sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

UM PORTUGAL ESQUECIDO...


Alentejo



"A distribuição de direitos da terra relaciona-se com a distribuição de poder, de rendimento, estatuto social e incentivos. Uma reforma agrária que muda esta distribuição é por definição uma mudança que afecta as raízes e não os ramos da sociedade."
Raup (1975)

Começamos por tentar mostrar através de factos reais, a partir de testemunhos, o que era a vida dos trabalhadores na região do Alentejo antes da designada Reforma Agrária, marcada a partir de 1975 em Portugal depois do golpe de estado do 25 de abril de 1974. Este tema não é um tema ainda hoje fácil de encarar por muita gente, pois a Reforma Agrária em Portugal não teve os efeitos desejados e até mesmo visíveis como podemos observar pela definição acima citada de Raup (1975).
 

    Paisagem alentejana por Dórdio Gomes (col. priv.)
 
 
    Postal ilustrado alusivo à apanha da azeitona no Alentejo, no início do século XX (col. pess.)




Inicio de dia no Alentejo antes da Reforma Agrária

Aqui ficam de forma ainda que resumida, algumas memórias de um Portugal esquecido. Assim e até antes da Reforma Agrária, no Alentejo "enrregava-se" (entrava-se ao trabalho), ao nascer do sol mais frequentemente, tirando algumas excepções em que o nascer do dia representava o "largar" do trabalho. Geralmente ia-se a pé para o trabalho, em certos casos vinham tractores com reboques onde cada um levava cerca de 40 pessoas. Levavam uma "alcofa" com a comida para o almoço e uma panela de barro onde o aqueciam numa fogueira conjunta. Tinham uma hora de almoço, onde havia muita alegria, comia-se, cantava-se à "desgarrada", as mulheres mais velhas faziam renda, jogos como o da pedrinha, enquanto os homens iam aos pássaros com as suas fisgas. Os trabalhadores por hábito juntavam-se em grupos, tendo cada mulher uma amiga mais chegada, chamada a amiga da "panela". De seguida iam trabalhar até ao sol posto, depois iam para casa preparar as coisas para o dia seguinte e fazer a "lida" da casa.

Cada época do ano requeria culturas diferentes:
No verão tratava-se da cultura do arroz, trigo e mais tarde a do tomate; no inverno tratava-se da azeitona e da "desmoita" (tratar dos campos). Chegavam ao trabalho com a roupa já molhada começando a fazer dos sacos dos adubos capas para não se molharem.


No verão vinham grupos de mulheres do Algarve, chamadas de "as algarvias", para ajudar nas mondas do arroz. No inverno chegavam os grupos de mulheres do Norte, "as galegas" (mulheres que vinham do norte do pais), para trabalhar na azeitona e na desmoita. Estes grupos vindos de todo o país ficavam hospedados em montes e casões, chegando a casar com pessoas das terras para onde iam. Ao fim-de-semana, muitas pessoas iam trabalhar para os "cieiros" (pequenos proprietários), onde os trabalhadores poderiam impor as suas condições, tendo os "cieiros" menos possibilidades, acabavam por pagar um ordenado mais elevado do que os patrões da semana. As filhas dos "cieiros" trabalhavam na altura do verão que era quando o ordenado era maior. No verão durante doze semanas ganhava-se vinte escudos (0,10€), no inverno ganhava-se oito escudos (0,04€). Na cultura do trigo era mais comum encontrar-se as mulheres e o seu "capataz". Na época da azeitona era quando homens e mulheres trabalhavam juntos e se iniciavam a maioria dos namoros, fazendo os homens versos do cimo das oliveiras para as suas amadas. Havia uma distinção entre homens e mulheres, de onde os homens saiam favorecidos, visto que ficavam com o trabalho mais pesado. Os ordenados eram diferenciados; os rapazes só quando iam para a tropa é que começavam a ganhar o ordenado como um homem, já as mulheres tinham que encher um barril de água e conseguir transporta-lo á cabeça para começarem a ganhar o ordenado.



As festas

Era muito comum haver festas e bailes, todos os fim-de-semana havia bailes com as "algarvias". Depois de uma época de trabalho terminar os patrões ofereciam as "adiafas" (festas com comida e bebida). Em alturas de festas na aldeia, era chegar do trabalho, ir para o baile, depois do baile era trocar de vestimenta para ir lavar a roupa da semana a uma ribeira. Tempos difíceis e de trabalho árduo mas ainda assim com tempo para o convívio e tradições.




                                          Trabalhadoras no Alentejo chegando ao trabalho na década de 1950 (arq. priv.)



    Chegada dos trabalhadores numa herdade do Alentejo para mais um dia de trabalho já nos anos 70 (arq. priv.)




                                  Trabalhadores na monda do arroz no Alentejo no início dos anos 70 (col. pess.)


 Trabalhadores das limpezas das terras no Alentejo no inicio dos anos 70 (arq. priv.)
                   

Preparação do almoço no Alentejo após o trabalho no campo nos anos 70 (arq. priv.) 



Apanha de azeitona com toda a família em São Cristóvão, Montemor-o-Novo
no início dos anos 70 (arq. Rafael Direitinho)



                                        Monda do arroz em Alcácer do Sal , Alentejo no início dos anos 70 (arq. priv.)


Trabalhadores agrícolas no Alentejo em meados dos anos 60 na tradição
que se manteve até à Reforma Agrária (arq. priv.)



Traje típico de trabalhadora agrícola no início dos anos 70 (arq. priv.)



Trabalhadores num monte alentejano numa pausa de descanso durante o trabalho
em finais dos dos anos 60 (col. pess.)



 Casamento no Alentejo nos anos 60 (arq. priv.)



Família alentejana reunida nos finais dos anos 60 (arq. priv.)



Festa na após semana de trabalho numa herdade no Alentejo, início dos anos 70 (arq. priv.)



Grupo amador de teatro composto por os trabalhadores agrícolas do Alentejo no início dos anos 70 (arq. priv.)


Elementos de teatro amador composto por trabalhadores
agrícolas do Alentejo no início dos anos 70 (arq. priv.)



Fatos domingueiros e vestido de noiva usados no Alentejo ainda no início dos anos 70 (col. priv.)



Trajes típicos de trabalhadores agrícolas do Alentejo usados ainda no início dos anos 70 (col. priv.)



A agricultura depois da Reforma Agrária

Poderá parecer discutível, mas em alguns casos o povo português oprimido, depois de incitado e iludido por uma revolta desta natureza, como foi a do dia 25 de abril de 1974, no próprio dia da revolta e nos que se seguiram, quer em Lisboa quer em outras partes do país, como foi o caso do Alentejo, cometeu grandes exageros no que respeita à liberdade, tomando de assalto, de forma indevida, bens e propriedades de alguns privados.
Entre março e novembro de 1975 mais de 1 milhão de hectares de terras no Alentejo foram ocupadas e são formadas cerca de 500 propriedades colectivas dirigidas por trabalhadores rurais. Nasciam as famosas UCP's, (Unidades Coletivas de Produção). Este movimento da Reforma Agrária com apoios estatais, de sindicatos e partidos políticos, avança apoiando-se basicamente nos trabalhadores rurais eventuais, anteriormente mais desfavorecidos, o que leva, no contexto de mudança em que Portugal se encontrava, a novas condições político-económicas das populações do sul. Aumentam as áreas de cultivo, aumentando também a produção, de acordo com a lógica das UCP's o emprego com salários justos, para além do trabalho assegurado e da igualdade entre os trabalhadores: um acesso igual à terra e aos seus rendimentos para todos os que dela dependem. No entanto o futuro e a própria evolução política e económica do país revelou-se um pouco desajustada das intenções da Reforma Agrária, fazendo cair por vezes os seus objectivos principais. Os conflitos entre membros das UCP's, os seareiros e pequenos rendeiros são frequentes; são fracos ou mesmo nulos os conhecimentos de gestão agrária e financeira dos trabalhadores dessas unidades colectivas; há toda uma marginalização cada vez maior dos pequenos e médios proprietários não aderentes à Reforma Agrária, descontentes com a distribuição de desempregados pelas suas propriedades, aumentando-lhes os encargos, os trabalhadores especializados e mais qualificados das cooperativas de produção, devido à igualdade imposta no seu funcionamento acabam por se afastar. Todos estes factores desencadeiam uma deriva crescente das UCP's e o quebrar de relações sociais e laborais na população rural. As alterações políticas no final da década de 70 precipitam uma morte anunciada e o fim das UCP's, tal era o seu descrédito e falta de apoio político e de confiança popular. Com as dificuldades económicas, menor área de exploração e menos postos de trabalho, a maior parte das unidades entra em processo de falência. Com tudo isto o trabalho no campo acaba, as pessoas começaram a emigrar, começando os campos, montes e alfaias a ficar ao abandono. Apareceu a maquinaria, o que fez diminuir o número de trabalhadores nas terras que ainda foram sendo cultivadas, os trabalhadores que restaram puderam expor os seus direitos e as suas vontades, deixando de vir trabalhadores dos vários pontos do país e com isso, todo aquele convívio do passado começou a diminuir até aos dias de hoje. As antigas tradições e hábitos acabaram, mudando radicalmente a vida das populações do Alentejo, tudo passou a fazer parte de um Portugal esquecido. Ficam apenas as recordações dos mais velhos e a saudade daquele convívio quase familiar, mesmo em tempos difíceis.
Com o fim da Reforma Agrária e o latifúndio restaurado, traz ao Alentejo as terras abandonadas, a desertificação e o desemprego, enquanto umas poucas centenas de grandes agrários recebem milhões de euros sem que lhes seja exigida a produção seja do que for. Foi a realidade constatada. A Reforma Agrária acabou por ser destruída, mas não pôs fim à necessidade de nas actuais circunstâncias, se concretizar uma Reforma Agrária noutros moldes.




Cartazes alusivos à Reforma Agrária no Alentejo
(col. priv.)
 
 
                                                                           Filme que aborda o processo da Reforma Agrária no 
                                                                            Alentejo, durante o PREC, cooperativa Grupo Zero



                                            Manifestação de trabalhadores no Alentejo no início da Reforma Agrária (arq. priv.)



Populações no Alentejo numa forma de manifestação durante a Reforma Agrária (arq. priv.)



                                      Trabalhadoras agrícolas alentejanas no período da Reforma Agrária (arq. priv.)



                                                             Trabalhadores operando na debulhadora após o 25 de Abril de 1974
                                                                                   no período da Reforma Agrária (arq. priv.)



Transporte dos trabalhadores em tractor no Alentejo durante o período da Reforma Agrária (arq. priv.)
                        



     Apanha e transporte do tomate no Alentejo durante o período da Reforma Agrária (arq. priv.)



Trabalhadores rurais do Alentejo reivindicando direitos em 1975 no período da Reforma Agrária (arq. priv.)



                                        Pintura mural alusiva à Reforma Agrária no Alentejo em 1975 (arq. priv.)



 Ambiente de trabalho na UCP Soldado Luís no Alentejo em 1978 (arq. priv.)



Barragem do Pego do Altar no Alentejo, construída durante o Estado Novo (foto Rafael Direitinho)



Antiga cooperativa (UCP) de Campo Maior ao abandono nos dias de hoje (arq. priv.) 


    Máquina agrícola Tramagal ao abandono depois da Reforma Agrária (foto Alexandre Filipe Nobre)



                                                     Monte alentejano abandonado nos dias de hoje (arq. priv.)



Edifícios numa herdade na zona de Évora na actualidade (foto Rafael Direitinho)
                              


                                            Aspecto de campo de uma herdade no Alentejo nos dias de hoje (foto Rafael Direitinho)
                             


                           Aspecto de campo de uma herdade moderna no Alentejo nos dias de hoje (foto Rafael Direitinho)




Aspectos de modernas explorações agrícolas no Alentejo (arq. priv.)



Exploração agrícola com gado pastorício no Alentejo nos dias de hoje (foto Rafael Direitinho)



Pôr do sol numa exploração agrícola com gado pastorício no Alentejo nos dias de hoje (foto Rafael Direitinho)






Texto:
Rafael Direitinho e Paulo Nogueira

 
Fontes e bibliografia:
Raup, P. M. (1975), "Land reform issues in development", Staff Paper P75-27, Department of Agricultural and Applied Economics, University of Minnesotta, St. Paul.
Publicação online O Melhor Alentejo do Mundo
Documentários à Esquerda, 420Doc
Trabalho baseado em testemunhos recolhidos junto das populações de Santa Susana em Alcácer do Sal.





sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

EFEMÉRIDES do dia 8 de janeiro


 
Dia Nacional da Cultura em Angola.
Santo do dia, São Severino de Nórica, (Roma, Itália, 410 d. C. - Itália, 8 de janeiro de 482 d. C.). Severino era um romano de origem nobre que, renunciando aos bens materiais, passou muito tempo sozinho no deserto do Egito. Como possuía o dom da profecia, avisou com antecedência várias comunidades sobre a sua futura destruição, acertando as datas com exatidão. Fundou um mosteiro, onde acolhia pessoas que fugiam das guerras e lhes oferecia amparo para a fome física e espiritual. Especialmente venerado na Áustria e Alemanha, o dia em sua honra ocorre no dia da sua morte. Os  restos mortais de Santo Severino encontram-se na igreja dos beneditinos em Nápoles, Itália.
 

 

 




Em Portugal

 
1902 - Morre o oficial de cavalaria português Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque (Quinta da Várzea, Batalha, Portugal, 11 de novembro de 1855 - Lisboa, Portugal, 8 de janeiro de 1902), aos 47 anos. Foi oficial de cavalaria do exército português, que ganhou grande fama em Portugal por ter protagonizado a captura do imperador nuguni Gungunhana em Chaimite, Moçambique em 1895 e pela condução da subsequente campanha de pacificação e subjugação das populações locais à administração colonial portuguesa, no território do que viria a ser a atual Moçambique. Foi também um dos mais notáveis administradores coloniais.
 
 
 
1969 - Estreia na RTP o programa Conversas em Família, da responsabilidade de Marcello Caetano, Presidente do Conselho de Ministros de Portugal.



1983 - O PS termina a reunião da Comissão Nacional, com a reivindicação de eleições gerais antecipadas e um programa fiel à social-democracia, deixando o "marxismo na gaveta".

1996 - O presidente português, Mário Soares, visita oficialmente Angola.

2001 - Iniciam-se as emissões regulares do canal noticioso de TV português SIC Notícias.
 
 
 
2003 - Morre o ator, artista plástico José Viana (Lisboa, Portugal, 6 de dezembro de 1922 - Lisboa, Portugal, 8 de janeiro de 2003), aos 80 anos. Figura determinante da comédia e dos "anos de ouro" do teatro de Revista em Portugal.
 
 

2008 - O Governo português decidiu ratificar/confirmar o Tratado de Lisboa da União Europeia por via parlamentar, afastando a opção de um referendo ao documento.
 
2009 - O Governo altera o regulamento do recenseamento militar, que deixa de ser feito de forma presencial, mas que passa a estender ao sexo feminino a obrigatoriedade de presença no Dia da Defesa Nacional a partir de 2010.

 
 
 



No Mundo

 
1642 - Morre o cientista italiano Galileu Galilei, (Pisa, Itália, 15 de fevereiro de 1564 - Florença, Itália, 8 de janeiro de 1642) aos 77 anos. Foi personalidade fundamental na revolução científica como astrónomo, físico, matemático e filósofo.
 
 
 
1889 - Herman Hollerith patenteou a sua máquina de tabulação, que foi usada pela primeira vez para compilar dados de um recenseamento.
 
 
1912 - É constituído o Congresso Nacional Africano, na África do Sul, na cidade de Bloemfontein, com a proposta de advogar os direitos da população negra do país.
 
1918 - O presidente Woodrow Wilson, dos EUA, apresenta as 14 medidas para a paz mundial, entre os quais a criação da Sociedade das Nações.
 
 

1923 - A França começa a ocupação militar do Vale do Ruhr, na Alemanha.
 
1926 - Após a expulsão do rei Hussein, Ibn Saud torna-se rei de Hejaz e muda o nome do reino para Arábia Saudita.

1935 - Nasce Elvis Aaron Presley (East Tupelo, Mississípi, EUA, 8 de janeiro de 1935 - Memphis, Tennessee, EUA, 16 de agosto de 1977), que virá a ser um famoso músico, cantor e ator norte-americano, mundialmente denominado como Rei do Rock.
 


1940 - Em plena II Guerra Mundial são racionados em Inglaterra o açúcar e a manteiga.
 
1941 - Morre o inglês Robert Baden-Powell, (Londres, Inglaterra, 22 de fevereiro de 1857 - Nyeri, Quénia, 8 de janeiro de 1941), aos 84 anos. Foi um tenente-general do Exército Britânico e fundador do Escutismo.
 
1959 - Fidel Castro, líder da revolução cubana, entra vitorioso em Havana e assume o poder do governo de Cuba após o derrube de Fulgêncio Batista.
 
 

1959 - Charles de Gaulle é proclamado presidente da V República Francesa e Michel Dedré passa a chefiar o Executivo.

1974 - As forças do Vietname do Norte tomam a capital do Cambodja, Phnom Penh.
 
1976 - Morre o primeiro-ministro chinês Chou-en-Lai (Huai'an, Jiangsu, China, 5 de março de 1898 - Pequim, China, 8 de janeiro de 1976), aos 78 anos.
 
 

1978 - Richard Turner, destacado oposicionista do apartheid na África do Sul, é morto a tiro.

1980 - Em plena Guerra Fria os EUA expulsam 17 diplomatas soviéticos.
 
1989 - A URSS anuncia a destruição das armas químicas.



1991 - Escalada para a Guerra do Golfo, o presidente norte-americano George Bush pede aos aliados para não aceitarem compromissos com o Iraque.
 
1996 - Morre o antigo presidente francês François Mitterrand (Jarnac, Charente, França, 26 de outubro de 1916 - Paris, França, 8 de janeiro de 1996), aos 79 anos. Foi um político francês, que  durante 14 anos foi presidente da Republica Francesa. Durante a sua presidência foi abolida a pena de morte em França, no ano de 1981.

2002 - Morre o académico russo Aleksandr Prokhorov (Atherton, Austrália, 11 de julho de 1916 - Moscovo, Rússia, 8 de janeiro de 2002), aos 85 anos. Foi Prémio Nobel da Física em 1964 e um dos precursores da tecnologia laser.
 


2006 - A National Society of Film Critics, que reúne críticos de cinema norte-americanos, elege "Capote", de Bennet Miller, o melhor filme do ano de 2005.

2007 - O islamita marroquino Mounir al Motassadeq, declarado culpado de cumplicidade nos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, é condenado a 15 anos de prisão pelo Tribunal de Hamburgo.

2007 - Morre Iwao Takamoto (Los Angeles, EUA, 29 de abril de 1925 - Los Angeles, EUA, 8 de janeiro de 2007), aos 81 anos. Foi cartunista, produtor e realizador de televisão norte-americano de ascendência japonesa, criador das personagens animadas Scooby-Doo e Muttley nos estúdios Hanna-Barbera.
 


2007 - Morre a atriz Yvonne De Carlo (Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá, 1 de setembro de 1922 - Los Angeles, Califórnia, EUA, 8 de janeiro de 2007), aos 84 anos. Atriz canadiana, contracenou com Charlton Heston no filme épico "Os Dez Mandamentos" de 1956.

2011 - Um ataque ocorrido no Arizona, Estados Unidos, atinge a tiro na cabeça a congressista democrata Gabrielle Giffords e causa seis mortos e 12 feridos.
 
 
 
2011 - O cantor francês John William de seu verdadeiro nome Ernest Armand Huss ( Grand-Bassam, hoje Costa do Marfim, Africa, 9 de outubro de 1922 - Antibes, França, 8 de janeiro de 2011), aos 88 anos. Foi intérprete do "Tema de Lara" do filme "Doutor Jivago" de David Lean (1965), entre outros sucessos entre 1960 e 1970.

 
 

 
 
 

Texto:
Paulo Nogueira




quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

EXPRESSÕES POPULARES...

 




Muitas das expressões populares que utilizamos no dia-a-dia, têm uma razão de ser e por vezes significados que assentam em factos históricos, quer da nossa cultura quer da cultura mundial. Existem aquelas expressões muito portuguesas assim como outras traduzidas. Estas expressões acabaram por se enraizar na linguagem do dia-a-dia, de Norte a Sul do país, sendo usadas sem que se saiba por vezes a sua origem. As suas origens são controversas mas fundamentam-se em alguns factos, uns mais curiosos que outros, que aqui se irão relatar.


"Rei morto rei posto" é uma expressão popular da língua portuguesa, utilizada no contexto político quando há a necessidade imediata de substituir um governante por outro, sem que haja um grande período de vacância de poder, ou quando alguém de determinada importância, quer sentimental quer de cargo superior, é substituída rapidamente por outra por morte ou demissão. Esta é uma frase comum também em países como o Reino Unido e França; "Le roi est mort, vive le roi!", na tradução para o francês, assim como na língua inglesa, "The king is dead. Long live the king!" ("O rei está morto. Longa vida ao rei!"), e é normalmente proclamada tradicionalmente quando um novo monarca sobe ao trono.


Como exemplos:


" O primeiro ministro demissionário já tem substituto, foi rei morto rei posto!"


" Ela mal enviuvou não perdeu tempo em casar novamente, foi rei morto rei posto."

 

Existem várias teorias de como teria surgido esta expressão, sendo a mais aceite baseada numa clássica história da mitologia grega. De acordo com a lenda, o herói Teseu teria usado esta expressão quando derrotou o Minotauro (criatura mística, metade touro e metade homem) e Minos, o rei lendário de Creta. Imediatamente após derrotar Minos e a criatura monstruosa existente no labirinto do palácio de Knossos em Creta, Teseu herdou o trono de Minos, o amor da esposa viúva e a adoração do povo de Creta. Assim, o "rei morto" do famoso ditado popular seria uma referência a Minos. Esta lenda está, inclusive, narrada no famoso livro "Rei Morto, Rei Posto" (The King Must Die, no seu título original), da escritora britânica Mary Renault (1905 - 1983). Muito embora sendo uma expressão mais comum no âmbito político, "rei morto rei posto", também pode ser utilizada em diversos contextos em que envolva a substituição de alguém de algum cargo ou função, assim como numa relação sentimental, por outra pessoa num curto período.

 

Representação de Teseu lutando com o Minotauro (arq. priv.)
                                                   


                                                           Teseu mata o Minotauro no centro do labirinto, mosaico de 300 a 400 d.C.
                                                                                    (col. Museu Kunsthistorisches, Viena, Áustria)


                                                                           Representação do rei lendário grego Minos (col. priv.)


                                                          Representação do que terá sido o palácio de Knossos em Creta (arq. priv.)



                               Sala do trono do rei Minos no palácio de Knossos, no Labirinto de Creta, Grécia (arq. priv.)


Ruínas do pórtico norte do palácio de  Knossos em Creta, Grécia (arq. priv.)
 


Iluminura representando a morte do rei São Luís de França (col. priv.)
 
 
Coroação de Filipe III de França, sucessor de São Luís no trono
 francês iluminura em Grandes Chroniques de France,
século XIV-XV (col. priv.)





"Guardado a sete chaves" é uma expressão popular da língua portuguesa, utilizada no sentido de algo que está muito bem protegido ou um segredo muito bem guardado por alguém. Na língua inglesa, a mesma expressão "guardar a sete chaves" não possui uma tradução literal, mas pode ser substituída pela frase "2 under lock and key", que possui um significado semelhante ao da expressão popular em português.

 
Como exemplos:


"Existem peças muito valiosas naquela casa mas está tudo guardado a sete chaves."

 
"Estou a pensar em mudar de casa, mas tem de guardar este segredo a sete chaves!"

 

Segundo algumas teorias esta expressão terá incorporado o número sete pelo facto de ter um significado cabalístico e místico para algumas religiões antigas, principalmente entre os babilónicos e egípcios. Assim, algumas antigas religiões do chamado Crescente Fértil, realizavam rituais de adoração aos sete planetas conhecidos até então. As referências ao número sete, são numerosas: 7 dias da semana, 7 colinas de Roma, 7 cores do arco-íris, 7 pecados mortais...
A palavra "chave" vem do latim "clavus" que queria dizer "prego", dado que inicialmente as primeiras fechaduras que foram usadas em Roma consistiam em duas argolas, uma em cada aba da porta, e entre elas passava um prego. O nome de prego "clavus", mudou ligeiramente para "clavis" que originou a palavra "chave". Na própria narrativa bíblica, o número sete aparece várias vezes como meio de se referir à figura divina ou às ações executadas de forma perfeita. Durante a idade média, as cartas de testamento eram lacradas com sete selos e a formulação desses mesmos documentos também contava com a participação de sete testemunhas. De tal modo, quando dizemos que um segredo ou tesouro esta "guardado a sete chaves", rememoramos toda essa tradição simbólica conferida ao número sete. De acordo com outros registos históricos, esta expressão terá tido origem a partir de um hábito bastante comum entre a realeza de Portugal, durante o século XIII. Todas as joias, documentos e demais objetos de importância para a Coroa Portuguesa eram guardados num baú especial (também designado de burra), que tinha três a quatro fechaduras diferentes. As quatro chaves, que abriam as fechaduras, eram entregues a quatro funcionários de grande responsabilidade do Reino, sendo necessário a presença dos quatro juntos para que o baú fosse aberto. Naquela época, este era considerado um dos modos mais seguros de se guardar os tesouros e informações secretas. Com o passar do tempo, o acto de guardar algo com várias chaves transformou-se em sinônimo de segurança. O número sete (em vez de quatro) passou a ser utilizado, na expressão popular, devido ao seu valor místico, passando assim a utilizar-se a expressão "guardar a sete chaves". 
Uma outra teoria para a origem desta expressão popular, terá a ver com o número de chaves e por conseguinte o número de portas e grades, que os presos na Cadeia Penitenciária de Lisboa (inaugurada em 1885), tinham desde a entrada naquele estabelecimento prisional até às celas e vice versa. Dai a derivação e se dizer também "estar fechado a sete chaves".

 

                                                                     Representação dos sete planetas da astrologia tradicional
                                                                                          in gravura rosacruz (col. pess.)


Os sete selos de São João simbologia mítica numerológica do Apocalipse (col. pess.)
                                                                                                  
                                                                     

                                                  Sete selos em documento da época medieval (col. priv.)


    Representação em iluminura da Corte portuguesa no séc. XIII com o rei Afonso X, "O Sábio" (col. priv.)


 Pequeno baú designado de burra com três chaves idêntico aos usados no séc. XIII (col. priv.)
                        



                                Aspeto da fachada da Cadeia Penitenciária de Lisboa em meados de 1900 (arq. AML)


                                                                                    Corredor de acesso ao corpo das celas
                                                                                          da Cadeia Penitenciária de Lisboa
                                                                                                      em 1900 (arq. AML)


As várias portas ou grades da Cadeia Penitenciária de Lisboa (arq. priv.)
                              


                                                  As sete chaves simbólicas de algo bem guardado e em segredo (arq. pess.)


 
                                                                 



Texto:
Paulo Nogueira


 
 Fontes e bibliografia:

SANTOS, António Nogueira, Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas, Edições João Sá da Costa, Lisboa
NEVES, Orlando, Dicionário das Origens das Frases Feitas, Lello & Irmãos Editores, Porto