domingo, 12 de abril de 2015

FORTE DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO, EM ALGÉS

 
 




Provavelmente muitos de nós se passarmos na Rua Major Afonso Palla em Algés, desconhecemos que sob parte do novo empreendimento designado de "Forte de Nossa Senhora da Conceição", se ergueu outrora uma pequena fortificação dos finais do século XVII princípios de do séc. XVIII, cujo nome era dedicado a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Das muitas fortificações construídas na barra do rio Tejo para proteger a entrada de navios inimigos no seu estuário e alcançar a capital portuguesa, o Forte de Nossa Senhora da Conceição de Pedrouços, como era designada aquela zona ribeirinha de Algés, foi construído no início do séc. XVIII com o objetivo de tornar mais eficaz a defesa contra um eventual desembarque espanhol nas águas do Tejo, na chamada defesa das "Praias" (designação dada à época para a região entre as ribeiras de Algés e Jamor), no contexto internacional que conduziu à Guerra de Sucessão Espanhola (1702-1714). Há cerca de duzentos anos considerava-se este Forte situado em Pedrouços (Pedroiços), pois Algés designava apenas o aglomerado populacional que hoje é Algés de Cima (Argel's e Algeis ). Toda a área ribeirinha portanto à época, entre Belém e São José de Ribamar era conhecido e designado por Pedrouços. Sabe-se que os Fortes de São José de Ribamar e o de Santa Catarina na Cruz Quebrada, se encontravam em construção no ano de 1649. Mas o Forte de Nossa Senhora da Conceição, assim como o menos conhecido Forte da Maruja, no Dafundo, ambos terão sido erguidos meio século mais tarde, já na transição para o século XVIII, embora com projeto do final do século XVII. O Forte de Nossa Senhora da Conceição, estava situado na margem direita do ribeiro de Algés, próximo da ponte de pedra da Estrada de Lisboa. Este Forte, exemplar de arquitetura militar, em estilo maneirista, apresentava planta no formato de trapézio isósceles, nos muros abriam-se quinze canhoeiras, onze pelo lado do rio e duas em cada um dos lados. Pelo lado de terra erguiam-se edificações de serviço e a meio rasgava-se o portão de armas. A primeira referência documental a seu respeito consta de um Decreto Real, datado de 30 de agosto de 1701, que nomeia como seu Governador o visconde de Fonte Arcada. A planta da sua estrutura encontra-se no trabalho de João Tomás Correia, no "Livro de Várias Plantas deste Reino e de Castela" (1736), onde se refere que o Forte se fez no ano de 1703. Uma segunda referência a esta estrutura é feita por António do Couto de Castelo Branco, nas suas "Memórias Militares" (1719).
Em meados de 1735 o Forte foi inspecionado por um oficial, anónimo, que o encontrou muito danificado pelas intempéries, segundo um relatório, também anónimo, de 1751, cita que foi "consertado de novo". Em 1758 encontra-se referido como Forte de Ponta do Palhais e em 1762, o seu Comandante era o Cabo Luís dos Santos Ribeiro. Sob o nº 299 o registo da "Décima Militar" de 1762 informa que nele reside o monsenhor João Guedes Pereira, razão pela qual era também conhecido à época como "Forte do Guedes".
 


                                         Detalhe com o Forte de Nossa Senhora da Conceição em  Algés e legenda na obra de 1763
                                         Vista e Perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (arq. Biblioteca Nacional de Portugal)


                                                            Planta do Forte de Nossa Senhora da Conceição de Pedrouços, da obra 
                                                               Livro de Várias Plantas deste Reino e de Castela de 1736  (arq. priv.)
                                                           
                                                               

 
                                        
                                         
                                                            Imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (arq. pess.)



Após a construção da Bateria do Bom Sucesso em 1780, entre as praias do "Bonsucesso" e "Pedroiços", perdeu a função estratégica, sendo abandonado como fortificação, transformando-se em residência particular. No recinto do Forte, que apresentava a forma de trapézio isósceles, cujo lado direito estava implantado junto à atual Praça 25 de Abril, é erguido mais tarde pelos condes de Pombeiro e marqueses de Belas um palácio. Seria provavelmente para o lado poente que se situava a entrada para o referido palácio, por um portão sobre o qual, num nicho, estava colocada a imagem da padroeira de Portugal, que deu nome ao Forte. Na obra "Memórias da Barra do Tejo e da Planta de Lisboa", de autor desconhecido, com data de 14 de agosto de 1803, o Forte de Nossa Senhora da Conceição, já não se encontra mencionado. Em 1818, já transformado em residência particular nunca mais é citado em qualquer lista ou relatório de fortificações. O palácio ai edificado, dos condes de Pombeiro e marqueses de Belas, nos finais do século XIX, era conhecido como Palácio da Conceição, uma habitação grande, de aspeto nobre e um belo jardim, segundo crónicas da época, passou a ter entrada pela Rua Direita, atual Rua Afonso Palla, tendo sido transferido para aí o nicho com a estátua de Nossa Senhora da Conceição, entretanto desaparecida. Numa passagem da obra de Mário Sampaio Ribeiro, "Da Velha Algés" (1938) registou; "...nos seu recinto [do forte de Pedrouços] os nobres condes de Pombeiro e Senhores de Belas levantaram sumptuoso palácio cujo portão é coroado pela imagem de pedra da Padroeira do Reino – N.ª S.ª da Conceição (…) Este portão foi demolido há relativamente poucos anos para se edificar o grande prédio chamado do Patrício, no actual Largo da Estação". É pois por alturas dos finais do século XIX que a ala poente do palácio é demolida, dando lugar a um prédio que ainda hoje lá está, com a fachada virada para a atual Praça 25 de Abril. O rio que chegava ainda ao palácio, foi ficando cada vez mais afastado e, junto ao que dele ficara, veio a passar a linha de caminho de ferro de Cascais (tema a desenvolver em próximo artigo)  e construída a estação do caminho de ferro de Algés, assim como mais tarde já na década de 1940, a Estrada Marginal Lisboa-Cascais (EN6). Entretanto o Palácio da Conceição, como era conhecido, sofreu sucessivas adaptações, o afamado Hotel da Glória, numa citação com tom de critica da revista "Digressão Recreativa, Passatempo Alegre ou Revista do Viver das Praias, na época dos Banhos do Mar, no Corrente Ano de 1870", dizia: "Do lado fronteiro às casas referidas, apresenta-se qual Dona respeitável, uma habitação grande, de aspecto nobre e quatro faces rectangulares; jardim sem flores, seco, mirrado e tostado foi, dizem as crónicas, Forte, sempre fraco, e palácio de nobilíssimos marqueses, distintos, e elegantes, marqueses, que por fatalidade, engano, acaso ou não sei porquê, deixaram de ser lindos eram sempre Belas, como ainda são. Agora vemos o Forte que foi palácio que deixou de ser, tudo enfim, convertido pelas alterações do tempo e variantes da sociedade, no afamado Hotel da Glória, templo dedicado aos Deuses da folia, e brincadeira, aonde vem por vezes, muitos celebrantes, entoar cânticos e hinos, em divertidas patuscadas, arranjando bicos, peruas, moefas e cabeleiras, de variados feitios, cada qual a seu gosto, para alegrar o espírito e refrescar a vista, crestado por aquelas áreas, apesar de tão próximo das margens e ondas puras do nosso grandioso e velho padre Tejo." Também as escritoras Branca de Gonta Colaço e Maria Archer na sua obra "Memórias da Linha de Cascais" (1943) se refere a este palácio assim como ao seu estado à época e às muralhas do forte; "no terreno ocupado pelas muralhas históricas vemos agora esse prédio e a velha construção arruinada onde estiveram o Correio, Junta de Freguesia, o Registo Civil, etc., e uma garagem". Mais tarde este palácio foi Casino, nele estiveram sedeados serviços administrativos vários, como os Correios, o Registo Civil, estabelecimentos comerciais, uma garagem e, finalmente a junta de Freguesia de Carnaxide.



     Pormenor de painel do Palácio dos Condes de Tentúgal séc. XVIII com vista de Algés (col. Museu do Azulejo)
                                                                                      

 

                                                    Detalhe de carta das margens Norte e Sul do Porto e Barra de Lisboa in cartografia
                                                                 de Oeiras vendo-se já referência ao Palácio dos Marqueses de Belas, 
                                                                                        em meados do séc. XIX  (arq. da CMO)


 
                                                       Postal ilustrado com estação do caminho de ferro de Algés do início do séc. XX
                                                                                  vendo-se ainda o Palácio da Conceição (col. pess.)
   
 
                                                  Estação do caminho de ferro de Algés vendo-se já o prédio do início do séc. XX
                                                                              junto ao antigo Palácio da Conceição (arq. priv.)


                                               Postal ilustrado do inicio do séc. XX vendo-se a Rua Direita com
                                                   o carro elétrico e o antigo Palácio da Conceição (col. pess.)


                                                      Ponte velha em Algés inicio do séc. XX, vendo-se o antigo Palácio da Conceição
                                                                                           ao fundo na Rua Direita (arq. AML)
                                                                                   


                             Vista geral do Palácio da Conceição em 1939,  com os serviços administrativos e correios
                                                                                            foto Eduardo Portugal (arq. AML)


                               Vista da estrada marginal e caminho de ferro  na zona de Algés em meados dos anos 40
                                                       e telhado do antigo Palácio da Conceição, foto Eduardo Portugal (arq. C.M.O.)


 
Traseiras do Palácio da Conceição já degradado em 1960, foto Artur Goulart (arq. priv.)
    

 
Este edifício incaracterístico marcado por sucessivas alterações ao longo dos tempos, foi, mesmo assim, incorporado, descrito e caraterizado no chamado Plano de Salvaguarda do Património construído no Conselho de Oeiras, com a intenção de o defender como testemunho do passado. No entanto de nada lhe valeu essa distinção e, em 17 de outubro de 2002, estava a ser demolido, à revelia do Centro de Estudos Arqueológicos do município, que de imediato embargou a demolição, precedendo à identificação dos dois panos de muralha ainda existentes, menos de metade da muralha virada para o rio e toda a do lado leste, cuja conservação e valorização ainda foi possível conseguir, impondo a reformulação do projeto inicialmente aprovado pela Câmara. De acordo com essa reformulação, no interior do designado "Empreendimento do Forte de Nossa Senhora da Conceição", nome este adotado pela EDIFER Imobiliária, foi construído então um espaço pedonal em que a muralha esta visível através de placas de vidro. Das quinze aberturas por onde saíram outrora as bocas dos canhões (canhoeiras), algumas das quais ainda foram encontradas, infelizmente nenhuma delas visíveis. Esta nova construção apresenta um estilo "pastiche" (utilização e reabilitação de elementos antigos originais com modernos) da antiga fachada do Palácio da Conceição, composto por cinco edifícios de habitação, uma zona comercial com 13 lojas, assim como dois pisos subterrâneos, para estacionamento, de onde é possível ver no primeiro piso parte do pano da muralha virado para o rio do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição.

 
Zona anexa ao antigo Palácio da Conceição em final dos anos 90 (arq. priv.)
 
 
 

                               Vista aérea da demolição do antigo Palácio da Conceição e parte da muralha e área
                                              marcada do Forte de Nossa Senhora da Conceição a descoberto (foto Google maps)
                                                       
 

                                          Início das obras do empreendimento no local do antigo Forte e Palácio Nª Sª da Conceição
                                                                      na Rua Major Afonso Palla, década de 2000 (arq. priv.)

 
 

     Maquetas NORIGEM  do Empreendimento do Forte de Nossa Senhor da Conceição (arq. priv.)
 


 
     Aspetos da antiga fachada do Palácio da Conceição no novo empreendimento, atualidade (fotos Paulo Nogueira)



   Antigo pórtico do Palácio da Conceição adaptado ao novo conceito arquitetónico"Pastiche" (foto Paulo Nogueira)
                                                                  



                                                   Fachada do novo empreendimento e espaços comerciais (foto Paulo Nogueira)



     Parte visível da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição e espaço pedonal (foto Paulo Nogueira)





                                                      Detalhes visíveis da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição
                                                                                                                  (arq. priv.)


     Janela com gradeamento ainda visível do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição  (foto Paulo Nogueira)


                                                                                                                             
 
     Aspetos do que resta da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição (fotos Paulo Nogueira)


                                                              Aspetos da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição
                                                                  onde se situavam as guaritas e canhoeiras (fotos Paulo Nogueira)
 
 
 
                                                    Restos visíveis exteriores da muralha do Forte de Nossa Senhora da Conceição
                                                                            e espaço pedonal na atualidade (foto Paulo Nogueira)






Texto:
Paulo Nogueira
 
Fontes e bibliografia:
CAULA, Bernardo de, fl. 1763-1789
CASTELO BRANCO, António do Couto de, "Memórias Militares" (1719)
CORREIA, João Tomás, "Livro de Vários Plantas deste Reino e de Castela" (1736)
"Memórias da Barra do Tejo e da Planta de Lisboa", de autor desconhecido (1803)
RIBEIRO, Mário Sampaio, "Da Velha Algés" , sep. Boletim Cultural e Estatístico da Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa (1938)
Revista "Digressão Recreativa, Passatempo Alegre ou Revista do Viver das Praias, na época dos Banhos do Mar, no Corrente Ano de 1870"
Branca de Gonta Colaço e Maria Archer , "Memórias da Linha de Cascais" edição parceria António Maria Pereira, Lisboa (1943)
CALLIXTO, Carlos Pereira, "Fortificações Marítimas do Concelho de Oeiras", 2ª reedição, C.M.O. Julho 2002
CASIMIRO, Jaime, Um forte mal identificado: O Forte da Maruja, in "A Voz de Paço de Arcos", nºs 145-146, Abril/Maio de 2005
Publicação on line Gazeta de Miraflores
Site Fortalezas.org.



domingo, 5 de abril de 2015

A PÁSCOA E AS OFERENDAS TRADICIONAIS


 




A origem da Páscoa é pagã, o seu nome original Ishtar (Deusa Lunar e da Primavera), deriva dai o termo inglês de Páscoa, "Easter". Foi uma comemoração amplamente celebrada por várias culturas e religiões do mundo, tanto no passado como na actualidade, tendo tido diversas designações desde a antiguidade até aos tempos modernos. A Páscoa,  com data variável, é a festa cristã, que comemora a Ressurreição de Jesus Cristo.
A Ressurreição de Jesus, é o nome dado à fé cristã de que Jesus retornou à vida no domingo seguinte à sexta-feira na qual ele foi crucificado. É uma doutrina central da fé e da teologia cristã e parte do chamado Credo Niceno; "Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, conforme as Escrituras". Os cristãos celebram a ressurreição no domingo de Páscoa, o terceiro dia depois da Sexta-Feira-Santa, o dia da crucificação. A data da comemoração da Páscoa correspondeu, a grosso modo, com a Páscoa judaica (Pessach), o dia de cumprimento dos judeus associado com o Êxodo narrado no antigo Testamento, que é calculado como sendo a noite da primeira Lua cheia depois do equinócio.



                                                          Ressurreição de Jesus por Rafael ( col. Museu de Arte de São Paulo, Brasil)



Como festa pagã, que celebra o despertar da primavera, foi um período marcado a partir do século XI, o primeiro dia do ano civil durante o qual era costume trocar presentes de Ano-Novo. Símbolo venerado do nascimento do Universo e alimento universal completo, o ovo transformou-se muito rapidamente no objeto e suporte de crenças, oferendas e ditados populares. Os povos babilónicos celebravam este dia como o retorno da Deusa Ishtar, (Deusa Lunar ou da Primavera), este dia celebrava o renascimento, ou reencarnação, da Natureza e da deusa da Natureza. De acordo com a lenda babilónica, um grande ovo caiu dos céus no rio Eufrates e a deusa Ishtar, eclodiu de dentro dele, outra versão mais tarde incluía um ninho, em que o ovo pode ser incubado até eclodir, sendo então colocados os ovos em ninhos de palha ou vime. A tradição da procura do ovo escondido foi criada para que se alguém encontrasse o ovo enquanto a deusa esta a renascer, ela concederia uma bênção especial a quem o encontrasse, passam a partir dai os ovos a ser pintados com as cores brilhantes da primavera para comemorar esse dia festivo, essa tradição ainda hoje em dia é muito comum nas culturas escandinavas. Vários povos adotam esta simbologia do ovo e a sua importância ligada sempre à fertilidade e criação do mundo. No entanto também esta tradição de embelezar os ovos vem da China, usando para isso técnicas naturais, embrulhando os ovos naturais em cascas de cebola e cozinhando-os com beterraba, isto para dar aos ovos um aspeto colorido, sendo depois decorados de forma minuciosa. Rapidamente este costume da oferta dos ovos coloridos chega ao Egipto e é iniciada esta tradição pelos cristãos coptas do Egipto no século X, retomada pelos alsacianos cinco séculos mais tarde. Este habito acaba por se tornar oficial pela igreja católica, a partir do séc. XVIII.

 

 
                                                                                Deusa Ishtar da Babilónia (col. British Museum)
 


 
                                                                   Tradicionais ovos naturais decorados tradicionalmente (arq. priv.) 

 


                                          Ilustração da Páscoa do séc. XIX inspirada na lenda da deusa Ishtar
                                                                                                            (col. pess.)



                                                                                     Tradicional procura dos ovos da Páscoa
                                                                                                     no séc. XIX (arq. pess.)
         
 
 

 

                                                                           
                                                          Técnica tradicional chinesa de colorir ovos naturais (arq. priv.)




    Exemplos de ovos da Páscoa chineses, coloridos e decorados com temas tradicionais (arq. priv.)
 

                                                                             Tradição dos ovos coloridos da Páscoa (arq. priv.)  


Foi na Inglaterra, o rei Eduardo I (1239-1307) que adquiriu o hábito de presentear a corte com ovos de galinha, pata ou gansa banhados a ouro ou enfeitados com pedras preciosas. Mas a tradição do ovo decorado oferecido por ocasião da Páscoa alcançou o seu refinamento e exagero, no século XVI pela nobreza francesa, que fez pintar os seus brasões e paisagens sobre a casca de ovos. O rei Luís XIV (1638-1715), chamado de "rei-sol", passa também a presentear com ovos de chocolate gigantes, que pelo tamanho eram puxados por 4 cavalos. Isto porque o cacau para o fabrico do chocolate e o seu uso na Europa se inicia a partir do séc. XVII. Nas zonas rurais, o ovo de Páscoa passa a ser usual a partir do século IX, depois da Igreja Católica ter imposto a Quaresma: durante os quarenta dias de jejum, as galinhas, insensíveis aos ditames religiosos, continuavam a chocar. Resultando dai um excesso de produção de ovos, distribuídos como oferendas à saída da missa da "Pascia", o primeiro domingo depois da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera. No século XVIII, os maiores ovos postos durante a Semana Santa pertenciam de direito ao rei e eram enviados aos Officiers de Bouche de Luís XIV, que os recolhiam na Île-de-France. Cuidadosamente transportados para Versalhes, esses grandes ovos eram recobertos com folhas de ouro, abençoados e em seguida oferecidos aos cortesãos merecedores. Mais tarde o rei Luís XV (1710-1774) ofereceu dois ovos famosos pintados por Watteau a Mme Royale sua filha, e presenteou a sua amante, 33 anos mais jovem que ele, Madame Du Barry, com um enorme ovo precioso, o qual continha no seu interior a estatua de Cupido, deus romano da paixão arrebatadora. Diz a lenda que ela ao abrir o ovo, deslumbrada com a escultura, desmaiou nos braços do amado. Apesar de a Revolução Francesa ter colocado um fim a essas práticas, a tradição do ovo de Páscoa permaneceu.



                                                                    Rei Eduardo I (arq. priv.)

 

Ovos banhados a ouro idênticos aos da época do rei Eduardo I
 (arq. priv.)




                                                                                Rei Luís XIV conhecido como "rei-sol" (col. priv.)



                                                                Decoração rica e artística ao gosto do séc. XVII de ovo da Páscoa
                                                                                                                 (arq. priv.)



     Utensílios para o fabrico do chocolate a partir do cacau no séc. XVII (arq. priv.)


                                                             Ovo da Páscoa em chocolate simulando revestimento a ouro (arq. priv.)




                                                                                                        Rei Luís XV (col. priv.)



                                                 Ovo da Páscoa semelhante ao oferecido pelo rei Luís XV com o cúpido (col. priv.)




Na Rússia Czarista a Páscoa era uma data muito especial e continua a ser no calendário da Igreja Ortodoxa Russa, todos se cumprimentavam com três beijos e diziam: “Cristo ressuscitou”, recebendo a resposta: “Verdadeiramente, Cristo ressuscitou”. E presenteavam-se com ovos, que representavam a nova vida que surgia, o renascer das esperanças a cada ano, um período  muito especial onde podemos renovar os nossos pensamentos e abrir a mente a um futuro melhor. Os ovos que o povo trocava entre si eram verdadeiros e pintados a mão. A família real Romanov e os nobres da corte também seguiam a tradição dos ovos e os ofereciam entre si, no entanto esses ovos eram feitos de materiais que incluíam metais como o ouro, prata, platina, níquel, paládio e cobre sendo decorados com esmalte, pedras preciosas e semipreciosas diversas. Esta tradição dos ovos imperiais preciosos é iniciada no ano de 1885, quando o Czar Alexandre III (1845-1894), encomendou ao joalheiro da corte imperial russa, Peter Karl Fabergé (1846-1920), um ovo como presente para a sua esposa a Imperatriz Maria Fedorovna que continha uma surpresa inesquecível no seu interior, ao critério do joalheiro. No caso do primeiro ovo denominado a “Galinha”, exteriormente com aparência de um simples ovo, em ouro esmaltado de branco, mas ao abri-lo revelava-se uma gema de ouro que dentro de si possuí uma galinha com olhos de rubi, dentro desta por sua vez continha um diamante lapidado com a réplica da coroa dos Czares. O sucesso foi enorme junto dos membros da corte, dando assim inicio a tradição dos ovos de Fabergé e este nomeado como fornecedor da Corte. Todos os anos o Czar encomendava um ovo diferente para dar à Czarina na Páscoa, sendo incumbido Fabergé elabora-lo como bem quisesse e a seu gosto.  
 
                 
                                                               Artesã russa pintado os tradicionais ovos da Páscoa (arq. priv.)


                                                                       Tradicionais ovos russos da Páscoa pintados (col. priv.)


                                                                                       Czar Alexandre III e família (arq. priv.)




                                                                  O joalheiro da corte imperial russa Peter Karl Fabergé (col. priv.)
 

 

                                            Primeiro ovo da Páscoa Imperial denominado "Galinha", de 1885
                                                                                                 (col. Fund. Victor Vekselberg)
 
 

Após a morte do Imperador em outubro de 1894, o seu filho Nicolau II (1868-1918), prosseguiu com esta tradição, encomendando a Fabergé dois ovos por ano, um para a sua mãe e outro para a sua esposa, Alexandra. O ovo encomendado em 1897 denominado de”Coroação”, sendo decorado com diamantes, rubis, cristal de quartzo, platina e ouro, dentro uma réplica da carruagem que transportou a Czarina pelas ruas de Moscovo durante as festividades da coroação de Nicolau II.
                          
 

                                                                  Czar Nicolau II (col. priv.)
 

                                                                Ovo da Coroação encomendado em 1897 (col. Fund. Victor Vekselberg)  
 

                                 

                                                  Ovo da Páscoa denominado "Lilases do Vale", de 1898
                                                                                                        (col.Times Fundation)
 
 

Os ovos de Fabergé eram peças únicas, alguns celebrando temas íntimos da família, outros celebravam eventos notáveis do Estado Russo como o comboio Transiberiano, entre outros temas. Estas peças eram dotadas de pequenos e delicados mecanismos que mostravam o segredo do seu interior. Este ovo anual era sempre a grande surpresa para a família imperial, admirado por toda a Corte e sendo objecto de desejo generalizado. Estes ovos por serem exclusivos e detalhadamente elaborados, tornaram-se peças valiosíssimas, levando um ano inteiro para serem confeccionadas, desde o desenho exclusivo, ao corte, a lapidação das pedras e todos os detalhes, envolvendo os mestres  da casa Fabergé, sendo tudo feito em absoluto sigilo. Os ovos eram cuidadosamente guardados junto do tesouro da família Rmanov. A cada ano os ovos da Páscoa Imperial ficavam mais ricos e extravagantes, até hoje considerados o topo supremo e o apogeu do artesanato de joias.
                    
 

                                                   Ovo dedicado ao comboio Transiberiano, de 1900
                                                                                                    (col. museu do Kremlin)
 

                  
Ovo dedicado ao filho do Czar, o príncipe Alexei, denominado "Czarevich", de 1912 (col. priv.)
 
         
 
 
Alguns exemplos de ovos da Páscoa Imperial criados por Fabergé entre 1885 e 1916, verdadeiras obras primas e expoentes máximos da joalharia, preservados em colecções particulares e museus.
     
                     

    Alguns ovos Imperiais da Páscoa de Fabrgé na posse de colecionadores privados e museus do mundo


O ultimo ovo da Páscoa produzido por Fabergé em 1917 para a família imperial russa, dedicado a ordem de S. Jorge, preservado na Colecção da Fundação Victor Vekselberg.
     





Com a Revolução Russa em 1917, terminou a produção destas peças e as últimas encomendas ficaram suspensas, o tesouro dos Romanov foi confiscado pelos bolcheviques sendo dispersado (incluindo os ovos) e a família imperial russa barbaramente assassinada em 1918. Todos os palácios do Império Romanov foram saqueados e os seus tesouros removidos por ordem de Vladimir Lenin (1870-1924), tendo sido levados para o palácio do Arsenal do Kremlin. Mais tarde vendidos alguns exemplares em 1927 por Joseph Stalin (1878-1953), por sua vez dispersos por coleccionadores e antiquários por todo o mundo, desconhecendo-se ainda até hoje o paradeiro de alguns exemplares. Foram produzidas 56 obras primas destas de 1885 a 1916. Até 1998 tinham sido localizados 44 destes exemplares, em 2002 noticiários internacionais davam conta que um ovo imperial tinha sido rematado num leilão da casa Christie’s pela quantia de 9,6 milhões de  dólares. O terceiro dos ovos da Páscoa  desaparecidos e avaliado em 24 milhões de euros, foi descoberto em 2014 num mercado de velharias em Nova Iorque. Peça composta por um relógio Vecheron Constantin que se encontra no seu  interior e mede  cerca de 8,2 cm de altura, foi oferecido na Páscoa de 1887 pelo Czar Alexandre III à sua mulher Maria Feodorovna, denominado “Serpente azul com relógio”. Alguns estão ainda em colecções privadas ou podem ser admirados em museus de todo o mundo.
                          


Ovos Imperiais da Páscoa de Fabergé de coleções privadas e museus do mundo


 
 Ovo da Páscoa denominado "Serpente Azul" com relógio de 1887, descoberto em 2014 (col. priv.)


                       

                                           
                                            Desenhos de dois dos ovos Imperiais de Fabergé desaparecidos (arq. priv.)
 
 
Após a Revolução Russa, a casa Fabergé foi nacionalizada pelos bolcheviques, a família Fabergé  fugiu para a Suíça onde se exila,  Peter Karl Fabergé viria a falecer em 1920. A história dos ovos de Fabergé é marcada pelo luxo e pela tragédia da família Imperial Russa. Disputados por coleccionadores em todo o mundo, os famosos ovos da Páscoa criados pelo famoso joalheiro russo são admirados pela perfeição e considerados expoentes  máximos na arte da joalharia. A casa Fabergé que voltou a renascer, esta atualmente representada em França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e Brasil. A joalheira produz séries limitadas de ovos em cristal “Saint Louis” vermelho, verde, azul ou translúcido,  a lapidação reproduz os desenhos originais do século XIX  e inicio do século XX.
    

 
 

     Fachada da casa Fabergé e ateliers em São Petesburgo finais do séc. XIX (arq. priv.)



   Casa Fabergé e seus artesãos no início do séc. XX (arq. priv.)

 

                                                               Peter Karl Fabergé criador dos famosos ovos da Páscoa (arq. priv.)

 


     Exemplos de ovos produzidos atualmente pela casa Fabergé (arq. priv.)                          

                                                                                                                                             

Quanto ao ovo da Páscoa de chocolate, o inicio da sua elaboração em chocolate é controverso, uns defendem a tese do seu aparecimento dada a proibição de ingestão de alimentos de origem animal na Páscoa, outros o aparecimento da industria do chocolate no século XIX. No entanto a sua eclosão situa-se no século XVIII, com a ideia de furar cuidadosamente a casca de um ovo verdadeiro e esvaziar o seu conteúdo antes de preenche-lo com chocolate. O aparecimento dos moldes e das técnicas de decoração do século XIX, unir-se-iam a essa tradição empírica, substituindo os ovos verdadeiros por ovos de chocolate. O primeiro ovo de chocolate gigante foi oferecido à grande Sara Bernhardt por um admirador, sem dúvida desanimado com os preços e a demora praticados por Fabergé. Surgem depois, com os sinos romanos dados às crianças, os coelhos alemães que excecionalmente chocam os ovos, as galinhas francesas e os peixinhos, que aqui não têm nada que ver, mas que atiçam todas as gulodices. Os ovos da Páscoa em chocolate, ornados com fitas, decorados de forma mais ou menos artística, grandes, vazios ou repletos de pequenos ovos recheados, com amêndoas ou pequenas surpresas, algumas até excêntricas valiosas e originais, elas saem da sua casca de chocolate escuro amargo ou chocolate de leite e fazem a festa quando são partidos.



                                                                  Primitiva técnica de preencher o ove verdadeiro com chocolate
                                                                                                                  (arq. priv.)


                                                                         Tradicionais ovos da Páscoa em chocolate (arq. priv.)


     Tradicionais ovos da Páscoa em chocolate revestidos por papel colorido (arq. priv.)



 
                                                              Postais ilustrados alusivos à Páscoa de início do séc. XX (col. pess.)

                                   

                                                                                 Postal ilustrado alusivo à Páscoa dos anos 10
                                                                                                            (col. pess.)
                                                                        


                                           Ovos da Páscoa em chocolate artisticamente decorados (arq. priv.)


                                                         Ovos de Páscoa em chocolate atuais com decorações diversas (arq. pess.)



                                            Ovo da Páscoa em chocolate branco com surpresa de chocolates no interior (arq. priv.)



Ovo da Páscoa em chocolate na atualidade com surpresas valiosas e originais (foto do fabricante)



Tradicionalmente, em Portugal, para além das amêndoas (porque parecem ovos pequeninos) e dos ovos (símbolo da vida), existem o pão-de-ló e os folares que se oferecem às crianças (especialmente pelos padrinhos). Os padrinhos e madrinhas costumam oferecer um folar aos seus afilhados (ou pão-de-ló, amêndoas ou dinheiro), que por sua vez devem entregar no domingo de Ramos um ramo de oliveira ao padrinho ou um ramo de violetas à madrinha. A tradição de oferecer estende-se também a familiares e a pessoas das quais se gosta, resultando em grandes trocas de amêndoas e folares. O conhecido bolo folar, chamava-se inicialmente "folore", simboliza a amizade e a reconciliação. Ele pode conter ovos, que é um dos símbolos da Páscoa, já que simbolizam a vida e a fertilidade. A tradição de pintar os ovos tem o propósito de celebrar a vida e nascimento. Habitualmente, para além dos folares e dos ovos de Páscoa, come-se pão-de-ló, amêndoas recheadas com frutos secos e cobertas de açúcar colorido ou chocolate, entre outras iguarias tradicionais, dependendo da região do país, muitas não sendo tipicamente nacionais, mas que entraram nos hábitos dos portugueses, como por exemplo os coelhinhos de chocolate da Páscoa.


 
                                                             Tradicionais amêndoas da Páscoa de açúcar e caramelo recheadas
                                                                           com chocolate, amêndoas ou frutos secos (arq. pess.)





     Típico folar da Páscoa oferecidos pelos padrinhos, contendo os tradicionais ovos (arq. pess.)




                                                                             Bolos típicos de Páscoa da Beira Baixa (arq. pess.)

 
                                                        

                                                                              Amêndoas da Páscoa com feitios de elementos naturais
                                                                                           recheadas com  licor (arq. pess.)



A tradição do famoso coelhinho de Páscoa, surge a par com as celebrações vindas do antigo Egipto onde o coelho simbolizava, tal como o ovo, o nascimento e a nova vida, outros povos associaram-no como o símbolo da Lua, o que pode ter influenciado a que se tornasse num símbolo pascal pelo facto de a Lua determinar a data da Páscoa. Certo é que os coelhos têm a uma notável capacidade de reprodução, dai a associação à Páscoa que marca a ressurreição e vida nova, tanto para os judeus como cristãos. Portanto quer o ovo quer o coelho, são símbolos associados a fertilidade e a renascimento da vida, dai serem tradição nesta data festiva que comemora a ressurreição de Jesus.
A Páscoa é assim um resultado de crenças e hábitos que o tempo se encarregou de misturar e adaptar consoante a época, ou religião. O que permanece inalterável é que a Páscoa é um momento de alegria e comunhão com a família e com a natureza, é um tempo de festa.
Uma Páscoa Feliz, repleta de alegria, prosperidade, renascimento e tudo o que ela representa!
 
 
 
Coelho da Páscoa em chocolate (arq. priv.)
 
 
                                                                                      Postal ilustrado de meados de 1915 com
                                                                                      alusão aos coelhos de Páscoa (col. pess.)



                                                                                 Coelho da Páscoa em chocolate com decoração
                                                                                                                       (arq. priv.)


                                                                            Ovo de Páscoa surpresa com coelhos e chocolates
                                                                                                                 (arq. priv.)


Oferendas em chocolate típicas da Páscoa (arq. pess.)
 
 



 
 
 
 


 Texto:
 Paulo Nogueira        


Fontes e bibliografia:
Sigrid Barten: Carl Fabergé. Kostbarkeiten russischer Goldschmiedekunst der Jahrhundertwende. Museum Bellerive, Zürich 1989
 LOPATO, Marina, Géza von Habsburg: Fabergé, imperial jeweller. Thames & Hudson, London 1993
NELSON, Thomas. The Orthodox Study Bible: Ancient Christianity Speaks to Today's World (versão inglesa).
Jesus Christ, Encyclopædia Britannica Online.
Versão atualizada do Credo Niceno-Constantinopolitano apresentada no Primeiro Concílio de Constantinopla (381), em Norman Tanner, New Short History of the Catholic Church, pag. 33 (Burns & Oates, 2011)
Great Preaching on the Resurrection by Curtis Hutson 2000, paginas 55-56