional.

O seu horário de funcionamento é:
De 2ª a 5ª feira: 7:00 – 23:55 horas, 6ª feira: 7:00 – 00:25 horas
Sábado: 8:30 – 00:25 horas
Domingo e feriado: 9:00 – 23:55 horas
O seu tarifário atual é:
Bilhete simples uma ida  3,60 €
Cartão Lisboa  Viva, 7Colinas ou Viva Viagem, carregados com títulos válidos na CARRIS Bilhetes dos circuitos  Yellow Bus
Bilhetes  Lisboa Card



 

 
                                                           Desenho do novo tipo de ascensor da Glória na década 30 (arq. CCFL)



                                                                     Ascensores da Glória em meados dos anos 30 (arq. CCFL)


                                                                             Guarda freio ascensorista no ascensor da Glória
                                                                                        em meados dos anos 30 (arq. CCFL)




Bilheteira do ascensor da Glória instalado na estação inferior da Avenida da Liberdade em 1933,
 foto Eduardo Portugal (arq. AML)




                                                              Ascensor da Glória na estação superior de São Pedro de Alcântara
                                                                                       em meados dos anos 50 (arq. pess.)

 


                                                        Estação superior de São Pedro de Alcântara e ascensor, fins dos anos 70
                                                                                                               (arq. priv.)


                                                                                          Bilhete de princípios dos anos 70
                                                                                                        (col. Carlos Caria)



                                                                                     Ascensor da Glória na actualidade (arq. priv.)


                                                                                  Interior do ascensor da Glória (arq. priv.)



                                                               Cabine de condução do ascensor da Glória na actualidade (arq. priv.)



                                   Ascensor da Glória na estação superior de São Pedro de Alcântara (grafitado) na actualidade 
                                                                                                             (foto L. Marques)           
                                                                                           


                                                      Estação inferior do ascensor da Glória na Avenida da Liberdade na actualidade
                                                                                                             (foto Paulo Nogueira)




Ascensor da Estrela

Continuando Raoul Mesnier na elaboração e cumprimento dos seus projectos, através da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa (NCAML) e tendo ganho a concessão do troço do Camões – Estrela – Rua de São João dos Bencasados em 1882, é inaugurado o ascensor da Estrela em 14 de agosto de 1893. Este ascensor que fora projectado com um troço mais longo, mas nunca foi completado, tendo funcionado somente entre o Largo da Estrela onde existia perto a cocheira de recolha e manutenção, e o Largo de Camões. Era um sistema do tipo "cable-car", de carros movidos por cabos sem fim subterrâneos, fixados ao cabo a bordo do carro guia, providos de um motor auxiliar de propulsão a gás acetileno nos carros rebocadores (único do seu género a funcionar em Portugal), estando equipado com freios manuais, rodando sobre carris encastrados na via pública, em que um dos carris era aberto para a guia do cabo. Isto para vencer os declives que existiam neste percurso, nomeadamente na Calçada do Combro e Rua dos Poiais de São Bento até ao Largo da Estrela, percorrendo uma distância aproximadamente de 1700 metros.  No cruzamento da Calçada da Estrela com a Rua de São Bento, cruzava, desde a sua construção em 1901, a linha de carros eléctricos da (CCFL), que ligava o Conde Barão ao Rato (à época, carreiras 22/23).


                                   Composição do ascensor da Estrela (foto do fabricante Maschinenfabrik Esslingen AG, arq. pess.)


O trajecto apresentava um perfil em "U" ao invés dos declives simples mais habituais nestes meios de transporte. Utilizando duas composições formadas normalmente por um carro rebocador aberto e um carro de caixa fechada, havendo alguns dos modelos de caixa fechada, também rebocadores, construídos pela Maschinenfabrik Esslingen AG, eram no total cerca de 6 veículos dispondo de iluminação a petróleo. Devido à distância e percurso deste ascensor, havia em locais estratégicos sinaleiros para comandar o movimento das composições no seu percurso. A sua inversão era feita nos terminais onde existiam rotundas manuais para o efeito. Funcionava das 8:00 às 21:00 horas, com pausa de duas horas para o almoço e as viagens custavam 1 pataco (40 réis) entre o Camões e a Estrela, ou 1 vintém (20 réis) do Poço dos Negros para qualquer dos terminais. Conhecido também pela população por "Mata Cães", devido às frequentes vitimas que causava e também por "Maximbonbo da Estrela", corruptela de "machine pump". Este ascensor teve uma vida efémera devido aos problemas e complicações causados. Tendo sido apelidado, já no final, de monstro ronceiro e pachorrento, queixando-se os passageiros por vezes do mau cheiro do acetileno que escapava da má combustão do motor e que causava constrangimentos. "Morreu o maximbombo da Estrela! Há mais tempo que ele se tivesse sumido, o monstrengo, para dar logar a coisa mais moderna, mais decente. Aquilo era mesmo um monstrengo: pesado, incomodo, infecto e amaldiçoado como um assassino. (...) à noite, quando o cheiro detestavel da acetilene, escapada a uma combustão imperfeita, fazia olhar de soslaio, umas para as outras, as pessoas que não lhe conheciam a procedencia e a tomavam por suspeita. Por mais que se abrissem as portas e as vidraças, abafava-se ali sempre. Não havia ar que acabasse com aquele cheiro a proximo e a acetilene, mesmo de inverno em que o ar frigidissimo se precipitava pela fenda do leito, onde trabalhava parte da engrenagem, e, metendo-se por entre as réguas dos bancos toscos, enfiava-se-nos pela espinha acima com arrepios de pneumonia." in Illustração Portugueza, nº 386 14 de julho de 1913. Tendo terminado em 13 de julho de 1913 e sendo substituído em 1915 pelo carro eléctrico. Após o desmantelamento do sistema, consta que os seus veículos acabaram por ser vendidos para barracas de banhos, de feira e ainda para casas de guarda no campo.





                                                           Estação do ascensor da Estrela na Praça Luís de Camões (col. pess.)
 

                                                                Ascensor da Estrela na Praça Luís de Camões, finais do séc. XIX,
                                                                                            foto Joshua Benoliel (arq. pess.)


                                                   Ascensor da Estela invertendo a marcha na Praça Luís de Camões em 1913,
                                                                                          foto Joshua Benoliel (arq. pess.)




                                                                     Capa de partitura de Polka dedicada ao ascensor da Estrela
                                                                                                                (col. priv.)





                                                                                              Bilhetes do início do séc. XX
                                                                                                           (col. Carlos Caria)
                                    
 


 
                                                                    Ascensor da Estrela no Camões e Calçada do Combro em 1913,
                                                                                               fotos Joshua Benoliel (arq. pess.)


                                                             Sinaleiro manobrando sinal ao fundo da Calçada do Combro em 1913,
                                                                                               foto Joshua Benoliel (arq. pess.)



                                                                  Sinaleiro dando sinal de avanço na Calçada da Estrela em 1913,
                                                                                               foto Joshua Benoliel (arq. pess.)




                                                                           Ascensor da Estrela nos Poiais de São Bento em 1909,
                                                                                                 foto Joshua Benoliel (arq. pess.)
                                                        
 

                                                    Rotunda de inversão do ascensor na Estrela junto ao edifício de recolha em 1913,
                                                                                               foto Joshua Benoliel (arq. pess.)



                                                               Edifício de recolha do ascensor junto ao Largo da Estrela em 1913,
                                                                                                foto Joshua Benoliel (arq. pess.)



Veículo do ascensor da Estrela numa plataforma de transporte no início do séc. XX
(foto do fabricante Maschinenfabrik Esslingen AG, arq. pess.)



                                                           Interior do edifício de recolha e manutenção do ascensor da Estrela em 1913,
                                                                                                foto Joshua Benoliel (arq. pess.)



   

                                                                                               Bilhetes do início do séc. XX
                                                                                                           (col. Carlos Caria)

                                                  



                                     Estação no Largo da Estrela junto à Basílica, vendo-se a par o ascensor e já o carro eléctrico 
                                                                                                                (col. pess.)





Ascensor da Bica


Projectado por Raoul Mesnier e inaugurado em 28 de junho de 1892 pela (NCAML), este ascensor com uma inclinação média de 12%, desnível de 45 metros e um trajeto de 283 metros, em via de carril duplo encastrado no pavimento de arruamento vulgar, com bitola de 90 cm e fenda central para ligação do cabo, sendo portanto do sistema "cable-car". Parte da Rua de São Paulo e termina no Largo do Calhariz. Inicialmente utilizava também água para se mover, pelo sistema de contrapeso mas, em 1896, começou a trabalhar tal como o ascensor do Lavra e da Glória, com tração de motor a vapor Maschinenfabrik Esslingen AG. Situando-se toda a maquinaria e caldeiras no edifício da estação inferior da Rua de São Paulo, onde em 1894, foi instalado um torniquete para a contagem de passageiros que ainda hoje existe. A entrada da estação inferior, é feita a partir do interior de um edifício na Rua de São Paulo, 234, e não na via pública como os seus congéneres. A subida inicia-se saindo desse mesmo imóvel, pelas traseiras, como se fosse a sair de um túnel para a Rua Duarte Belo, com ligação à estação superior no Largo do Calhariz. O preço de cada bilhete no inicio do séc. XX era de 30 réis na subida, 20 réis na descida e ida e volta 40 réis. Em 1912, após a assinatura de um novo contrato com a Câmara Municipal de Lisboa autorizando a modificação para o sistema eléctrico, foi possível acordar com a Lisbon Electric Tramways Limited e a Companhia Carris de Ferro de Lisboa, a exploração conjunta da Central Eléctrica de Santos e assim resolver o problema do fornecimento de energia elétrica indispensável. Cada carro era provido de um grampo que o ligava ao cabo e de um poderoso freio de garra que atuava apertando os carris centrais entre duas sapatas, uma pela parte inferior e outra pela superior. Para além desta existia ainda outro freio funcionando por pressão sobre os carris. Pesavam cerca de 10 toneladas, passando a dispor de pantógrafos instalados no tejadilho para transmissão da corrente elétrica e eram acionados por meio de 2 motores eléctricos de 600 Volt dc, ligados em série, de forma que um carro só se podia pôr em movimento com a manobra conjunta dos guarda freios ascensoristas de ambos, bastando contudo a manobra de um só para os imobilizar. Depois de vários acidentes (é talvez o ascensor lisboeta com a história mais atribulada), de referir um acidente em 1914 que o deixou imobilizado por cerca de 9 anos, passando a dispor de um sistema que então foi adotado que diferia do anterior, por terem sido suprimidos os motores nos carros, os quais passariam a ser acionados por um motor instalado num subterrâneo da estação superior do Largo do Calhariz. Os pantógrafos mantiveram-se apenas para comando conjunto do motor que os faz deslocar (dispondo cada carro de dois comandos) e a iluminação dos carros.





                                                                        Vista aérea do percurso do ascensor da Bica (foto Google maps)



                            Largo do Calhariz, junto ao Palácio Valada Azambuja e ascensor da Bica, finais do séc. XIX
                                                                                                           (arq. AML)




                                                        Desenho esquemático do sistema mecânico a vapor do ascensor da Bica
                                                                                                                  (arq. CCFL)



                                                 Ascensor da Bica na estação superior do Largo do Calhariz em 1909,
                                                                                                    foto de Joshua Benoliel (arq. pess.)

    
                                                                                                Bilhete do início do séc. XX
                                                                                                         (col. Carlos Caria)




Passa para a posse da (CCFL) em 1926, por exigência da Câmara Municipal de Lisboa e retoma o serviço em 1927. O ascensor da Bica é composto por duas carruagens, cada uma com três compartimentos desnivelados e de acesso independente, com capacidade para transportar 23 passageiros, incluindo o guarda freio ascensorista, dispondo ainda de campainhas idênticas às dos carros eléctricos, para alertar os transeuntes. Em 1933, os carros receberam novas caixas da firma Theodor Bell & Co, assumindo, o aspeto atual desde então, idêntico aos carros eléctricos da (CCFL). Com mais de um século de existência, é o ascensor mais típico da cidade de Lisboa e, embora não tenha a mesma afluência do ascensor da Glória, constitui nos dias de hoje, uma das principais atrações turísticas da capital portuguesa. Passa a ser equipado também com validadores electrónicos para os títulos de viagem recarregáveis. Devido à sua enorme importância histórica e cultural, este ascensor foi classificado de Monumento Nacional em fevereiro de 2002, por (Decreto 5/2002, Diário da República 42, 1.ª série-B, de 19/02/2002). Em 2010 o ascensor da Bica foi intervencionado pelo artista plástico Alexandre Farto, que recobriu a típica superfície amarela com película opaca metálica refletora, ao abrigo do projeto da (CCFL) designado «Arte em Movimento», integrado num programa de Apoio da Arte Contemporânea Portuguesa; esta instalação manteve-se patente até ao final de Junho de 2010. Uma iniciativa semelhante recobriu em 2013 a superfície das cabines com um padrão ilustrando a calçada portuguesa. Esteve encerrado em junho e julho de 2012 devido a obras nos arruamentos onde se insere a via na Calçada da Bica, e durante uma semana no final de junho de 2006 devido a colisão com um camião de recolha de lixo.

O seu horário de funcionamento é:
2ª feira a sábado: 7:00 - 21:00 horas
domingo e feriado: 9:00 - 21:00 horas
O seu tarifários atual é:
Bilhete simples uma ida  3,60€
Cartão Lisboa Viva, 7Colinas ou Viva Viagem, carregados com títulos válidos na CARRIS
Bilhetes dos circuitos  Yellow Bus;Bilhetes Lisboa Card.

 




 
 Aspectos do ascensor da Bica em meados dos anos 20 (arq. CCFL)
 



                                                                        Ascensor da Bica já em meados dos anos 30 (arq. CCFL) 


                                                                      Guarda freio ascensorista da Bica durante a condução
                                                                                       em meados dos anos 40 (arq. priv.)



             Ascensor da Bica em 1965, foto Volkmar K. Wentzel (arq. priv.)



                                                                                               Bilhete de finais dos anos 70
                                                                                                       (col. Carlos Caria)  




                                           Ascensor da Bica com um padrão ilustrando a calçada portuguesa em 2013 (arq. priv.)




                                                            Mecanismo eléctrico subterrâneo actual do ascensor da Bica (arq. priv.)



                                                Chegada do ascensor da Bica à estação superior do Largo do Calhariz na actualidade
                                                                                                          (foto Paulo Nogueira)




                                                                             Ascensores da Bica na actualidade (arq. priv.)



                                                                         Comandos do ascensor da Bica na actualidade (arq. priv.)



                                                  Saída da estação inferior do ascensor da Bica na Rua Duarte Belo na actualidade
                                                                                                          (foto Paulo Nogueira)




                                                   Interior da estação inferior do ascensor da Bica na Rua de São Paulo na actualidade
                                                                                                               (arq. priv.)
 



                                                          Moderno validador electrónico na estação inferior do ascensor da Bica
                                                                                                        (foto Paulo Nogueira)



                                                                             Entrada da estação inferior do ascensor da Bica
                                                                                      na Rua de São Paulo (foto L. Marques)



             Aspeto geral e fachada da estação inferior do ascensor da Bica e carro eléctrico
              na Rua São Paulo na actualidade (arq. priv.)



 

Elevador do Chiado

Este elevador era designado oficialmente como "Elevador da Rua do Crucifixo", mas popularmente chamavam-lhe elevador do Chiado. Tem sido também atribuído a autoria deste elevador vertical a Raoul Mesnier, que funcionou pela primeira vez em 15 de fevereiro de 1892 e inaugurado em 28 de Agosto do mesmo ano. Era um elevador vertical, que estabelecia a ligação entre a Rua do Crucifixo e a Rua Garrett no Chiado. À semelhança do ascensor do Lavra, Glória e Bica, também este elevador vertical trabalhava por contrapeso de água. Tinha a capacidade de fazer 48 viagens por hora, dispondo de ascensorista a bordo. Comprava-se o bilhete no elevador e o preço de cada bilhete era de 10 réis, havendo bilhetes de correspondência com o ascensor da Estrela, em virtude do acordo entre as duas empresas. O seu horário de funcionamento era das 7:00 às 22:00 horas. A sua entrada era na Rua do Crucifixo, n.º 113 e a saída atravessando o interior do Hotel Universal na Rua Garrett já no Chiado, mas oferecendo um serviço de transporte aberto ao público com acesso direto ao exterior, perto da entrada principal, onde havia um letreiro que dizia «Elevador Rua do Crucifixo em 20 segundos». Tinha poucos utilizadores, tendo por esse motivo laborado somente até 1912, em 1913 perde o caráter público com a sua integração nos Armazéns do Chiado.


 
 
                                                          Fachada do Hotel Universal no Chiado em finais do séc. XIX (arq. priv.)




                                                                                   Rua Garrett no Chiado em meados de 1897,
                                                                                                foto de M.Goulart (col. pess.)


                                                                            Caixa idêntica à do elevador do Chiado (arq. pess.)



                                                                    Gradeamento e proteção do elevador do Chiado (arq. pess.)
                                                                     




Ascensor da Graça

Uma vez mais projectado por Raoul Mesnier de Ponsard. As obras da construção das infraestruturas deste ascensor foram iniciadas em 1889 e sua inauguração foi feita em 27 de fevereiro de 1893. Juntamente com outros sistemas semelhantes noutros pontos da cidade, foi construído e explorado uma vez mais pela (NCAML). Este ascensor foi um meio de transporte mecanizado sobre carris no sistema "cable – car", para ligar o Largo da Graça à Rua da Palma. Concebido para vencer um desnível de 75 metros ao longo de um trajecto de 730 metros; funcionava por um sistema de cabo sem fim sob a via, ligado por uma ranhura às carruagens. Esta coincidia com os carris internos nos pontos do trajeto onde as vias ascendente e descendente corriam entrelaçadas, com bitola de 90 cm encastrados no pavimento da via pública. Os carros, em número aproximado de quatro, eram de dois tipos idênticos, uns de maior dimensão e outros mais pequenos, de caixas fechadas com plataformas abertas aos topos, mas ambas bi face (ou seja, dois comandos a cada extremo), com sistema de freios do tipo manual, invertendo o sentido no fim de cada carreira, a sua iluminação era a petróleo. Sendo os seus construtores Herbrand Köln e os motores a vapor Maschinenfabrik Esslingen AG, motores e caldeiras que se situavam em edifício, que servia também para a recolha dos carros, no Largo da Graça. Os preços dos bilhetes por volta de 1908 eram de 40 réis da Rua da Palma ao Largo da Graça, ida e volta 50 réis, da Graça ao Largo da Palma 20 réis, da Rua da Palma ao Arco de Santo André 30 réis, Arco de Santo André à Graça 20 réis. A sua desativação ocorreu em 1909, parcialmente absorvido pela linha de carros eléctrico da (CCFL), em 1915, no percurso da carreira 12 E, de bitola idêntica, 90 cm, entre a Graça e a Rua da Conceição.





Primeira pagina da Gazeta dos Caminhos de Ferro
de 1 de abril de 1893 (col. priv.)



 Veículo do ascensor, junto ao Largo da Graça em 1909, foto de Joshua Benoliel (arq. pess.)
 
 
 
 Desenho em corte do sistema de mecanismo idêntico ao do ascensor da Graça (arq. pess.)
  


                                        Ascensor da Graça junto ao Arco de Santo André (arq. priv. desconhecido)


                                                                        Ascensor da Graça passando o Arco de Santo André
                                                                                            a caminho da Graça (arq. AML)



                                                  Calçada dos Cavaleiros com o ascensor da Graça em meados de 1900 (arq. AML)




                                                           Desenho técnico do mecanismo de ligação do carro ascensor ao cabo
                                                                                                               (arq. pess.)

                           

                                                                  Estação inferior do ascensor da Graça na Rua da Palma a par
                                                                           com o carro eléctrico no início do séc. XX (arq. AML)


                        Ascensor da Graça na estação inferior junto ao Teatro Apolo na Rua da Palma, meados de 1910
                                                                                                        (arq. AML)





                                                                                               Bilhetes de finais do séc. XIX
                                                                                                         (col. Carlos Caria)
 




Elevador de São Julião ou do Município

Da autoria de Raoul Mesnier este elevador vertical, foi inaugurado em 12 de janeiro de 1897, fazia a ligação do Largo de São Julião ao Largo da Biblioteca Pública. Também chamado popularmente de elevador de São Julião ou da Biblioteca, a sua estrutura viria a ser utilizada mais tarde para o elevador do Carmo. Constituído por duas torres verticais, nas quais funcionavam duas cabines coordenadas entre si que subiam na vertical, vencendo um desnível de 30 metros, funcionando por contra peso de água. Cada cabine tinha capacidade para 25 pessoas e ascensorista a bordo para o comandar. Até ao primeiro pavimento, do qual saía um viaduto à altura de 20 metros sobre a Calçada de São Francisco até à propriedade do visconde de Coruche, terminando no Largo da Biblioteca. Pertencendo à então fundada Empresa do Elevador do Município à Biblioteca. Este elevador foi fabricado por operários portugueses e a sua armação foi conduzida por António Silvério. No seu todo o elevador erguia-se a uma altura de 40 metros. Foi edificado num pátio no Largo de São Julião, no prédio do senhor José Street. O acesso ao pátio fazia-se por um corredor de 3 metros de largura por 22 metros de comprimento. O pátio tinha a forma de trapézio, nele assentavam fortes vigas de ferro pelas quais se moviam as cabines do elevador. A construção do elevador Município – Biblioteca, foi financiada pelo Dr. João Maria Ayres de Campos. O público entrava pelo n.º 13, do Largo de São Julião, que atualmente é o Restaurante Solar Pombalino, e saía também no n.º 13 do Largo da Biblioteca (atual Largo da Academia Nacional de Belas-Artes), sendo necessário percorrer um passadiço metálico sobre a Calçada de São Francisco. Este elevador ficou ligado à intentona de 28 de janeiro de 1908, conhecida como "Golpe do Elevador da Biblioteca", em que conspiravam carbonários, republicanos e dissidentes progressistas. Foram presos António José de Almeida, Afonso Costa, Álvaro Poppe e mais suspeitos, num total de noventa e três conspiradores. Em meados de 1908 os preços deste elevador eram de 20 réis para subidas e descidas, incluindo o transporte de bicicletas. O elevador de São Julião encerrou em 1915, sendo substituído pelo carro elétrico da Rua da Conceição – Calçada de São Francisco ao Camões.

 
 


Planta do elevador de São Julião (arq. priv.)


                                                                      Planta do elevador de São Julião, vista de cima (arq. priv.)


Largo da Biblioteca em meados de 1918 (arq. AML)



Aspeto da torre do elevador de São Julião (arq. AML)


 
     Largo de São Julião ou do Município, onde se situava a entrada inferior do elevador de São Julião (arq. AML)
                                                                                                      

 


Ascensor de São Sebastião

Projectado por Raoul Mesnier, este era um ascensor semelhante ao da Estrela e da Graça, sistema "cable-car". Foi construído por duas concessionárias de transportes públicos, a Companhia Urbana de Viação a Vapor, fundada em 1888 e a Companhia Funicular Portuguesa, de 1896, que se fundiu com a Companhia Urbana de Viação a Vapor, terminando esta a obra da linha, sendo a sua arrendatária e exploradora durante vinte anos. Foi inaugurado em 15 de janeiro de 1899, ocorrendo grandes festejos com foguetes, bandas de música e bodo para duzentos pobres no Largo de São Sebastião da Pedreira. Este ascensor contemplava os arrabaldes e facilitava o acesso dos visitantes ao Jardim Zoológico, à data localizado em Palhavã. O seu troço iniciava-se no Largo de São Domingos, ao lado do Teatro D. Maria II, indo pela Rua das Portas de Santo Antão, Largo da Anunciada, Rua de São José, Rua de Santa Marta, Largo do Andaluz, terminando no Largo de São Sebastião da Pedreira. As obras de construção deste ascensor estiveram durante muito tempo suspensas, vendo-se o material empilhado na Rua de Santa Marta. A montagem desta linha orçou em 400 contos. O empreiteiro da construção foi o engenheiro Fernando Augusto Kuckenbuck de Figueiredo. Os seus carros eram de caixas abertas e plataformas igualmente abertas aos topos, não se sabe quantos seriam ao certo, mas provavelmente no mesmo número dos da Estrela e da Graça. Cada carro comportava 24 passageiros, dispondo de freios manuais e provavelmente iluminação a petróleo, sabe-se pouco obre este ascensor visto terem ficado poucos registos sobre ele. A sua linha tinha a extensão de 2900 metros. O horário de funcionamento deste ascensor era das 6:30 às 0:00 horas. Até às 12:00 horas, era permitido o transporte de bicicletas na plataforma traseira dos carros, pagando-se por isso 1 tostão. Funcionava através de tração por cabo e carris bitola de 90 cm, encastrados na via pública, as máquinas e caldeiras deste ascensor localizavam-se na Estrada de Palhavã, no local onde outrora fora a estação da linha do caminho de ferro monocarril sistema Larmanjat (tema a desenvolver em próximo artigo). Tinha quatro motores a vapor Farcott Corlisse, com a força de 50 Cv e quatro caldeiras tubulares Tem Prvinck. Este ascensor teve vida efémera, foi desativado em 1901 e segundo a imprensa da época; "Um acabou mesmo por entregar a alma ao creador dos elevadores. Foi o de S. Sebastião da Pedreira, coitado. Lá se foi, ao fim de algum tempo de exploração, e succedeu, afinal, que deixou saudades a muita gente, que o aproveitava especialmente para visitas ao antigo Jardim Zoológico." in Illustração Portugueza, nº 155, 8 de fevereiro de 1909. Todo o seu material provavelmente teve como destino a sucata, quando começaram a funcionar os carros elétricos para São Sebastião da Pedreira.




Largo de São Sebastião da Pedreira onde se situava a estação superior
do ascensor da São Sebastião (arq. AML)


 
Mecanismo a vapor idêntico ao do ascensor de São Sebastião (arq. pess.)




                                                                    Veículo idêntico aos do ascensor de São Sebastião (arq. pess.)



Linhas do ascensor de São Sebastião sob o viaducto do Andaluz
na Rua de São Sebastião da Pedreira em 1900, foto Chaves Cruz
(arq. AML)



                                                                         Largo do Andaluz e viaduto por onde passou
                                                                               o ascensor de São Sebastião (arq. AML)


                                      Rua de São José, meados de 1900, vendo-se ainda as linhas do ascensor de São Sebastião
                                                                                          (arq. AML)



                                         Largo de São Domingos onde se situava a estação inferior do ascensor de São Sebastião
                                                                                                           (arq. AML)



                                                              Caricatura alusiva ao fim do ascensor de São Sebastião (arq. pess.)





Elevador de Santa Justa ou do Carmo

Para vencer o desnível que separa a Rua do Ouro ao Largo do Carmo, que é de cerca de 31,92 metros, na vertical, Raoul Mesnier foi, igualmente, convidado a apresentar um projecto de elevador vertical, tendo adotado, para este caso, um sistema ligeiramente diferente do adotado para o elevador do Município. A obra, executada em ferro, num estilo neogótico "fin de siècle", assim como elementos decorativos em ferro fundido, rendilhados estilo filigrana. As obras ter-se-ão iniciado em 1898, tendo a empreitada da construção metálica sido entregue à empresa Cardoso D’Argent & Cia. A sua inauguração ocorreu a 10 de julho de 1902 tendo, à época, sido apelidado de elevador Ouro - Carmo. Este elevador é formado por duas torres acopladas, em cada uma das quais funciona uma cabine que pode comportar, largamente, 24 passageiros e ascensorista a bordo para o comandar, equilibrando-se por um forte cabo de aço que passa por um tambor, colocado, com restante maquinismo do motor, na parte superior da torre. Sendo o construtor da cabine R. Waygood & Co Ltd of London. O escoamento de passageiros faz-se, também, através de uma passarela que conduz, directamente ao Largo do Carmo. Nos primeiros anos do seu funcionamento era movido a vapor, em junho de 1902 ensaiaram-se máquinas e cabines e no mês seguinte, a 10 de julho, o elevador inaugurou o serviço público. Nesse dia a chuva e a trovoada abateram-se sobre a cidade, mas nem mesmo assim esfriou o entusiasmo e a curiosidade de quantos quiseram experimentar o novo transporte ou apenas admirar o panorama. Era meio dia quando, sob o olhar atento da multidão, se procedeu à experiência definitiva com as cabines transportando para a estação superior grande número de convidados e de representantes da imprensa. Pouco depois chegava o Secretário Geral do Governo Civil, Dr. Alberto Cardoso de Menezes, para presidir à cerimónia a qual teve lugar de imediato. Nessa ocasião, uma banda instalada no terraço do prédio do Conde de Tomar executou o hino nacional, enquanto no ar subiam girândolas de foguetes. Era propriedade à época, da Empresa de Elevadores do Carmo. Os preços em 1908 eram: subida 20 réis e descida 10 réis. Por curiosidade, contrariando a afirmação popular, não está comprovada a ligação deste engenheiro a Gustave Eiffel. O que se sabe é que tanto Raoul Mesnier de Ponsard quanto o arquiteto francês Louis Reynaud, aplicaram neste elevador algumas das técnicas e materiais já utilizados em França. Foi considerada uma obra arrojada à época, atendendo ao desnível vencido, materiais utilizados e viadutos construídos, que possibilitaram os acessos à estação superior no Carmo. O elevador de Santa Justa-Carmo é arrendado, (tal como sucedeu com os ascensores  do Lavra e Glória) à Lisbon Electric Tramways Limited, sendo electrificado em 1907 com 2 motores eléctricos por cabine de 300 Volts, tendo sido adquirido mais tarde por esta mesma empresa em 1913. De salientar que a energia eléctrica fornecida quer para este elevador, quer mais tarde para os ascensores do Lavra, Glória e Bica será fornecida pela central elétrica de Santos.
 














 


          Contrato de concessão entre a CML e a Empresa de Elevadores do Carmo (arq. CML)
                               
 
 
           
 
 
       
 
        
                                
         
                                                                            Responsáveis pela obra do elevador de Santa Justa-Carmo 
                                                                                                                         (col. pess.)                                   


 
                                                           Desenho planta do passadiço e elevador de Santa Justa-Carmo (arq. CCFL)

 
 
                                                    Vista geral do elevador de Santa Justa-Carmo no início do séc. XX (arq. AML)




                                                                            Elevador de Santa Justa-Carmo em 1902 (arq. CCFL) 

                                                                                             
 
                            

                                                                                                Bilhetes do início do séc. XX
                                                                                                          (col. Carlos Caria)
                                                                    
                                


                                                                                            
                                 Passadiço e piso elevado do elevador de Santa Justa-Carmo, ainda a vapor, no início do séc. XX
                                                                                                         (arq. CCFL)

 

 
  
Título de obrigação da Lisbon Electric Tramways Limited
(col. CCFL)
 
 
 
Notícia alusiva ao elevador de Santa Justa do Diário Ilustrado
de 1 de novembro de 1907 (arq. priv.)
 
 
 
                                                                                 Escada de acesso ao varandim superior do
                                                                                 elevador de Santa Justa-Carmo (arq. pess.)

 
 
Publicidade de comércio do inicio do séc. XX
alusivo ao elevador (col. pess.) 
 
 
 
                                                                Acesso ao passadiço do elevador de Santa Justa-Carmo, para o
                                                                Largo do Carmo e carro elétrico no início do séc. XX (arq. CCFL)




                                                                                                   Bilhetes dos anos 60 e 70
                                                                                                         (col. Carlos Caria)


 

Por contrato entre a CML, o elevador de Santa Justa-Carmo, é cedido à Companhia Carris de Ferro de Lisboa (CCFL) em 1973, até hoje continua a fazer a ligação entre as escadinhas de Santa Justa e o Largo do Carmo. O dramático incêndio do Chiado em 25 de agosto de 1988, que destruiu alguns dos edifícios daquela zona comercial, não afetou este elevador. A reabilitação do elevador de Santa Justa, é da autoria dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Pedro Botelho, com um primeiro prémio no concurso Dyrup. A partir de meados dos anos 90 passa a estar equipado com validadores electrónicos para os títulos de viagens recarregáveis. Atualmente é uma das estruturas mais visitadas da cidade de Lisboa, não apenas por portugueses mas, essencialmente, por turistas estrangeiros que procuram conhecer ambientes do passado (madeira e latão), processos mecânicos de transporte, e as soberbas vistas do piso superior sobre a cidade de Lisboa e o rio Tejo, dispondo ainda no topo do elevador de um café esplanada. Os ascensores do Lavra, Glória e Bica a par com o elevador de Santa Justa, únicos sobreviventes da obra de Raoul Mesnier de Ponsard na capital, são monumentos de grande valor histórico para a cidade de Lisboa e da engenharia. Foram classificados em fevereiro de 2002 como Monumentos Nacionais.

O seu horário de funcionamento é:
Rua do Ouro
Horário de Inverno (Outubro a Maio): 7:00 - 21:45 horas

Horário de Verão (Junho a Setembro) & Páscoa: 7:00 - 22:45 horas
Largo do Carmo
Horário de Inverno (Outubro a Maio): 7:05 - 21:50 horas
Horário de Verão (Junho a Setembro) & Páscoa: 7:05 - 22:50 horas

O tarifário actual é:
Bilhete Santa Justa  5,00€ (adquirido a bordo, válido até 2 viagens);
Cartão Lisboa Viva, 7Colinas ou Viva Viagem, carregados com títulos válidos na CARRIS;
Bilhetes dos circuitos  Yellow Bus;
Bilhetes  Lisboa Card.

 


 
 
                                                        Aspeto arquitetónico neogótico do elevador de Santa Justa na actualidade
                                                                                                                 (arq. pess.)


                                                                    Poço do elevador de Santa Justa na actualidade (arq. pess.)
 
 
 
 
 

                                                                           Incêndio do Chiado em 25 de agosto de 1988 (arq. priv.)





                                                          Passadiço metálico do elevador de Santa Justa na actualidade (arq. pess.)



                                                              Motor eléctrico do elevador de Santa Justa na actualidade (arq. pess.)


                                                                  Varandim do elevador de Santa Justa na actualidade (arq. priv,)



                             Passageiros saindo pelo passadiço do elevador de Santa Justa na actualidade (foto Paulo Nogueira)



Interior da cabine de passageiros do elevador de Santa Justa
 na atualidade (arq. pess.) 
 
 
 
                                                       Vista da Rua do Ouro do elevador de Santa Justa (foto Paulo Nogueira)




Vista geral  do elevador de Santa Justa na actualidade
(foto Paulo Nogueira)




                                                                         Placas alusivas ao centenário e Monumento Nacional
                                                                             do elevador de Santa Justa  (foto Paulo Nogueira)




Elevador do Castelo

Já nos finais do séc. XX, surgem novos projectos para uma vez mais se transpor um desnível de uma das sete colinas da cidade de Lisboa. Assim, João Soares, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1996 a 2002, apresentou, já no fim do seu mandato, um projecto de elevador  vertical com passadiço para fazer a prometida ligação da Baixa Pombalina ao Castelo de São Jorge (ao invés das alternativas alvitradas: de funicular ou cascata de escadas rolantes). Em princípios de 2001, fruto de forte oposição pública ao projecto, o presidente João Soares anuncia o seu abandono definitivo. Alguns anos após ter sido abandonado, um novo projecto da ligação em elevador da Baixa de Lisboa ao Castelo de São Jorge foi aprovado, no dia 20 de maio de 2009, pela Câmara Municipal de Lisboa. Ao contrário de várias infraestruturas semelhantes, erguidas em Lisboa no final do século XIX — das quais subsiste o mítico elevador de Santa Justa (que liga também a Baixa mas à oposta colina do Bairro Alto), o elevador do Castelo é uma obra do século XXI, em sistema de elevador vertical e dotado com mecanismos e cabines da mais moderna tecnologia. Com um orçamento inicial de nove milhões de euros e pago com as contrapartidas do Casino de Lisboa, o projeto resultou de um convite ao atelier do arquitecto João Pedro Falcão de Campos, datado de 2009, sendo que o grosso das obras terminou em 2013. Foi inaugurado no dia 31 de agosto de 2013, oito meses depois do previsto, pelo presidente da CML António Costa. A ligação faz-se por um primeiro elevador colocado num prédio (devoluto em 2009) da Rua dos Fanqueiros que tem uma saída para o Largo Adelino Amaro da Costa. Daqui um outro elevador panorâmico, dentro do antigo Mercado do Chão do Loureiro (atualmente um supermercado da cadeia Pingo Doce), estabelece a restante ponte com a Costa do Castelo. Além do elevador, previa-se que o mercado integrasse ainda um parque de estacionamento em silo automóvel, um supermercado e um restaurante panorâmico. O elevador do Castelo é um conjunto de dois elevadores públicos de acesso gratuito, que ligam a baixa da cidade ao Castelo de São Jorge. Este elevador, último projecto do género do séc. XXI para vencer o desnível de umas das colinas de Lisboa, alia o transporte mecânico ao pedonal, permitindo assim um maior e fácil acesso a esta zona alta da cidade, assim como ao Castelo de São Jorge, sendo utilizado diariamente por milhares de pessoas, entre turistas e residentes. O seu horário de funcionamento é diário das 09:00 às 21:00 horas.

 

                                                                  Corte longitudinal da planta do elevador do Castelo (arq. priv.)



                                                       Fachada do prédio que abriga o elevador do Castelo na Rua dos Fanqueiros
                                                                                                              (arq. priv.)

 
  Discurso do Presidente da CML António Costa, na inauguração do elevador do Castelo, estando presente à direita da foto o arquiteto responsável pela obra João Pedro Falcão de Campos (arq. CML)
 


                                                             Átrio do elevador do Castelo no prédio da Rua dos Fanqueiros
                                                                                         (foto de José Manuel Rodrigues)



                                                                                 Aspeto de arquitetura do elevador do Castelo
                                                                                                  (foto José Manuel Rodrigues)



                                                             Acesso ao elevador do Castelo para a Baixa de Lisboa (arq. pess.)



                                                                                    Público no elevador do Castelo (arq. pess.)


                                                                 Último acesso do elevador do Castelo já na Costa do Castelo
                                                                                                           (arq. pess.)


                                                                      Vista do Castelo de São Jorge em Lisboa  (arq. pess.)
 



Projectos engenhosos e arrojados houve que ficaram pelo caminho sem sucesso e outros haverá de sucesso, no sentido de facilitar a transposição do relevo acidentado da cidade. Mas foi assim e ainda é, graças a estes sistemas de transporte desenvolvidos, aperfeiçoados e implantados desde finais dos séc. XIX, XX e XXI, que se conseguiu e ainda se continua a conseguir transpor as colinas, encostas e ladeiras ingremes da cidade de Lisboa. Vale por isso a pena um visita.


 
                                              Vistas gerais da cidade de Lisboa com as suas colinas, encostas, vales e ladeiras 
                                                                                                    (arq. priv. e pess.)




 

Texto:
Paulo Nogueira

 

Fontes e bibliografia:
Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Espanha. Lisboa, edição de 1 de Abril de 1893
LAGRANGE, José – Os desaparecidos ascensores e elevadores de Lisboa. Lisboa Carris. S. II, Ano II, n.º 7 (Jan. /Mar. 1996). ISSN 870-676X.
Illustração Portugueza nº 155, edição semanal do jornal O Século, Lisboa, 8 de Fevereiro de 1909
Illustração Portugueza nº 386, edição semanal do jornal O Século, Lisboa 14 de Julho de 1913
FREIRE, João Paulo – Lisboa do meu tempo e do passado. Do Rossio à Rotunda. Lisboa, 1932, cap. IX, p. 61-62.
ALVES, Maria Amélia Lemos - Lisboa dos Elevadores.  Lisboa : Câmara Municipal de Lisboa, 2002.
Publicação on line Remontees-mecaniques
Publicação on line Restos de Colecção
Site da CML
Site da Carris



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ADRIANO DE PAIVA


                                                        O legitimo pai da televisão

                                       
                                                                              Retrato de Adriano de Paiva (arq. da FCUP)



Desde tempos remotos, o Homem teve necessidade de transmitir à distância informações sobre tudo o que o rodeava. A ideia da transmissão à distância de imagens remonta aos finais do século XIX, através da acção de alguns "visionários" em todo o mundo, os quais recorreram aos meios que a tecnologia à data lhes proporcionava, ou, então, enveredaram pelo campo da imaginação baseada em determinados pressupostos, os quais, anos mais tarde vieram dar ou retirar razão a quem os formulava. Escritores e ilustradores da época, imaginavam transcrevendo para ilustrações publicadas, essa ideia da magia da transmissão de imagens à distância. À época foi como que uma ficção cientifica…


 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                   Ilustrações visionárias alusivas ao sonho da televisão em meados do séc. XIX
                                                                                                             (col. pess.)
 


No entanto, em termos de televisão, tudo começou com o cientista português Adriano de Paiva de Faria Leite Brandão, nascido em São Tiago da Cividade, Braga, a 22 de abril de 1847. Estudou Matemática em Coimbra como Bacharel, tendo obtido o grau de Doutor em Filosofia no ano de 1868. Foi autor de "These Ex Naturali Philosophia" (1868). Nomeado lente substituto temporário por 2 anos, da secção da 7.ª, 8.ª e 9.ª cadeira, pelo decreto de 14 de janeiro e carta régia de 6 de março de 1873, lecionando Química e mais tarde Física. Já em março de 1878, este professor de Física da Academia Politécnica do Porto, publicou um tratado dos princípios fundamentais da termodinâmica. O Dr. Adriano de Paiva Brandão, ficou conhecido nos meios científicos pelas suas reflexões sobre a telescopia, como uma nova aplicação da electricidade e publicou na revista "O Instituto", de Coimbra, um artigo onde divulgava o recurso ao elemento selénio como meio de transdução da luz em corrente eléctrica, aproveitando as suas características fotocondutoras, a partir do qual seria possível a transmissão à distância de imagens em movimento, tendo-lhe dado a designação de "A Telescopia Eléctrica Baseada no Emprego do Selénio". Não chegou a efectuar os testes que a comprovariam, limitando-se a publicar apenas um estudo teórico a esse respeito na revista. Esta ideia surgiu-lhe graças às notícias, entretanto chegadas a Portugal pelo jornal "O Século de Coimbra", em o nº 2 da 2ª série, correspondente a dezembro de 1876, sobre a invenção do telefone pelo americano Graham Bell (1847 - 1922), e mais tarde com a primeira demonstração do telefone em Lisboa, em novembro de 1877. Adriano de Paiva interrogava-se, que se a transmissão da voz à distância era uma realidade, porque não a transmissão da imagem de quem falava?! Idealizou também sobre as possibilidades de produzir um sistema equivalente ao de Graham Bell para a transmissão de imagens animadas. O termo telescópio designava já um processo de comunicação óptica. A originalidade do contributo de Adriano de Paiva consistia em utilizar o selénio como placa sensível do campo negro do teletroscópio. O selénio fora descoberto em 1817 por Jöns Jacob Berzelius (1779 - 1848), e as suas propriedades estudadas desde 1873 por Willoughby Smith (1828 - 1891), com a ajuda de L. May. Adriano de Paiva referia-se também aos trabalhos conduzidos pelos irmãos Siemens em 1875 e 1876.



                                            Lentes da Academia Politécnica do Porto de 1880/81, onde se encontra Adriano de Paiva,
                                                              o segundo em pé da direita para a esquerda (foto do arq. da FCUP)




                                                                              Edifício da Academia Politécnica do Porto em 1880
                                                                           (arq. da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto)



 
                                                       Laboratórios de Física e Química da Academia Politécnica do Porto em 1880
                                                                                                            (arq. da FCUP)
                                               
                                                                                                              


                                                                         Esquema da teoria de Adriano de Paiva (arq. da FCUP)




                                                                              Publicação da teria de Adriano de Paiva em 1880 
                                                                                                           (arq. da FCUP)

 


Escreveu Adriano de Paiva nesse seu artigo: "Desde que as considerações precedentes se desenharam claras ao nosso espírito, para logo nos quis parecer que uma nova descoberta científica se anunciava para breve; seria a aplicação da electricidade à telescopia, ou a criação da telescopia eléctrica. (...) Uma câmara escura, colocada no ponto que houvesse de ser sujeito às observações, representaria, por assim dizer, a câmara ocular. Sobre uma placa, situada no fundo dessa câmara iria desenhar-se a imagem dos objectos exteriores, com as suas cores respectivas e acidentes particulares de iluminação, afectando assim diversamente as diversas regiões da placa. Tornava-se por tanto apenas necessário descobrir o meio de operar a transformação por nenhuma forma impossível, desta energia, absorvida pela placa, em correntes eléctricas, que em seguida recompuzessem a imagem. A importância da descoberta dum instrumento de tal ordem manifesta-se com demasiada evidência. Contudo não é talvez inútil advertir que esse telescópio eléctrico, quando realizado preencheria uma lacuna que a telescopia actual, a despeito de todos os seus progressos jamais poderia pensar em fazer desaparecer. (...) Com o novo telescópio, (...) transformado em corrente eléctrica, o movimento luminoso percorreria docilmente o caminho que nos aprouvesse dar ao fio destinado a conduzi-lo; e de um ponto do globo terrestre seria possível devassar este em toda a sua extensão". 
Entretanto, foi nomeado sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa (1881), sócio do Instituto de Coimbra, sócio fundador e perpétuo da "Societé dês Electriciens" de Paris, tendo sido nomeado Presidente desta Sociedade em Portugal. Graças aos méritos científicos então reconhecidos por toda a comunidade científica, o Rei D. Luiz I fê-lo Conde de Campo Belo e par do Reino, faleceu na cidade do Porto em 1907 com 60 anos de idade.

 
 
      
                                               Diagrama da camara de selénio, de George R.Carey em1880,
                                                                               baseado na teoria de Adriano de Paiva (arq. priv.)
 
 
 
 
 
O artigo de Adriano de Paiva, então publicado, é ainda hoje considerado por alguns meios científicos internacionais como o precursor da televisão no Mundo, face ao envolvimento técnico nele preconizado, o qual é nos dias que correm, apesar dos avanços entretanto alcançados, o suporte base dos transdutores luz/corrente eléctrica empregues, como acontece com os sensores CCD (Coupled Charge Device) e os C-MOS (Complementary Metal Oxide Semiconductor), que é o mesmo, ou seja a fotocondutividade. Este importante trabalho do cientista português, Adriano de Paiva, teve um impacto internacional e inspirou estudos pioneiros no campo da televisão desde então, até à actualidade (tema a desenvolver em próximo artigo).
Por curiosidade este artigo de Adriano de Paiva, foi lido e estudado durante os anos 20 em Itália, quando o regime de Benito Mussolini (1883 - 1945), se interessou pelo tema televisivo. Com os desenvolvimentos verificados na década de 20, do século passado, em especial graças à acção do escocês John Logie Baird (1888 - 1946), com o seu sistema de televisão mecânica baseada no disco Paul Gottlieb Nipkow (1860 - 1940), o nome de Adriano de Paiva deixou de ser referenciado como o mentor de uma tecnologia que lhe ficou a dever imenso. Esta situação manteve-se até 1967 quando em Lisboa, na Universidade Técnica, o ideólogo alemão do sistema de televisão a cores PAL, o engenheiro Walter Bruch (1908 - 1990), proferiu uma palestra sobre o seu invento, contudo não se esqueceu de lembrar aos presentes que foi o português Adriano de Paiva quem deu origem ao que ali veio apresentar, recuperando, assim, em termos internacionais, o mérito que lhe é devido. Podendo por isso Portugal ter certo orgulho em também haver contribuído para o nascimento da técnica televisiva e considerar-se Adriano de Paiva o legitimo pai da televisão .


 
Receptor de televisão dos anos 50 (arq. pess.)
                                          




                                                        

                                                                                    Receptor de televisão actual (foto do fabricante)
                                                                                                                                



                                                                                                                                                        
                                                                              

Texto:
Paulo Nogueira

Fontes e bibliografia: 

VARELLA, Manuel - Portugal nas origens históricas da Televisão: Notícia sobre Adriano de Paiva, autor dos primeiros ensaios escritos da transmissão de imagens à distância em 1877. - Lisboa: Edição da Casa do Pessoal da Radiotelevisão Portuguesa, 1981.
ALVES, Jorge Fernandes da (FLUP) in publicação on line
O Instituto. Revista scientifica e literária. XXIV Março de 1878 - Segunda série nº 9  Coimbra. Imprensa da Universidade

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

OS AÇORES NA HISTÓRIA DA AVIAÇÃO


                                        A importância do porto da Horta na história da aviação  
 


                                                                                                                                                                        

Pela sua situação geográfica, em pleno Oceano Atlântico, à mesma latitude dos continentes europeu e americano, o arquipélago dos Açores desempenhou um papel importante na história das comunicações aéreas entre o velho e o novo continente. Em especial o porto da cidade da Horta na ilha do Faial, porto este que conheceu um período de prosperidade entre 1804 e 1896, nomeadamente com a exportação de laranjas e vinho verdelho produzido na ilha do Pico, assim como porto de reabastecimento de mantimentos dos barcos baleeiros norte americanos e reabastecimento de carvão aos navios a vapor. No final desse período com a construção do porto comercial em 1876, e a instalação mais tarde das companhias dos cabos telegráficos submarinos em 1893.


                                                     Baleeiros norte americanos no porto da horta, meados de 1900 (arq. pess.)                                  

                                                     


                                             Porto da Horta na ilha do Faial nos inícios dos ano 40 (arq. pess.)


                                                                                                                                                                               
Como marcos importantes das travessias transoceânicas por este porto passadas, destacam-se quatro acontecimentos que foram também os mais representativos, do ponto de vista aeronáutico, para a história do arquipélago.
Assim, em 17 de maio de 1919, completando a primeira etapa do primeiro voo transoceânico entre a América e a Europa, chegou ao porto da cidade da Horta o hidroavião NC 4 Curtiss Flyer, designado de "Liberty", hidroavião este da marinha americana pilotado pelo comandante Albert Cushing Read. Este voo histórico teve início no dia 8 do mesmo mês e foi o precursor de uma época de proezas aéreas, que tiveram lugar nas duas décadas seguintes, e às quais o nome do arquipélago ficou intimamente ligado. Ainda nesse mesmo ano de 1919 um outro hidroavião que viajava entre a Inglaterra e os Estados Unidos da América, fez escala na baía da Horta, a partir de então passaram a suceder-se as travessias oceânicas e a utilizarem as ilhas dos Açores como escala, nomeadamente com amaragens na baía do porto da Horta no Faial.



                                                                                    Hidroavião NC 4 Curtss Flyer (arq. priv.)

        



   Postal alusivo à travessia transatlântica em 1919 
  com hidroavião NC 4 Curtiss Flyer (col. priv.)


                
                                                         
                                                                                 Comandante Albet Cushing Read (arq. pess.)

                                                                           


Após um interregno de dez anos, período durante o qual a história da aviação ficou marcada pelas travessias oceânicas sem escala, os Açores e particularmente o porto da cidade da Horta, voltaram a ser um ponto de confluência dos voos transatlânticos. Em 21 de maio de 1932, uma das máquinas mais célebres em toda a história da aviação, o luxuoso e imponente Dornier DO X, que nessa época era o maior hidroavião do mundo, fez escala no porto desta cidade, antes de seguir para Vigo na Espanha. De origem alemã, conhecido também como  "Flugschiff" ("Barco Voador"). Com os seus 40 metros de comprimento, 48 de envergadura, 10 metros de altura, pesava cerca de 50 toneladas e com a capacidade de alojamento para 70 passageiros, o DO X, equipado com 12 motores de 610 Cv, que podia atingir uma velocidade de 210 km/h, tendo saído de Holyrood (Terra Nova) no dia 21, amarou junto a costa na freguesia da Ribeirinha e seguiu depois para o porto da Horta.


                                                                      Hidroavião Dornier DO X sobrevoando o Oceano (arq. pess.)

 
                                                                                        Hidroavião Dornier DO X  amarado (arq. priv.)

                  

                 
                                                           Passageiros desembarcando do hidroavião Dornier DO X (arq. pess.)

                 
                            
Mas um dos feitos mais importantes dessa época de pioneirismo da aviação também está ligado ao arquipélago dos Açores. Trata-se do famoso raide aéreo da esquadrilha do Marechal italiano Ítalo Balbo, comandante de um voo coletivo de 24 hidroaviões Savoia Marchetti S 55X que efetuou uma dupla travessia do Atlântico, o que constituiu uma proeza inaudita naquela época. A primeira etapa do raide foi a ligação Portobello (Itália) a Chicago. De regresso à Europa, a  esquadrilha visitou a Horta e Ponta Delgada, onde tiveram uma receção apoteótica, antes de rumarem a Lisboa.
                    
 

         
                                                                             Hidroavião Savoia Marchetti S 55X (arq. pess.)     



                                                                                      Receção da esquadrilha de hidroaviões
                                                                                           do Marechal Ítalo Balbo (arq. pess.)

                                                                                                         
                                                         

                                                                                             Marechal Ítalo Balbo (arq. pess.)
                                                                                 
                                                 Com a visita das esquadrilhas de Balbo concluiu-se, para o arquipélago dos Açores, o período dos raides transoceânicos, iniciando-se a época dos voos com vista ao desenvolvimento das carreiras aéreas comerciais. Assim, no intuito de estudar a viabilidade de futuras carreiras regulares transatlânticas, amarou em 21 de novembro de 1933 no porto da cidade da Horta, a serviço da companhia Pan American World Airways (PAN AM), o herói nacional americano e já Coronel, Charles Lindbergh, acompanhado da sua esposa, Anne Morrow, pilotando um monoplano Lockheed Sirius designado de "Tingmissartog", termo que no dialeto da Gronelândia, ilha onde o piloto fizera escala nesse voo à volta do Atlântico Norte, significa ("o que voa como um grande pássaro").
 

                                                                                                                 (arq. pess.)


                                                            Casal Lindbergh a bordo do seu hidroavião Lockheed Sirius (arq. priv.)



                                                                     Coronel Charles Lindbergh e esposa Anne Morrow (arq. priv.)
     
 
                                          
                                                                                                                                                                 
As negociações com o governo português continuaram, quando a PAN AM na primavera de 1937 cria a divisão do Atlântico, tendo em vista a linha aérea que ia ser operada pelos hidroaviões Boeing 314 ainda em construção. A partir de 1937 a PAN AM é autorizada a efetuar o voo de ensaio Nova York – Bermudas - Faial (Açores) - Lisboa - Marselha – Southampton . Concluídas as negociações com Portugal, a PAN AM inicia a construção de infra-estruturas e ao abrigo desse acordo constrói no porto da Horta instalações aeroportuárias, de telecomunicações terra/avião equipadas com rádio goniómetro. Em Lisboa/Cabo Ruivo são instalados equipamentos e infra-estruturas idênticas. É o inicio dourado da era dos hidroaviões Boeing 314 Clippers, que a partir de 21 de março de 1939, dão início as carreiras regulares entre a América do norte e a Europa, isto até ao ano de 1945. De destacar que o acidente mais grave com vitimas mortais envolvendo este tipo de aparelho, aconteceu a 22 de fevereiro de 1943, quando o hidroavião Boeing 314 designado de "Yankee Clipper" ao amarar em Lisboa nas águas do Tejo, sofreu um acidente, vitimando 24 pessoas entre passageiros e tripulantes. Nesse período, diversas companhias aéreas passaram a utilizar as águas das ilhas, nomeadamente o canal entre as ilhas do Pico e do Faial, como ponto de apoio para as suas rotas entre a Europa e a América do norte.


          

                                  Hidroavião Clipper da Boeing B-314 NC 18603 no porto da Horta, inicio dos anos 40 (arq. pess.)
                      
                                       

                                                                 Hidroavião Clipper da Boeing B-314 levantando voo (arq. pess.)
                              

Hidroaviões Clipper da Boeing B-314 amarados no porto da Horta, anos 40 (arq. pess.)
                                            

                                                                      Vista aérea do porto da Horta, ilha do Faial,  (arq. rev. LIFE)

             

                                                                            Passageiros desembarcando do hidroavião da PAN AM
                                                                                       na doca de Cabo Ruivo, Lisboa (arq. priv.)


      

Horário da PAN AM de 1939 (arq. priv.)
                                                           


                                                                                       Cartaz da PAN AM alusivo às ligações
                                                                                        entre Portugal e Espanha (arq. pess.)
                                                                                                  
        
                                                                                                                                                                                                                                                                                
A partir do final da II Guerra Mundial e com o fim dos hidroaviões, o porto da Horta passa somente a manter as atividades de entreposto comercial como antes e as escalas marítimas de reabastecimento, já na década de 60 iniciou-se o afluxo de iates e veleiros nas travessias entre o continente americano e a Europa. No interior do porto comercial, em 3 de junho de 1986, é inaugurada a marina do porto da Horta, o primeiro porto de recreio a ser inaugurado nos Açores. Em resultado disso, serão ampliadas as infraestruturas de uma nova gare marítima e ampliado o edifício do Clube Naval da Horta ai instalado, sendo inaugurado o novo terminal marítimo de passageiros em 29 de julho de 2012.


                                                          Vista geral do porto da Horta na ilha do Faial na atualidade (arq. pess.)



                                                     Projeto do novo porto da horta com marina para barcos de recreio (arq. priv.)


                         


Vista aérea do porto da Horta com a nova marina para barcos de recreio (arq. priv.)
                

                                                                                                                                   
                                                                Terminal marítimo de passageiros no porto da Horta (arq. priv.)



 

Texto:
Paulo Nogueira
  



Fontes e bibliografia:

SILVEIRA, Carlos M. Ramos da "O Faial na História da Aviação", in Arquivo Açoriano, vol. 16, parte 3,1972, p.477-544
TELO, António José, "Os Açores e o Controlo do Atlântico" (1898 - 1948), p. 557, Edições Asa, Porto, 1993
MESSIAS, Rui, Centenário: Açores e a Aviação, in Revista DI, nº 340, 18 de outubro de 2009, p. 16-17