sábado, 6 de junho de 2015

A ARTE COMO FORMA DE EXPRESSÃO

 






“Porque é que isto é arte?” , “O que é a arte?”  Poucas perguntas provocarão polémica mais acesa e tão poucas respostas satisfatórias. Embora não se possa chegar a conclusão alguma, é possível ainda assim lançar alguma luz sobre estas questões.  Arte, do latim ars e do grego teknê , significa técnica ou habilidade, a um saber fazer, é uma espécie de conhecimento técnico, mas também ao trabalho, à profissão, ao desempenho de uma tarefa. A arte pré-histórica desenvolveu-se entre o Paleolítico Superior e o Neolítico, onde aparecem as primeiras manifestações que podem ser consideradas como arte. No Paleolítico o homem, dedicado à caça e vivendo em cavernas, praticou a chamada arte rupestre. No Neolítico tornou-se sedentário e desenvolveu a agricultura, com sociedades cada vez mais complexas, onde a religião ganhou importância. São exemplos os monumentos megalíticos e um início de produção artesanal na forma de vasos de cerâmica e estatuetas. No Egito e na Mesopotâmia viveram as primeiras civilizações altamente estruturadas, e seus artistas/artesãos produziram obras complexas que já apresentavam uma especialização profissional. A arte egípcia  caracterizou-se  pelo caráter religioso e político, com destaque para a arquitetura, a pintura e a escultura. A escultura e a pintura mostram  a figura humana  num estilo fortemente hierático e esquemático, devido à rigidez dos seus cânones simbólicos e religiosos. A arte mesopotâmica desenvolveu-se em especial na área entre os rios Tigre e Eufrates, sendo testemunha de culturas diferentes, como os sumérios, acadianos, assírios e persas. Na sua arquitetura incluem-se os zigurates, grandes templos piramidais em degraus, enquanto que na escultura predominam cenas religiosas, de caça e de guerra, com a presença de figuras humanas e animais reais ou mitológicos. 

 
                                                            Ilustração de homem executando a chamada arte rupestre (arq. priv.)
 

 

                                       Cena ilustrando uma caçada em arte rupestre no interior de uma caverna
                                                                                      em Cuevas de La Valltorta (arq. priv.)
 


  Peças do neolítico do espolio de Tholos do Escoural (Museu Nacional de Arqueologia)
 




                                           Imagem da vénus de Willendorf (Museu de Historia Natural de Viena)







                                                                         Lança pertencente a Lugal, rei de Kish de à 2600 a. C.
                                                                                                                (col. priv.)

 


    Estela do rei Eannatum, narrando a sua vitória sobre a cidade de Umma de à 2450 anos a.C. (col. priv.)
                                                                                      

 
 
 Portão da deusa Inanna, representando o leão de Inanna (Museu Pergamon, Berlin)




                                                                                   Gudea de Lagash representado em estátua
                                                                                                         (Museu do Louvre)
 

 


Entrada da pirâmide de Gize no Egipto (arq. priv.)



                                                            Templo de Abu Simbel no Egipto (arq. priv.)



            Pintura egípcia sobre estuque de Nebamon caçando (Museu Britânico, Londres)


 

                                                             Busto de Nefertiti (Museu Alte, Berlin)

 

Pintura egípcia representando uma mumificação com o deus Anubis (col. priv.)

 

                                                 Mascara mortuária de Tutankamon (Museu egípcio, Cairo)



 
Na antiguidade greco-romana não se vislumbrava qualquer diferenciação entre arte e técnica, o mesmo é dizer, entre artista e artesão. O técnico era aquele que executava um trabalho, fazendo-o com uma espécie de perfeição ou estilo, em virtude de possuir o conhecimento e a compreensão dos princípios envolvidos no desempenho. Sempre associada ao trabalho dos artesãos, a arte era suscetível de ser aprendida e aperfeiçoada, até se tornar uma competência especial na produção de um objeto. Depois de um começo em que se salientaram as civilizações Minoica e Micênica, a arte grega desenvolveu-se em três períodos: arcaico, clássico e helenístico. Ao longo da nossa história como seres humanos, a arte sempre procurou surpreender-nos, maravilhar, chocar e até por vezes, indignar-nos perante as escolhas de temas e a forma como são abordados pelos artistas. Não importa a reação, a verdade é que a arte sempre foi uma forma de expressão do que sentimos, vemos, precisamos fazer, das aspirações de uma comunidade, em suma, do pulsar dos tempos. Faz portanto todo o sentido que a cultura através da arte como veículo, seja um pilar de sustentabilidade. 
No ocidente, um conceito geral de arte, ou seja, aquilo que teriam em comum coisas tão distintas como, por exemplo, a poesia de Homero, os autos  de mistério medievais, uma catedral gótica ou um retábulo barroco, só se começou a formar em meados do século XVIII, embora a palavra já estivesse em uso há séculos para designar qualquer habilidade particular ou especial. Na antiguidade clássica, uma das principais bases da civilização ocidental e a primeira cultura que refletiu sobre o tema, considerava-se arte qualquer atividade que envolvesse uma habilidade especial: habilidade para construir um barco, para comandar um exército, para convencer o público discursando, em suma, qualquer atividade que se baseasse em regras definidas e que fosse sujeita a um aprendizado e desenvolvimento técnico. Em contraste, a composição musical e a poesia, por exemplo, não eram  tidas como arte, pois era considerada fruto de uma inspiração.  Em meados do ano 1000 aparecem os  primeiros coros  na Europa, nos mosteiros e comunidades religiosas, numa herança do culto judaico, acredita-se porém, que no século I os cristãos  em Roma já cantavam em coro. Já na Grécia Antiga  faz-se referência a um coro, ligado ao teatro grego. Platão definiu arte como uma capacidade de fazer coisas de modo inteligente através de um aprendizado, sendo um reflexo da capacidade criadora do ser humano;  já Aristóteles  definiu-a  como uma disposição de produzir coisas de forma racional, e Quintiliano entendia-a  como aquilo que era baseado num método  e ordem. Por sua vez Cassiodoro  destacou o seu aspeto produtivo e ordenado, assinalando três funções para ela: ensinar, comover e agradar ou dar prazer. Esta visão atravessou o período da Idade Média, em que arte nesse período, sendo uma derivação direta da arte romana, inicia com a arte paleocristã, após a oficialização do cristianismo como religião do Império Romano. Trabalharam as formas clássicas para interpretar a nova doutrina religiosa. Porém, logo o estilo clássico se pulverizou numa multiplicidade de escolas regionais, com o aparecimento de formas mais esquemáticas e simplificadas. 


 

                                                                Construção grega em Atenas (arq. priv.)

 


 
                                                          Vaso grego (Museu Calouste Gulbenkian)



                                                         Vaso grego em forma de ânfora (col. priv.)


 


    O coliseu, um dos monumentos mais conhecidos da Antiga Roma (foto de Urse Ovidiu)



                                                             Estatua de Augusto de prima porta
                                                                                                       (Museus do Vaticano)



                                                                  Vaso romano (arq. priv.)




    Pormenor de mosaico romano da casa de Pantera do ano IV d.C. (Museu Nacional de arte romana, Badajoz)

 


                                                          Templo romano de Évora (arq. priv.)



                                                            Imagem de Lar romano, século I d.C.
                                                                                                   (Museu do Prado, Madird)





    Cena da Natividade num sarcófago romano do séc. IV (Museu Nacional Romano, Roma)



Mas será na época do Renascimento que se inicia uma mudança, separando os ofícios produtivos e as ciências das artes propriamente ditas, incluindo-se pela primeira vez a poesia no domínio artístico. O Renascimento e o chamado Maneirismo (nome empregado para designar as manifestações artísticas desde 1520, momento quando se inicia a crise do renascimento, até o início do século XVII), assinalam o início da arte moderna. As novas descobertas geográficas levaram a civilização europeia a expandir-se para todos os continentes, e através da invenção da imprensa a cultura universalizou-se. O estilo da sua arte foi inspirada basicamente na arte clássica greco-romana e na observação científica da natureza. O conceito de beleza  relativizou-se, privilegiando-se a visão pessoal e a imaginação do artista em detrimento do conceito mais ou menos unificado e de índole científica do Renascimento. Também se deu valor ao fantástico e ao grotesco. Para Giordano Bruno (1548-1600), havia tantas artes quantos eram os artistas, introduzindo o conceito de originalidade, pois para ele a arte não tem normas, não se aprende e surge da inspiração.

 


                                             Arquitetura de igreja bizantina (foto de Leandro Neumann Ciuffo)





     Frontal de altar pintado, autor anónimo, século XII (Museu Nacional de Arte da Cataluña)




                                                                 Retábulo com imagem de São Luís (col. priv.)



Catedral de Notre Dame de Paris (arq. priv.)




                                                   Manuscrito da Missa O Crux Lignum de Antoine Busnois do sec. XV (col. priv.)
 


Representação de músicos da época medieval (col. priv.)





 
                                                                                Rosácea lateral de vitral da catedral de Chartres,
                                                                                  representando o resumo da ordem do Universo
                                                                                                               (arq. priv.) 
      




                                                     Tapeçaria de meados do séc. XV intitulado "La Dame à la licorne", por L'Odorat
                                                                                                      (Museu de Cluny, Paris)


 

Só a partir do século XVIII começou a consolidar-se a estética  como um elemento-chave para a definição de arte como hoje a entendemos; a despeito da vagueza e inconsistências do conceito. Até então toda a arte do ocidente estava indissociavelmente ligada a uma ou mais funções definidas, ou seja, era uma atividade essencialmente utilitária: servia para a transmissão de conhecimento, para a estruturação e decoração de rituais e festividades, para a invocação ou mediação de poderes espirituais ou mágicos, para o embelezamento de edifícios, locais e cidades, para a distinção social, para a recordação da história e a preservação de tradições, para a educação moral, cívica, religiosa e cultural, para a consagração e perpetuação de valores e ideologias socialmente relevantes, e assim por diante. O barroco é o nome dado ao estilo artístico que floresceu entre o final do século XVI e meados do século XVIII, inicialmente na Itália, difundindo-se em seguida pelos países católicos da Europa e da América, antes de atingir, numa forma modificada, as áreas protestantes e alguns pontos do Oriente. Na sua sequência foi o Rococó, surgido a partir de meados do século XVIII, com formas mais leves e elegantes, privilegiando o decorativismo, a sofisticação aristocrática e a sensibilidade individual. Ao mesmo tempo que se firmava uma corrente iluminista, pregando o primado da razão e um retorno à natureza. Esta mudança de paradigma estava ligada a transformações culturais desencadeadas pelo chamado método científico e o iluminismo. Estas correntes de pensamento passaram a defender a tese de que a arte não era uma ciência, não podia descrever com exatidão a realidade, e por isso não poderia ser um veículo adequado para o conhecimento verdadeiro. Não sendo uma ciência, a arte passou para a esfera da  emoção e da sensibilidade.


 

                                          Construção do período renascentista Torre de Pisa em Itália (arq. priv.)





    Fresco renascentista representando a Escola de Atenas por Rafael entre 1509-1511 (Palácio Apostólico, Vaticano)



                                                      O homem vitruviano segundo a interpretação de Leonardo da Vinci (col. priv.)
 


                                                                 Retrato de Mona Lisa ou A Gioconda por Leonardo da Vinci 1506 
                                                                                                   (Museu do Louvre, Paris)



     Painéis São Vicente de Fora o séc. XV por Nuno Gonçalves (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)




                                                 Painel de São Pedro por Vasco Fernandes para a Sé de Viseu por volta de 1530-1535
                                                                                                (Museu Grão Vasco, Viseu)
 



     Mosteiro da Santa Maria de Belém, Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, finais dos sés. XVI (arq. priv.)


 

                                                  Imagem de Nossa Senhora do Leite finais do séc. XVI,
                                                                                              autor desconhecido (col. pess.)




                                                Batalha de Montes Claros, painel de azulejos do séc. XVII (Palácio de Fronteira, Lisboa)



 
 Altar em estilo barroco do séc. XVIII da igreja de São Francisco de Salvador da Bahia (arq. priv.)
 
 
 
 
Imagem de Nossa Senhora da Conceição do séc. XVIII,
 estilo barroco indo português (col. priv.) 
 
 
 
 
                                                                        Peça de cerâmica portuguesa estilo barroco do séc. XVIII
                                                                                                                   (col. priv.)





    Um dos expoentes da arquitetura barroca no séc. XVIII em Portugal, o palácio e convento de Mafra (arq. priv.)





      Pintura estilo rococó intitulada "The Swing" de 1767 por Fragonard
           (Wallace Collection, London)




                               Painel de azulejos portugueses do séc. XVIII do salão nobre (Museu dos Biscainhos, Braga)
 



     Um  os expoentes da arquitetura rococó no séc. XVIII em Portugal, o palácio Nacional de Queluz (arq. priv.)

 

O esteticismo foi um dos elementos teóricos básicos para a emergência do designado Romantismo, já no século XIX, que rejeitou o utilitarismo da arte e deu um valor principal à criatividade, à intuição, à liberdade e à visão individuais do artista, erigindo-o ao status de Deus e profeta,  fomentando com isso o culto do génio. Por outro lado, o esteticismo ofereceu uma alternativa para a descrição de aspetos do mundo e da vida que não estão ao alcance da ciência e da razão. Surge também o Realismo que se caracteriza como um movimento cultural e literário, ocorrido na segunda metade do século XIX aproximadamente, marcando uma total mudança de pensamento em relação ao Romantismo. O pintor Silva Porto é tido com um dos fundadores deste movimento em Portugal. Nesse período, devido às mudanças sociais ocorridas, os artistas passaram a ver o mundo de maneira completamente diferente, dando lugar a uma visão bem mais crítica da realidade que os cercava. É também no século XIX que o canto coral passa a ser disciplina obrigatória nas escolas de Paris. Nessa mesma época surge a ideia dos Festivais de Música. A prática coral passa a ter um caráter e compromisso mais social. No século XX, acontece o aprimoramento de determinadas práticas e acontece o retorno às origens de cada estilo, procurando através da pesquisa, delinear o espírito de cada época, na qual cada obra foi criada. A obra de arte é um espelho da sua época.

 


                                              Pintura romântica intitulada "O guarda sol" de Francisco de Goya finais dos séc. XVIII
                                                                                                           (Museu do Prado, Madrid)

 
 
          Pintura romântica do séc. XIX intitulada "A liberdade guiando o povo" por Eugène Delacroix, em 1830 
                                                                                                     (Museu do Louvre, Paris)
 
 
 
 
    Exemplo da arte romântica em Portugal do séc. XIX o palácio da Pena em Sintra de 1840 (arq. priv.) 
     
                                                                                                                                       
              

                                                            Escultura em bronze intitulada "O desterrado" de Soares dos Reis, 1872
                                                                                                        (Museu do Chiado, Lisboa)

                                           

                                                            Pintura romântica intitulada "Hide and seek" de 1877 por James Tissot
                                                                                      (The National Gallery of Art, Washington)

                                                           


                                                    Candeeiro a azeite (sistema moderateur) em porcelana de meados do séc. XIX
                                                                                          decorado ao estilo romântico (col. pess.)
                                          
                                                                      


                                                    Capa de caderno de pautas de músicas típicas do
                                                                                        período romântico, a polka (col. pess.) 
                                                                                       



                                                       Pintura do final do romantismo intitulada "En plein solei" por James Tissot 1881
                                                                                          (Metropolitan Museum of Art, New York)

 

     Escadaria principal do palacete Ribeiro da Cunha no Largo do Príncipe Real em Lisboa (arq. priv.)



    Castelo de Neuschwanstein, já em stilo neorromântico 1886, visto de Marienbrücke (arq. priv.)




     Pintura do séc. XIX em estilo realista por Jožef Petkovšek (National Gallery of Slovenia)



     Pintura em estilo realista portuguesa do séc. XIX intitulado "colheita ceifeiras" de Silva Porto, 1893 (col. priv.)

 
 

O século XX caracterizou-se  por um forte ênfase no questionamento das antigas bases da arte, propondo-se  criar um novo paradigma de cultura e sociedade assim como derrubar tudo o que fosse tradição. Até meados do século as vanguardas foram enfeixadas no rótulo de modernistas, e desde então elas sucedem-se cada vez com maior rapidez, chegando aos dias de hoje a um estado de total pulverização dos estilos e estéticas, que convivem, dialogam, influenciam-se e  enfrentam-se mutuamente. Também surgiu uma tendência de solicitar a participação do público no processo de criação, e incorporar ao domínio artístico uma variedade de temas, estilos, práticas e tecnologias antes desconhecidas ou excluídas. Entre as inúmeras tendências do século XX podemos citar: art nouveau, fauvismo, pontilhismo, abstracionismo, expressionismo, realismo socialista, cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, funcionalismo, construtivismo, informalismo, arte pop, neorrealismo, artes de ação (performance, happening, fluxus, instalação), op art, videoarte, minimalismo, arte conceitual, fotorrealismo, land art, arte povera, body art, arte pós-moderna, transvanguarda, neoexpressionismo. A definição de arte no século XX tornou-se  tão complexa, volátil e subjetiva que muitos estudiosos abandonaram de todo a ideia de que a definição do que é arte é de alguma forma possível. A título de exemplo, cite-se algumas opiniões: 
Morris Weitz (1916-1981), declarou que "o próprio caráter aventuroso e expansivo da arte, suas constantes mutações e novidades, torna ilógico que estabeleçamos qualquer conjunto de propriedades definidas".
Wladyslaw Tatarkiewicz (1886-1980), afirmou que "o nosso século chegou à conclusão de que conseguirmos uma definição abrangente do que é arte é não apenas algo dificílimo, como impossível". 
Estas visões, porém, não impediram que outros críticos lançassem opiniões diferentes, crendo ser possível uma definição lógica.
 


 
                                                              A torre Eiffel em Paris, um dos monumentos em estilo art nouveau
                                                                                             de finais do séc. XIX (arq. priv.)
                                                                              



    Pintura em estilo  abstracionista intitulado "Fugua" por Wassily Kandinsky, 1914 (col. priv.)

 
 
 
Escultura de mulher em bronze e pedra,  meados dos anos 20 estilo art decó, de Fayral (col. priv.)
 
 
 
 
            Pintura em estilo surrealista de 1925 intitulada "Arlequim de Carnaval" de Joan Miro (Art Gallery, Buffalo)
 
 
 

Obra intitulada GUERNICA de Pablo Picasso 1937 ( Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, Madrid)




                             Pintura mural de Paulo Ferreira intitulada "Nossa Senhora da Nazaré", início dos anos 40
                                                                                              (Museu de Arte Popular, Lisboa)





                                Pintura a óleo sobre tela intitulado "Xeque-Mate" de Vieira da Silva, 1949/50 (col. priv.)
 



                                                   Objeto do quotidiano o espremedor estilo Bauhaus
                                                                                         de meados dos anos 50 (col. priv.)




Esculturas em bronze intituladas "Os Candangos" de José Cruz, na cidade de Brasília (arq. priv.)
 





     Obras dos anos 60 no estilo artístico designado pop art de Andy Warhol (col. priv.)

                                                                            


                                      Escultura intitulada "Femme" de Joan Miro, 1981 (Casa de la Ciutat, Barcelona)



                                                                       Pintura de 1987 intitulada "Maids" de Paula Rego (col. priv.)




                                          Arquitetónico modernista de 1998, Pavilhão de Portugal no Parque das Nações em Lisboa
                                                                                  da autoria de Álvaro Siza Vieira (arq. priv.)



                                                                                      Escultura de bronze em Castelo de Vide
                                                                                                        (foto Paulo Nogueira)

 

 Graffiti da década de 2000 em Nova Iorque (arq. priv.)
 
 
 
Diversos tipos de dança (arq. priv.)




                                              Atuação de canto coral (foto Coro de câmara Outros Cantos)



                                                          Teatro e representação em palco (arq. priv.)



 
                                                                                       Projeção de cinema e vídeo (arq. priv.)



                                                                                           Imagem de arte digital (arq. priv.)




                                                                             Arte final dos vídeo jogos (foto do fabricante)



A pintura é uma forma de arte plástica ou visual, incluem paisagem, retrato, nu, natureza morta, cena histórica, etc. Já a poesia é uma forma de literatura. Uma forma de arte é uma forma específica de expressão artística, é um termo mais específico do que arte em geral, mas menos específico do que género. Alguns exemplos incluem Arquitetura, Arte digital, Banda desenhada, Cinema, Dança, Desenho, Escultura, Graffiti, Fotografia, Literatura (Poesia e Prosa), Teatro, Música, Pintura, etc. Um género artístico é o conjunto de convenções, temáticas e estilos dentro de uma forma de arte e media. Por exemplo, o Cinema e o Vídeo, possuem uma gama de géneros, como aventura, horror, comédia, romance, ficção científica, etc. Na música, há centenas de géneros musicais, que variam de região, cultura, e vai da música erudita clássica, à música folclórica, ao rock, música pop, muzak, etc. Existem várias expressões que servem para descrever diferentes manifestações de arte, por exemplo: artes plásticas, artes cénicas, arte gráfica, artes visuais, etc. 

 




                                                                                 A arte da pintura e a obra final (arq. e col. priv.)





                                              A arte da escultura com cinzel e a obra final (arq. e col priv.)





                                                                                       Produção de fotografia (arq. pess.)




                                            A arte da fotografia (fotos de Paulo Nogueira e Manuel Gonçalves)





                                                    Orquestra sinfônica de Rio Claro na abertura da temporada de 2012 (arq. priv.)





                                                       Bastidores de produção de cinema (arq. priv.)



                                                                                             Produção de vídeo (arq. pess.)




                                                           Produção de vídeo jogos (foto do fabricante)






                                                          Banda desenhada e arte digital (arq. priv.)




 




                                                                   Arte do grafiti na Rua Dr. Francisco Sousa Tavares jornalista,
                                                                                  na Damaia, Amadora (fotos Paulo Nogueira) 


 

Alguns autores (como Hegel e Ricciotto Canudo) e pensadores, organizaram as diferentes artes numa lista numerada. A inclusão de algumas formas de arte não foi muito consensual, mas com a evolução da tecnologia, esta é a lista mais comum nos dias de hoje para caraterizar as artes:

1ª Arte - Música
2ª Arte - Dança / Coreografia
3ª Arte - Pintura
4ª Arte - Escultura / Arquitetura
5ª Arte - Teatro
6ª Arte - Literatura 
7ª Arte - Cinema/Vídeo
8ª Arte - Fotografia
9ª Arte - Banda desenhada 
10ª Arte - Jogos de Computador e de Vídeo
11ª Arte - Arte digital

 



                                                     As artes nas suas formas de expressão (arq. priv.)



 
A arte está ligada à estética, porque é considerada uma faculdade ou ato pelo qual, trabalhando uma matéria, a imagem ou o som, o homem cria beleza ao se esforçar por dar expressão ao mundo material ou imaterial que o inspira. A arte portanto, pode ser entendida como a atividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, sendo um veículo da sustentabilidade da cultura de um povo e do seu relacionamento com o meio ambiente, reveste-se na importância de preservar a identidade dos povos através de testemunhos concretos e é através destes testemunhos que as gerações vindouras encontraram essencialmente a sua identidade. É pois por isso imperativo que a defesa do património cultural seja inserida nas estratégias de desenvolvimento sustentável. Fazendo história e com o objetivo de preservar a cultura em todas as suas cambiantes assim como a sua divulgação, foi inaugurada no passado domingo 31 de Maio de 2015 pelas 18:00 a sede social e cultural cultur'canto, instalada na antiga escola EB1 do lugar de A-da-Perra, município de Mafra, que contou com a presença do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Mafra (C.M.M.), Eng.º Hélder Sousa Silva, as Sras. Vereadora Aldevina Rodrigues e Célia Fernandes e o padre Teodoro, pároco da freguesia, entre outras individualidades deste Conselho, assim como demais convidados amantes da música e da cultura em geral, contou ainda com algumas atuações e demonstrações de diversas expressões artísticas como o canto, música, artes circenses e pintura.  A sede foi inaugurada pelo autarca do município de Mafra o Eng.º Hélder Sousa Silva e o Presidente da Direção deste novo espaço cultural, Jorge Afonso, ensaiador e maestro do Coro de câmara Outros Cantos. Fica aqui o testemunho deste dia que fez história  na divulgação e promoção da arte em Portugal no conselho de Mafra, com a inauguração deste novo espaço. 
Aqui ficam algumas fotos e a reportagem em vídeo desse dia.


 

    Aspeto do edifício da sede social associação cultural cultur'canto em A-da-Perra Mafra (foto Paulo Nogueira)



Convidados na cerimonia de inauguração da sede social e cultural cultur'canto (arq. priv.)



    O Presidente da cultur'canto , Jorge Afonso, no discurso da cerimonia inaugural (foto Paulo Nogueira)



                                           Momento da inauguração oficial da sede social de cultura cultur'canto
                                                                            com as Sras. vereadoras e o pároco Teodoro (arq. priv.)



    Placa alusiva à inauguração da sede social e associação de cultura cultur'canto (foto Paulo Nogueira)



                                              Presidente da C.M.M. Eng.º Hélder Sousa Silva e Jorge Afonso Presidente da Direção
                                                                                      nas instalações da cultur'canto (arq. priv.)





                                                                               Obras de arte e escultura na sede da cultur'arte
                                                                                                         (fotos Paulo Nogueira)
                                                                                    
                                                             

     Convidados da inauguração nas instalações da sede social e cultural cultur'canto (arq. priv.)



                                                                         Aguarela do pintor Rui Pinheiro da sede da cultur'canto
                                                                                                       (fotos Paulo Nogueira)
                                                                  


 






 



Texto:
Paulo Nogueira

 

Fontes e bibliografia:

ECO, Umberto. Historia de la belleza. Barcelona: Lumen, 2004
WOODFORD, Susan, A Arte de ver a Arte. Círculo do Livro, 1983
JANSON H. W. História da Arte, 4ª edição, Edições da Fundação Calouste Gulbenkien, Lisboa  Novembro , 1989
BOZAL, Valeriano et alli, História de las ideas estéticas y de las teorías artísticas contemporáneas. Madrid: Visor, 2000 vol. I, pag. 324-329


 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

BARTOLOMEU O PORTUGUÊS E O CÓDIGO DE CONDUTA DOS PIRATAS

 
 

 
 
 
 
A história da pirataria nas Índias Ocidentais (Caraíbas e Antilhas), encontra-se repleta de narrativas descrevendo os ataques perpetrados por ingleses franceses e holandeses contra os espanhóis naqueles mares. Colonos franceses expulsos da ilha de Hispaniola (actual ilha do Haiti e República Dominicana), antigos caçadores de búfalos e porcos selvagens, tornaram-se piratas, tendo sido apelidados de "Boucan" ou "Boucanniers" (do termo inglês "Boucanneers"), em português Bucaneiros. Expulsos e perseguidos do território espanhol, os caçadores juntaram-se a grupos de escravos e cortadores de lenha do México que tinham fugido, desertores, antigos soldados e outros que tinham sido atacados por navios espanhóis, por isso, este tipo de pirata tinha grande ódio aos espanhóis e semearam a vingança nos navios destes. Em meados do século XVII, a palavra "bucaneiro" aplicou-se à maioria dos piratas e corsos que eram originários de bases das Índias Ocidentais. Os primeiros quartéis militares dos designados "bucaneiros" foram na ilha da Tartaruga, a 7 km a noroeste da ilha de Hispaniola, (não confundir com Isla Tortuga a norte da Venezuela). Mais tarde os "bucaneiros" usaram a Jamaica para base das suas operações, e capturaram o Panamá em 1671. Eram na sua maioria homens rudes, aparentemente selvagens, e atiradores distintos, passaram a procurar a subsistência onde a podiam encontrar: às embarcações e às colónias espanholas. Os designados "bucaneiros", começaram a actuar seguindo um conjunto de regras variado, chamado Chasse-Partie, Charter Party, Custom of the Coast ou Jamaica Discipline. Mais tarde, as regras ficaram conhecidas como Articles of Agreement ou Código Pirata. As regras piratas variavam de um capitão para outro, até mesmo de uma viagem para outra, mas geralmente assemelhavam-se no que dizia respeito à manutenção da disciplina, às especificações sobre a divisão dos tesouros entre os tripulantes, a designada Chasse-Partie, assim como a compensação aos feridos. Cada membro da tripulação era convidado a assinar ou a deixar a sua marca no código para, em seguida, fazer um juramento de fidelidade ou honra. Geralmente, o juramento era feito sob uma Bíblia, chegando alguns a fazer esse juramento sob um machado. De acordo com algumas lendas, houve piratas que juraram sob pistolas cruzadas, espadas, crânios humanos e até sob canhões. Em geral após o início de navegações piratas, os novos recrutas, provenientes de navios capturados, eram persuadidos a assinar o código, algumas vezes voluntariamente, outras, eram torturados ou ameaçados de morte. Os chamados artesãos do mar e navegadores, eram os mais suscetíveis de serem forçados a assinar regras sob coação e raramente seriam libertados independentemente da sua decisão de assinar ou não. Em alguns casos, mesmo os recrutas voluntários pediam aos piratas para forçá-los a assinar o código. Faziam isso para, em caso de serem capturados pela lei, poderem alegar que tinham sido forçados a assinar esse código. O Código Pirata foi escrito e reescrito durante muitos anos e cada capitão pirata tinha o seu código, no entanto quatro códigos completos, ou parcialmente completos, sobreviveram. Foram publicados principalmente na obra  A General History of the Pyrates de Charles Johnson em 1724.




                                                 Mapa das Caraíbas, de Joannes Janssonius, 1636 (col. priv.)





                                                 Batalha naval na baia de San Francisco de Campeche, meados do séc. XVII (col. pess.)


                                


                                                  Mapa das ilhas de Hispaniola e Tartaruga, por Jacques Nicolas Bellin 1764 (col. priv.)




                                                       Aspecto de "bucaneiros" típicos da ilha de Tartaruga em meados do séc. XVII,
                                                                                       ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)



          
                                                                                                Ilustração de típico pirata "bucaneiro"
                                                                                                              das Caraíbas (col. priv.)




                                          O galeão espanhol Nossa Senhora de la Concepcion, pintura a óleo do sec. XVII (col. priv.)




                                                                   Instauração do primeiro Código de Conduta dos Piratas (arq. priv.)

     




       Ataque de piratas "bucaneiros" à cidade do Panamá, ilustração do livro The Buccaneers of America (col. priv.)
  

                                                                                                               


                                                                    Livro e ilustração The General History of Pyrates (col. priv.)
 



                                                              Ataque de piratas a embarcação espanhola em meados do séc. XVII (col. priv.)
   




Um código parcial de Henry Morgan, famoso pirata inglês que saqueou grande parte das Caraíbas e que chegou a governador da Jamaica, foi preservado no livro The Buccaneers of America, de Alexandre Olivier Exquemelin, publicado na Holanda em 1678. Muitos outros piratas tiveram códigos. Muitos destes se perderam devido à conduta pirata de, na iminência de uma captura ou rendição pela lei, queimar ou jogar as regras no mar para que as mesmas não fossem usadas contra eles nos seus julgamentos. Código Pirata, terá muito provavelmente inspirado códigos de sociedades, modelos de governação, estatutos de partidos políticos e até mesmo constituições de repúblicas. É de lembrar que o Código Pirata, que tem como alicerce o princípio de que os homens são todos iguais, e reconhece a democracia, ainda que musculada, como forma de tomar decisões, foi escrito antes da revolução francesa. Mas será um pirata e corsário português do século XVII, de seu nome Bartolomeu, podendo até dizer-se que foi um pirata legislador, famoso por ter sido o responsável pelo estabelecimento e aplicação do primeiro código de regras popularmente conhecido como "O Código da Pirataria", usado posteriormente a partir do século XVII por piratas famosos.





       Paginas do livro The Buccaneers of America e capítulo referente a Johan Morgan (col. priv.)
 

 

       Batalha naval entre piratas e espanhóis, ilustração do livro The Buccaneers of America (col. priv.)
    

 

 


       Momento da recompensa dos piratas, chamado Chasse-Partie, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)

 

 

 




 
           Código de Conduta dos Piratas
-Todo o Pirata tem que seguir o código pirata.
 
-Todo o homem tem direito a voto nas questões do momento, direito a uma porção igual de   provisões e utilizá-las ao seu modo, a não ser que a escassez obrigue o racionamento.
 
-Todo o homem só pode ser chamado no seu turno, conforme a lista, pois fora dele está livre para descansar e fazer o que desejar. Porém se defraudar a companhia, o castigo é ser abandonado numa costa deserta para ser encontrado por outro navio.
 
-Ninguém pode jogar cartas ou dados a dinheiro.
 
-As velas devem ser apagadas às oito horas da noite. Depois desta hora quem desejar continuar a beber deve fazê-lo no convés.
 
-As pistolas, espadas e demais armas devem sempre estar limpas e prontas para a batalha.
 
-Crianças e mulheres não são permitidos a bordo. Quem embarcar pessoas disfarçadas é punido com a morte.
 
-Desertores durante os combates são punidos com abandono numa costa deserta ou morte.
 
-As disputas são resolvidas em terra com um duelo de pistolas ou espadas. Vence o duelo de pistolas quem não for atingido. No duelo de espadas perde o primeiro a sangrar.
 
-Ninguém pode desistir da pirataria enquanto não juntar mil libras. Se ficar incapacitado deve ser indemnizado com oitocentos dólares e assim proporcionalmente para ferimentos menores.
 
-O capitão e o contramestre devem receber dois quinhões do saque ou tesouro. O imediato, o mestre e o oficial armeiro, um quinhão e meio e demais oficiais um quinhão e um quarto.
 
-Os músicos podem descansar na noite do Sábado, mas não nos demais dias a não ser que tenham um favor especial.

 

                                          Pirata punido com desterro em ilha deserta, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.) 
Este pirata "bucaneiro" da Jamaica, era conhecido como Bartolomeo el Portugues (Bartolomeu o Português), do qual não se sabe ao certo a data do seu nascimento nem de onde era originário em Portugal. Era ao que se sabe, profundamente católico, andando sempre de crucifixo ao peito. Aparentemente não era um típico "pobre desgraçado" quando deu início à sua carreira de pirata. Possuía certamente capital adequado para investir em tamanha aventura, após ter participado em diversos assaltos ao longo da costa do México antes da sua chegada ao Mar das Caraíbas em 1665. De facto, Bartolomeu terá principiado a sua independente empresa navegando entre Jamaica e Cuba por volta de 1662 a bordo de uma pequena embarcação de que se apoderou em Manzanillo, com trinta homens e quatro canhões. Já por volta de 1663, no Cabo Corrientes, na costa oeste de Cuba, avistou um galeão espanhol vindo de Maracaibo e Cartagena, com destino a Havana e a ilha de Hispaniola, estando equipado com vinte canhões e setenta pessoas entre passageiros e marinheiros. Apesar da desigualdade, quer ofensiva quer defensiva, Bartolomeu atacou o navio espanhol, mas falhou na primeira tentativa de abordagem. Retrocedendo um pouco, voltou de novo à carga com tamanha fúria que, finalmente, conseguiu capturar a embarcação espanhola. Nesta refrega o pirata português perdeu dez homens e quatro ficaram feridos, enquanto os espanhóis sofreram o dobro de mortos e feridos. Num gesto de rara generosidade, Bartolomeu poupou a vida dos prisioneiros transferindo-os para um barco a remos com destino a Havana, enquanto a bordo ficaram quinze espanhóis como tripulantes.
Bartolomeu tencionava prosseguir viagem para a Jamaica, para alcançar Port Royal, porém, devido a ventos contrários, teve de rumar para o Cabo San António, na costa oeste de Cuba. Sonhava descansar ali e avaliar o tesouro recolhido. Mas tal não aconteceu, visto que os piratas foram surpreendidos por três naus espanholas, que facilmente subjugaram Bartolomeu e a tripulação. Levantou-se no entretanto, uma tempestade tropical forçando os quatro navios a rumar para San Francisco de Campeche no Sudeste da Nova Espanha (México). Quando os comerciantes e magistrados locais tiveram conhecimento que Bartolomeu se encontrava entre os prisioneiros, foi determinado enforcá-lo no dia seguinte. Aparentemente, além de forte e destemido, Bartolomeu era igualmente um indivíduo deveras astucioso. Falava correntemente espanhol, pelo que soube então por um dos marinheiros a sorte que lhe estava reservada. Embora acorrentado, esperou que caísse a noite conseguiu quebrar as algemas e matar a única sentinela a quem o haviam confiado.


 
 

     Paginas do livro The Buccaneers of America e capitulo referente a Bartholomeus the Portuguees (col. priv.)
 
 
 
                                         Crucifixo de pirata, idêntico ao que terá usado Bartolomeu o Português,
                                                                         achado arqueológico na zona das Caraíbas (col. priv.)
 
 
 

     Ataque perpetrado por barco pirata a galeão espanhol, pintura a óleo de meados do séc. XVII (col. priv.)
 



                                                                             Vista de Port Royal em meados do séc. XVIII (col. priv.)
                                 

 

    Carta da América Central das províncias de Tabasco, Chiapa, Verapaz, Guatemala, Honduras e Yucatan,
                                                                                       por Jacques Nicolas Bellin 1764 (col. priv.)
                                                                     


 
                                                    Ataque de navio espanhol a piratas, pintura a óleo de finais do séc. XVII (col. priv.)


 

 

      Vista de San Francisco de Campeche e Golfo das Honduras em 1644 (arq. National Library of Netherlands)





O navio onde Bartolomeu estava aprisionado, e separado dos seus companheiros, encontrava-se fundeado fora da barra, no porto de San Francisco de Campeche e Bartolomeu não sabia nadar. Valeu-se então, duma extraordinária artimanha, agarrando-se a dois potes de barro utilizados habitualmente para vinho, envoltos em peças de oleado, que lhe serviram de flutuadores e atirou-se ao mar nessa espécie de "salva-vidas", remando com remos improvisados chegou a terra firme. Durante três dias permaneceu escondido na floresta, desviando-se do litoral, evitando os pântanos e crocodilos. Todo o tempo que permaneceu escondido, enquanto soldados espanhóis o procuravam por toda a parte, Bartolomeu seguiu a costa caminhando de noite e alimentando-se exclusivamente de mariscos e de frutos selvagens, como não sabia nadar, para atravessar rios fabricava jangadas grosseiras com pedaços de madeira apanhados nas águas e atado com lianas. Ao cabo de duas semanas de miséria e terror, Bartolomeu finalmente alcançou o outro lado da costa, ao Golfo de Triste, a Baia da Tristeza, no leste da Península de Yucatán. Um antigo ponto de encontro de piratas da Jamaica, onde se encontrava um "bucaneiro" inglês que reparava a sua embarcação e o levou até Port Royal. Depois de breve descanso, este juntamente com piratas amigos, apetrecharam o navio com vinte voluntários. Oito dias depois chegavam a San Francisco de Campeche, em cuja enseada entraram ao cair da noite, capturando surpreendentemente o mesmo navio que servira de prisão a Bartolomeu. Imediatamente, evitando a perseguição, os piratas levantaram as amarras e navegaram rumo à Jamaica. Novamente, a má sorte acometeu Bartolomeu o Português, quando uma violenta tempestade arremessou e destruiu a embarcação na ilha dos Pinos, a sudeste de Cuba. O navio continha uma carga de 600 kg de cacau e as 700 moedas de ouro que tinham sido furtadas, passado pouco tempo naufragou. Forçados a abandonar a embarcação e carga, os piratas escaparam numa canoa e assim chegaram à ilha de Tartaruga na Jamaica.
Presumivelmente, Bartolomeu terá ali organizado muitos outros ataques e assaltos de pirataria, mas sempre sem obter grandes sucessos. A má fortuna perseguia-o continuamente. Bartolomeu o Português teve incontáveis aventuras, mas tornou-se mais conhecido como o "pirata desventurado". Por fim doente e sem meios, dedicou-se à mendicidade diante das tabernas, vindo a morrer esquecido em 1669 na Jamaica. Alexandre Olivier Exquemelin escreveu a propósito na sua obra The Buccaneers of América: "fez vários e muito violentos ataques a embarcações espanholas sem deles fazer muito lucro, eu vi-o morrer na maior miséria do mundo". Foi um indivíduo cujo sucesso dependia das suas artimanhas, pouco mais se sabe acerca da sua vivência na Jamaica, apenas que a fortuna foi sempre adversa ao nosso Bartolomeu o Pirata Português das Caraíbas-Antilhas, e a prova de que o crime não compensa.



                                         Bartolomeu o Português fugindo ao suplício, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)
 
                            

 
                                                                  Mapa do Golfo Triste a leste da Península de Yucatán (col. priv.)





       Assalto de piratas comandado por Bartolomeu o Português, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)

 

     Naufrágio da embarcação de Bartolomeu o Português na ilha de Pinos em Cuba (col. priv.)




                                                       Moedas espanholas de ouro e prata do séc. XVII (col. priv.)




                                                                          Ilha Tartaruga na costa norte de Hispaniola (Haiti) (col. priv.)
                                                                          



Ambiente de piratas em convívio numa taberna (arq. priv.)

                                                                   


                                                                  Alusão em cromo de 1888 ao pirata Bartolomeu o Português (col. pess.)

                                                         
 
                                           


Desde há muitos anos que uma verdadeira maré de literatura se apoderou do tema dos piratas ou corsários que, durante cerca de três séculos, tornaram os mares inseguros. Uma série de livros fundamentados cientificamente e em documentos originais procurou ir ao fundo do assunto da pirataria, em todos as suas vertentes. A típica imagem dos piratas, conforme o senso comum, deu necessariamente origem à livre formação de outras, apresentadas com êxito, como livros de aventuras, comédias, histórias aos quadradinhos, filmes e séries para televisão. A imagem de espadas e pistolas em constante movimento, homens de semblante feroz, com vendas nos olhos, pernas de pau e ganchos-próteses nos braços decepados, invadindo as cobertas dos navios conquistados, acentuando ainda mais o aspecto anárquico das gravuras, executando raptos monstruosos de beldades louras, para que estas, um pouco mais tarde e após ações violentas de toda a espécie, lhes ofereçam herdeiros capazes de revolverem caixotes de ouro, enterrando os seus tesouros em recantos secretos de ilhas solitárias, terminando finalmente, como seria de esperar, no meio do regozijo geral, pendurados na forca da justiça. Certamente existem determinadas características comuns a todos os piratas, desde as mais sórdidas, mais ou menos famosos, aventureiros, da qual se podem sair mal ou bem, dado o fim semelhante que os espera a todos. A categoria dos piratas vai desde o brutamontes grosseiro, até ao elegante cavalheiro e snob aristocrata, do bandido de baixa condição, até ao almirante e fundador de uma esquadra, do proprietário de uma pequena embarcação, até ao comandante de um navio de 70 canhões, passando pelo analfabeto, ao professor ou o reformador social e combatente da liberdade.





                                                        Ataque de piratas com canhões, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)




                                                                                         Típico mapa de tesouro pirata (arq. priv.)
 



                                                      Ambiente típico de piratas, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)
 

                                                          



Houve sempre a tendência de dar um aspecto romântico, inofensivo e até idealista, à pirataria do mar, o que nunca se justificou. Do mesmo modo, muitas vezes, na base da propaganda diabolicamente espalhada, sempre se cuidou de dar uma cor bastante negra a esta criminosa actividade. Também foi uma atitude injusta. Ninguém no entanto pretende contestar a sua existência à "média - luz" da Lei, a sua margem ou até ao outro lado da fronteira lícita. Ninguém poderá negar o seu significado histórico, muitas vezes até incluído na história universal. Muitos piratas foram enforcados, muitos outros tiveram a honra de ser homenageados em monumentos, mas, em ambos os casos, com inteira justiça. Desde o século XIX, as bases piratas nas Caraíbas ou no Oceano Índico haviam desaparecido. Na era dos construtores de impérios, os homens apaixonados pela a aventura faziam carreira no exército ou na marinha. De tempos a tempos alguns grupos de pretensos piratas lançavam um desafio às forças da ordem, fazendo assaltos audaciosos, mas isolados e no alto mar. Todavia, esses assaltos não passavam de proezas esporádicas e de curta duração. Hoje, a época dos grandes flibusteiros/bucaneiros, dos corsários e dos piratas pertence ao passado; a glória e a vergonha desses anos dramáticos estão enterradas, mas não mortas, entre as lagoas azuis, as palmeiras esbeltas e as areias douradas. O mar é inexorável e manifestamente impiedoso ao verdadeiro carácter de um homem, à sua pequenez e à sua grandeza, aos seus crimes e à sua glória, como reza o antigo provérbio: " Os homens são grandes em terra, mas no mar são ainda maiores."



 
                                                                           Veleiro ao pôr do sol em águas calmas (arq. priv.)
                                                       
 
 
 
 
 

Texto:
Paulo Nogueira
 



Fontes e bibliografia:
EXQUEMELIN, Alexandre Olivier, The Buccaneers of America, 1678, Holanda
JOHNSON, Charles, A General History of the Pyrates, 1724, p. 398
MONDFELD, Wolfram Zu, O grande livro dos piratas, 1979, 1ª edição, Círculo de Leitores, Lisboa
GILBERT, John, PIRATAS E CORSÁRIOS, Outubro de 1976, Verbo Editora, Lisboa