sábado, 25 de abril de 2015

A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS


  




Onde é que você estava no 25 de Abril de 1974?
As respostas podem ser várias, muitos dos leitores ainda não teriam nascido, mas naquela manhã de quinta-feira do dia 25 de Abril de 1974 com sol e temperatura amena, muitos despertavam para mais um dia rotineiro, dirigiram-se para os seus empregos como habitualmente o faziam, para as escolas ou universidades, outros ficaram em casa etc., etc.,  como se se tratasse de mais um dia qualquer, no entanto tudo iria mudar e não seria mais um dia como outro qualquer…
Foi há 41 anos.
Quando pelas 22h 55min. do dia 24 de Abril de 1974, é transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa, a canção "E Depois do Adeus" de Paulo de Carvalho, e na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 por volta das 0h 20min., após ter sido ouvido  na Rádio Renascença, o tema de José Afonso, “Grândola, Vila Morena” e logo após o comunicado a anunciar no Rádio Clube Português:
“Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas…” muita gente sabia ou tinha  percebido que algo de diferente  estaria  para  acontecer  e nesse mesmo dia  foram para as ruas comemorar com cravos encarnados. Cravos estes que segundo se conta, uma mulher, Celeste Caeiro, que trabalhava num restaurante na Rua Braancamp em Lisboa terá oferecido aos militares nas ruas, que os colocaram nos canos das espingardas e  passariam assim a simbolizar esse dia da liberdade. Passa por isso a designar-se esse dia de "Revolução dos Cravos".



                                                          Jovem mulher oferecendo um cravo a militar no dia 25 Abril de 1974 (arq. priv.)




                                                          Militares com cravos nas espingardas no dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)




Mas este golpe de Estado andava a ser pensado e organizado desde há algum tempo e no dia 24 de abril de 1974, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instala secretamente o posto de comando do movimento golpista no quartel da Pontinha, em Lisboa, denominado Movimento das Forças Armadas, (MFA). Por volta das 22h 55min. é transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa, no programa de João Paulo Diniz, a canção de Paulo de Carvalho (vencedora desse ano  do Festival RTP da Canção 1974), “E Depois do Adeus” como um primeiro sinal combinado pelos golpistas, para  a tomada da primeira posição do golpe de estado. O segundo sinal é dado às 0h 20min. quando a Rádio Renascença no programa Limite, transmite a canção “Grândola, Vila Morena”  de José Afonso (tema musical até então proibido nas rádios em Portugal), que confirma o golpe  e marca o início das operações. As 4h 26 min. é lido o primeiro comunicado do MFA, pela voz de Joaquim Furtado aos microfones  do Rádio Clube Português, seguido do hino nacional e várias marchas militares entre elas a marcha “A life on the Ocean Waves”  de Henry Russel e adotada como o hino do MFA.
O golpe militar do dia 25 de Abril de 1974, tem a colaboração de vários regimentos militares que desenvolvem uma acção concentrada em diversas cidades, tomando várias instituições do Estado por todo o norte do País, como o Quartel General da Região Militar Norte no Porto, o aeroporto de Pedras Rubras e as instalações da RTP Porto, liderado pelo Tenente Coronel Carlos de Azeredo.
À Escola Prática de Cavalaria que parte de Santarém, cabe um dos papéis mais importantes, a ocupação do Terreiro do Paço em Lisboa, com carros blindados, estas forças serão comandadas pelo então Capitão Salgueiro Maia (1944-1992), às primeiras horas da manhã e ocupam os Ministérios ali instalados, seguindo mais tarde com as suas forças para o Quartel do Carmo onde se encontra refugiado o presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano (1906-1980), juntamente com os ministros dos Negócios Estrangeiros e o da Informação e Turismo, que ao final do dia se rende, exigindo que o poder seja entregue ao General António de Spínola (1910-1996), visto este não fazer  parte do MFA, para que “o poder não caísse na rua”, segundo o chefe do Governo afirmou. Marcelo Caetano parte para a Madeira e depois ruma ao exílio no Brasil onde permanece atá a sua morte.
Ao longo deste dia os revoltosos foram tomando outros objectivos militares e civis, o aeroporto de Lisboa, estações de rádio e a RTP, tendo havido algumas situações tensas entre as forças fieis ao antigo regime e as tropas golpistas, sem confrontos armados nas ruas da capital, que em alguns casos por mera sorte e união de alguns, não se tornou em algo mais grave como um conflito armado e guerra civil. Todos os conflitos têm os seus heróis, e este não foi excepção, tivemos casos de verdadeiros heróis, uns mais esquecidos que outros. No entanto e no rescaldo dos confrontos deste dia, morrem quatro pessoas, quando elementos da polícia politica (PIDE/DGS), disparam sobre manifestantes à porta das suas instalações na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, considerando-se portanto o dia 25 de Abril de 1974, ter sido um  golpe relativamente pacifico. Poderá parecer discutível, mas em alguns casos o povo oprimido, depois de incitado e iludido por uma revolta desta natureza, no próprio dia da revolta e nos que se seguiram, quer em Lisboa quer em outras partes do País, cometeu grandes exageros no que respeita à liberdade, tomando de assalto, de forma indevida, bens e propriedades de alguns privados.
Uma ditadura que já batera recordes de longevidade é derrubada em menos de 24 horas assim como as suas instituições de repressão e a guerra colonial que se arrastava há quase mais de uma década como uma causa perdida. Este dia da liberdade ficará para sempre na história como o dia em que Portugal deu os seus primeiros passos em direcção à democracia.
Que os objectivos e direitos conseguidos nesse dia de Abril para uma verdadeira democracia em Portugal, nunca se percam.
E como as imagens valem mais que mil palavras, para comemorar estes 41 anos da Revolução dos Cravos do 25 de Abril de 1974, de todos quantos nela estiveram envolvidos, militares e civis, aqui ficam através de algumas imagens e vídeos, memória desse dia que foi diferente…
                    



                                                                                                         Vídeo luiisfdias




                                                                                            Vídeo Beyond the Cradle (arq. RCP)




    Capitão Salgueiro Maia  junto às tropas rendidas no dia 25 de Abril de 1974, foto Eduardo Gageiro (arq. AML)

 
 
Tropas na Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974, foto Alfredo Cunha (arq. AML)
    


Carros blindados e tropas na Rua Augusta em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974
(arq. Centro de Documentação 25 de Abril)



     Capitão Salgueiro Maia e as suas tropas no dia 25 de Abril de 1974, foto Alfredo Cunha (arq. AML)



                                                 Carro blindado com tropas na Praça do Comércio em Lisboa em 25 de Abril de 1974 
                                                                                       (arq. Centro de Documentação 25 de Abril)
                                                                             


     Carro blindado “chaimite” na Praça do Comércio no dia 25 de Abril de 1974, foto Alfredo Cunha (arq. priv.)



                                                        Fragata F-473 frente ao Terreiro do Paço de forças fieis ao antigo regime
                                                                     no dia 25 de Abril de 1974, foto Alfredo Cunha (arq. AML)
                                                                                          


 
Militares em carro blindado numa rua da Baixa de Lisboa no dia 25 de Abri de 1974 (arq. priv.)
 


                                                                  Militares e crianças na rua no dia 25 de Abril de 1974,
                                                                                            foto Eduardo Gageiro(arq. priv.)



     Carro blindado com tropas na Rua Serpa Pinto em Lisboa no 25 Abril de 1974 (arq. AML)




                                   Cerco do Largo do Carmo no dia 25 de Abril de 1974 (arq. Fundação Mário Soares)



     Capitão Salgueiro Maia falando aos civis no Largo do Carmo no dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)
                                                                    

 
                                                           Capitão Salgueiro Maia frente ao Quartel do Carmo em 25 de Abril de 1974,
                                                                                                 foto Alfredo Cunha (arq. AML)
                                                                                                  


   Militares frente ao Quartel do Carmo em carro blindado, em 25 de Abril de 1974, foto Alfredo Cunha
(arq. AML)
   
     
                                                                 
     Militares e blindado na entrada no Quartel do Carmo no dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)

 

                                              Carro blindado e militares juntos com civis no Largo do Carmo em 25 de Abril de 1974,
                                                                                              foto Alfredo Cunha (arq. priv.)



                                                    Multidão no Largo do Carmo, revista Século Ilustrado de 27 Abril 74 (arq. priv.)


  
     Capitão Otelo Saraiva de Carvalho e camaradas durante operações de rua (arq. priv.)

    

                                      Tropas do MFA tomando posição no elevador de Santa Justa no dia 25 de Abril de 1974
                                                                                                              (arq. Fundação Mário Soares)


Militares frente à sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso em Lisboa
 no dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)



                                                Militares mantendo a ordem pública na Praça da Figueira no dia 25 de Abril de 1974
                                                                                  (arq. Centro de Documentação do 25 de Abril)



                                                        Estudantes no dia 25 de Abril de 1974 junto ao ascensor da Glória (arq. priv.)



   Militares e civis comemorando na rua a liberdade em 1974 (arq. priv.)


          
                                               

                                           Militares e populares na cidade do Porto juntaram-se no dia 25 de Abril de 1974 (arq. JN)


   Tropas do MFA na Avenida dos Aliados no Porto, durante a revolução do 25 de Abril de 1974 (arq. JN)


                                 Viaturas militares na Avenida dos Aliados no Porto, no dia 25 de Abril de 1974 (arq. JN)


    A revolução de 25 de Abril de 1974 fez-se também na Câmara Municipal do Porto (arq. JN)





                                                                                                  Vídeo baresi88 (arq. RTP)





                                       Militares e civis nos Restauradores em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974
                                                                                 (arq. Centro de Documentação do 25 de Abril)


                                                     Militares ostentando cravos encarnados no dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)


                                                           Militares dos três ramos das forças armadas numa rua da baixa lisboeta
                                                                           em comemorações da liberdade em 1974, foto Uliano Lucas (arq. priv.)


                                                                                                                               
Criança ostentando cartaz do MFA (arq. priv.)
 
                                                      

                                                  Ilustração alusiva ao dia 25 de Abril de 1974 da revista Gaiola Aberta (col. pess.)





                                                                                        Vídeo 25 de Abril Sempre (arq. RTP)



                                                                            Jornal República de 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)


                                                                         Jornal A Capital do dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)                    




                                            Diversas publicações de jornais do dia 25 de Abril de 1974 (arq. priv.)



   
                                                     Capa do Século Ilustrado do dia 25 de Abril de 1974
                                                                                                                    (col. pess.)



                                                                               

 
Principais envolvidos no golpe de Estado do dia 25 de Abril de 1974, em que se destacaram Salgueiro Maia, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, Garcia dos Santos, Vítor Crespo, Eurico Corvado, Carlos Alberto Fabião, José Inácio Martins, Melo Antunes, Garcia dos Santos, Sanches Osório, Vasco Gonçalves, Lopes Pires entre outros denominados como "Capitães de Abril".
(imagem arq. Ciber Sul)




                                           Aspecto de departamento de ministério no dia 25 de Abril de 1974 após o regime deposto,
                                                                                              foto Alfredo Cunha (arq. priv.)

 



                                                                                     Vídeo  Paulo Nogueira (PNP/arq. RTP)





  Soldado retirando o retrato de Oliveira Salazar, é o fim do regime,
foto Eduardo Gageiro (arq. priv.)



Cartaz alusivo ao 25 de Abril de 1974 (col. pess.)






                                                                           Placa alusiva às vitimas do dia 25 de Abril de 1974
                                                                                  na Rua António Maria Cardoso em Lisboa
                                                                                                   (foto Paulo Nogueira)



                                             Um dos "Capitães de Abril", Vasco Lourenço nas comemorações do 25 de Abril de 2014
                                                                                no Largo do Carmo (arq. agência Lusa)
                                                                     


                                        Cravos prontos a serem lançados no dia 25 de Abril de 2014, foto Clara Azevedo (arq. priv.)



                                   Helicóptero da Força Aérea Portuguesa lançando cravos sobre a Praça do Comércio
                                                                                         em 25 de Abril de 2014 (arq. priv.)
















Texto:
Paulo Nogueira




Fontes e bibliografia:
Movimento dos Capitães e o 25 de Abril, 229 Dias para Derrubar o Fascismo, Avelino Rodrigues, Cesário Borga e Mário Cardoso, Lisboa, Moraes Editores
RODRIGUES, Paulo Madeira, De Súbito, em Abril - 24, 25, 26, Lisboa, Editora Arcádia
BARROSO, José Manuel, Segredos de Abril, Lisboa, Editorial Notícias
Centro de Documentação 25 de Abril  Fundação Mário Soares     

domingo, 12 de abril de 2015

FORTE DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO, EM ALGÉS

 
 




Provavelmente muitos de nós se passarmos na Rua Major Afonso Palla em Algés, desconhecemos que sob parte do novo empreendimento designado de "Forte de Nossa Senhora da Conceição", se ergueu outrora uma pequena fortificação dos finais do século XVII princípios de do séc. XVIII, cujo nome era dedicado a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Das muitas fortificações construídas na barra do rio Tejo para proteger a entrada de navios inimigos no seu estuário e alcançar a capital portuguesa, o Forte de Nossa Senhora da Conceição de Pedrouços, como era designada aquela zona ribeirinha de Algés, foi construído no início do séc. XVIII com o objetivo de tornar mais eficaz a defesa contra um eventual desembarque espanhol nas águas do Tejo, na chamada defesa das "Praias" (designação dada à época para a região entre as ribeiras de Algés e Jamor), no contexto internacional que conduziu à Guerra de Sucessão Espanhola (1702-1714). Há cerca de duzentos anos considerava-se este Forte situado em Pedrouços (Pedroiços), pois Algés designava apenas o aglomerado populacional que hoje é Algés de Cima (Argel's e Algeis ). Toda a área ribeirinha portanto à época, entre Belém e São José de Ribamar era conhecido e designado por Pedrouços. Sabe-se que os Fortes de São José de Ribamar e o de Santa Catarina na Cruz Quebrada, se encontravam em construção no ano de 1649. Mas o Forte de Nossa Senhora da Conceição, assim como o menos conhecido Forte da Maruja, no Dafundo, ambos terão sido erguidos meio século mais tarde, já na transição para o século XVIII, embora com projeto do final do século XVII. O Forte de Nossa Senhora da Conceição, estava situado na margem direita do ribeiro de Algés, próximo da ponte de pedra da Estrada de Lisboa. Este Forte, exemplar de arquitetura militar, em estilo maneirista, apresentava planta no formato de trapézio isósceles, nos muros abriam-se quinze canhoeiras, onze pelo lado do rio e duas em cada um dos lados. Pelo lado de terra erguiam-se edificações de serviço e a meio rasgava-se o portão de armas. A primeira referência documental a seu respeito consta de um Decreto Real, datado de 30 de agosto de 1701, que nomeia como seu Governador o visconde de Fonte Arcada. A planta da sua estrutura encontra-se no trabalho de João Tomás Correia, no "Livro de Várias Plantas deste Reino e de Castela" (1736), onde se refere que o Forte se fez no ano de 1703. Uma segunda referência a esta estrutura é feita por António do Couto de Castelo Branco, nas suas "Memórias Militares" (1719).
Em meados de 1735 o Forte foi inspecionado por um oficial, anónimo, que o encontrou muito danificado pelas intempéries, segundo um relatório, também anónimo, de 1751, cita que foi "consertado de novo". Em 1758 encontra-se referido como Forte de Ponta do Palhais e em 1762, o seu Comandante era o Cabo Luís dos Santos Ribeiro. Sob o nº 299 o registo da "Décima Militar" de 1762 informa que nele reside o monsenhor João Guedes Pereira, razão pela qual era também conhecido à época como "Forte do Guedes".
 


                                         Detalhe com o Forte de Nossa Senhora da Conceição em  Algés e legenda na obra de 1763
                                         Vista e Perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (arq. Biblioteca Nacional de Portugal)


                                                            Planta do Forte de Nossa Senhora da Conceição de Pedrouços, da obra 
                                                               Livro de Várias Plantas deste Reino e de Castela de 1736  (arq. priv.)
                                                           
                                                               

 
                                        
                                         
                                                            Imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (arq. pess.)



Após a construção da Bateria do Bom Sucesso em 1780, entre as praias do "Bonsucesso" e "Pedroiços", perdeu a função estratégica, sendo abandonado como fortificação, transformando-se em residência particular. No recinto do Forte, que apresentava a forma de trapézio isósceles, cujo lado direito estava implantado junto à atual Praça 25 de Abril, é erguido mais tarde pelos condes de Pombeiro e marqueses de Belas um palácio. Seria provavelmente para o lado poente que se situava a entrada para o referido palácio, por um portão sobre o qual, num nicho, estava colocada a imagem da padroeira de Portugal, que deu nome ao Forte. Na obra "Memórias da Barra do Tejo e da Planta de Lisboa", de autor desconhecido, com data de 14 de agosto de 1803, o Forte de Nossa Senhora da Conceição, já não se encontra mencionado. Em 1818, já transformado em residência particular nunca mais é citado em qualquer lista ou relatório de fortificações. O palácio ai edificado, dos condes de Pombeiro e marqueses de Belas, nos finais do século XIX, era conhecido como Palácio da Conceição, uma habitação grande, de aspeto nobre e um belo jardim, segundo crónicas da época, passou a ter entrada pela Rua Direita, atual Rua Afonso Palla, tendo sido transferido para aí o nicho com a estátua de Nossa Senhora da Conceição, entretanto desaparecida. Numa passagem da obra de Mário Sampaio Ribeiro, "Da Velha Algés" (1938) registou; "...nos seu recinto [do forte de Pedrouços] os nobres condes de Pombeiro e Senhores de Belas levantaram sumptuoso palácio cujo portão é coroado pela imagem de pedra da Padroeira do Reino – N.ª S.ª da Conceição (…) Este portão foi demolido há relativamente poucos anos para se edificar o grande prédio chamado do Patrício, no actual Largo da Estação". É pois por alturas dos finais do século XIX que a ala poente do palácio é demolida, dando lugar a um prédio que ainda hoje lá está, com a fachada virada para a atual Praça 25 de Abril. O rio que chegava ainda ao palácio, foi ficando cada vez mais afastado e, junto ao que dele ficara, veio a passar a linha de caminho de ferro de Cascais (tema a desenvolver em próximo artigo)  e construída a estação do caminho de ferro de Algés, assim como mais tarde já na década de 1940, a Estrada Marginal Lisboa-Cascais (EN6). Entretanto o Palácio da Conceição, como era conhecido, sofreu sucessivas adaptações, o afamado Hotel da Glória, numa citação com tom de critica da revista "Digressão Recreativa, Passatempo Alegre ou Revista do Viver das Praias, na época dos Banhos do Mar, no Corrente Ano de 1870", dizia: "Do lado fronteiro às casas referidas, apresenta-se qual Dona respeitável, uma habitação grande, de aspecto nobre e quatro faces rectangulares; jardim sem flores, seco, mirrado e tostado foi, dizem as crónicas, Forte, sempre fraco, e palácio de nobilíssimos marqueses, distintos, e elegantes, marqueses, que por fatalidade, engano, acaso ou não sei porquê, deixaram de ser lindos eram sempre Belas, como ainda são. Agora vemos o Forte que foi palácio que deixou de ser, tudo enfim, convertido pelas alterações do tempo e variantes da sociedade, no afamado Hotel da Glória, templo dedicado aos Deuses da folia, e brincadeira, aonde vem por vezes, muitos celebrantes, entoar cânticos e hinos, em divertidas patuscadas, arranjando bicos, peruas, moefas e cabeleiras, de variados feitios, cada qual a seu gosto, para alegrar o espírito e refrescar a vista, crestado por aquelas áreas, apesar de tão próximo das margens e ondas puras do nosso grandioso e velho padre Tejo." Também as escritoras Branca de Gonta Colaço e Maria Archer na sua obra "Memórias da Linha de Cascais" (1943) se refere a este palácio assim como ao seu estado à época e às muralhas do forte; "no terreno ocupado pelas muralhas históricas vemos agora esse prédio e a velha construção arruinada onde estiveram o Correio, Junta de Freguesia, o Registo Civil, etc., e uma garagem". Mais tarde este palácio foi Casino, nele estiveram sedeados serviços administrativos vários, como os Correios, o Registo Civil, estabelecimentos comerciais, uma garagem e, finalmente a junta de Freguesia de Carnaxide.



     Pormenor de painel do Palácio dos Condes de Tentúgal séc. XVIII com vista de Algés (col. Museu do Azulejo)
                                                                                      

 

                                                    Detalhe de carta das margens Norte e Sul do Porto e Barra de Lisboa in cartografia
                                                                 de Oeiras vendo-se já referência ao Palácio dos Marqueses de Belas, 
                                                                                        em meados do séc. XIX  (arq. da CMO)


 
                                                       Postal ilustrado com estação do caminho de ferro de Algés do início do séc. XX
                                                                                  vendo-se ainda o Palácio da Conceição (col. pess.)
   
 
                                                  Estação do caminho de ferro de Algés vendo-se já o prédio do início do séc. XX
                                                                              junto ao antigo Palácio da Conceição (arq. priv.)


                                               Postal ilustrado do inicio do séc. XX vendo-se a Rua Direita com
                                                   o carro elétrico e o antigo Palácio da Conceição (col. pess.)


                                                      Ponte velha em Algés inicio do séc. XX, vendo-se o antigo Palácio da Conceição
                                                                                           ao fundo na Rua Direita (arq. AML)
                                                                                   


                             Vista geral do Palácio da Conceição em 1939,  com os serviços administrativos e correios
                                                                                            foto Eduardo Portugal (arq. AML)


                               Vista da estrada marginal e caminho de ferro  na zona de Algés em meados dos anos 40
                                                       e telhado do antigo Palácio da Conceição, foto Eduardo Portugal (arq. C.M.O.)


 
Traseiras do Palácio da Conceição já degradado em 1960, foto Artur Goulart (arq. priv.)
    

 
Este edifício incaracterístico marcado por sucessivas alterações ao longo dos tempos, foi, mesmo assim, incorporado, descrito e caraterizado no chamado Plano de Salvaguarda do Património construído no Conselho de Oeiras, com a intenção de o defender como testemunho do passado. No entanto de nada lhe valeu essa distinção e, em 17 de outubro de 2002, estava a ser demolido, à revelia do Centro de Estudos Arqueológicos do município, que de imediato embargou a demolição, precedendo à identificação dos dois panos de muralha ainda existentes, menos de metade da muralha virada para o rio e toda a do lado leste, cuja conservação e valorização ainda foi possível conseguir, impondo a reformulação do projeto inicialmente aprovado pela Câmara. De acordo com essa reformulação, no interior do designado "Empreendimento do Forte de Nossa Senhora da Conceição", nome este adotado pela EDIFER Imobiliária, foi construído então um espaço pedonal em que a muralha esta visível através de placas de vidro. Das quinze aberturas por onde saíram outrora as bocas dos canhões (canhoeiras), algumas das quais ainda foram encontradas, infelizmente nenhuma delas visíveis. Esta nova construção apresenta um estilo "pastiche" (utilização e reabilitação de elementos antigos originais com modernos) da antiga fachada do Palácio da Conceição, composto por cinco edifícios de habitação, uma zona comercial com 13 lojas, assim como dois pisos subterrâneos, para estacionamento, de onde é possível ver no primeiro piso parte do pano da muralha virado para o rio do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição.

 
Zona anexa ao antigo Palácio da Conceição em final dos anos 90 (arq. priv.)
 
 
 

                               Vista aérea da demolição do antigo Palácio da Conceição e parte da muralha e área
                                              marcada do Forte de Nossa Senhora da Conceição a descoberto (foto Google maps)
                                                       
 

                                          Início das obras do empreendimento no local do antigo Forte e Palácio Nª Sª da Conceição
                                                                      na Rua Major Afonso Palla, década de 2000 (arq. priv.)

 
 

     Maquetas NORIGEM  do Empreendimento do Forte de Nossa Senhor da Conceição (arq. priv.)
 


 
     Aspetos da antiga fachada do Palácio da Conceição no novo empreendimento, atualidade (fotos Paulo Nogueira)



   Antigo pórtico do Palácio da Conceição adaptado ao novo conceito arquitetónico"Pastiche" (foto Paulo Nogueira)
                                                                  



                                                   Fachada do novo empreendimento e espaços comerciais (foto Paulo Nogueira)



     Parte visível da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição e espaço pedonal (foto Paulo Nogueira)





                                                      Detalhes visíveis da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição
                                                                                                                  (arq. priv.)


     Janela com gradeamento ainda visível do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição  (foto Paulo Nogueira)


                                                                                                                             
 
     Aspetos do que resta da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição (fotos Paulo Nogueira)


                                                              Aspetos da muralha do antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição
                                                                  onde se situavam as guaritas e canhoeiras (fotos Paulo Nogueira)
 
 
 
                                                    Restos visíveis exteriores da muralha do Forte de Nossa Senhora da Conceição
                                                                            e espaço pedonal na atualidade (foto Paulo Nogueira)






Texto:
Paulo Nogueira
 
Fontes e bibliografia:
CAULA, Bernardo de, fl. 1763-1789
CASTELO BRANCO, António do Couto de, "Memórias Militares" (1719)
CORREIA, João Tomás, "Livro de Vários Plantas deste Reino e de Castela" (1736)
"Memórias da Barra do Tejo e da Planta de Lisboa", de autor desconhecido (1803)
RIBEIRO, Mário Sampaio, "Da Velha Algés" , sep. Boletim Cultural e Estatístico da Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa (1938)
Revista "Digressão Recreativa, Passatempo Alegre ou Revista do Viver das Praias, na época dos Banhos do Mar, no Corrente Ano de 1870"
Branca de Gonta Colaço e Maria Archer , "Memórias da Linha de Cascais" edição parceria António Maria Pereira, Lisboa (1943)
CALLIXTO, Carlos Pereira, "Fortificações Marítimas do Concelho de Oeiras", 2ª reedição, C.M.O. Julho 2002
CASIMIRO, Jaime, Um forte mal identificado: O Forte da Maruja, in "A Voz de Paço de Arcos", nºs 145-146, Abril/Maio de 2005
Publicação on line Gazeta de Miraflores
Site Fortalezas.org.