sábado, 29 de agosto de 2015

PORCELANA DA VISTA ALEGRE







Até princípios do século XIX, Portugal não possuía nenhuma indústria que fabricasse porcelana. Sendo esta muito apreciada em Portugal, a maior parte das peças deste material era importado quer da China no início e mais tarde de outros países da Europa, que entretanto foram descobrindo o segredo da sua produção. A porcelana, produto branco, impermeável e translúcido, constituída basicamente por uma mistura de argila, caulino, quartzo e feldspato.  
É no entanto num Portugal em crise, acabado de sair das Invasões Francesas, vivendo-se ainda a ressaca da Revolução Liberal de 1820 e sem capacidade para dotar o país com as estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, que José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), figura de destaque na sociedade portuguesa do século XIX, proprietário agrícola, comerciante audaz, que incorporou sabiamente o ideário liberal do século, tendo-se tornado o primeiro exemplo de livre iniciativa em Portugal, influenciado pelo sucesso da fábrica de vidro da Marinha Grande, decidiu criar uma fábrica de porcelanas, vidro e processos químicos. Começou por adquirir, em 1816 em hasta pública a Quinta da Ermida de Nossa Senhora da Penha de França, datada de 1693, perto da vila de Ílhavo à beira do rio Boco (embora muitos autores refiram por confusão como sendo junto da ria de Aveiro), região rica em matérias primas como, barro, areias brancas e finas, seixos cristalizados, elementos fundamentais para o fabrico de vidros e porcelanas. Após ter adquirido terrenos vizinhos, num total de quarenta hectares, lançou-se no seu projecto. No ano de 1824, José Ferreira Pinto Basto apresentou uma petição ao rei D. João VI para; "erigir para estabelecimento de todos os seus filhos, com igual interesse, uma grande fábrica de louça, porcelana, vidraria e processos chimicos na sua Quinta chamada Vista-Alegre da Ermida". O respectivo alvará que autorizou o funcionamento da Fábrica da Vista Alegre foi concedido no mesmo ano de 1824, pelo rei, passando esta a beneficiar de; "todas as graças, privilégios e isenções de que gozam, ou gozarem de futuro, as Fábricas Nacionais". É então fundada em 1824, na Quinta da Vista Alegre, no início da 1ª Revolução Industrial, a primeira fábrica de porcelana em Portugal, que assume, por isso, num país sempre pobre em investimentos e em produção, marcado pela ausência de uma classe que se assumisse como motor de investimento, de industrialização e de modernidade. O fundador associa os seus 15 filhos, passando a fábrica a denominar-se Ferreira Pinto & Filhos. Cinco anos após esta concessão, a Vista Alegre recebeu o título de Real Fábrica, um reconhecimento pela sua arte e sucesso industrial. O seu início foi nessa época marcado pela produção de peças em vidro de grande qualidade, destacando-se as peças com relevos e ornatos lapidados ou gravados, bem como os delicados trabalhos de incrustação de medalhões. Nos primeiros períodos de laboração iniciaram-se com a produção do vidro e cerâmica "pó de pedra", face ao desconhecimento da composição da pasta de porcelana. Só uns anos mais tarde se viria a iniciar verdadeiramente a produção de porcelana mais aperfeiçoada. Essas primeiras peças produzidas pela Vista Alegre, eram caracterizadas por formas simples e uma decoração que revelava igualmente grande simplicidade, sendo muito influenciada pelo gosto dos seus proprietários e do público português de um modo geral.



                                       Prato em porcelana chinesa do séc. XVII, período Transicional (col. priv.)



Pratos em porcelana da China, Companhia das Índias, família Rosa, reinado Qianlong séc. XVIII (col. priv.)
   
 

                                              Peça em porcelana e bronze francesa do séc. XVIII (col. priv.)


    Serviço de chá em porcelana de Sévres do séc. XVIII (col. priv.)
                                               




                                                                                José Ferreira Pinto Basto 1774-1839 (col. priv.)

                                          


          
                 Estatutos da Real Fábrica de Porcelana, Vidros e Processos Chimicos da Vista Alegre (arq. priv.)
                        



                                                   Complexo da quinta da Vista Alegre e capela de Nossa Senhora da Penha de França,
                                                                                                    em meados de 1824 (col. pess.)
                                                                                            


                                                   Produção de vidro no século XIX idêntica à da Vista Alegre em 1824
                                                                                                                  (col. pess.)




    

                                                            Galheteiro e copo em vidro moldado com medalhão da rainha D. Maria II,
                                                                                            fabricados pela Vista Alegre (col. priv.) 

 


                                     

                                            Forno para cozedura de porcelana do séc. XIX idêntico aos da Vista Alegre (col. pess.)



Serviço de chá e café em porcelana da Vista Alegre,
período 1824/35 (col. Museu Palácio dos Biscainhos)

 
 
Marcas nº1 e 2 usadas pela Vista Alegre entre 1824 e 1835 (col. priv.)
 

 
 

A partir de 1832, a fábrica intensificou o seu trabalho e dedicou-se ao aperfeiçoamento da porcelana ali produzida, a designada pasta de porcelana. Com o objectivo de ultrapassar as dificuldades no que dizia respeito à produção dessa porcelana, Augusto Ferreira Pinto Basto (1807-1902), filho do fundador da empresa, realizou uma visita técnica à fábrica de porcelana francesa de Sèvres. Aí terá estudado as técnicas assim como a composição da pasta e obteve esclarecimentos que se revelaram fundamentais para a descoberta em 1832, por Luís Pereira Capote, funcionário da Vista Alegre, de abundantes jazidas de caulino a norte de Ílhavo. As primeiras peças em porcelana mais refinada, são produzidas a partir de então, a simplicidade e lirismo da sua decoração tem também a ver com o ambiente familiar e quase campestre da escola de pintura que se foi desenvolvendo na fábrica. Longe do Porto, Coimbra ou de Lisboa, a serenidade que se vivia em Ílhavo influenciou a estética das suas obras. Criou-se ali uma escola e uma tradição de pintura, que não era muito eficaz nas cenas mitológicas ou temas rocaille à moda de Fragonard, mas ganhou uma grande mestria nos motivos florais. A contribuição de artistas estrangeiros, tais como foi o caso de Victor Rousseau, foi importante, sobretudo para a criação de uma escola de pintura, ainda hoje famosa. Neste período da história da Vista Alegre, assinalam-se factos como o desenvolvimento de uma obra social, a introdução de decorações a ouro e temas com paisagens e delicadas flores, influências tipicamente francesas dessa época. Surgem as participações em certames como (Paris e Palácio de Cristal no Porto). Em 1851, a Vista Alegre participou na Exposição Universal organizada no Crystal Palace em Londres, e em 1867 recebeu reconhecimento internacional na Exposição Universal de Paris. No ano de 1852, o rei consorte D. Fernando II, visitou a fábrica da Vista Alegre, tendo sido produzida uma baixela completa para a casa real que lhe foi oferecida.  São produzidas na fábrica da Vista Alegre, peças em porcelana quer para sectores mais populares a par com outras mais requintadas, desde serviços de mesa, chá, café, os famosos paliteiros, vasos, conjuntos de toalete até às peças decorativas mais diversas. Pela sua fama e qualidade, a porcelana da Vista Alegre passa a fazer parte do quotidiano das classes burguesas mais abastadas em Portugal, sendo aconselhada nas publicações de usos e bons costumes do século XIX, aparecendo igualmente citada a sua presença em alguns romances de autores portugueses da época, exemplo, esta passagem do romance de 1878, "O Primo Bazilio", de Eça de Queiroz; "Prosperava com efeito! Não punha na cama senão lençóis de linho. [...] Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cómoda dois vasos da Vista Alegre dourados!". 
Em meados de 1880 cessa a produção de vidro pela Vista Alegre, dedicando-se exclusivamente à produção de porcelana. Foi na fase da administração de Gustavo Ferreira Pinto Basto (1882-1909), que se iniciou a colecção de peças, as quais andavam "espalhadas" nas dependências da fábrica e que, assim, foram revalorizadas e organizadas. A Vista Alegre inicia também já no final do século XIX, a produção por encomenda para estabelecimentos comerciais da especialidade, de algumas peças e serviços de mesa, assim como embalagens destinadas á indústria farmacêutica.



                                                    Novas tecnologias do fabrico da porcelana europeia em meados dos século XIX,
                                                                                  idêntica á utilizada na Vista Alegre (col. pess.) 

 
Aspecto geral da fábrica da Vista Alegre vista do rio Boco
 em meados dos século XIX (col. pess.)
 
 
                                                            Poncheira em vidro da Vista Alegre
                                                                                               de meados de 1880 (col. priv.)



     Produção da porcelana idêntico ao da fábrica da Vista Alegre em meados do século XIX (arq. pess.)


Oficina de modelação artística da fábrica de porcelana da Vista Alegre no final do século XIX (arq. pess.)


                                               Fornos para cozedura de porcelana idênticos aos utilizados na fábrica da Vista Alegre
                                                                                      em meados do século XIX (arq. pess.)



   Bule de café em porcelana da Vista Alegre produzido na 2ª metade
   do séc. XIX (col. priv.)
 

                                            Imagem de Nossa Senhora da Conceição em porcelana moldada da Vista Alegre,
                                                                     sem marca, segunda metade do séc. XIX (col. priv.)



                               
                                                         Taça em porcelana da Vista Alegre e marca nº 6, 
                                                                                                       período 1836-1851 (col. priv.)

                                          



Jarro e bacia em porcelana da Vista Alegre de meados de 1849 (col. Museu da Vista Alegre)
                         

            Peças de serviço de chá e fruteira em porcelana da Vista Alegre, marca nº 15, período 1852-1869 (col. priv.)



                         
                                                                     Reprodução de fruteira em porcelana da Vista Alegre,
                                                                            do serviço de D. Fernando II em 1852 (col. priv.)






                
                                                               Paliteiro em porcelana moldada da Vista Alegre e marca nº 17,
                                                                                          período 1870-1880 (col. priv.)

                                   



Vasos em porcelana da Vista Alegre e marca nº 20, período 1870-1880 (col. priv.)
                          
 

                                                

Conjunto de toalete em porcelana da Vista Alegre e marca nº 20, período 1870-1880 (col. priv.)
 
                                      

                
                                                                     

Principio de funcionamento de mufla do séc. XIX
para fixação de pintura e vidrado da porcelana,
idêntica ás usadas pela Vista Alegre
(col. pess.)
 
    

Anúncio do Diário Illustrado à Vista Alegre de 16 de Dezembro de 1880 
(arq. priv.)
 
 
 
    Peças de serviço de chá em porcelana moldada da Vista Alegre e marca nº 25, período 1881-1921 (col. priv.) 
 
 
  
                                                             
                                                                    Conjunto de toalete em porcelana moldada da Vista Alegre,
                                                                                                período 1881-1921 (col. priv.)
                                      
 
Prato alusivo a Almeida Garrett em porcelana da Vista Alegre, período 1881-1921 (col. priv.)
 
  
Anúncio da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre
de finais do século XIX (col. Museu Vista Alegre)
  

                                                      Terrina em porcelana da Vista Alegre feita por encomenda e marcas nº 23,
                                                                                          período 1881-1921 (col. priv.)


  

   Embalagem farmacêutica em porcelana da Vista Alegra
                                                                           e marca nº 26, período 1881-1921 (col. José M. G. Neto)
                                            
 
   
                                                    Caixa para pasta dentífrica de farmácia em porcelana da Vista Alegre,
                                                                                                   período 1881-1921(col. priv.)



 

Até ao final da I Grande Guerra Mundial, o período de brilho da fábrica da Vista Alegre foi ofuscado, pois as conturbações sociais encaminharam a empresa para grandes dificuldades. Contudo, o espírito introduzido pelo fundador e a manutenção da escola de desenho e pintura feita pelo pintor Duarte José de Magalhães, estimularam a reorganização e modernização da empresa. Na década de 1920 é promovida a transformação da empresa numa sociedade de quotas, passando a designar-se Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre, Lda. No período de 1922 a 1947, registou-se uma enorme renovação artística da Vista Alegre, destacando-se a colaboração de artistas de renome nacional, tais como Roque Gameiro, Leitão de Barros, Raul Lino, Piló, Delfim Maia, João Cazaux  e outros. O artista  João Cazaux assume nesta época a função de professor e a direcção da escola artística da Vista Alegre. Em 1924, com a nomeação de João Theodoro Ferreira Pinto Basto como Administrador-Delegado, iniciou-se um período de ressurgimento, para além do crescimento e renovação na área industrial, também a nível criativo se verificou uma forte revitalização. Estilos modernistas como o Art Deco ou o Funcionalismo revelaram a capacidade de adaptação da empresa às mudanças sociais e estéticas do início de século. A 15 de dezembro de 1932 a Vista Alegre, foi feita Grande-Oficial da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial, Classe Industrial. No período que vai entre 1947 e 1968, a Vista Alegre realizou contactos internacionais, com a formação de quadros técnicos especializados e a aquisição da principal concorrente, a empresa Electro-Cerâmica e da Sociedade de Porcelanas. Passa também a Vista Alegre a produzir acessórios em porcelana para instalações eléctricas e laboratório.
As baixelas produzidas pela Vista Alegre são escolhidas por muitas instalações hoteleiras, clubes privados e também restaurantes, para brilharem nas suas mesas.  Esta escolha para equipamento de estruturas hoteleiras de apoio ao turismo é feita basicamente devido a três razões: a imagem de marca, a qualidade do produto, e por último o seu design/decoração. Foi instaurada a tradição da produção de peças únicas, como o serviço produzido para Sua Majestade Isabel II, rainha de Inglaterra, aquando da sua primeira visita a Portugal, a partir dai multiplicam-se as colaborações com artistas contemporâneos nacionais e estrangeiros como Jeannine Hetrau, entre outros. No ano de 1964 foi inaugurado o Museu Vista Alegre, expondo desde então ao público peças representativas do seu longo e rico caminho percorrido. Já na década de 1970 a Vista Alegre deu importantes passos na sua modernização tecnológica e prestou mais atenção à formação de jovens pintores.






                                                                     Colecção de postais da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre
                                                                                            de meados dos anos 20 (col. pess.)


     Peça em porcelana moldada da  Vista Alegre e marca nº 26, período 1881-1921 (col. priv.)


                          Peças de serviço em porcelana da Vista Alegre e marca nº 26 período 1881-1921 (col. priv.)




                                                         Anúncio alusivo à Exposição no Rio de Janeiro da Vista Alegre em 1921
                                                                                                                  (col. priv.)



Conjunto de chávena de café e pires da Brasileira, Vista Alegre,
marca nº 29, período 1922-1947 (col. priv.)
 



Tinteiro em porcelana da Vista Alegre e marca nº 29, período 1922-1947 (col. priv.)
                                   

Verbetes de alguns modelos de paliteiros em porcelana produzidos
                                                                            pela Vista Alegre em 1922 (col. Museu Vista Alegre)
 
  

Paliteiro em porcelana moldada da Vista Alegre e marca nº 29,
                                                                                              período 1922-1947 (col. priv.)
                                                 




                                        Artesãos de Vista Alegre em meados de 1924 (col. Museu da Vista Alegre)
 

                          Peças de serviço de café da Vista Alegre e marca nº 30 de centenário, período 1924 (col. priv.)


  

                                     Desenhos de João Cazaux professor de desenho da Vista Alegre representado respetivamente
                                                            uma varina, Maio de 1925 e um ribatejano Maio de 1929 (col. priv.)



                        
                                             Figura de varina em porcelana moldada da Vista Alegre, 
                                                                      do período de 1922-1947(col. Museu da Vista Alegre)


                                       Vista a partir do rio Boco do complexo da Vista Alegre no início dos anos 30 (arq. priv.)


                                           Centro de mesa em porcelana da Vista Alegre, marca nº 30, período 1924-1947 (col. priv.)



                                                                                Figura em porcelana moldada da Vista Alegre
                                                                                                  período 1924-1947 (col. priv.)



                                                                  Pássaro em porcelana moldada da Vista Alegre e marca nº 29,
                                                                                                 período 1922-1947 (col. priv.)


Peças de serviço de chá em porcelana da Vista Alegre, período 1922-1947 (col. priv.)
                  



Verbete da peça Pássaro Cubista de 1932 em porcelana moldada da Vista Alegre (col. Museu Vista Alegre)
 



Pássaro Cubista em porcelana moldada da Vista Alegre e marca nº 29, período 1922-1947 (col. priv.)
 
    

                                      Vista aérea do complexo da Vista Alegre em meado dos anos 20 (arq. priv.)

                               
     Bule de chá estilo Art Deco em porcelana da Vista Alegre, marca nº 29, período 1922-1947 (col. priv.)
                    
                                     

                                                            Transporte dos moldes na fábrica da Vista Alegre meados dos anos 30
                                                                                                                (arq. priv.)


Vaso em porcelana moldada da Vista Alegre
  e marca nº 29,  período 1922-1947 (col. priv.)
                                                                               
  

                                              

                                                                           Transporte de esculturas na fábrica da Vista Alegre
                                                                                            meados dos anos 30 (arq. priv.)


                                                                         Isoladores em porcelana da Vista Alegre marca nº 29,
                                                                                          do período 1922-1947 (col. pess.)



                                                                                            Anúncio da Vista Alegre de 1944
                                                                                                                 (col. priv.)


     Almofariz de laboratório em porcelana da Vista Alegre e marca nº 32 período 1947-1968 (col. priv.)


                                                                           Vaso com querubins em porcelana da Vista Alegre
                                                                                 e marca nº 32, período 1947-1968 (col. priv.)




                                                                            Secção de embalagem na fábrica da Vista Alegre
                                                                                          em meados dos anos 40 (arq. priv.)


   
                                                                     Chávena de chá em porcelana da Vista Alegre decoração Lucília
                                                                                      e marca nº 32, período 1947-1968 (col. M. N.)

     



                                                                 Secção de expedição na fábrica da Vista Alegre
                                                                                         em meados dos anos 40 (arq. priv.)


                                    Terrina em porcelana moldada da Vista Alegre, período 1947-1968 (col. priv.)


                                                                 Fruteira em porcelana moldada da Vista Alegre e marca nº 32, 
                                                                                               período 1947-1968 (col priv.)




                                         Escola de pintura da Vista Alegre em meados dos anos 40 (arq. priv.)


                                     Floreira em porcelana moldada da Vista Alegre, período 1947-1968 (col. priv.)


      Artesã modelando uma peça de porcelana na fábrica da Vista Alegre em meados dos anos 40 (arq. priv.)



Peça decorativa em porcelana da Vista Alegre e marca nº 32,
                                                                                             período 1947-1968 (col. priv.)
                                                          



                                                       Artesãos da Vista Alegre nos finais dos anos 40 (arq. priv.)
   
         
           
                                         Garrafas forma de mulher com trajes portugueses em porcelana moldada da Vista Alegre,
                                                                                             período 1947-1968 (col. priv.)



Chávena e cinzeiro exclusivos para a Wagon Lits em porcelana da Vista Alegre/SP Coimbra
e marca nº 32, período 1947-1968
(col. M. N.)




 
   Anúncio da Vista Alegre do Natal de 1950 (col. priv.)
                   


                                                                  Artesão da Vista Alegre modelando peça artística em porcelana
                                                                                             em meados dos anos 50 (arq. priv.)


   Figura feminina clássica em porcelana moldada da Vista Alegre,
                                                                                                 período 1947-1968 (col. priv.)
                                             

                                                                    Figura de campino em porcelana moldada da Vista Alegre
                                                                        e marca em relevo nº 32, período 1947-1968 (col. priv.)




Aspecto de algumas peças do Museu Vista Alegre inaugurado em 1964 (arq. priv.)
 

 
                                            Peças de serviço de mesa em porcelana da Vista Alegre, estilo Mouzinho e marca nº 32, 
                                                                                                 período 1947-1968 (col. M. N.)





                                                                                          Frasco de chá da Vista Alegre nº 32,
                                                                                                período 1947-1968 (col. priv.)




 Departamento de moldes na fábrica da Vista Alegre início dos anos 70 (arq. priv.)


                                              Chávena de chá em porcelana da Vista Alegre e marca nº33,
                                                                                             período 1968-1971 (col. priv.)




                                                                   Casal de perdizes em porcelana da Vista Alegre série limitada,
                                                                        exemplar nº 86, marca nº 33 período 1968-1971 (col. priv.)



Maquinaria de enchimento de moldes da Vista Alegre nos anos 70 (arq. priv.)
 


    
                                             Figura de soldado do Reg.de Infantaria de Peniche do séc. XIX em porcelana moldada
                                                                     da Vista Alegre e marca nº 34, período 1971-1980 (col. priv.)





                                            Artesãos da Vista Alegre em meados dos anos 70 (arq. priv.)


                                                    Prato em porcelana da Vista Alegre e marca nº 34, período 1971-1980 (col. priv.)




                                        Pintura de peça em porcelana moldada da Vista Alegre em finais dos anos 70 (arq. priv.)



                                                                    Figuras de pássaros em porcelana moldada da Vista Alegre
                                                                      e marca nº 35 do 150º aniversário, período 1974 (col. priv.)

 

                                           
                                                                Finalização da decoração de peça em porcelana da Vista Alegre
                                                                                          no final dos anos 70 (arq. priv.)



                                    Acabamento de peça em biscuit da Vista Alegre finais dos anos 70 (arq. priv.)




 
Reprodução de jarro modelo Parra em biscuit da Vista Alegre,
 período 2004-2015 (foto Vista Alegre Atlantis)


 

É sabido que não há peça da Vista Alegre que não tenha a marca da casa. O que talvez não se saiba é que essa marca foi variando em função de quem ia assumindo a presidência do conselho de administração da empresa. Os verdadeiros apaixonados e coleccionadores das peças de porcelana da Vista Alegre, conseguem distingui-las e atribuem-lhes o respectivo valor, através das marcas e numeração, que cronologicamente, lhes foram sendo colocadas no momento do seu fabrico. No ano de 1983, é criado o Gabinete de Orientação Artística (GOA), dois anos depois, o Centro de Arte e Desenvolvimento da Empresa (CADE), com a finalidade de fomentar a criatividade e contribuir para a formação nas áreas de desenho, pintura e escultura. Nessa fase, nasceram as séries limitadas de peças de porcelana, chamadas de "séries especiais" e "peças comemorativas". Em 1985, devido ao grande interesse suscitado pelas peças da Vista Alegre, e à procura constante de inúmeros clientes, a empresa resolveu organizar um clube de coleccionadores, limitando-o rigorosamente a 2500 sócios. Estes recebem, anualmente, uma peça concebida especial e exclusivamente para eles. Já nos finais da década de 80, realizaram-se importantes exposições internacionais em locais como o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque ou o Pallazo Reale em Milão, contribuições decisivas para a divulgação e internacionalização da marca Vista Alegre. No ano de 1997 concretiza-se a fusão com o grupo cerâmico Cerexport, que originou quase a duplicação do volume de negócios da Vista Alegre, em especial nos mercados internacionais. Em maio de 2001, deu-se a fusão da Vista Alegre com o grupo Atlantis, cruzando-se novamente o vidro, agora também o cristal, com a história desta empresa.
É formado então o maior grupo nacional de utensílios de mesa e sexto maior do mundo nesse sector: o Grupo Vista Alegre Atlantis, que atua em diversas áreas. No ano de 2002 foi concluído um processo de reengenharia industrial, que permitiu aumentar a capacidade e volume de produção e a partir de 19 de janeiro de 2009, o Grupo Visabeira, lança uma OPA à Vista Alegre e adquire o controlo total desta marca. A parceria entre a Vista Alegre Atlantis e a IKEA em 2013, levou à implementação de uma unidade fabril em Aveiro que fornece a cadeia sueca de artigos para o lar. A empresa, pela sua história e tradição, mantém a mais emblemática das onze unidades industriais que compõem o grupo, produzindo cerca de 10 milhões de peças por ano, entre porcelana decorativa e doméstica. Em 2014 a Vista Alegre Atlantis, fez uma parceria com a dupla de designers David Raffoul e Nicolas Moussallem para a criação de peças da sua colecção, em 2015, uma vez mais fez parcerias com artistas de renome internacional, para a nova decoração de peças das suas colecções, como é o caso da portuguesa Joana Vasconcelos, Christian Lacroix e Oscar de la Renta.

 

      Aspecto geral da fachada principal da fabrica e complexo da Vista Alegre na atualidade (arq. priv.)



                                                 Marcas da Vista Alegre ao longo dos tempos (arq. priv.)
 
 

     Artesão da Vista Alegre na actualidade decorado uma peça em porcelana de colecção (arq. priv.)



                                                               Aplicação de motivos dourados numa peça em porcelana clássica
                                                                                                 da Vista Alegre (arq. priv.)


                                                   Prato em porcelana da Vista Alegre de 1980 com vistas do conjunto fabril de Ílhavo,
                                                                            série limitada do clube de coleccionadores (col. priv.)


                  Tinteiro em porcelana da Vista Alegre período 1980-1992 (col. priv.)
                                                

                                                              Processo manual de enchimento de molde para peça em porcelana
                                                                                   da Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


   Artesã dando acabamento em peças de porcelana da Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


        Peças de serviço clássico de mesa em porcelana, da Vista Alegre, decoração Cozinha Velha,
                                                                                 período 1980-1992 (foto Vista Alegre Atlantis)

                                      
     Operária da retocando a decoração de peças em porcelana da Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


                                                               Peças em porcelana da Vista Alegre, decorações respectivamente
                                                                                     1 Imari, 2 Margão, 3 Magnólia, 4 Samatra
                                                                                       e marca nº 35, período 1980 (col. M. N.)
                                       
                                                          
 

    Peças diversas em porcelana da Vista Alegre decoração Margão, período 1980-1992 (col. priv.)
                                
                                                       
                               Processo de vazamento de molde de porcelana da Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


  
                             Terrina em porcelana da Vista Alegre, encomenda Mottahedeh, período 1980-1992, reprodução   
                               de peça chinesa do séc. XVIII  da col. do Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque (col. priv.)

                                      

    Peça em porcelana da Vista Alegre comemorativa de 1989 e marca nº 36, período 1980-1992 (col. pess.)
                                                                                        



                                                 Candeeiro em porcelana da Vista Alegre decoração Samatra período 1997 (col. priv.)


                                                                              Torteira em porcelana da Vista Alegre decoração Salina
                                                                                         e marca nº 37, período 1997 (col. M. N.)
                                                                        

                   

                                                   Fase de acabamento manual de peça em porcelana da Vista Alegre
                                                                                                             (arq. priv.)

    
                                                       Escultura em porcelana moldada biscuit, do escultor Arlindo Manuel Filipe,
                                                                de 1999, representando o Fundador da Fábrica da Vista Alegre,
                                                                  base ornada com o brasão da família Pinto Basto, (col. priv.)
 

 
 


                                                   Peças em cristal produzidas pela Vista Alegre Atlantis
                                                                                                    (fotos Vista Alegre Atlantis)




                                              Forno atual para porcelana na Vista Alegre (arq. priv.)


Processo manual de pintura de peça em porcelana da Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


 
 
 
                                         Esculturas em  biscuit moldado da Vista Alegre, marca nº 43 de fabrico,
                                                                                  período 2004-2014 (fotos Vista Alegre Atlantis)

  
 
         Secção de decalque decorativo da Vista Alegre Atlantis na actualidade (foto Nelson Garrido)


                           
                                   Chávenas de café em porcelana da Vista Alegre Atlantis inspirada nas calçadas á portuguesa,
                                                                                período 2004-2015 (foto Vista Alegre Atlantis)


Jogo de xadrez em porcelana moldada da Vista Alegre Atlantis, edição limitada, 
desenhos de Jeannine Hetrau período 2004-2015 (foto Vista Alegre Atlantis)



     Aspecto as instalações da fábrica da Vista Alegre na actualidade, vista do rio Boco (foto Céu Vieira)




    Peças de serviço em porcelana modelo Orquestra da Vista Alegre Atlantis de 2014 (foto Vista Alegre Atlantis)

                                    
 
                                                        Caixa em porcelana moldada da Vista Alegre Atlantis modelo Plissé de 2014
                                                                                                       (foto Vista Alegre Atlantis)
                                                            

A artista Joana Vasconcelos junto de peças da sua criação, decoração Versalles para a Vista Alegre
                                                                                                           (arq. priv.)
 
                                       
  Peças de serviço de mesa em porcelana da Vista Alegre decoração Versailles de Joana Vasconcelos
                                                            e marca nº 43 de fabrico, período 2004-2015 (foto Vista Alegre Atlantis)
                           

 


Peças em porcelana e marca Christian Lacroix/Vista Alegre Atlantis, de 2015
(foto Vista Alegre Atlantis)
 




Mais do que um espaço fabril, a Vista Alegre é hoje um conjunto arquitectónico de inigualável interesse, repositório de memórias sociais e artísticas fundamentais para a construção de uma identidade nacional. O aglomerado fabril, para além da fábrica propriamente dita, inclui ainda moradias construídas para os seus empregados com título vitalício, consoante o seu agregado familiar e necessidades, uma escola, creche, um teatro, instalações desportivas e um corpo de bombeiros. De referir que a corporação de Bombeiros Privativos da Vista Alegre, criada em 1 de Outubro de 1880, é o mais antigo corpo privado de bombeiros em Portugal. Foi também através dos bisnetos do fundador da Vista Alegre, que se introduziu em Portugal a prática dos desportos, em especial o futebol, trazida por estes de Inglaterra em finais do século XIX. Quem visita a Vista Alegre, pode deslumbrar-se ainda com um magnífico templo, um belo palacete e uma lindíssima e bem arborizada quinta. Ao longo dos seus 191 anos, a fábrica da Vista Alegre e mais tarde o seu museu, têm sido um lugar obrigatório de visita, ou, porventura de peregrinação, para muitos milhares de pessoas. Entre elas, contam-se muitas personalidades de relevo; nos livros de visitantes da Vista Alegre, que começaram a existir em 1909, figuram as assinaturas de representantes da nobreza, bispos e arcebispos, ministros portugueses, presidentes da república e diplomatas estrangeiros, entre outros. Devido à sua alta qualidade, as peças da Vista Alegre, nos dias de hoje, encontram-se presentes quer em colecções de famosos, quer de monarcas e governantes de praticamente todo o mundo, como a Casa Branca nos EUA, a Presidência da República portuguesa, entre outras mais. A Vista Alegre para além de ser líder de mercado em Portugal, possuir uma das melhores e mais bem equipadas fábricas de porcelana de todo o mundo, marcou positivamente todos os que nela trabalharam e continuam a trabalhar, tentando proporcionar-lhes as melhores condições para se sentirem motivados, através da promoção de diversas actividades culturais e recreativas. Hoje, os seus trabalhadores sentem orgulho por terem contribuído para o sucesso alcançado pela empresa. A Vista Alegre continua a desenvolver e preservar a porcelana feita e trabalhada à mão, honrando por isso a sua história e tradição. Contudo, devido à internacionalização da Vista Alegre, a manutenção destas características familiares e de envolvimento na cultura popular local, são cada vez mais difíceis de sustentar. O grande desafio para a Vista Alegre será, sem dúvida, manter o seu perfil de empresa organizada de modo familiar, profundamente enraizada na cultura e tradições populares da região de Aveiro, e, ao mesmo tempo, responder às exigências da economia mundial dos tempos actuais. Por toda esta aposta na inovação, qualidade e no design, em 2015 o júri internacional Red Dot Award, composto por 38 profissionais da área do design, concedeu o tão desejado selo de qualidade a dois produtos da Vista Alegre Atlantis. É por tudo isto, a Vista Alegre, uma instituição em Portugal e no mundo, sinónimo de excelência e inigualável qualidade.
 

    Aspecto geral da fachada de entrada principal da fábrica da Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


                                          Chaminé da fábrica de porcelana Vista Alegre na actualidade (arq. priv.)


 Igreja de Nossa Senhora da Penha de França no complexo da Vista Alegre em Ílhavo
(arq. priv.)

 
Aspecto lateral da igreja de Nossa Senhora da Penha de França no complexo da Vista Alegre (arq. priv.)

              
     Antigas moradias de funcionários e teatro da fabrica de porcelana da Vista Alegre (arq. priv.)


                                                                               Corpo de bombeiros privativos da Vista Alegre
                                                                                          em meados dos anos 20 (arq. priv.)



Fachada do teatro da Vista Alegre recuperado na actualidade (arq. C.M.A.)


Entrada do Museu Vista Alegre junto ao complexo fabril (arq. priv.)
                           

Aspecto de algumas peças expostas no Museu Vista Alegre (arq. priv.)




                                        Aspectos da área industrial do renovado Museu Vista Alegre (arq. Vista Alegre Atlantis


 
Exposição temática organizada pelo Museu Vista Alegre (arq. Museu Vista Alegre)
 










Texto :
Paulo Nogueira

 


 



 

Fontes e bibliografia:


BASTOS, João Theodoro Ferreira Pinto, A FÁBRICA DA VISTA ALEGRE: o Livro do seu Centenário (1824-1924), 1924, Lisboa
Vista Alegre (1824-1974): 150 Anos de Trabalho, Prestígio e Expansão, 1974, Lisboa, Costa e Valério
QUEIROZ, Eça, O Primo Bazilio,  Ed. Livros do Brasil, Lisboa
Vista Alegre: porcelanas, Lisboa, 1989, edições INAPA
FERREIRA, Jorge Manuel, Paliteiros da Vista Alegre, 2006, Lisboa, Caledoscópio Ed.
Publicação on line Restos de Colecção

 


 


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

EFEMÉRIDES



   3 de Agosto de 1492, a primeira viagem de Cristóvão Colombo





 

Foi na noite de 3 de Agosto de 1492, que Cristóvão Colombo (1451–1506), içou velas a partir da cidade portuária de Palos de la Frontera em Espanha, para iniciar a sua primeira viagem em busca do caminho marítimo para as Índias, a terra do ouro e das especiarias. Dois meses depois, chegará ao Novo Mundo. Essa viagem foi iniciada com três navios, uma nau maior, designada de Santa Maria, apelidada de Gallega, com cerca de 25 metros de comprimento por oito de largura, 102 toneladas e um mastro principal com 23 metros, era a maior embarcação da frota. A bordo deveriam seguir cerca de 40 marinheiros. Juntamente duas caravelas mais pequenas, designadas de Pinta e Santa Clara, esta última apelidada de Niña em homenagem a seu proprietário Juan Niño de Moguer. Mas foi em Portugal que Cristóvão Colombo começou a conceber o seu projeto de viagem para o Ocidente, inspirado pelo ambiente febril de navegações, descobrimentos, comércio e desenvolvimento científico, que converteram a cidade de Lisboa da segunda metade do século XV, num rico e ativíssimo porto marítimo e mercantil de dimensão internacional, e por sua vez Portugal no País dos mais audazes, melhores e experientes marinheiros, com os maiores conhecimentos náuticos da época. Sobre Cristóvão Colombo, não existiu qualquer controvérsia sobre a origem italiana do navegador até ao final do século XIX, quando surgiram as hipóteses mais díspares. Entre outras teorias ainda mais absurdas, tentou-se fazê-lo natural da Córsega. No final desse século, Garcia de la Riegla, de Pontevedra, na Galiza, publicou uma série de documentos que apresentavam nomes de pessoas da região e de raça judia da primeira metade do século XV com os mesmos nomes da família de Colombo - a despeito destes apenas serem conhecidos através da documentação genovesa - que supostamente teriam imigrado para Génova após o nascimento de Colombo. Surgiu ainda a tese de que Cristóvão Colombo teria origens portuguesas e nascido em Cuba no Alentejo. Apesar de tudo, Cristóvão Colombo, filho de um tecelão genovês, tornou-se navegador por necessidade, com a falência da empresa do pai, descobriu no comércio marítimo um novo meio de vida. Não se conhece no entanto qualquer documento dos arquivos portugueses que mencione o navegador. O único documento em português que o refere é um suposto salvo-conduto do rei D. João II datado de 1488 e guardado no Arquivo Geral das Índias, cuja autenticidade é, no entanto, duvidosa. O registo da presença de Colombo em Portugal é estabelecido a partir das biografias escritas pelo seu filho Fernando e pelo cronista e teólogo Bartolomeu de las Casas, assim como do Documento Assereto, que assinala a sua presença em Lisboa e na Madeira no Verão de 1478, indicando a sua intenção de se deslocar para Lisboa em Agosto de 1479. Em todo o caso, supõe-se que Colombo tenha vivido cerca de nove anos em terras de Portugal, entre 1476 e 1485, para onde terá vindo aos vinte e cinco anos, ao atingir a maioridade. Este período da sua vida resume-se às suas viagens, ao casamento, e ao grande projeto que começou a acalentar. Em 1477, estabeleceu-se em Lisboa, junto com o seu irmão Bartolomeu, que era cartógrafo. O grandioso projeto de Colombo, terá surgido não de forma repentina, mas gradual, provavelmente em colaboração com o seu irmão Bartolomeu. Após o processo de formação e maturação, o projeto tinha por objetivo atravessar o Oceano Atlântico, único conhecido à época, em direção à Ásia.




 Um dos retratos de Cristóvão Colombo 1451–1506
(col. Metropolitan Museum New York)



 
     Vista geral de Lisboa em meados de 1572, com o ambiente que Cristóvão Colombo conheceu (col. priv.)
                    
                                                                                                 
 
Lanterna esférica de sinalização marítima idêntica às da época
de Cristóvão Colombo (col. pess.)



                                        Embarcações portuguesas da época dos descobrimentos que Cristóvão Colombo conheceu, 
                                             extrato de ilustração das Tábuas dos Roteiros da Índia de D. João de Castro (col. priv.)
 
 

     
                                                                  Astrolábio do séc. XV (col. priv.)




                            Casa museu onde terá vivido Cristóvão Colombo na Ilha do Porto Santo, Madeira (arq. pess.)



 
O historiador norte-americano Vignaud tentou demonstrar que Colombo apenas procurava alcançar umas distantes ilhas do Atlântico, mas não chegar às Índias, tendo alterado por isso o projeto, após as descobertas que fez. Esta tese é normalmente descartada pelos historiadores colombinos de maior competência, já que para descobrir umas simples ilhas não era necessário negociar de forma tenaz com monarcas, promover opiniões de sábios e técnicos, exigindo honras e compensações tão exorbitantes. Tratava-se pois, de uma empresa nova, arriscada e de importância bem maior que uma comum expedição. Segundo conta o seu filho Fernando, o pai Cristóvão Colombo, começou por pensar que se os portugueses navegavam já tão grandes distâncias para o sul, poderia fazer o mesmo para o oeste, enumerando os fatores que o fizeram pensar na existência de terras a ocidente como a esfericidade da Terra e as leituras de autores clássicos, como Aristóteles, Estrabão e Plínio que afirmavam a curta distância entre a Espanha e África, e a Índia. O mais provável, no entanto, é que não se tenha inspirado nesses autores, mas sim que os tenha lido depois, por forma a fundamentar o seu projeto. Os supostos papéis do sogro que a sogra Isabel Moniz, lhe terá entregue, teriam juntado indícios materiais, como troncos de árvores e cadáveres de espécies desconhecidas arrastados pelo mar. Assim como as notícias que obteve de marinheiros que afirmavam ter encontrado terras a oeste e as várias tentativas para descobrir supostas ilhas do Atlântico, comuns por aqueles anos. Colombo observou nas suas viagens e permanências nas ilhas atlânticas estes indícios, assim como as condições dos ventos e correntes marítimas, adquiriu as noções para reconhecer a proximidade de terra firme e as rotas mais favoráveis, tudo o que terá aprendido com a experiência portuguesa.




                                  Cristóvão Colombo com o globo terrestre idealizando o seu projeto (col. priv.)

 


                                     Mapa de Colombo, oficina de Bartolomeu e Cristóvão Colombo, Lisboa, de 1490
                                                                                       (col. Bibliothèque Nationale de France, Paris)
 
 
 

Cristóvão Colombo propôs a D. João II rei de Portugal essa empresa, o projeto de alcançar as Índias pelo Atlântico em 1484, mas o soberano português rejeitou a proposta, Colombo apresentou o mesmo projeto à coroa de Espanha, em 1485, que apesar de alguns entraves é aceite. Economicamente debilitada pela expulsão dos mouros e dos judeus, a Espanha precisava urgentemente de novas fontes de riqueza. Até mesmo a vaga perspetiva de encontrar ouro no novo caminho marítimo era bem-vinda, dai ter sido aceite e financiado este projeto da sua viagem junto dos Reis Católicos, após a conquista de Granada, com a ajuda do confessor da rainha Isabel de Castela. Os termos da sua contratação tornavam-no almirante dos mares da Índia a descobrir e governador e vice-rei das terras do Oriente a que se propunha chegar, em competição com os portugueses que exploravam a Rota do Cabo. Alguns historiadores têm procurado demonstrar que o navegador mentia propositadamente a Castela para ajudar Portugal e que tinha a igualmente ajuda do mercador, navegador, geógrafo e cosmógrafo italiano Américo Vespúcio (1454 -1512), ao serviço do Reino de Portugal e de Espanha, nessa missão.
As embarcações utilizadas por Cristóvão Colombo, eram propriedade de Juan de la Cosa e dos irmãos Pinzón (Martín Alonso e Vicente Yáñez), mas os monarcas espanhóis forçaram os habitantes de Palos, que caíra em desgraça junto à coroa por pagamento irregular de impostos, a contribuir com as três embarcações para a expedição. Cristóvão Colombo navegou inicialmente nessa noite de 3 de Agosto de 1492, para as ilhas Canárias, que eram propriedade espanhola, onde reabasteceu as provisões e fez reparos.




                                                       D. João II rei de Portugal 1455-1495 (col. priv.)



  Apresentação de Cristóvão Colombo aos reis católicos Fernando II de Aragão e à rainha Isabel I de Castela,
 por Emanuel Gottlieb Leutze (col. priv.)



Cristóvão Colombo no conselho de Salamanca em 1487 expondo os seus planos do projeto (col. pess.)


 
Américo Vespúcio 1454 -1512 (col. pess.)





                                                              Aspeto do porto de Palos em meados do séc. XV (col. priv.)



    As três embarcações de Cristóvão Colombo, Santa Maria, Pinta e Niña (col. priv.)

 
 

A 6 de Setembro, partiu de San Sebastián de la Gomera, para o que acabou por ser uma viagem de cinco semanas através do oceano. A terra foi avistada às duas horas da manhã de 12 de Outubro de 1492, por um marinheiro chamado Rodrigo de Triana (também conhecido como Juan Rodríguez Bermejo) a bordo da Pinta. Cristóvão Colombo chamou a ilha descoberta San Salvador, (atual Bahamas), enquanto os nativos a chamavam Guanahani. Exatamente qual era a ilha nas Bahamas, é um assunto não resolvido nem esclarecido. As candidatas principais são Samana Cay, Plana Cays e San Salvador (assim chamada em 1925, na convicção de que era a San Salvador de Colombo). Os indígenas que ai encontrou, os lucaians, taínos ou aruaques, eram pacíficos e amigáveis. Em 11-12 de Outubro de 1492, Cristóvão Colombo escreveu no seu diário de bordo: "Pode ser que esta seja a minha última anotação; que eles lancem à água o diário de bordo. Talvez eles o esqueçam e, um dia, a rainha saberá que eu não era um fantasista, um sonhador fora da realidade. Eu vi uma luz. Como se alguém movimentasse uma tocha".
Convencido de que havia chegado ao planejado destino, batizou a nova terra de Índias Ocidentais e com a permissão da coroa espanhola tomou posse de tudo como "vice-rei". No livro Os Nascimentos, de 2010, o escritor uruguaio Eduardo Galeano descreveu assim a chegada de Colombo ao então designado Novo Mundo: "Cai de joelhos, chora, beija o solo. Avança tremendo, pois há mais de um mês dorme pouco ou nada, e a golpes de espada derruba uns arbustos. Depois, ergue o estandarte. De joelhos, os olhos no chão, pronuncia três vezes os nomes de Isabel e Fernando. Ao seu lado, o escrivão Rodrigo de Escobedo, homem de letra lenta, levanta a ata. Tudo pertence, desde hoje, a esses reis distantes: o mar de corais, as areias, os rochedos verdíssimos de musgo, os bosques, os papagaios e esses homens de barro que ainda não conhecem a roupa, a culpa, nem o dinheiro, e que contemplam, atordoados, a cena. (...) Em seguida, correrá a voz pelas ilhas: 'Venham ver os homens que chegaram do céu!'".



                                            Desembarque de Cristóvão Colombo em São Salvador  (col. priv.)



                                                Representação do primeiro desembarque em terra de Cristóvão Colombo na América
                                                       por Dióscoro Teófilo Puebla Tolín, 1862 (col. Museo del Prado Madrid Espanha)



Primeiros contatos de Cristóvão Colombo com os indígenas (col. priv.)
   

 

Cristóvão Colombo escreveu no seu diário, do dia 12 de outubro de 1492: "Acredito que os nativos me consideram um deus, e os navios são para eles monstros que emergiram do fundo do mar durante a noite. A aparência deles igualmente surpreende-nos, porque são diferentes de todas as raças humanas que vimos até agora. Sem dúvida, são bondosos e pacíficos. Acredito que não conhecem o ferro. Eles tampouco sabiam o que fazer com as nossas espadas".
A falta de defesa provou-se fatal para os nativos. Cristóvão Colombo não encontrou nem ouro, nem outras mercadorias. Para poder apresentar um êxito à coroa espanhola, decidiu escravizar a população da ilha. No mesmo diário de 12 de Outubro de 1492, anotou: "Levarei seis desses homens na viagem de volta, para apresentá-los ao rei e à rainha. Eles devem aprender a nossa língua"
Colombo também explorou a costa nordeste de Cuba, onde viriam a desembarcar em 28 de Outubro (segundo os próprios cubanos o nome é derivado da palavra Taíno, "cubanacán", significando "um lugar central"), e o litoral norte de Hispaniola, em 5 de Dezembro. Foi aqui, que a nau Santa Maria terá encalhado na manhã do Natal de 1492 e teve de ser abandonada. Colombo foi recebido pelos nativos e o cacique nativo Guacanagari, que lhe deu permissão para deixar alguns de seus homens para trás; deixou 39 homens e fundou a povoação de La Navidad, no local da atual Môle Saint-Nicolas, Haiti. Antes de regressar a Espanha, Colombo também sequestrou entre 10 a 25 nativos levando-os com ele, destes apenas sete ou oito dos índios nativos chegaram a Espanha vivos, vindo a causar forte impressão em Sevilha. No entanto esses seis indígenas iniciais, transformaram-se em centenas de milhares. No final da conquista espanhola, a população das Índias Ocidentais estava dizimada. Entretanto, a posição de Cristóvão Colombo foi fortemente contestada na corte, não sendo vista com bons olhos a excessiva autonomia da sua ação nas terras do designado Novo Mundo. De fato, a administração de Colombo falhara rotundamente, pois nunca conseguira impor uma ordem estável nas possessões do Novo Mundo, em que os tumultos violentos se sucediam; além disso, ele usava com frequência de uma incompreensível severidade para com os colonos. Deste modo, foi afastado por um enviado dos monarcas, preso e embarcado para Espanha em 1500. Colombo realizaria mais três viagens ao Novo Mundo, sem saber que não se tratava da Índia, mas sim, do continente que um cartógrafo alemão, Martin Waldseemüler (1475-1522), viria a batizar a partir de 1507, com o nome do navegador italiano Américo Vespúcio: América.
Cristóvão Colombo faria uma quarta viagem a além-Atlântico dois anos depois, mas, desprovido de títulos e de honras, morreria em Valladolid em 1506. Até ao fim dos seus dias, Colombo permaneceu convicto de que atingira a Ásia, pensando que Cuba, o território mais extenso que descobrira, era o continente. O seu lugar na História, porém, é ainda maior do que esse, pois associa-se à descoberta da América pela Europa moderna com o início da primeira viagem há precisamente 523 anos.




    Cristóvão Colombo e seus homens são recebidos pelos habitantes da Ilha de Hispaniola (col. priv.)



                                                 Carta náutica da ilha de Hispaniola e Porto Rico (col. priv.)



Construção do forte e torre no povoamento de La Navidad por Cristóvão Colombo (col. pess.)
   


                                                  Ataque á torre de La Navidad por indígenas (col. priv.)




      Receção feita pelos reis católicos a Cristóvão Colombo em Barcelona após a descoberta da América (col. pess.)



                                                                      Cristóvão Colombo, gravura de Johann Theodor DeBry,
                                                                                                        século XVI (col. priv.)

 







                                                         Martin Waldseemüller 1475-1522  (col. priv.)



                                        Mapa Universalis Cosmographia, de Waldseemüller's, 1507 (col. priv.)



Mapa da América por Joducus Hondius de 1606 (col. pess.)


 


                                            Globo terrestre com a América do norte, central e do sul (arq. priv.)





 


Texto:
Paulo Nogueira





Fontes e bibliografia:

MONTEIRO, Jacinto. "Passagem de Colombo por Santa Maria". in revista Ocidente, vol. LVIII, Lisboa, 1960.
MONTEIRO, Jacinto. "O Episódio Colombino da Ilha de Santa Maria, nas suas Implicações com o Descobrimento da América". in revista Insulana, vol. XXII, 1º e 2º semestres, 1966, p.37-126.
GALEANO, Eduardo, Os Nascimentos, 2010