domingo, 25 de dezembro de 2016

PRESÉPIO DE NATAL






Natal, é a festividade cristã que enaltece o nascimento de Jesus. As origens do Natal, é algo controverso, e discutível por muitos entendidos e estudiosos da matéria, no entanto, e segundo a tradição da religião católica, é comemorado anualmente em 25 de dezembro pela Igreja Católica Apostólica Romana. Já nos países eslavos e ortodoxos cujos calendários eram baseados no calendário Juliano, o Natal é comemorado no dia 7 de janeiro pela Igreja Ortodoxa. O Natal é, de resto, encarado mundialmente por pessoas de diferentes credos, como o dia consagrado à família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens. Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata esse evento do Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau e Cândido de Figueiredo, a palavra "presépio" provem do latim praesepium, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos. O presépio de Natal é uma tradição que remonta ao século XIII e que ainda hoje se cumpre na maior parte dos lares cristãos. Quanto a origem dos presépios, alguns pesquisadores reportam-se aos primeiros séculos da era cristã, considerando como elementos precursores do presépio de Natal, as representações da natividade em frescos das catacumbas de Santa Priscila, em Roma, bem como na ornamentação dos sarcófagos nelas recolhidos. Dessas antigas representações da arte cristã primitiva preservou-se uma cena  esculpida sobre um sarcófago datado do século IV d.C..  Esta comemoração começou em Roma, enquanto no cristianismo oriental o nascimento de Jesus já era celebrado em conexão com a Epifania (revelação ou a primeira aparição de Jesus aos Reis Magos), em 6 de janeiro. Ainda que os presépios já fossem uma tradição pelo menos do século II a. C., a verdade é que para os pagãos os deuses solares também nasceram em grutas: Zeus, Dionysius e Agni.
O presépio de Natal, todavia, é  uma referência cristã que remete ao nascimento de Jesus em Belém, na companhia de São José e da Virgem Maria. Segundo a Bíblia no evangelho segundo São  Lucas 2:1-7, por motivo de recenseamento de toda a Galileia, José e Maria foram para as imediações da Judeia, na cidade de David, chamada de Belém. Maria estava grávida e prestes a dar à luz, e de acordo com essa mesma fonte, após o nascimento da criança, ele foi envolto em panos e deitado numa manjedoura destinada à alimentação de animais, pois não havia lugar para eles nas estalagens da cidade, e terá sido reconhecido, após o nascimento, por pastores da região, avisados por um anjo, de acordo com o evangelho segundo São Lucas 2:10-16, e, uns dois anos mais tarde, não na manjedoura, mas na casa de Jesus, por Reis Magos vindos do Oriente, guiados por uma estrela, os quais ofereceram ouro, incenso e mirra à criança, de acordo com o evangelho segundo São Mateus 2:1-12. Segundo ainda a Bíblia no evangelho segundo São Mateus 2:13-18, estes acontecimentos ocorreram no tempo do rei Herodes, que teria mandado matar todas as crianças de 2 anos para baixo, por medo de perder o seu trono para o futuro rei dos judeus.
No local onde se julga ter sido a caverna ou curral, designado por presépio de Natal, onde nasceu Jesus, foi manada erguer a Basílica da Natividade ou Igreja da Natividade, como também é conhecida, no ano de 326 d. C., ordenado por santa Helena, mãe do imperador romano Constantino. Não se tem muita certeza de que a igreja é o local onde Jesus nasceu, mas sabe-se que a igreja foi disputada ao longo dos anos. Atualmente ela pertence a Igreja Ortodoxa Oriental, a Igreja Armênia e à ordem dos monges franciscanos. Atendendo a que os muçulmanos considerarem Jesus como sendo o segundo maior profeta islâmico, o local é considerado sagrado tanto para o cristianismo como para o islamismo. A estrela de prata no seu interior marca o local tido como o ponto exato do nascimento de Jesus.
 



Representação da Virgem Maria e o Menino Jesus num fresco do século II d.C.
(Catacumbas de Sta Priscila, Roma)




                                                       Nossa Senhora e o Menino Jesus com os Reis Magos trazendo-lhe presentes
                                                                       representação do século III d.C. (col. Museu do Vaticano)
                                                                                


                                                               Cena da Natividade num sarcófago romano do século  IV d. C.
                                                                                      (Palazzo Massimo alla Terma Roma)


Representação da adoração dos Reis Magos a Jesus em relevo de sarcófago do século IV d.C.
 proveniente das catacumbas de St. Agnes (col. Museu do Vaticano)




Representação da Natividade em mosaico Bizantino de 1150 (Capela Palatina, Palermo)




Presépio de Natal numa ilustração do século XII (col. priv.)



Representação da Natividade em fresco por Giotto Di Bondone 1304
(Capela Arena, Pádua)




Exterior da Basílica ou Igreja da Natividade em Belém na atualidade (arq. priv.)



Estrela em prata existente no chão da Igreja da Natividade
que marca segunda a tradição o local onde nasceu Jesus
(arq. priv.)
                                    




O primeiro presépio de Natal tradicional, que consta na história foi elaborado na Igreja de Santa Maria em Roma, sendo posteriormente este costume alargado a outras igrejas. Foi em 1223 pela mão de São Francisco de Assis (1181- 1226) que o presépio ganhou a representação que a Bíblia descreve da natividade, ocorrida numa gruta, com uma manjedoura, animais e figuras esculpidas em barro, uma representação que se tornaria popular em todo o mundo cristão. São Francisco começou a divulgar a ideia de criar figuras em barro que representassem o ambiente do nascimento de Jesus. O primeiro presépio foi construído por em 1224, tendo sido celebrada uma missa que foi descrita como tendo um ambiente verdadeiramente divino. Variam em tamanho, alguns em miniatura, outros em tamanho real. Nesse ano, em vez de festejar a noite de Natal na Igreja, como era seu hábito, o Santo fê-lo na floresta de Greccio, para onde mandou transportar uma manjedoura, uma vaca e um burro, para melhor explicar o Natal às pessoas comuns, camponeses que não conseguiam entender a história do nascimento de Jesus. O costume espalhou-se por entre as principais catedrais, igrejas e mosteiros da Europa durante a Idade Média, começando a ser montado também nas casas de reis e nobres já durante o período do Renascimento. O presépio de Natal foi motivo de dois tipos de representações fundamentais: A representação plástica, que terá surgido associada ao culto da Natividade, iniciado por Santa Helena, mão do imperador romano Constantino, ao passo que a teatral se deve a são Francisco de Assis.  No ano de 1567, a duquesa de Amalfi mandou montar um presépio de Natal que tinha 116 figuras para representar o nascimento de Jesus, a adoração dos reis Magos e dos pastores ao Menino Jesus e o cantar dos anjos. No final do século XVII e durante todo o século XVIII, período em que o estilo barroco marcou acentuadamente a Arte Sacra, os presépios de Natal popularizaram-se, enriquecendo-se de novos personagens e atingindo o ponto culminante de sua criação, como modalidade artística independente, a designada arte presepista. No início do século XVIII, o Reino de Nápoles, sob o reinado de Carlos III de Bourbon, rei de Espanha e Nápoles (1716 - 1788), um grande incentivador deste tipo de arte no seu país, destacou-se como um importante centro produtor de presépios de Natal, nascia assim o presépio napolitano. Encorajado pelo dominicano, padre Gregorio Maria Rocco (1700 - 1782), conselheiro do Reino, Carlos III transformou a arte do presépio numa prática do próprio monarca e da aristocracia. Na cidade de Nápoles desenvolveu-se um refinado artesanato de miniaturas, onde ceramistas, marceneiros, pedreiros e entalhadores, ao lado de alfaiates, sapateiros, joalheiros e fabricantes de instrumentos musicais, passaram a dedicar-se à produção em miniatura de réplicas perfeitas de tudo quanto era de uso na vida cotidiana daquela época, chegando tais artífices, a alcançar resultados de admirável qualidade e notável beleza. Essa foi a época da humanização do presépio de Natal, que se ampliou, envolvendo expressões do folclore local, com os personagens (figurantes) dos presépios, passando a ser cópias fiéis dos tipos humanos regionais, vivendo situações do cotidiano, em ambientações bastante realistas. Da Itália, os presépios espalharam-se, com o passar do tempo, por toda a Europa e, a partir daí, para todo o mundo cristão, acompanhando, primeiro os franciscanos e depois, os jesuítas, ao longo do caminho geral do movimento de evangelização. A influência italiana na arte dos presépios de Natal, fez-se sentir, principalmente, na Áustria, Alemanha, Polónia, Espanha e em Portugal. Mas seria já no século XVIII que o costume de montar o presépio de Natal nas casas comuns se disseminou pela Europa e depois pelo mundo. Em Portugal, segundo registos, terá sido encomendado um presépio de Natal em 1558 ao escultor Bastião d'Artiaga pela irmandade dos livreiros de Lisboa, na igreja de Santa Catarina do Monte Sinai. Mas o auge dos grandes presépios de Natal em Portugal surgem no auge do estilo barroco, entre os séculos XVII e XVIII.  Mas foi efetivamente nos séculos XVII e XVIII que, simultaneamente ao desenvolvimento desta arte presepista europeia, o presépio de Natal se implantou no Brasil. Segundo a tradição, o presépio de Natal teria sido introduzido no Brasil, no século XVII em Olinda, por iniciativa de frei Gaspar de Santo Agostinho. Em Espanha, a tradição chegou pela mão do rei Carlos III, que a importou de Nápoles no século XVIII. A sua popularidade nos lares espanhóis e latino-americanos estendeu-se ao longo do século XIX e na França, não se fez até inícios do século XX. Em todas as religiões cristãs, é consensual que o Presépio é o único símbolo do Natal de Jesus verdadeiramente inspirado nos Evangelhos. Tornou-se costume em várias culturas montar um presépio quando é chegada a época de Natal.





São Francisco de Assis por Bonaventura Berlinghieri em 1235
 (col. Igreja de Pescia, Itália)




Representação do que teria sido o primeiro presépio de Natal
representado por São Francisco de Assis em 1223
 (col. pess.)




Representação do presépio de Natal e a adoração dos Reis Magos ao estilo gótico italiano
por Gentile de Fabriano de 1423 (col. Galleria degli Uffizi, Florença)




A adoração dos Reis Magos no presépio de Natal por Don Lorenzo Monaco
ao estilo pré-renascentista italiano 1422
(col. Galleria degli Uffizi, Florença)




Representação do presépio de Natal e a adoração dos Reis Magos  por Sandro Botticelli  de 1475
(col. Galleria degli Uffizi, Florença)



Presépio de Natal em alto relevo de retábulo espanhol do séc. XVII (col. priv.)




Carlos III de Bourbon, rei de Espanha
e Nápoles 1716 - 1788
(col. priv.)



Presépio napolitano do século XVIII do palácio de Reggia Caserta (col. Museu Nacional de San Marino)



Figuras principais do presépio de Natal de Nápoles (arq. priv.)



Presépio de Natal típico napolitano de Michele Cuciniello de 1879 (col. Museu Nacional de San Martino)



Comércio de figuras presépio de Natal em Nápoles na atualidade (arq. priv.)



Presépio de Natal do século XVII construído em madeira, papel, metal e vidro de autor desconhecido 
(Igreja de São Lourenço, ou dos Grilos no Porto)



Presépio de Natal português representando a Sagrada Família em madeira policromada
de finais do séc. XVIII ( col. Museu de Aveiro)



Presépio de Natal, representação em óleo sobre tela do século XVIII,
escola portuguesa (col. pess.)





                                                                   Cromo do final do século XIX juntando o pagão ao religioso,
                                                                                    a árvore e o presépio de Natal (col. pess.)



 

O presépio de Natal barroco em Portugal, desenvolveu-se no reinado de D. João V de Portugal (1689 - 1750), recebendo talvez influência dos seus presépios congéneres de Nápoles do mesmo período. Os mais famosos presépios de Natal barrocos portugueses, foram atribuídos  ao escultor Joaquim Machado de Castro (1731 - 1822). No entanto e desfazendo a mítica atribuição da origem dos presépios barrocos a Joaquim Machado de Castro, outros escultores portugueses do mesmo período se instalam com as suas oficinas na cidade de Lisboa, aos quais se devem monumentais encomendas de presépios de Natal para casas religiosas, a família real portuguesa e a aristocracia de então. Destaque para os presépios do convento de Nossa Senhora das Necessidades, convento das Salésias, o do Paço Patriarcal de São Vicente ou ainda o presépio Kamenesky, originalmente executado para uma das infantas reais e destinado à Real Barraca da Ajuda após o Grande Terramoto de 1755.
O presépio de Natal da Basílica da Estrela, encomendado pela rainha D. Maria I (1734 - 1816), é dos mais bonitos do nosso pais, constituído por mais de 400 figuras e também, da autoria de Joaquim Machado de Castro. Mas no que respeita aos presépios barrocos portugueses destaca-se o famoso presépio dito dos marqueses de Belas, terminado já no século XIX.
Em Portugal os presépios de Natal sempre tiveram enorme aceitação por parte da população, sendo que a árvore de Natal, até meados dos anos cinquenta do século XX era totalmente desprezada e mesmo algo mal vista nas cidades, sendo totalmente ignorada nos campos. De relembrar que a tradição da árvore de Natal foi introduzida em Portugal pelo rei consorte D. Fernando II (1816 - 1885). Noutras zonas, como em Elvas, era hábito decorar-se o presépio com elementos naturais, buxo, cizirão e trigo grelado (searinhas). Um mês antes do dia de Natal, lançavam-se em pratos ou pires, pequenas porções de trigo, humedecido para germinar mais depressa (searinhas) e era com estes elementos naturais que se construíam os presépios. No Algarve esta tradição dos presépios de Natal das "searinhas", também se adoptou mas juntando laranjas às decorações e apenas uma imagem do Menino Jesus. Podemos no entanto encontrar esta tradição de presépio de Natal na ilha da Madeira assim nos Açores, sendo nestas ilhas designado de presépio de "lapinha". Este é um hábito um tanto perdido nos dias de hoje.

O chamado presépio tradicional português é, ao contrário do que encontramos nos outros países, formado por figuras tão diversas que não correspondem com exactidão à época que deveriam representar. À excepção das figuras que representam a Sagrada Família, composta por São José, a Virgem Maria e o Menino Jesus, a vaca, a ovelha e o burro, dos pastores e dos três Reis Magos, todas as restantes figuras que compõem o presépio tradicional português foram adicionadas com vista a dar uma representação "mais portuguesa" à história da Natividade. Assim, podemos encontrar figuras como: uma lavadeira, um moleiro e o seu moinho, alguns bailarinos de um rancho folclórico, uma mulher com um cântaro na cabeça, uma banda de música, entre muitos outros personagens divertidos e tipicamente portugueses. A origem destas peças em cerâmica é dos arredores da cidade de Barcelos na região norte de Portugal, onde ainda hoje, são todas produzidas com origem artesanal. Por sua vez, na região do Alentejo, o presépio de Natal mais característico é o de Estremoz. As cenas da Natividade de setecentos modeladas ao modo de Estremoz, resultam do trabalho das barristas de adaptação ao gosto e tradições locais, dos grandes presépios de Natal realizados em barro por artistas como Joaquim Machado de Castro e outros do seu tempo.




Rei D. João V de Portugal 1689 - 1750 (col. priv.)



Joaquim Machado de Castro 1731 - 1822
(col. priv.)
                                                

Aspecto geral do presépio de Natal barroco em barro moldado 
da autoria de Joaquim Machado de Castro  entre 1782/83
(Basílica da Estrela, Lisboa)



Detalhe do presépio de Natal barroco em barro  moldado
da autoria de Joaquim Machado de Castro entre 1782/83
(Basílica da Estrela, Lisboa)




Presépio de Natal Kamenesky executado para a Real Barraca da Ajuda em 1783
(col. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)



Presépio de Natal dos marqueses de Belas de finais do século XVIII iniciado por Machado de Castro
(col. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
                                                 




As "cearinhas" de trigo que fazem parte dos presépios de Natal de Elvas
e certas zonas do Alentejo e Algarve (arq. priv.)



Presépio de Natal do Algarve com as típicas "cearinhas" e laranjas
(arq. priv.)




Presépio  de Natal madeirense com a presença de elementos naturais
(arq. priv.)
                                 



Presépio de Natal dos Açores de "lapinha" (ar. priv.)




Vista geral do presépio de Natal tradicional português com figuras em barro de Barcelos
(col. de José Gonçalves)




Presépio de Natal de Estremoz em Maquineta do século XIX
(Legado Virgilio Hall da Fonseca col. Museu de Estremoz)





No início do século XX estavam praticamente em desuso e a produção era rara deste tipo de presépios de Natal típico de Estremoz. D. Sebastião Pessanha (1892-1966), encomenda ainda um presépio em 1916, para si e para o Museu Etnológico de Belém, com 60 peças. Disse-lhe Gertrudes Rosa Marques (uma das últimas bonecreiras que ainda trabalhava em Estremoz) que já não saía um da sua oficina há muitos anos, facto que atesta o desuso da representação da Natividade nos antigos moldes. Entretanto, durante o Regime do Estado Novo (período de 1933 a 1974), a estas figuras de Estremoz, é dado um novo alento, conhecendo os presépios locais uma fantástica inovação, que substituiu mesmo a antiga tradição. Nos anos 30, o Director da Escola de Artes e Ofícios local, o gaiense José Maria Sá Lemos (1892-1971), com a preciosa assistência do mestre oleiro Mariano da Conceição (1902-1959), junta os famosos Tronos de cascata de Santo António, com as principais figurinhas que compõem um presépio de Natal. A cena passa então a ser composta por nove peças, mais o trono (ou altar como alguns lhe chamam), onde estão os três reis Magos no degrau maior, estando ao meio a Sagrada Família com o Menino Jesus dentro da manjedoura, e no terceiro e último degrau estão três Pastores ofertantes. Hoje é este o presépio de Natal que se considera tradicional em Estremoz.
À criação e venda de presépios bonecos de Estremoz dedicam-se na actualidade, barristas como Maria Luísa da Conceição, Irmãos Ginga, Irmãs Flores, Fátima Estróia, Isabel Pires, Célia Freitas, Ricardo Fonseca e Duarte Catela, cada um com o seu toque próprio. Atualmente em qualquer casa comercial da especialidade podemos comprar um presépio com as figuras principais e que não ocupam muito espaço, existem em diversos materiais, formas e estilo. Mas a magia dos presépios de Natal ainda continua em muitas aldeias de Portugal e em várias casas onde a construção deste espaço mágico continua a ser uma tradição tão importante como a árvore de Natal e os doces natalícios. O presépio de Natal era uma das tradições mais importantes nas casas portuguesas e ainda continua a ser a par com a árvore de Natal. A imagem do menino apenas era colocado entre as palhinhas do estábulo após a missa do galo, cerimónia que marcava o nascimento do menino Jesus. Ao longo de muitos anos vários são os colecionadores por todo o mundo, particulares e não só, uns maiores que outros, de presépios de Natal em todos os estilos e materiais.  Estando algumas dessas grandes colecções de elevado valor e interesse patentes em museus. As adaptações e fantasias que se acrescentam aos presépios de Natal ao longo dos tempos são diversas como o musgo entre outras. Uma fantasia que se tornou característica em alguns casos,  que podemos observar em locais públicos e privados, foi a de acrescentar o comboio do Pai Natal ao presépio, isto devido à figura do Pai Natal e do fascínio do comboio por crianças e adultos. Grandes construções de presépios têm sido feitas como monumentos, caso do presépio, em aço e bronze, da autoria do escultor José Aurélio Foi inaugurado a 25 de dezembro de 1999 no Santuário de Fátima, junto ao edifício da Reitoria.
Na maioria das cidades portuguesas o presépio é montado pelas autarquias e em algumas tenta-se ter o maior presépio, como é o caso por exemplo de Vila Nova de Famalicão. Mas foi Alenquer que ganhou o epíteto de Vila Presépio depois de, em 1968, ter iniciado a tradição de montar um gigantesco presépio de Natal elaborado pelo pintor Álvaro Duarte de Almeida (1909 - 1972), numa das colinas desta vila. No entanto, este epítome era já desta vila portuguesa desde o século XIII, altura em que se fixou aí o primeiro convento franciscano da Península Ibérica. Frei Zacarias, enviado por São Francisco de Assis encontra em Alenquer um cenário a que chama de autêntica Belém, terra onde nasceu Jesus. A presença franciscana liga esta terra portuguesa à origem do presépio de Natal, em Greccio (Itália) onde o santo de Assis fez o primeiro presépio vivo da história. Recentemente com a chamada reciclagem de materiais constroem-se presépios de Natal que são autenticas obras de arte e entram em concursos, alguns de grandes dimensões, exemplo de um desses presépios de Natal é novamente o de Foz do Arelho deste ano de 2016.



  
Imagens da Sagrada Família do típico presépio de Natal de Estremoz
da autoria das irmãs Flores (col priv.)



José Maria de Sá Lemos 1892-1971
(arq. priv.)



Bilhete postal de Boas Festas emitido pelos correios portugueses em 1942,
alusivo ao presépio de Natal de Estremoz
(col. pess.)



Presépio de Natal cantarinha, irmãs Flores em barro de Estremoz
(col. priv.)



Barrista Mariano da Conceição criador do presépio de trono ou de altar foto Rogério de Carvalho
 (arq. priv.)
   

Trono presépio de Natal de Estremoz (col. priv.)



Bonecos de Natal presépio de Natal de Estremoz do barrista Mariano Augusto da Conceição
da Olaria Alfacinha, foto de Rogério de Carvalho em 1930 (arq. priv.)



Barrista Maria Luísa da Conceição com algumas das suas figuras de presépio de Natal (arq. priv.)



Presépio de Natal de Estremoz
(col. priv.)
                                                   




Imagem do Menino Jesus em terracota policromada (col. pess.)




Presépio de Natal em Óbidos, representando a Sagrada Família em cerâmica
(foto Paulo Nogueira)



Ovo presépio de Natal em ouro e esmalte de Peter Carl Fabergé (col. priv.)



Presépio de Natal em porcelana biscuit branca (col. pess.)



Presépio de Natal tradicional com a Sagrada família, os Reis Magos e pastor em cerâmica com cabana
(col. RD)


Presépio de Natal  representando a Sagrada Família em terracota
(col. RD)


Presépio de Natal representando a Sagrada Família
com forma de bolota em resina
(col. RD)


Presépio de Natal representando
a Sagrada Família em resina
(col. RD)
                                                               


                                                                                    Presépio de Natal  artesanal representando
                                                                                          a Sagrada Família em material têxtil
                                                                                                                    (col. RD)




Presépio de Natal tradicional português com musgo
(foto Manuel Anastácio)
                                   


Tradicional presépio de Natal com comboio (foto L. Marques)



Presépio de Natal moderno em espaço comercial de Lisboa (foto Paulo Nogueira)




Presépio de Natal, em aço e bronze do escultor José Aurélio no Santuário de Fátima,
junto ao edifício da Reitoria (foto Paulo Nogueira)




Vila Presépio em Alenquer, numa iniciativa desde 1968 (arq. priv.)







Aspectos do Grande Presépio de Natal reciclável de Foz do Arelho 2016 (fotos Paulo Nogueira)




As figuras que compõem o tradicional presépio de Natal, tirando algumas excepções, são e representam, segundo as lendas e as tradições:


Menino Jesus - O filho de Deus feito homem que foi o escolhido para ser o salvador do povo e do mundo.


Virgem Maria - A mãe do filho de Deus, do seu ventre nasceu Jesus Cristo.


São José - O pai adotivo do Menino Jesus, foi um homem judeu, conhecido como carpinteiro de profissão.


Gruta ou o Cabana curral - É o local simbolizado pelo presépio. O curral era onde se guardava o gado. Por isso, no presépio do Natal, o Menino Jesus fica sobre uma cama de palhas, numa manjedoura, lugar de aconchego onde Jesus ficou quando nasceu. É como se fosse o berço de Jesus.


O burro, uma vaca, o galo e as ovelhas - Os animais representam a simplicidade do local onde Jesus nasceu. "Jesus não nasceu em palácios, nem em lugares luxuosos, mas sim no meio dos animais". O boi representa ainda a bondade e a força pacífica e ainda o povo hebreu e o sacrifício. O burro simboliza a humildade e os pagãos. O galo que anuncia a chegada de Jesus numa boa nova, as ovelhas simbolizam para além de serem os animais que os pastores transportam, querem demonstrar que Jesus veio ao mundo sacrificar-se por todos nós.


Anjos - Os anjos anunciam aos pastores a chegada do filho de Deus feito homem. Eles sabem que nasceu o salvador.


Pastores - Os pastores são homens do campo, que simbolizam a simplicidade do povo, já que Deus acolhe a todos sem se importar com sua condição social. Representam ainda o povo hebreu.


Estrela de Belém ou estrela de Natal - Foi a estrela que guiou os três reis Magos quando Jesus Cristo nasceu. A estrela de Belém é colocada por norma no alto da árvore de Natal (quando esta existe).


Três reis Magos - Os três reis Magos, de seus nomes Gaspar, Baltasar e Belchior, representam os povos pagãos. Estes três nomes simbolizam as raças distintas, representando a universalidade da Salvação. Eram eles Belchior (representante da raça europeia) que terá oferecido ouro. Baltasar (representante da raça africana) que terá oferecido mirra. Gaspar (representante da raça asiática) que terá oferecido incenso. Outras fontes citam que talvez fossem astrólogos ou astrónomos ou até sacerdotes conselheiros da religião zoroástica da Pérsia. Eram considerados homens sábios. Eles vieram do Oriente conduzidos pela estrela de Belém. Chegaram à cidade de Belém, local de nascimento do Menino Jesus, trazendo presentes, mirra, ouro e incenso. O ouro (metal precioso) que representava a realeza, a mirra (resina de planta com propriedades anti-sépticas) era símbolo da paixão e sofrimento que Jesus iria ter ao longo da sua vida e o incenso (composto por materiais provenientes de plantas aromáticas e óleos essenciais) é oferecido a Deus, representa a divindade de Jesus.
Em Portugal e cumprido este ritual da montagem do presépio de Natal, a família reunia-se e ainda se reúne para a ceia de Natal, constituída tipicamente por bacalhau com batatas cozidas ou polvo cozido e filhoses, a doçaria cerimonial como rabanadas, sonhos, mexidos, aletria (especialidades do norte) o arroz doce, coscorões e filhoses (especialidades do sul) também o famoso Bolo Rei (de origem francesa e divulgado em Portugal pela Confeitaria Nacional em Lisboa) assim como as broas Castelar, começaram a fazer parte da tradicional doçaria portuguesa na mesa de Natal. Mas é o presépio de Natal que reina na casa até ao dia de Reis.





Presépio de Natal  em porcelana biscuit policromado
representando a Sagrada Família
(col. pess.)



Representação da Estrela de Belém pelos Reis Magos (arq. priv.)



Presépio de Natal  em porcelana biscuit policromado representando
a Sagrada Família, os Reis Magos e o pastor
(col. pess.)


Árvore com presépio de Natal 2016 em porcelana biscuit policromada (col. pess.)




Votos de um Santo e Feliz Natal com Paz e Harmonia entre os homens e no Mundo!







Texto:
Paulo Nogueira



Fontes e bibliografia:

FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Editora T. Cardos & Irmão, 1899.
PESSANHA, Sebastião. Os bonecos d’Estremoz. In, Terra Portuguesa, I-II, 1911, p. 105.
CHAVES, Luís. O primeiro «Presépio» de Lisboa conhecido (Século XVII). In, O Archeologo Português. Lisboa, Museu Ethnographico Português. S. 1, vol. 21, n.º 1-12 (Jan-Dez 1916), p. 229-230.
Catolicismo Romano in publicação on line.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

BOLO REI

 
Tradição gastronómica de Natal






Não é possível falar nas tradições de Natal, sem falar de Bolo Rei, entre outras iguarias gastronómicas, sendo este quase presença obrigatória em todas as mesas na época natalícia. A origem do Bolo Rei remonta, ao que se sabe, ao tempo dos romanos. Na Roma antiga, durante as festas pagãs a Saturno, tinham por hábito eleger o rei da festa durante os banquetes festivos, o que era feito tirando à sorte com favas, pelo que era também designado por vezes de rei da fava. A Igreja Católica aproveitou o facto de aquele jogo ser característico do mês de dezembro e decidiu relacioná-lo com a Natividade e com a Epifânia, ou seja, com os dias 25 de dezembro e 6 de janeiro, substituindo assim a festa pagã romana. Já na Idade Média, a influência da Igreja Católica determinou que esta última data fosse designada por Dia de Reis e simbolizada por uma fava introduzida num bolo, a receita de como seria confeccionado esse bolo na actualidade é desconhecida. Segundo uma antiga lenda que surge, este doce representa os presentes oferecidos pelos Reis Magos ao Menino Jesus aquando do seu nascimento. A côdea simbolizava o ouro, os frutos secos e cristalizadas representavam a mirra, e o aroma do bolo assinalava o incenso. Ainda na base desse imaginário, a existência duma fava também tem a sua explicação: Quando os Reis Magos viram a Estrela de Belém que anunciava o nascimento de Jesus, disputaram entre si, qual dos três teria a honra de ser o primeiro a entregar ao menino os presentes que levavam. Como não teriam conseguido chegar a um acordo e com vista a acabar com a discussão, um padeiro confeccionou um bolo escondendo no interior da massa uma fava. De seguida cada um dos três Reis Magos pegaria numa fatia, o que tivesse a sorte de retirar a fatia contendo a fava seria o que ganharia o direito de entregar em primeiro lugar os presentes a Jesus. O dilema ficou solucionado, embora não se saiba se foi, Gaspar, Baltazar, ou Belchior o feliz contemplado. No entanto os teólogos tentam acabar com este uso do Bolo Rei, que, em seu entender, tinha muito de paganismo. Havia ainda a tradição de que os cristãos deveriam comer 12 Bolos Reis, entre o Natal e o Dia de Reis, festa que muito cedo começou a ser celebrada na corte dos reis de França. O Bolo Rei que atualmente conhecemos terá surgido em França na corte de Luís XIV "rei sol" (1638 - 1715), para ser consumido nas festas do Ano Novo e do Dia de Reis, segundo o testemunho de alguns escritores como Madame Françoise de Mottevile (1621 – 1689), Saint Simon (1760 – 1825), entre outros. Até mesmo o pintor Jean-Baptiste Greuze (1725 – 1805), celebrizou o Bolo Rei num famoso quadro, com o nome de "Gateau dês Róis". Com a Revolução Francesa em 1789 o Bolo Rei foi proibido por fazer alusão a realeza, como mais tarde iria acontecer em Portugal. Nova reacção que o próprio Antoine Fouquier Tinville (1746 – 1795), revolucionário francês, teve de acatar. Só que os pasteleiros que tinham um excelente negócio em mãos em vez de o eliminarem decidiram continuar a confecciona-lo chamando-lhe Gâteau dês Sans-cullotes. De referir que este termo dos Sans-cullotes, era dado pelos aristocratas franceses aos trabalhadores rurais e artesãos que iniciaram a Revolução Francesa e que usavam calças largas e compridas, ao contrário das calças curtas e justas  à altura dos joelhos da aristocracia. Como curiosidade, estes bolos são proibidos de confeccionar em França a partir de 1711, devido à fome que alastrava, servindo a farinha apenas para o fabrico de pão. No entanto só em Paris esta lei se cumpriu, em toda a França a tradição manteve-se. Com isto parece não haver dúvidas que o Bolo Rei tem verdadeiras origens francesas, apesar do Bolo Rei popularizado em Portugal no século XIX não ter a ver com o bolo simbólico da festa dos reis existente na maior parte das províncias francesas a norte do rio Loire, na região de Paris, onde o bolo é uma rodela de massa folhada recheada de creme designado Galette des Rois.  O Bolo Rei que se passa a confeccionar em Portugal a partir dos anos 70 do século XIX, segue a receita a sul de Loire, um bolo em forma de coroa feito de massa lêveda. Acrescenta-se que ambos os bolos continham uma fava simbólica, podendo conter um objecto de porcelana como brinde.




Mosaico romano representando festa pagão a Saturno realizadas entre 
os dias 17 e 23 do mês de dezembro (col. priv.)
 
 

Representação das Saturnalias por Antoine-François Callet em 1783
(col. Museu do Louvre, Paris)
 
                                        


Representação da adoração dos Reis Magos a Jesus em relevo de sarcófago do século IV d.C.
proveniente das catacumbas de St. Agnes (col. Museu do Vaticano)

 
 
Pormenor de mosaico do século VI representando os Reis Magos
(Igreja de Santo Apolinari Novo, Ravena, Itália)
 

Adoração dos Reis Magos por Andrea-Mantegna 1280 (col. J. Paul Getty Museum, Los Angeles)



Celebração com o Bolo Rei no Dia de Reis na Idade Média
in Livro das Horas de Adélaïde de Savoie (col. priv.)
 
 
 
Comemoração popular do Dia de Reis no século XVII com Bolo Rei (col. priv.)
 
 
 
 Rei Luís XIV da França 1638 - 1715 (col. priv.)
                       

Famoso quadro intitulada "Gateau des Rois" de Jean-Baptiste Greuze de 1774 (col. priv.)
 
 
 
Representação dos designados Sans-culottes
da Revolução Francesa
 (col. pess.)
 
 

Comemorações populares do Dia de Reis em França com Bolo Rei
em finais do século XVIII (col. pess.)



 
Postais ilustrados franceses do início do século XX
alusivos ao Gateau des Rois (col. pess.)


Tradicional Bolo Rei francês Galette des Rois bolo em forma de rodela
de massa folhada recheada de creme (arq. priv.)


Tradicional Bolo Rei francês Gateau des Rois receita a sul de Loire, 
bolo em forma de coroa feito de massa leveda (arq. priv.)
 
 
 
Miniaturas em porcelana de brinde dos Bolos Rei franceses
alusivas ao presépio de Natal
(col. pess.)



Em Portugal, o Bolo Rei tem também o seu culto e tradições. Tanto quanto se sabe, a primeira casa onde se produziu e vendeu Bolo Rei em Portugal foi a Confeitaria Nacional na Baixa Pombalina em Lisboa. A Confeitaria Nacional, foi fundada em 1829 por Balthazar Roiz Castanheiro e ainda se mantem na atualidade, na posse da mesma família que a fundou. Foi um filho deste fundador de seu nome Balthazar Castanheiro Júnior, que numa das suas viagens a França, trouxe de Paris e de Madrid vários confeiteiros, que melhoraram a qualidade das especialidades daquela casa e que granjearam grande fama no nosso país. Um deles foi o celebre confeiteiro Gregório, que se baseou numa receita secreta de Bolo Rei que Baltazar Castanheiro Júnior trouxera de Toulouse em 1869, contrariando outros relatos que indicam como ter vindo de Paris. Orgulha-se esta confeitaria de haver trazido a receita e a manter integralmente essa receita francesa do sul de Loire. Balthazar Castanheiro Júnior, que aos seus méritos de confeiteiro juntava os de artista, trouxe uma cópia do quadro "Gateau des Rois" de Jean-Baptiste Greuze, que durante anos teve exposto no seu estabelecimento como alusão a este famoso bolo. Como curiosidade é interessante ainda relembrar que, inicialmente, além da fava, posta em todos os Bolos Rei, alguns ocultavam prémios valiosos em ouro ou prata. Durante a Quadra Natalícia a Confeitaria Nacional oferecia aos lisboetas uma exposição de tudo quanto de mais delicado e original a arte dos doces podia então produzir e claro o Bolo Rei. Assim o Bolo Rei atravessou com êxito os reinados de D. Luiz I, D. Carlos e D. Manuel II. De referir que a Confeitaria Nacional devido à grande qualidade dos seus produtos, recebeu em 1873 do rei D. Luiz I de Portugal o alvará que a torna fornecedora oficial da Casa Real, condição essa que se manteve até à implantação da República em 1910. Esteve anda presente e ganhou prémios em exposições internacionais como a Exposição Universal de Viena de Áustria de 1873, a de Filadélfia de 1876, recebeu uma medalha na Exposição Universal de Paris de 1878 e na de Lisboa de 1884. A Confeitaria Nacional, um dos ex libris da cidade de Lisboa, é uma casa que conta já com 187 anos de actividade comercial e industrial, sem nunca ter saído da mesma família, sempre no mesmo local e sempre com o mesmo critério. E a especialidade que a marcou, o famoso Bolo Rei. Aos poucos, outras confeitarias da cidade passaram também a fabricar o Bolo Rei, originando assim várias versões diferentes. Tradicionalmente este bolo de forma redonda, com um grande buraco no centro, é feito de uma massa fofa e branca, misturada com passas, frutos secos, e frutas cristalizadas.
Na cidade do Porto, o Bolo Rei foi introduzido em 1890, por iniciativa da Confeitaria Cascais, segundo uma receita que o proprietário, Francisco Júlio Cascais, trouxera de Paris, numa receita muito semelhante à da Confeitaria Nacional.

 
 
 
Confeitaria Nacional em 1829 na Baixa Pombalina de Lisboa (arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



Factura da Confeitaria Nacional de 1872 (arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



Publicidade da Confeitaria Nacional do século XIX e o seu tradicional Bolo Rei
(arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)

Tradicional Bolo Rei português da Confeitaria Nacional (arq. priv.)



Brindes miniatura dos Bolos Rei da Confeitaria Nacional de 1875
(col. Confeitaria Nacional, Lisboa)
 


Aspecto do edifício na Baixa Pombalina da Confeitaria Nacional in gravura do Diário Illustrado de 1872
 (arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



Medalhas da atribuídas à Confeitaria Nacional em 1873 afixadas no exterior do estabelecimento 
(arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)
 
 

Exterior da Confeitaria Nacional em meados dos anos 30 (arq. priv.)




Pasteleiros e forneiros da Confeitaria Nacional colocando bolos no forno em 1931
(arq. Confeitaria Nacional)



Exterior da Confeitaria Nacional na atualidade (arq. priv.)


Embalagem de luxo atual do afamado Bolo Rei da Confeitaria Nacional
(arq. Confeitaria Nacional, Lisboa)



 Exterior da Confeitaria Nacional em período de Natal na atualidade (arq. priv.)
                                 


Ingredientes do tradicional Bolo Rei português, como os frutos secos e frutos cristalizados (arq. priv.)





Publicidade do início do século XX da Confeitaria Cascais no Porto
(col. priv.)

 

Bolo Rei tradicional português e fatia numa receita de outra variante (arq. priv.)

 

Com a proclamação da República, em 5 de outubro de 1910, a existência do afamado Bolo Rei ficou em risco, tudo por causa do nome conter a palavra "rei". De acordo com a lógica vigente, deixando este símbolo hierárquico nacional (o rei) de existir, também o nome do bolo tinha que desaparecer. Os confeiteiros, partindo mais uma vez do princípio de que negócio é negócio e política é política, continuaram a fabricar o bolo sob outra designação. Os menos imaginativos deram-lhe o nome de "ex-bolo-rei", mas a maioria chamou-lhe "bolo de Natal" ou "bolo de Ano Novo". Ainda assim, a designação de "bolo Nacional" seria a melhor, uma vez que remetia para a confeitaria que o tinha introduzido em Portugal, e também por estar relacionado com o país, o que ficava bem em período revolucionário. Não contentes com nenhuma destas designações, alguns republicanos passaram a chamar-lhe "bolo-presidente" ou mesmo "bolo-Arriaga". Não se sabe como reagiu o então Presidente da República, Manuel de Arriaga (1840 – 1917), mas convenhamos que a homenagem não tivesse sido a melhor. Passado esse período negro, a história deste bolo continuou tendo grande sucesso. A receita do Bolo Rei correu mundo, muito contribui para isso a fama que o bolo ganhou por proporcionar expectativa a quem comesse a fatia que continha a fava ou o brinde. A fava, que uma vez mais reza outra lenda, era amaldiçoada pelos sacerdotes egípcios que a viam como alojamento para os espíritos, é considerado o elemento negativo, representando uma espécie de azar, tendo quem a encontra duas opções segundo a tradição: Assumir o pagamento do próximo bolo ou correr perigo de engoli-la. Por sua vez o brinde era colocado no bolo com o objectivo de presentear os convidados com quem se partilhava o bolo. Havia quem colocasse nos bolos pequenas adivinhas complicadas por sinal, mas cuja recompensa seria meia libra de ouro. Porem outros incluíam propositadamente moedas de ouro na massa, por uma forma requintada de agradecimento, como se o próprio bolo não chegasse. Infelizmente com o passar do tempo o brinde passou a ser um pequeno objecto metálico ou em cerâmica sem outro valor que não o do símbolo e pouco evidente para a maioria das pessoas. Vieram depois o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano e a Revolução de 25 de Abril de 1974 e o Bolo Rei sempre se manteve fiel às suas tradições. Já mais recentemente, como não bastasse, as leis comunitárias ditaram o fim da tradição, proibindo que no interior do bolo se encontre uma fava ou um brinde. Brinde esse que mesmo sem valor quer miúdos quer graúdos achavam piada à pequena miniatura. No entanto alguns fabricantes ainda hoje mantêm a tradição da fava. Surgem mais recentemente versões diferentes desta iguaria Natalícia, como o designado Bolo Rainha e até mesmo de chocolate e maçã. Mesmo assim o Bolo Rei continua a ser um símbolo da época Natalícia, e hoje os confeiteiros e pasteleiros por todo o país não se poupam a esforços na sua promoção, por isso se enchem de clientes para adquirir o rei das iguarias nesta quadra festiva do ano. Muitos estabelecimentos comerciais chegam a ter grandes filas para o adquirir. Não há mesa de Natal portuguesa que não tenha um Bolo Rei. O Bolo Rei não se limita a ser um bolo com um gosto e aspecto agradável, ele é um verdadeiro símbolo desta época de Natal.

 


Postal ilustrado de 1910 alusivo ao primeiro presidente da República portuguesa Manuel de Arriaga
(col. pess.)


Tradicional Bolo Rei produzido em Portugal (arq. priv.)




Libra em ouro, outrora oferecida como brinde no Bolo Rei
(col. priv.)




A tradicional presença do Bolo Rei na mesa de Natal portuguesa
ao longo dos tempos
 (arq. pess.)
 


Fatia do tradicional Bolo Rei no período de Natal (arq. priv.)
 


Brindes miniatura metálicos usados nos Bolos Rei em Portugal
em meados dos anos 80/90 do séc. XX (col. pess.)
 

Tradicional brindes oferecidos nos Bolo Rei portugueses,
a fava que em alguns casos ainda se mantém (arq. priv.)



Fase da confecção do tradicional Bolo Rei (arq. priv.)

 
                                             Tradicionais Bolos Rei prontos a ir ao forno em cru (arq. priv.)
 
 
O tradicional Bolo Rei e fatia em mesa de Natal (arq. pess.)
 


Bolo Rainha derivado do tradicional Bolo Rei (arq. priv.)




Tradicionais Bolos Rei em montra de pastelaria na atualidade (arq. priv.)
 

Mesa de Natal portuguesa com doces tracionais e a presença do Bolo Rei (arq. pess.)
 

O tradicional Bolo Rei que não pode faltar na mesa de Natal portuguesa (arq. priv.)




Bolo Rei na mesa da consoada de Natal 2016 (foto Paulo Nogueira)





Votos de Festas Felizes!








Texto:
Paulo Nogueira



Fontes e bibliografia:
Diário Illustrado de 22 de dezembro de 1872
MODESTO, Maria de Lourdes, COZINHA TRADICIONAL PORTUGUESA, Edição Verbo, 2002, Lisboa
Confeitaria Nacional publicação on line