sexta-feira, 29 de junho de 2018

O VOTO DE D. MIGUEL I DE PORTUGAL E A LENDA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DA ROCHA





 


O rei D. Miguel I de Portugal (1802 - 1866), apesar de temperamento impulsivo, era adepto de caçadas e touradas, não hesitava em entrar na arena para desafiar o touro. Mais do que a vida no paço real, seduzia-o a presença assídua em tabernas e meios populares. A boa figura, a força e a bravura faziam dele uma figura com carisma, quer fosse amado ou odiado. A grande lacuna de D. Miguel relacionava-se com alguma falta de formação. Apesar de ter aprendido teologia e inglês, não era um jovem dotado nem ligado aos ensinamentos escolares, tendo tido uma instrução pouco rigorosa. Era no entanto um homem de aparentes ideais católicos e tradicionalistas, os quais defendia com frontalidade. D. Miguel era pouco popular entre a burguesia do seu tempo, mais aberta à influência do ideário liberal, mas gozava de grande popularidade entre o povo, que, caído na miséria após as guerras contra Espanha e França, procurava num rei a figura forte de um salvador. A isto acresce que era a Igreja Católica quem, à época, muitas vezes matava a fome do elevadíssimo número de mendigos e deserdados de mais de 30 anos de guerras, pelo que a aparente inimizade dos liberais face a esta instituição terá levado a que o povo se colocasse ainda mais do lado miguelista. D. Miguel I é aclamado rei de Portugal em 11 de junho de 1828. Cinco meses depois, no dia 4 de novembro de 1828 D. Miguel, vindo na sua carruagem de Queluz com duas das infantas suas irmãs, a princesas D. Isabel Maria de Bragança (1801 - 1876) e D. Maria 'da Assunção de Bragança (1805 - 1834), e ainda uma aia, perto da Quinta do Caruncho quando se dirigia de Queluz para o Paço Real de Caxias, sofreu um desastre que lhe ia custando a vida e a todos que o acompanhavam. A estrada por onde circulavam era cheia de covas e em muito mau estado, situação típica na época na maioria das estradas em Portugal. A certa altura, uma sub-roda fez baloiçar a carruagem, que se voltou, tendo as infantas sido cuspidas para um dos lados. D. Miguel, enleado nas rédeas, ficou entre as rodas. Os cavalos, espantados, desataram numa corrida e a carruagem passou por cima do rei, fracturando-lhe o fémur da perna direita. D. Isabel Maria ficou ferida na região frontal, ao passo que sua irmã D. Maria da Assunção teve fortes contusões na coxa esquerda. Por curiosidade os cavalos eram "malhados" quanto à pelagem, pelo que o povo começou a chamar "malhados" aos liberais e maçons, seus inimigos. Como curiosidade relativa a este acidente, logo depois do terrível acidente, havendo por ali perto uma casa de gente do campo, D. Miguel foi rapidamente levado a ela para se recompor um pouco e esperar melhores socorros. Segundo relatos, ficou estendido num canapé, apoiando a perna numa cadeira, e aceitou tomar um chá. Poucos dias depois D. Miguel enviou a essa casa no campo um serviço de chá magnífico, um canapé e uma cadeira de construção muito boa e de valor (tudo o que foi usado daquela casa para o serviço do Rei foi oferecido replicado em muitíssimo maior valor). Em 1945 há registo dessa mesma casa, que nela continuava a viver a mesma família que guardava com muita estima conservados todos os presentes do rei, no mesmo sítio, e guardando pormenores da visita que tinham resistido aos tempos naquela pequena tradição oral familiar. Foi depois conduzido imediatamente em maca para o Paço de Queluz, D. Miguel ficou entregue aos cuidados do seu grande amigo barão de Queluz e aos outros médicos da real câmara: Jacinto José Vieira, António Joaquim Farto e Manuel Lopes de Carvalho. Só dois dias antes do Natal é que conseguiu levantar-se sem auxílio de muletas: até ali, o rei esteve de "perninha", como se dizia à época. O rei D. Miguel, pelas suas qualidades e ainda pelo ideal que encarnava, era então um autêntico ídolo popular. Quando, em 1823, triunfante a Abrilada, D. Miguel foi obrigado, apesar do seu triunfo, a seguir para o exilio de Viena de Áustria, o povo, que o compreendia e que por ele era compreendido maravilhosamente, exteriorizou a sua mágoa numa quadra que ficou célebre pela candura e sinceridade da sua inspiração:
Se até os passarinhos choram
Que não têm entendimento,
Que fará quem já não vê
Dom Miguel há tanto tempo!

E ao regressar do exilio, o prestígio que usufruiu junto do povo, a dedicação de que era alvo, a confiança que nele punha a alma popular, eram grandes, a ponto de ser idolatrado por parte de quase toda a gente. E tal forma o rei era adorado, que após esta notícia do acidente de D. Miguel, alguns populares um pouco distante do lugar do desastre, acorreram ao local e abateram as mulas que puxavam a carruagem acidentada. Pelo facto de as mulas serem às malhas, o povo lhes atribui-lhes os mesmos instintos que aos liberais. Já ao tempo as coplas depreciativas contra os liberais eram às dezenas, a inspiração que as ditava, embora sincera na maioria dos casos, emparelhava contudo com a dos hinos e cantatas liberais:
Fora, malhado!
Chucha, judeu!
Acabou-se a guerra:
Dom Miguel é Rei!

Mas, com o desastre de Queluz, a inspiração popular ganhou um carinho extraordinário por D. Miguel. Ferviam as coplas, as canções, os hinos em louvor do ídolo popular, as igrejas enchiam-se de gente que pedia a Deus as melhoras do rei, sucediam-se as ladainhas, as rezas várias, as promessas, os Te-Deums pela saúde do monarca, considerado por muitos como um dos mais queridos do povo português. Dois dias antes do Natal, como relatado, D. Miguel finalmente levantou-se e os médicos deram lhe alta, o povo explodiu de enorme satisfação pelo facto. Uma das manifestações dessa enorme satisfação foi a quadra popular que depois era entoada e cantada por toda a gente.
D. Miguel é bonito,
É bonito e bem feito.
Quebrou as pernas,
Ficou sem defeito.

A 6 de janeiro de 1829, no Dia de Reis houve beija-mão em Queluz, em 29 de janeiro solene Te Deum na Sé de Lisboa ou de Santa Maria Maior, pelo restabelecimento do rei, tal como a 22 de fevereiro, aniversário da sua chegada do exilio, com sermão pelo Padre José Agostinho. Por todo o país sucederam-se as missas e Te Deum em acção de graças ao rei. E D. Miguel I, que se apegara com a Senhora Aparecida, ou da Rocha, deslocou-se até ao local no Jamor, igualmente a 29 de janeiro de 1829 na companhia das suas irmãs e de vários membros da corte para dar-lhe graças pelo seu restabelecimento e segundo os relato da época, o rei ofereceu-lhe as muletas a que durante alguns dias se apoiara durante a recuperação. O episódio das mulas serviu aos liberais para darem largas aos seus sentimentos contra D. Miguel. Os folhetos mais célebres a respeito desse acontecimento de que há conhecimento são: As mulas de Dom MigueI, epistola traduzida livremente de Mr. Viennet, (Epitre aux mules de Dom Miguel por Jean Pons Guillaume, Paris 1829, in 8.°); Dedicatória dirigida ás mulas que arrastaram D. Miguel pelo autor do Dythirambo cm honra das sobreditas bestas, o Dr. João Poer (João Bernardo da Rocha Loureiro) Londres, lmp. por M. Calero, 1829, in 32 ; La Muleide, réponse à 1' Epitre aux mules de D. Miguel. Paris 1830. (Veja: Ernesto do Canto: Ensaio bibliographico, Catalogo das obras nacionaes e estran· geiras relativas aos sucessos políticos de Portugal nos anos de 1828 a 1834. 2.• edição. Ponta Delgada, S. Miguel, Typ. do Archivo dos Açores 1892. Este acontecimento deu origem, no dia 29 de janeiro de 1829, a uma solene Acção de Graças à Senhora da Rocha que se encontrava então na Sé de Lisboa, com a presença da família real. Esta cerimónia foi imortalizada pelos seguidores do absolutismo com várias gravuras alusivas ao acontecimento, que foram feitas na época. Assim se reforçava o mito da Senhora da Rocha como protectora do ideário tradicionalista/absolutista. Os seus seguidores políticos absolutistas/miguelistas, também o acompanhavam nesta devoção, assim como grande parte do clero cujos direitos/privilégios vinham sendo cerceados pelas políticas liberais. Foi igualmente este acontecimento que levou os seguidores do miguelismo a fazerem várias gravuras sobre este acontecimento, assim como ao aparecimento do culto de Nossa Senhora da Rocha noutras localidades do país onde os seus partidários estiveram mais activos. Após a descoberta desta singela figura em barro, numa época de grande crise política em Portugal, seria nesse mesmo local que se afirmou com grande força a dedicação popular ao culto que poucos anos depois viria a ser alvo de aproveitamento político pelas forças conservadoras contra a nova Constituição e os ideais do Liberalismo. Só a derrota dos partidários de D. Miguel veio a obstar à expansão deste culto que estaria destinado a um sucesso semelhante ao da questão de Fátima, ocorridas cerca de um século depois, também no mês de maio e igualmente numa época de grande crise económica e política, tendo igualmente estas inicialmente sido aproveitadas pelas forças conservadoras da época como antidoto contra o anticlericalismo do regime republicano. Este acontecimento relacionado com D. Miguel I acabou por dar mais fama e ênfase à questão de Nossa Senhora da Conceição da Rocha do que a lenda popular propriamente em si. É impressionante como se gerou à sua volta uma fecunda revitalização da fé que não passou despercebida, e que foi até alvo de registo nas crónicas da época, como nos homens de Letras, exemplos: Tomás Ribeiro, Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz.



D. Miguel de Bragança 1802 - 1866
(col. Palácio Nacional de Queluz)
 
 

O heroico valor d'el-rei D. Miguel I aclamado e venerado pelo povo
e as tropas na sua chegada a Vila Franca de Xira em 1823,
gravura de M. Sendim (arq. BNP)



Recordação da aclamação de D. Miguel I de Portugal
em 11 de julho de 1828 (col. priv.)



Rei D. Miguel I de Portugal, em 1828 (col. priv.)




Princesa D. Isabel Maria de Bragança 1801 - 1876
(Regente de Portugal),
por Nicolas-Antoine Taunay, em 1816 (col. priv.)



Princesa D. Maria da Assunção de Bragança 1805 - 1834
por Nicolas-Antoine Taunay, em 1816 (col. priv.)



Reconstituição do que terá sido o aparatoso acidente que envolveu o rei D. Miguel I
e as infantas suas irmãs no dia 4 de novembro de 1828 (col. pess.)



Palácio de Queluz onde o rei D. Miguel I recolheu e recuperou do grave acidente de que foi vítima
(arq. priv.)




Registo com altar de Nossa Senhora da Conceição da Rocha
a quem D. Miguel I recorreu no seu voto (col. priv.)




D. Miguel I dando graças num voto de fé a Nossa Senhora da Conceição da Rocha
na Sé de Lisboa ou de Santa Maria Maior, a 29 de janeiro de 1829 (col. priv.)



Registo de Nossa Senhora da Conceição da Rocha comemorativo
das melhoras do rei D. Miguel I e das suas irmãs em 1829
(pess.)




 
De recordar que o Santuário de Nossa Senhora da Rocha, situado no vale do rio Jamor perto de Linda-a-Pastora, freguesia de Carnaxide, concelho de Oeiras, é consagrado à imagem de Nossa Senhora da Conceição, aparecida, segundo a lenda, no interior de uma gruta funerária, perto do então denominado Casal da Rocha de que tirou a designação. A lenda da aparição da imagem é assim contada em registo da época por Thomaz Ribeiro (1831 - 1901), o grande impulsionador e defensor da construção de um Santuário para esta imagem:
"No dia 28 de maio de 1822, perseguindo um coelho que alli se escondera, entraram na gruta do Jamor percorrendo de rastos a furna por onde elle entrára, sete rapazes que andavam brincando e chapinhando nas margens e nas ilhotas de Jamor. Os seus nomes são: Nicoláo Francisco, Joaquim Nunes, Joaquim Antonio da Silva, Antonio de Carvalho, Diogo, José da Costa e Simão Rodrigues. Os mais novos tinham 11 annos, 15 os mais velhos. Entrando e recuando apavorados, no que levaram longo tempo, conseguiram emfim chegar onde puderam erguer se e respirar. Sondando e apalpando acharam e tomaram nas mãos ossos humanos como poderam verificar quando voltaram ao rio. As familias que ha muito os esperavam em suas cazas não receberam bem os retardatarios e não crêram mesmo na historia phantastica do descobrimento.
No dia seguinte porém começou de levantar-se e avolumar-se nos differentes logares donde eram naturaes os pastoritos, o boato da existencia d’uma gruta desconhecida, e a apresentação dos ossos e a insistencia dos exploradores foi firmando, se não certezas, desejos de apurar a verdade. No dia 30 bastantes pessoas acompanhando os retardatarios da ante-vespera ao rio, abrindo as franças dos salgueiros acharam uma lura na grande rocha que se afundava no Jamor.
Não ousaram porém aventurar-se, os mais prudentes; mandaram entrar os rapazes com ordem de trazerem outros ossos. Era a prova evidente de que elles disseram a verdade. E desde que a conheceram destinaram para o dia 31 procurar com luz que dentro accenderiam, o que podesse achar-se na gruta onde era certo haver estado gente. No dia 31 foram pois, com tochas, para dentro serem accendidas. Entraram na frente os sete moços, lá d'outros acompanhados, e accesa uma tocha, encontraram a pequenina imagem da Virgem."
Conta-se ainda que Frei Cláudio da Conceição, cronista do reino à época e grande apologista da Senhora da Rocha, também naqueles dias aí se deslocou para ver o sucedido, e refere que, na tarde do dia seguinte, a dita imagem da Senhora desapareceu de forma misteriosa. Gerou-se grande tumulto e inquietação vindo a ser encontrada no dia 4 de junho sobre uma oliveira, ali perto, e por ordem da autoridade foi reposta na gruta, alumiada e guardada pelas forças da autoridade por ordem do Juiz de Fora de Oeiras. O achado desta pequena imagem de barro da Virgem Maria é rapidamente divulgado por todo o Jamor e regiões circunvizinhas, chegando mesmo aos ouvidos do rei D. João VI (1767 - 1826). O entusiasmo popular rapidamente fez deste espaço um lugar de peregrinação e de devoção mariana. As romagens de fiéis, vindos de muitas partes da região de Lisboa e seu termo, da Estremadura, de outras partes do país, bispos, religiosos, nobres da corte, ricos e pobres sucedem-se de uma forma rápida e surpreendente. A história da imagem aparecida no Jamor é por demais conhecida, assim como a devoção a este culto por parte da rainha D. Carlota Joaquina (1775 - 1830), e do seu filho D. Miguel, explicitada em vários relatos da época. Menos conhecido é o problema de saúde que então afectou a rainha D. Carlota Joaquina, a qual supostamente, terá sido curada por intersecção desta imagem. Mais tarde a rainha consorte D. Maria Pia viria igualmente a recorrer às preces à Senhora da Rocha quando se encontrava doente.




Registo representando a lenda da aparição da imagem
de Nossa Senhora da Conceição da Rocha
 e a gruta onde foi venerada (col. priv.)



Imagem de Nossa Senhora da Conceição da Rocha que
segundo a lenda terá aparecido na gruta do Jamor
e a que D. Miguel I foi tão devoto (arq. priv.)
 
 

Páginas de publicação Narração de Descoberta da Imagem
de Nossa Senhora da Conceição da Rocha de 1824
(col. priv.)

 
 
Homenagem a Thomaz Ribeiro
no recinto
do Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha
na actualidade (foto Paulo Nogueira)
 
 
 
Registo representando a lenda da aparição da imagem
de Nossa Senhora da Conceição da Rocha
em 9 de agosto de 1822 e a sua veneração
(col. priv.)
 
 


Rainha consorte D. Carlota Joaquina 1775 - 1830
por João Baptista Ribeiro (col. priv.)



Representação do milagre atribuído a D. Carlota Joaquina
por Nossa Senhora da Conceição da Rocha,
por João Baptista Ribeiro, 1824
(col. priv.)




Eram tempos difíceis para o país e a lenda associada à descoberta desta imagem foi para todos um sinal de esperança. O rei D. João VI decidiu portanto que ali não era local para se lhe fazer culto, mandando-a transladar para a Sé Patriarcal de Lisboa, contrariando a vontade do povo, onde permaneceu 60 anos. Só em 30 de setembro de 1883, por ordem do rei D. Luiz I, a imagem é trasladada por via fluvial desde Lisboa até à praia da Cruz Quebrada, sendo levada daí em procissão com grande pompa e festejos até ao local da aparição, para ai ser recebida pelo rei. Foram de tal forma importantes esses festejos, que todo o recinto foi iluminado por luz eléctrica, segundo os registos e notícias da época, algo que era uma novidade para o tempo. Após estes festejos seguiu para a Igreja de S. Romão de Carnaxide, onde esteve 10 anos. Foi então terminada a construção do templo definitivo, o Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, por cima da gruta da aparição, para que acolhesse com dignidade a imagem da Virgem. O projecto do Santuário da Rocha deve-se ao arquitecto José da Costa Sequeira, sobrinho do grande pintor Domingos António de Sequeira. O Santuário foi construído entre 1830 e 1892, tendo sido inaugurado em 1893, contando com a presença da rainha D. Amélia e os seus filhos os príncipes D. Luiz Filipe e D. Manuel. Estiveram ainda presentes o Presidente do Conselho Dr. Hintze Ribeiro e mais entidades de relevo da época. A 4 de outubro de 1899, o Santuário é declarado "Capella Real" "isento" e "especial dos Régios Paços" ficando o rei como Juiz Perpétuo desta irmandade, passando esta a denominar-se "Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha". Este Santuário foi, durante muitos anos, desde meados do século XIX, um dos locais de maiores peregrinações religiosas do país. Com mais de um século de existência, as Festas de Nossa Senhora da Conceição da Rocha são as mais antigas desta região dos arredores de Lisboa e tiveram um tempo glorioso, em que durante décadas foram as maiores festividades do concelho de Oeiras. Desde 2015, que tem sido feita uma aposta na revitalização destas festas populares, tendo por objectivo recuperar o brilho e a dimensão que estas festividades outrora tiveram. Realizam-se anualmente entre de 26 de maio a 4 de junho. De referir como remate deste episódio relatado, tal como o da lenda da Senhora da Rocha, que ambos ocorrem, como já referido, numa época de grande crise política em Portugal e onde muitos valores religiosos, tal como certas crenças estavam ainda muito enraizados nos hábitos e credos do povo assim como de certos estratos da sociedade portuguesa. Embora este culto à Senhora da Rocha fosse inicialmente apropriado pela causa tradicionalista de D. Miguel I, com o fim da guerra civil, o decorrer do tempo e o atenuar das quezílias ideológicas, conquistou a simpatia dos descendentes de D. Pedro IV (1798 - 1834), que lhe prestaram tributo e, em vários casos, fizeram parte da sua irmandade.




Festas de Carnaxide por ocasião da trasladação da imagem de Nossa Senhora da Rocha
para o local da aparição ainda com o templo por terminar,
 in O Occidente de 11 de outubro de 1883 (col. pess.)



A nova igreja da Nossa Senhora da Rocha in O Occidente de 1 de junho de 1893 (col. pess.)



Exterior da igreja do Santuário de Nossa Senhora da Rocha
e espaço envolvente com o rio Jamor na actualidade
(foto Paulo Nogueira)



Exterior da igreja do Santuário de Nossa Senhora da Rocha na actualidade (foto Paulo Nogueira)

 

Interior e altar da igreja do Santuário de Nossa Senhora da Rocha na actualidade (arq. priv.)




Ex Libris da Real Irmandade de Nª Sª da Conceição da Rocha,
Carnaxide






 

Texto:
Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:
Nossa Senhora da Conceição da Rocha, Imp. Minerva,1883, Lisboa
CHAGAS, Pinheiro, "As festas da Senhora da Rocha", in revista O Occidente de 11-10-1883, n.º 173, Vol. VI

"A nova igreja de Nossa Senhora da Rocha em Carnaxide" in revista O Occidente de 1-06-1893, nº 520, Vol. XVI

PIMENTEL, Alberto, A Última Corte do Absolutismo, Livraria Férin, 1893, Lisboa

RIBEIRO, Thomaz, A Rocha, poemeto-prologo do poema inédito O Mensageiro de Fez, Typographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898

RIBEIRO, Thomaz, D. Miguel, A sua realeza e o seu empréstimo Outrequin & Jauge, Estudo crítico, histórico e jurídico, Kessinger Publishing, LLC

MAIA, Álvaro, Feira da Ladra, revista mensal ilustrada, Tomo Segundo, Edição Gusmão Navarro, 1930, Lisboa

Solares e brasões, publicação on line

 

sábado, 26 de maio de 2018

EFEMÉRIDES do dia 26 de maio

Dia do Euromelanoma.
Santo do dia, São Filipe Neri, (Florença, Itália, 21 de julho de 1515 - Roma, Itália, 26 de maio de 1595). Filipe Rômolo Néri pertencia a uma família rica de Florença, órfão muito cedo de mãe, foi criado junto com a irmã Elisabete e educado pela madrasta. Na infância Filipe foi surpreendia pela alegria, bondade, lealdade, inteligência e virtudes que ele sempre soube cultivar até o fim da vida. Cresceu na sua terra natal, estudando e trabalhando com o pai, sem demonstrar uma vocação maior, mesmo frequentando regularmente a igreja. Aos dezoito anos foi para São Germano, trabalhar com um tio comerciante, mas não se adaptou. Em 1535, aceitou o convite para ser o tutor dos filhos de uma nobre e rica família, estabelecida em Roma. Nessa cidade foi estudar com os agostinianos, filosofia e teologia, diplomando-se em ambas as áreas com louvor. No tempo livre praticava a caridade junto dos pobres e necessitados, actividade que exercia com muito entusiasmo e alegria, principalmente com os pequenos órfãos de filiação ou de moral. Filipe começou a chamar a atenção do seu confessor, que lhe pediu ajuda para fundar a Confraternidade da Santíssima Trindade, com o objectivo de assistir os pobres e peregrinos doentes. Três anos depois, aos trinta e seis anos de idade, ele consagrou-se sacerdote, sendo designado para a igreja de São Jerónimo da Caridade. Tão grande era a sua consciência dos problemas da comunidade que formou um grupo de religiosos e leigos para discutir os problemas, rezar, cantar e estudar o Evangelho. A iniciativa teve sucesso que mais tarde o grupo, de tão numeroso, passou à Congregação de Padres do Oratório, uma ordem secular sem vínculos de votos. Filipe preocupou-se somente com a integração das minorias e a educação das crianças de rua. Tudo o que fez no seu apostolado foi nessa direcção, até mesmo utilizar a sua vasta e sólida cultura para promover o estudo eclesiástico. Com o seu exemplo e orientação, encaminhou e orientou vários sacerdotes que se destacaram na história da Igreja e mais tarde foram inscritos no livro dos santos. Mas somente quando completou setenta e cinco anos passou a dedicar-se totalmente ao ministério do confessionário e à direcção espiritual. Viveu assim até morrer, no dia 26 de maio de 1595. São Filipe Néri é chamado, até hoje, "santo da alegria e da caridade". Foi beatificado pelo Papa Paulo V em 1614 e canonizado pelo Papa Gregório XV em 1622. As celebrações da Igreja Católica em sua honra ocorrem no 26 de maio, dia da sua morte.








Em Portugal


1644 - Batalha do Montijo, onde as tropas portuguesas comandadas por Matias de Albuquerque derrotam as espanhóis. Para além da derrota infligida às tropas espanholas, o efeito na moral das tropas e populações, consequente à heroica proeza de Matias de Albuquerque, teve grandes repercussões, causando júbilo em Lisboa e espantando as cortes estrangeiras, ante a humilhação sofrida por Filipe IV de Espanha.
 
 
 
1690 - Morre António Álvares da Cunha, 17.º Senhor de Tábua, (Estado da Índia, 1 de maio de 1626 – 26 de maio de 1690), aos 65 anos. Foi um nobre e político português, foi feito comendador da Ordem de Cristo, trinchante da Casa Real de El-Rei D. João IV, D. Afonso VI e de D. Pedro II; 25.° guarda-mor da Torre do Tombo de 1668 a 1690, e deputado da Junta dos três Estados. Foi ainda um dos que mais contribuiu para a proclamação de João IV de Portugal, na Restauração da Independência, fazendo parte de Os Quarenta Conjurados. Foi o primeiro membro português da Royal Society de Londres, eleito em 1668. Assim como foi secretário e fundador da Academia dos Generosos.
 
1834 - A Convenção de Évora Monte, também referida como Concessão de Évora Monte e Capitulação de Évora Monte, põe fim à Guerra Civil, marcando a vitória do Liberalismo de D. Pedro IV, na batalha da Asseiceira, na qual D. Miguel I se obrigou, perante a Grã-Bretanha, a Espanha e a França, a fazer depor as armas ao seu exército. Através desta Convenção D. Maria II é recolocada no trono e D. Miguel I de Portugal parte para o exilio.
 
 

1872 - Nasce António Maria da Silva, (Lisboa, Portugal, 26 de maio de 1872 - Lisboa, Portugal, 14 de outubro de 1950). Virá as ser um político português do tempo da Primeira República em Portugal. Foi engenheiro de minas pela Escola do Exército, foi um dos membros da "Alta-Venda" que dirigia a organização revolucionária republicana Carbonária Portuguesa, tendo-se exilado em Espanha, quando as suas actividades foram descobertas. Após a implantação da República Portuguesa foi director-geral-interino da Estatística e administrador-geral dos Correios. No período entre 1913 e 1926 ocupou muitos e variados cargos políticos. Entre 1915 e 1926 foi o 4.º Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano, cargo que ficou vago desde 1926 até 1929. A 24 de setembro de 1923 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

1874 - Morre Joaquim António de Aguiar (Coimbra, Portugal, 24 de agosto de 1792 - Barreiro, Lavradio, Portugal, 26 de maio de 1884), aos 92 anos. Foi um político e maçon português do tempo da Monarquia Constitucional e um importante líder dos cartistas, mais tarde do Partido Regenerador. Foi por três vezes presidente do Conselho de Ministros de Portugal de 1841–1842, 1860 e 1865–1868, neste último período chefiando o Governo da Fusão, um executivo de coligação dos regeneradores com os progressistas. Ao longo da sua carreira política assumiu ainda várias pastas ministeriais, designadamente a de Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça durante a regência de D. Pedro nos Açores em nome da sua filha D. Maria da Glória o magistrado Joaquim António de Aguiar.

1895 - Morre Gervásio Jorge Gonçalves Lobato (Lisboa, Portugal, 23 de Maio de 1850 - Lisboa, Portugal, 26 de Maio de 1895), aos 45 anos. Foi um escritor, dramaturgo, jornalista, comediógrafo, tradutor, romancista e professor de declamação português da viragem do final do século XIX. Exerceu o cargo de professor de declamação na escola dramática do Conservatório de Lisboa. Com o fim de chegar a diplomata, tirou o Curso Superior de Letras e a cadeira de Direito Internacional da Escola Naval, mas acabou por fazer carreira no campo das letras. Autor, num curto espaço de tempo, de uma obra extensa e variada, foi comparado a Rafael Bordalo Pinheiro quanto ao humor e ao talento de caricaturista. Colaborou em vários periódicos da época, como o Diário de Notícias, o Diário da Manhã, o Jornal da Noite e O Occidente, onde sucedeu a Guilherme de Azevedo na rubrica "Crónica dum ocidental". Os contornos realistas da sua crítica de costumes, exercitada nos romances e nas peças de teatro, são amenizados pelo tom displicente e pelo humor revisteiro. Dedicou-se igualmente à escrita dramática destacamdo-se "O Rapto de um Noivo", com Maximiliano de Azevedo, comédia em 1 acto que foi representada no Teatro Dona Maria II. Seguiram-se numerosas peças originais ou traduzidas e adaptadas, representadas em todos os teatros portugueses como "Medicina de Balzac", "Sua Excelência" (1884), "O Comissário de Polícia" (1890), entre muitas outras, algumas operetas como "Cocó , Ranheta e Facada" e também novelas. Há quem diga que estas operetas de Gervásio Lobato estão na origem da "revista á portuguesa" em Portugal, com a sua certeira e caustica cronica de costumes. É ainda célebre (talvez a mais célebre) a sua novela "Lisboa em Camisa" (1890), sobre uma família burguesa de Lisboa dessa época e passado ao cinema em 1960. Foi condecorado, pelo rei D. Carlos I, com o Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1892.
 

 
1911 - O Museu Portuense, primeiro museu público do país, instalado em 1833 no antigo Convento de Santo António, em São Lázaro, passa a denominar-se Museu Soares dos Reis, em homenagem ao primeiro e mais notável pensionista em Escultura da Academia Portuense de Belas-Artes.

1920 - Nasce Ruben Alfredo Andresen Leitão (Lisboa, Portugal, 26 de maio de 1920 - Londres, Reino Unido, 23 de setembro de 1975). Virá a ser um escritor, romancista, ensaísta, historiador, crítico literário, e autor de textos autobiográficos, português, com o pseudónimo Ruben A.. Foi professor no King's College, em Londres de 1947 a 1951 e funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa de 1954 a 1972. Nesta data foi nomeado administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Foi igualmente director-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura.
 
1971 - É inaugurado o Centro Comercial Apolo 70, na Avenida Júlio Diniz em Lisboa, designado Drugstore Apolo 70, sendo à época o quarto espaço deste tipo a inaugurar em Portugal. Ocupado uma área de 8.000 m2 e considerado o maior drugstore da Europa, dispondo de 41 lojas, uma sala de cinema, sala de bowling e um snack-bar. Ainda actualmente e apesar dos grandes espaços concorrentes que surgiram na capital, sobrevive.
 


1974 - O I Governo provisório fixa o primeiro Salário Mínimo Nacional em 3.300 escudos mensais, um mês após o 25 de abril, entrando em vigor a 27 de maio.

1988 - O escritor português Vergílio Ferreira vence o Grande Prémio de Romance e Novela da APE.

2001 - O Metro do Porto recebe o primeiro veículo da sua frota: o Eurotram 001, apresentado numa cerimónia que se realiza no Museu do Carro Eléctrico do Porto. O veículo fica em exposição no Museu ao longo de uma semana. Pela primeira vez, os cidadãos podem tomar contacto directo com o metro.

 
  

2003 - O livro de poemas "Duende", de António Franco Alexandre, é distinguido com o Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus.
 
2004 - O Futebol Clube do Porto vence a 2ª Liga dos Campeões em sua história.

2006 - A judoca portuguesa Telma Monteiro, líder da hierarquia mundial da categoria até 52 kg, sagra-se campeã da Europa, em Tampere, Finlândia.
 
 

2006 - Morre José Marinho (Sobral de Monte Agraço, Portugal, 12 de novembro de 1963 - Lisboa, Portugal, 26 de maio de 2006), aos 42 anos. Foi pianista, compositor e maestro. Foi activo colaborador dos canais de televisão portugueses, nomeadamente a nível de programas musicais, Festival RTP da Canção, galas e programas especiais de entrega de galardões. Trabalhou com diversas personalidades da música portuguesa, como o tenor Carlos Guilherme, os cantores Vitorino e Janita Salomé, Olavo Bilac, Rui Veloso, Lena d´Água, Luís Represas, Simone de Oliveira, entre outros.
 
2006 - O Estado assina o acordo "Compromisso com a Saúde", com a Associação Nacional de Farmácias. A propriedade das farmácias deixa de ser exclusiva dos licenciados e os hospitais públicos passam a ter farmácias concessionadas. Aplicação do acordo prevista para o primeiro trimestre de 2007.
 
2009 - No caso BPN o antigo presidente do Banco, Oliveira Costa, é de novo ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito. Na sessão pública, Oliveira Costa desmente as declarações de Dias Loureiro.



 

 
 


No Mundo


1521 - Martinho Lutero é banido pelo Édito de Worms, decreto do imperador romano Carlos V que proibiu os escritos de Martinho Lutero e o rotulou como inimigo do Estado. Levando-o a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a protecção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio. Ali, Martinho Lutero começou a produzir uma obra-prima da literatura alemã, a sua tradução das Escrituras. Posteriormente, Martinho Lutero foi autorizado a regressar à vida pública e tornou-se fundamental na definição das bases para a Reforma Protestante.
 
 
 
1566 - Nasce Maomé III, (Manisa, Turquia, 26 de maio de 1566 - Constantinopla, actual Istambul, Turquia, 22 de dezembro de 1603). Virá a ser sultão otomano denominado "O Justo". No período em que Mehmed III esteve no poder ganhou má reputação. Consta que ele teria dado exagerada atenção ao seu harém, organizando festas sumptuosas e deixando de lado os negócios de negócios e assuntos de Estado.
 
1896 - O czar Nicolau II e a sua esposa, Alexandra Feodorovna, são coroados na catedral ortodoxa da Assunção, ao lado do Kremlin. Durante a longa cerimónia, Nicolau recebeu o cetro e o colar da Ordem de Santo André. Durante a cerimónia o colar ter-se-á aberto e caiu ao chão, os místicos da corte interpretaram esse incidente como um mau presságio. A Revolução de Fevereiro de 1917 obrigaria o czar a abdicar. A família imperial seria executada em julho de 1918.
 
 
 
1896 - É publicado o primeiro índice Dow Jones, com o valor 40.94, com base nas cotações de onze empresas cotadas na Bolsa de Nova Iorque.
 
1897 - Bram Stoker publica "Drácula", considerada a sua maior obra literária. Trata-se de um romance epistolar, ou seja, contado como uma série de cartas, relatos em diário, jornais e registos de bordo. "Drácula" mistura ficção de terror e literatura de vampiros. Embora Bram Stoker não tenha inventado os vampiros e tenha sido influenciado por contos anteriores, o seu romance foi responsável pela popularização dos vampiros através de muitas peças de teatro, cinema e televisão. "Drácula" ganhou inúmeras interpretações ao longo dos séculos XX e XXI.

1907 - Nasce Marion Robert Morrison, mais conhecido por John Wayne (Winterset, Iowa, EUA, 26 de maio de 1907 - Los Angeles, Califórnia, EUA, 11 de junho de 1979). Virá a ser um actor norte-americano, aparecendo com destaque no cinema em 1930, no filme "He Big Trail", um faroeste realizado por Raoul Walsh. Durante vários anos foi estrela de filmes classe B até se consagrar no papel de Ringo Kid no filme "Stagecoach", em 1939, realizado por John Ford. Foi este filme que definiu todas as principais características do cinema faroeste norte-americano. A parceria entre John Wayne e John Ford continuou; realizaram juntos uma série de grandes sucessos e filmes inesquecíveis (vinte e dois no total), como "Three Godfathers" (1948), "The Quiet Man" (1952), "The Searchers" (1956), "The Wings of Eagles" (1957), "The Horse Soldiers" (1959) e "The Man Who Shot Liberty Valance" (1962), além da chamada trilogia sobre a Cavalaria, composta por "Fort Apache" (1948), "She Wore a Yellow Ribbon" (1949) e" Rio Grande" (1950). Foi estrela de Hollywood e trabalhou com diversos realizadores, foi igualmente estrela em muitos outros sucessos do cinema norte americano. Em 1969, recebeu o Oscar de melhor actor no filme "Bravura Indomável" (1969), também dirigido por John Ford. Os dois últimos filmes em que participou foram "O Sheriff" (1975) de Stuart Millar e "O Atirador" (1976) de Don Siegel.
 
 

1926 - Nasce Miles Dewey Davis III (Alton, Illinois, EUA, 26 de maio de 1926 - Santa Monica, Califórnia, EUA, 28 de setembro de 1991). Virá a ser um trompetista, compositor e líder de banda de jazz norte-americano. Considerado um dos mais influentes músicos do século XX, Miles Davis esteve na vanguarda de quase todos os desenvolvimentos do jazz desde a Segunda Guerra Mundial até a década de 1990. Ele participou em várias gravações da corrente bebop e nas primeiras gravações do designado cool jazz. Foi parte do desenvolvimento do jazz modal, e também do jazz fusion que deriva do trabalho dele com outros músicos no final da década de 1960 e no começo da década de 1970. Miles Davis pertenceu a uma classe tradicional de trompetistas de jazz, que começou com Buddy Bolden e que se desenvolveu com Joe "King" Oliver, Louis Armstrong, Roy Eldridge e Dizzy Gillespie. Ao contrário desses músicos ele nunca foi considerado com um alto nível de habilidade técnica. Como trompetista Mile Davis tinha um som puro e claro, mas também uma incomum liberdade de articulação e altura. Ele ficou conhecido por ter um registo baixo e minimalista de tocar, mas também era capaz de conseguir alta complexidade e técnica com seu trompete.

1937 - O Egipto passa integrar a Sociedade das Nações.

1940 - Evacuação da Força Expedicionária Britânica em Dunquerque ocorrida durante a II Guerra Mundial. Conhecida como a Evacuação de Dunquerque, Milagre de Dunquerque ou Operação Dínamo. Quase trezentos e quarenta mil soldados aliados foram evacuados sob intenso bombardeamento, entre 26 de maio e 4 de junho, da cidade francesa de Dunquerque até a cidade inglesa de Dover. Um desastre decorrente da invasão da França pela forças nazis em 10 de maio de 1940, que avançou rapidamente devido à falta de resistência aliada efectiva.
 
 
 
1942 - O general Rommel lança a ofensiva alemã no Norte de África, a grande ofensiva dos Aliados contra as tropas da aliança teuto-italiana durante a II Guerra Mundial. O general Rommel passou de crítico a adversário de Adolf Hitler. Negando-se a sacrificar o Afrikakorps e ordenou a retirada total da África do Norte. Sucedeu-se uma fuga caótica das tropas teuto-italianas rumo à Tunísia.

1954 - É descoberto, no Egipto, o que se julga ter sido o barco solar fúnebre do Faraó Keops. O barco desmontado terá sido enterrado por volta de 2.500 a.C..
 
 

1972 - OS EUA e a URSS assinam o acordo SALT-1 para limitação dos sistemas de mísseis inter-continentais e o Tratado Anti-Mísseis Balísticos.
 
1979 - Israel devolve ao Egipto a soberania de El Arish, capital do Sinai, que ocupou durante 12 anos.

1995 - Morre Isadore "Friz" Freleng (Kansas City, Missouri, EUA, 21 de agosto de 1906 - Los Angeles, Califórnia, EUA, 26 de maio de 1995), aos 88 anos. Foi um animador, cartunista, realizador e produtor norte americano. Ficou famoso pelo seu trabalho nas séries de animação Looney Tunes e Merrie Melodies dos estúdios Warner Brothers, actualmente repassados no canal Cartoon Network. Criador dos famosos personagens de desenho animado Bugs Bunny, Porky Pig, Daffy Duck, Tweety Bird, Tasmanian Devil, Sylvester, Speedy Gonzáles, Bip Bip ou Papa-Léguas, Coiote, entre outros que fazem parte dos Looney Tunes. Em conjunto com David H. DePatie criou a DePatie-Freleng Enterprises, uma produtora de desenhos animados famosa por clássicos como A Pantera Cor de Rosa, Roland and Rattfink entre outros.
 
 

2002 - O realizador Roman Polanski recebe a Palma de Ouro do Festival de Cannes pelo filme "O Pianista".

2003 - Os membros da Agência Espacial Europeia chegam a acordo sobre o programa europeu Galileo, sistema global de posicionamento por satélite.
 
2005 - O Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias condena Portugal por incumprimentos vários na gestão e controlo das quotas nas campanhas de pesca entre 1994 e 1996, na sequência de uma queixa apresentada pela Comissão.



2005 - É inaugurado o Memorial da Paz, em Díli, Timor-Leste, monumento que homenageia os que sofreram na luta pela paz. O monumento, denominado foi construído com contribuições monetárias de vários países e empresas, tendo Portugal participado com 5 mil dólares.

2006 - As forças de defesa timorenses, sob coordenação de tropas australianas, estabelecem um perímetro de segurança em Díli.

2006 - O general Michael Hayden é confirmado director da CIA pelo Senado dos EUA.
 


2008 - O regime militar birmanês congratula-se por a constituição ter sido aprovada por mais de 92 por cento dos eleitores a nível nacional e por a participação no referendo ter atingido os 98 por cento. A oposição classifica referendo como uma "fraude".

2008 - Morre Sydney Pollack (Lafayette, Indiana, EUA, 1 de julho de 1934 - Los Angeles, Califórnia, 26 de maio de 2008), aos 73 anos. Foi um cineasta, produtor e actor norte-americano. Data de 1962 o seu primeiro papel como actor no no filme "War Hunt" e como realizador no filme The Slender Thread (1965). Muitos sucessos se seguiram quer como actor quer como realizador. Sydney Pollack teve os seus dois grandes sucessos de bilheteira aclamados pela crítica com o filme "Tootsie" ou "Quando Ele Era Ela" (1982), como realizador, produtor e actor, tendo como actor principal Dustin Hoffman e "Out of Africa" ou "África Minha", como realizador e produtor com Meryl Streep e Robert Redford, um de seus actores preferidos, que ganhou o Oscar de melhor filme de 1985 e deu a Sydney Pollack o de melhor realizador. Realizou para além de outros filmes, os episódios das séries de TV "O Fugitivo" e "The Alfred Hitchcock Hour".

 2009 - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nomeia a primeira juíza de origem hispânica, Sonia Sotomayor, para o Supremo Tribunal.








Texto:
Paulo Nogueira





segunda-feira, 9 de abril de 2018

CENTENÁRIO DA BATALHA DE LA LYS


                                                               1918 - 2018

 
 


Logo após a Alemanha ter declarado guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, na sequência da retenção de todos os navios alemães em portos portugueses, no total de 72 navios, em 23 de fevereiro de 1916, pelo Governo português a pedido da Inglaterra, a declaração de guerra da Alemanha a Portugal determinou o início da intervenção portuguesa na frente europeia, dando lugar ao entendimento entre os Partidos Democrático e Evolucionista na constituição do Governo de União Sagrada. Foi necessário proceder-se à rápida mobilização e preparação dum corpo militar. O então Ministro da Guerra entre 1915 e 1917, o general José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos (1867 - 1955), publicou um diploma a 24 de maio, ordenando o recenseamento militar obrigatório de todos os cidadãos com idades compreendidas entre os 20 e os 45 anos, juntamente com a colaboração do general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva (1856-1924), o responsável pela organização do Corpo Expedicionário Português (CEP), no centro de instrução de Tancos, o chamado "milagre de Tancos", como ficou conhecido. Foram afixados editais de grandes dimensão nas portas dos edifícios públicos, nas câmaras municipais, estações de caminhos de ferro, praças publicas, etc., indicando os locais e as datas para apresentação dos homens, nas respectivas unidades mobilizadoras. De acordo com relatórios oficiais, rapidamente se transformaram em soldados aptos e capazes para um conflito duro, homens que, pouco tempo antes, tinham uma vida civil, pacata e tranquila. Muitos destes homens, recrutados nas diferentes terras portuguesas de norte a sul do país, à semelhança do que aconteceu em outros países envolvidos no conflito, não tinham noção do que era uma guerra, isto em comparação ao que hoje por exemplo temos, igualmente muitos deles mal sabiam ler e escrever, muitos nunca tinham saído das suas aldeias e dos campos para ir à cidade. O CEP foi a principal força militar que Portugal, durante a Primeira Grande Guerra Mundial, enviou para França, com a finalidade de, através da sua participação activa no esforço de guerra contra a Alemanha que também ameaçava os seus territórios ultramarinos, conseguir apoios dos seus aliados e evitar a perda daqueles territórios. Outros objectivos da participação de Portugal neste conflito foram a consolidação do então jovem regime republicano na esfera internacional, a harmonia das relações luso - britânicas, tal como a distinção ou contraste de Portugal face à posição neutral e germanófila de Espanha, ao recusar a neutralidade num contexto anglófilo, assim como a nível interno, atenuar ou adiar conflitos político-sociais na sociedade portuguesa reforçando desta forma o Parido Democrático. Mas entre a declaração de guerra da Alemanha, e a chegada a França das primeiras forças do CEP, passou quase um ano repleto de tensões entre os políticos apoiantes da guerra e muitos militares contrários ao envolvimento português no conflito. Problemas que marcaram as profundas divisões internas no exército, não apenas entre os apoiantes da guerra e os não apoiantes mas também entre militares do quadro milicianos. Entre Mafra, Tancos e Torres Novas, Tancos foi o local escolhido para a instrução militar devido à existência de instalações adequadas, ao abastecimento de água proporcionado pela proximidade dos rios Zêzere e Tejo, assim como à proximidade da estação ferroviária do Entroncamento.


 

Marinheiros da armada portuguesa arreiam o pavilhão alemão a bordo do navio Enérgie,
fundeado no rio Tejo em 1916 (arq. pess.)



Marinheiros da armada portuguesa içam o pavilhão português a bordo do navio Enérgie,
fundeado no rio Tejo em 1916 (arq. pess.)
 


Rebocador Cisne conduzindo as forças que tomaram posse dos navios alemães fundeados no rio Tejo,
foto Joshua Benoliel (arq. pess.)



Notícia da declaração de guerra da Alemanha a Portugal no cabeçalho do jornal
A Capital de 10 de março de 1916 (arq. Hemeroteca Digital)
 


Edital alusiva à declaração de guerra da Alemanha a Portugal
incentivando os cidadãos a lutarem pela Pátria (col. priv.)




General José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos 1867 - 1955
Ministro da Guerra (arq. priv.)



 General Fernando Tamagnini de Abreu e Silva 1856-1924
responsável pelo CEP (arq. priv.)



Distintivo do Corpo Expedicionário Português CEP (arq. priv.)



 Mapa da Europa durante a Primeira Grande Guerra Mundial
com os países  as Alianças Militares e os neutrais (arq. priv.)



Mancebos dos campos para os quartéis nas cidades em 1916 (arq. pess.)



Preparação do Corpo Expedicionário Português CEP, exercícios de cavalaria em 1916 em Tancos
(arq. AML)



Abastecimentos de viveres durante os exercícios em Tancos em 1916 (arq. priv.)



Treino da infantaria em Tancos em 1916 ainda sem dispor do capacete, novidade desta guerra
(arq. priv.)



Militares do CEP marchando na rua Belém para o embarque em 1916 (arq. AML)



Infantaria do CEP em treino no Campo de Instrução de Tancos em 1917 (arq. pess.)
 


Acampamento de tropas do CEP em instrução em Tancos em 1917 (arq. priv.)

 

Depois da chegada das tropas portuguesas a França e aos campos de batalha, as condições das tropas do CEP foram piorando ao longo dos tempos, nomeadamente devido à falta de reforços que impediam a substituição e descanso das tropas. Esta situação era agravada por outros factores tais como o Inverno frio e húmido, muito diferente do que os portugueses estavam habituados, por vezes atingindo os 30 graus negativos. A 2 de abril de 1917 o Corpo Expedicionário Português (CEP), a coberto da bruma da madrugada, entram nas trincheiras, num total de 55 000 homens. Aí encontram um novo tipo de guerra, enfrentam o frio, a neve, a lama pegajosa, ratos, larvas, parasitas, o barulho ensurdecedor dos bombardeamentos e a surpresa dos gases asfixiantes. O CEP quase conhece a sua destruição, no dia 4 de abril de 1918 e as tropas amotinaram-se em pleno campo de batalha. As condições foram-se agravando a tal ponto que o Comando do 1º Exército Britânico decidiu a rendição das tropas portuguesas por tropas britânicas, com o objectivo de permitir o descanso daquelas. Após tal decisão, na noite de 8 para 9 de abril, os militares portugueses do CEP passaram a noite a encaixotar armas, munições, gado, papéis, mapas, tudo o que era possível. É justamente no dia previsto para a rendição do CEP que se dá a ofensiva alemã e a Batalha do Lys, apanhando as forças portuguesas numa posição completamente desfavorável. Com a ofensiva "Georgette" dos alemães, montada pelo general Erich von Ludendorff (1865 - 1937), os portugueses, não motivados, muito mal preparados e desorganizados, acabaram por sofrer uma derrota estrondosa na Batalha de La Lys, como ficou conhecida (sector de Ypres), à precisamente 100 anos, em 9 de abril de 1918, logo após a derrota do Exército Britânico em Arras. Às 04:15 da manhã do dia 9 de abril de 1918 iniciou-se o ataque de artilharia e de gás asfixiante por parte dos alemães sobre as tropas aliadas. As trincheiras e as comunicações foram destruídas, tornando impossível ao general português Manuel Gomes da Costa dar ordens. A certa altura deixou de ser uma batalha em que o comando central tinha algum controlo sobre o que se passava. A iniciativa passa para oficiais subalternos, sargentos ou até para soldados. A maioria não mostra essa iniciativa, decide que a guerra já não é deles, acabou ali, partem para a retaguarda. Não se deixam reorganizar. E quando o general inglês Richard Cyril Byrne Haking (1862 – 1945), por volta da hora de almoço, pede para ao menos ajudarem a defender a linha dos rios, na retaguarda, o comandante Manuel Gomes da Costa é forçado a dizer segundo registos, "não, não consigo, já não tenho mão sobre estes homens.". Não se pode definir um tempo de duração da fase inicial da ofensiva, mas, em quatro horas de batalha, as tropas portuguesas perderam cerca de 7500 homens, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, ou seja, mais de um terço dos efectivos, entre os quais 327 oficiais. Nos registos do general Gomes da Silva, Comandante da 2 ª Divisão Portuguesa o ambiente é descrito como "todo o sector não era senão um monte de terra revolvida de onde emergia um braço, uma perna, uma cabeça…" A Batalha de La Lys, foi considerada por muitos como a "Alcácer Quibir do século XX" onde terão morrido cerca de 2089 soldados do CEP. A Batalha de La Lys marcou a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, os exércitos alemães, provocaram uma estrondosa derrota às tropas portuguesas, constituindo a maior catástrofe militar portuguesa depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578.






Tropas portuguesas do CEP desembarcam no porto de Brest na França, em 1917
(arq. Bibliothèque Nationale de France)



Desembarque no porto de Brest dos artilheiros do Regimento de Artilharia 2 da Figueira da Foz
que constituíram o 1.º GBA - Grupo de Baterias de Artilharia
(arq. Bibliothèque Nationale de France)
 
 

Viaturas hipomóveis da artilharia do CEP numa estrada da Flandres em 1917 (arq. pess.)



Soldados do CEP na Frente portuguesa em 1917, foto de Arnaldo Garcez (arq. Histórico Militar, Lisboa)



Soldados nas terríveis condições das trincheiras da Primeira Grande Guerra Mundial (arq. priv.)



Soldados do CEP nas trincheiras no campo de batalha  em 1917 (arq. priv.)



Militar do CEP utilizando o periscópio na trincheira em 1917 (arq. priv)
 
 

Soldados do CEP nas trincheiras entre Neuve-Chapelle e Ferme-Du-Bois (arq. priv.)



Soldados do CEP sob crucifixo m pleno campo de batalha em 1917
(arq. priv.)



Soldados espreitando nas trincheiras em campo enlameado em 1917/18 (arq. priv.)



Soldados do CEP e aliados nos campos de batalha na Flandres com lamas barrentas em 1918
(arq. priv.)



Soldados no campo de batalha em 1918 durante a Primeira Grande Guerra (arq. priv.)



Soldados do CEP em movimentações na trincheira num campo de batalha em 1918 (arq. priv.)

 
 
Batalha de La Lys in cabeçalho da Ilustção Portugueza de 9 de abril de 1918 (arq. pess.)
 
 

Mapa alemão da estratégia ofensiva da Batalha de La Lys em 1918
(arq. priv.)



Ambiente de trincheira idêntico ao vivido durante a Batalha de La Lys
em 9 de abril de 1918 (arq. priv.)


Tropas do CEP no campo de batalha enfrentando arame farpado em 1918 (arq. priv.)



Soldados aliados no campo de batalha transportando camarada ferido em combate (arq. priv.)



Gravura água -forte representando a Batalha de La Lys em 9 de abril de 1918
por Adriano Sousa Lopes (col. pess.)
 
 

Soldado do CEP morto na Batalha de La Lys em 1918 (arq. priv.)
 
 

Soldado morto na Batalha de La Lys em 1918 (arq. priv.)



Soldado aliado morto em campo de batalha em 1918 (arq. priv.)
 


Imagem de Cristo mutilado em pleno campo de batalha de La Lys
oferecido a Portugal em 1958 (arq. priv.)



Soldado aliado chorando no campo de batalha enlameado em 1918
(arq. priv.)
 


Aspecto do campo de batalha de La Lys em 1918 (arq. priv.)
 
 

Postal ilustrado com sepultura de soldado português na Primeira Grande Guerra Mundial (col. pess.)
 


Tropas francesas prisioneiros na Batalha de La Lys em 1918 (arq. priv.)



Tropas do CEP feitos prisioneiros em 1918 (arq. priv.)




Era o princípio do fim da guerra para os portugueses. Assim o CEP retirou-se para a retaguarda dos Aliados (com base na Tríplice Entente, entre Reino Unido, França e o Império Russo), alguns dos efectivos foram integrados no exército inglês, outros utilizados para mão - de - obra na abertura de trincheiras, o que foi desmoralizando cada vez mais os soldados portugueses. Esta derrota já era esperada pelo comandante do CEP, general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva e pelo comandante da 2.ª Divisão Manuel Gomes da Costa e pelo Chefe do Estado-Maior do Corpo Expedicionário Português (CEP), em França o coronel João José Ludovice Sinel de Cordes (1867 - 1930), que por diversas vezes avisaram o governo de Portugal e o comando do 1º Exército Britânico, das dificuldades existentes. O envio do CEP para França tinha sido motivo de desacordo interno entre os vários departamentos do Governo Britânico e o Governo Francês. Enquanto que o Governo Francês e o Ministério da Guerra Britânico (War Office) se mostravam bastante favoráveis à ajuda portuguesa (originalmente tinha sido o Governo Francês a pedir ajuda a Portugal logo no início da guerra), o Ministério do Exterior Britânico (Foreign Office) opunha-se, por razões políticas, à mesma ajuda. A estadia do CEP em França foi sempre muito atribulada, não tendo havido a substituição de efectivos, devido aos navios britânicos necessários para isso, terem sido requisitados para o transporte das tropas americanas para a Europa e porque alguns dos oficiais que conseguiam vir a Portugal, já não voltavam para o seu posto em França. Mas e em especial os no que diz respeito à má qualidade de muitos oficiais portugueses e à sua escassa preocupação com o bem-estar dos seus soldados. Após a Batalha de La Lys, o governo de Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1872 - 1918), afirmou tentar enviar mais 10 a 15 mil homens, mas esse envio nem nunca foi efectivamente concretizado. Apesar da Batalha de La Lys ter sido, em termos tácticos imediatos, uma derrota para o CEP, a mesma acabou por dar origem a uma vitória estratégica para as forças aliadas. Segundo investigações, o comandante general Manuel Gomes da Costa nos seus registos culpa os civis franceses que residiam naquela área, mas que faziam parte de um esquema de espionagem alemão, de passarem informações para os alemães e, por isso, estes atacam no dia preciso em que a divisão iria ser retirada. Por outro lado, fontes britânicas acusam os soldados portugueses, de desertores, que fogem e que contam tudo aos alemães para receberem um jantar ou serem bem tratados. Regra geral, os britânicos culpam os portugueses pelas dificuldades encontradas durante a batalha. No seu diário, o comandante inglês Douglas Haig (1861 - 1928), escreveu que "os homens recuaram, ou, mais precisamente, ‘fugiram'". A resistência das forças portuguesas foi muito desigual mas globalmente ténue, o que se justifica pelo estado de fatiga e desmotivação do CEP causado pelo tempo excessivo passado nas linhas da frente. A ordem inglesa de "morrer na linha B" não foi cumprida. Este facto da presença das tropas portuguesas estarem na linha da frente e terem sido retiradas precisamente na noite de 9 para 10 abril de 1918 é uma questão que se mantém em debate ainda na actualidade. Existem grandes controvérsias sobre este facto e não é à-toa que se afirma muitas vezes, utilizando uma expressão popular tipicamente portuguesa, que as tropas portuguesas na Batalha de La Lys serviram de "carne para canhão". De qualquer forma o ímpeto do ataque germânico foi-se perdendo e a sua progressão foi atrasada impedindo que o Exército Alemão alcançasse os seus objectivos estratégicos. O CEP, símbolo do esforço de guerra português na frente ocidental, chegou às trincheiras em janeiro de 1917, e após a Batalha de La Lys desapareceu enquanto força organizada. Como símbolo desta terrível Batalha de La Lys, ficou uma tosca cruz em madeira, deixada pelos alemães na campa do soldado Manuel da Silva com a inscrição: "Hier ruht ein tapferer Portuguiese" (Aqui jaz um valente Português). Este símbolo hoje preservado no Museu Militar de Lisboa tem um significado importante para Portugal e em especial para o nosso exército.



  
Tropas do CEP cansados e desmotivados numa trincheira em 1918 (arq. priv.)
 


O general Gomes da Costa condecora combatentes da batalha de La Lys
 in capa da publicação Ilustração Portugueza de 22 de julho de 1918
(col. pess.)



Generais Tamagnini, Richard Hacking e Gomes da Costa (arq. priv.)



Feridos ingleses após ataque de gases (arq. Imperial War Museum)



Soldado do CEP despede-se de soldado inglês em 1918
(arq. priv.)



Cruz em madeira deixada pelos alemães na campa do soldado
do CEP Manuel da Silva após a Batalha de La Lys
com a inscrição em alemão Aqui jaz um valente Português
(col. Museu Militar de Lisboa)




Capa de publicação em homenagem respeitosa de um soldado
que teve a honra de o ver nas trincheiras da Flandres
(col. priv.)

 


Para além dos muitos heróis portugueses esquecidos desta guerra, que foram todos eles, salienta-se o Soldado "Milhões" de seu nome Aníbal Augusto Milhais (1895 – 1970), que se destacou por actos heroicos na Batalha de La Lys, o qual sozinho na trincheira, munido apenas da sua metralhadora Lewis, ou "Luísa" como era designada em calão das trincheiras, enfrentou as colunas de alemães que se atravessaram no seu caminho o que possibilitou a retirada de outros camaradas portugueses e ingleses para posições defensivas na retaguarda. Depois perdido vagueando por trincheiras e campos, ora de ninguém ora ocupados pelo inimigo, foi-se defendendo, até que quatro dias depois encontra um médico militar escocês, salvando-o de morrer afogado num pântano. Valeu-lhe as palavras do comandante português João Maria Ferreira do Amaral (1876 – 1931), que o saudou com as palavras que ficaram para a história "Tu és Milhais, mas vales Milhões". Foi premiado com várias condecorações estrangeiras, propostas pelos ingleses e a mais alta condecoração honorária nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Dada a sua simplicidade  como ser humano, sempre achou as condecorações que lhe foram atribuídas supérfluas, pois para ele o importante foi a protecção dos seus camaradas no campo de batalha e a Pátria que representava. 
Finalmente no dia 11 de novembro de 1918, às 02:05 da madrugada, num episódio mais tarde conhecido como Dia do Armistício, é assinado o cessar-fogo, entre a então designada República de Weimar. Tudo isto aconteceu numa carruagem restaurante, a Nº 2419 D da CIWL, na floresta de Compiègne no norte de França. Os principais signatários foram o marechal Ferdinand Foch (1851 - 1929), comandante chefe das forças da Tríplice Entente, o almirante inglês Sir Rosslyn Wemyss e Matthias Erzberger, representante alemão. Termina assim esta guerra com a victória dos Aliados. Seguindo-se depois ao Armistício o Tratado de Paz de Versalhes, celebrado em 1919, os termos do acordo foram severos para Alemanha, segundo o qual, a Alemanha, derrotada, era obrigada a reduzir as suas tropas a metade do efectivo, pagar pesadas indemnizações aos países vencedores, ceder todas as colónias e restituir a região da Alsácia – Lorena à França.




Aníbal Augusto Milhais 1895 - 1970, o soldado português
mais condecorado da Primeira Guerra Mundial,
agraciado com a Ordem Militar da Torre e Espada,
do Valor, Lealdade e Mérito (col. priv.)



Ilustração do soldado "Milhões" durante o ataque alemão em 1918
por Carlos Alberto Santos (col. pess.)



Soldado "Milhões" entre outros soldados do CEP condecorados 
na Primeira Grande Guerra Mundial (arq. priv.)



Responsáveis pela assinatura do Armistício em 11 de novembro de 1918
junto a carruagem Nº 2419 D da CIWL (col. priv.)



Soldados aliados num campo de batalha, erguem os seus capacetes e saúdam o dia do Armistício,
em 11 de novembro de 1918 (arq. priv.)



 Mapa da Europa após a Primeira Grande Guerra Mundial (arq. priv.)
 
  
 

Em Portugal e à semelhança dos outros países envolvidos no conflito, comemora-se o fim da guerra, as ruas das cidades enchem-se de populares e é feito um discurso alusivo ao facto no varandim do palácio de Belém pelo então Presidente da República Sidónio Pais (1872 – 1918), em novembro de 1918. Apesar dos reforços não terem sido enviados, no final da guerra, com o resto dos homens do CEP, ainda se conseguiu organizar alguns Batalhões que tomaram parte nas últimas operações que levaram à vitória final aliada, tendo participado na marcha da vitória em Paris em 1919, trazendo assim alguma glória e honra para Portugal. Para trás ficava uma guerra devastadora sem sentido que, entre mortos, feridos e prisioneiros, marcou a vida de 14062 portugueses, recebendo uns condecorações com a Cruz de Guerra e sendo outros completamente esquecidos. Com o passar do tempo, apenas restou aos "trinchas" a saudade... dos bons e maus momentos das trincheiras, recordados com alegria e exageros por vezes dos seus feitos, mas também com tristeza e muitas lágrimas, capazes de emudecer qualquer um. Todos afinal foram heróis, os que morreram assim como os que sobreviveram. Uns morreram, os que sobreviveram, passaram o terror e as tormentas desta guerra, tudo pela Pátria, e, principalmente, pelo tal jovem regime republicano que se quis impor e a má política. Foi como todas as guerras, um conflito de violência e brutalidade do homem para com o e seu semelhante, que para além das vítimas e estropiados que fez (mutilados e gaseados), traumas psicológicos devido as neuroses de guerra, levando em alguns casos ao suicídio, deixando um rasto de destruição e consequências para as gerações vindouras. É de louvar também o trabalho de reportagem fotográfica feito por vários repórteres e fotógrafos de guerra, quer estrangeiros quer portugueses, como Joshua Benoliel (1873 - 1932), Arnaldo Garcez Rodrigues (1885 - 1964), entre outros artistas como João Guilherme de Menezes Ferreira (1889 - 1936), Adriano Sousa Lopes (1879 - 1944), que representaram à sua maneira cenas deste conflito, sem os quais hoje não se poderia perceber com exactidão o que foi esta guerra por imagens passo a passo.
Após este conflito mundial, ergueram-se monumentos aos combatentes quer em Portugal, quer nos demais países envolvidos no conflito, homenagearam-se ainda os mortos desta guerra em cemitérios, assim como aos soldados desconhecidos dos seus países. Em jeito de opinião conclusiva, a Primeira Grande Guerra Mundial acabou em vergonha para os alemães, decepção com os ingleses, respeito pelos franceses e de punição para os governantes portugueses da época. Esta Batalha de La Lys travada à 100 anos foi decisiva para Portugal na Primeira Grande guerra Mundial.





Página do jornal Diário de Noticias do dia 11 de novembro de 1918 anunciando o Armistício
(arq. priv.)
 
 

Página do jornal A Capital de 11 de novembro de 1918 alusiva ao final
da Primeira Grande Guerra Mundial e da assinatura do armistício
(arq. priv.)



Comemorações no final da Primeira Grande Guerra Mundial com Sidónio Pais
discursando do varandim do palácio de Belém em novembro de 1918
(arq. AML)
 




Desfile de batalhão do CEP em Paris nas comemorações do final da guerra em 1919
(arq. priv.)
 
 

Tropas do CEP sendo agraciadas por criança na parada da vitória em Paris, a 14 de julho de 1919,
foto Arnaldo Garcez, colorida por Jorge Henrique Martins (arq. Liga dos Combatentes)



Cruz de Guerra, condecoração portuguesa da Primeira Grande Guerra,
frente e verso (col. pess.)



Cruz de Guerra exposta atribuída aos militares do CEP
que estiveram em combate (col. pess.)



Túmulo do soldado desconhecido na Casa do Capitulo
do mosteiro de Santa Maria da Vitória na Batalha
(arq. priv.)



Lápide do túmulo do soldado desconhecido da Grande Guerra na Casa do Capitulo
do mosteiro de Santa Maria da Vitória na Batalha (arq. priv.)
 
 

Cemitério português dos combatentes do CEP mortos na Primeira Grande Guerra
em Richebourg, França (arq. priv.)



Cemitério Militar Português de Richebourg, França (foto Calos Pereira)
 


Cemitério Militar Português de Richebourg, França (arq. priv.)




As cerimónias da evocação do aniversário da Batalha de La Lys têm lugar, habitualmente, todos os anos no Mosteiro de Santa Maria da Vitória - Batalha (Leiria) num dos primeiros fins de semana de abril, com a presença dos vários ramos das forças armadas portuguesas, entre outras entidades. Este ano as cerimónias da evocação deste acontecimento, terão um sentido especial passados que são 100 anos sobre esta importante batalha da Primeira Grande Guerra Mundial. Várias Ligas de Combatentes em Portugal este ano se associam às cerimónias do centenário deste acontecimento marcante da nossa história ocorrido além fronteiras. Também este ano e nesta data, o centenário da Batalha de La Lys será evocado em 8 e 9 de abril, em França, durante cerimónias nas quais estarão presentes os Presidentes da Republica de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e de França, Emmanuel Macron, assim como também o Primeiro-Ministro português, António Costa.




Os Presidentes da República portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa e francesa Emmanuel Macron
nas cerimónias do centenário da Batalha de La Lys no cemitério de Richebourg
(foto Pascal Rossignol)



Chefes de Estado portugueses e francês, Marcelo Rebelo de Sousa, Emmanuel Macron e António Costa
nas cerimónias do centenário da Batalha de La Lys no cemitério de Richebourg (arq. Lusa)



Descerramento de placa de Homenagem aos Combatentes da Primeira Grande Guerra
por ocasião do centenário da Batalha de La Lys na Avenue des Portugais em Paris
(arq. priv.)







Texto:
Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:
MARTINS, Luiz . A. F., Revista Militar, Mobilização do Exército da República, janeiro de 1916
PONTES, José, Mutilados portugueses. Narrativas de guerra e estudos de reeducação, Guimarães & C.ª, Lisboa, 1918
MARQUES, Isabel Pestana, "Das Trincheiras, com Saudades" A vida quotidiana dos militares portugueses na Primeira Grande Guerra Mundial. Lisboa, A Esfera dos Livros, 1ª edição março 2008
KEEGAN, John (1998), "The First World War", Hutchinson, General Military History
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