domingo, 1 de novembro de 2015

O TERRAMOTO DE 1755


 


 

Foi há 260 anos... No dia 1 de novembro de 1755, entre as 9:30 h e 9:40 h, dia que coincidiu com o feriado do dia de Todos os Santos, um sismo de grande magnitude destruiu quase completamente parte da cidade de Lisboa, em especial a zona da Baixa da cidade, para além de ter atingido também outras zonas do país, como Setúbal e todo o litoral do Algarve, onde a destruição aqui foi generalizada. Para além da destruição causada pelo sismo, o maremoto que se seguiu destruiu fortalezas costeiras e habitações, chegando a registarem-se ondas até 30 metros de altura. As ondas de choque deste sismo foram sentidas por toda a Europa e norte de África, nomeadamente nas cidades marroquinas de Fez e Meknés, tendo havido registo de danos e perdas de vidas avultados. Foram igualmente registados efeitos deste sismo no outro lado do Oceano Atlântico, nomeadamente no Brasil, América do norte e Caraíbas. Ficou também conhecido por o "Terramoto de 1755". Na cidade de Lisboa especialmente, este sismo de grande magnitude foi igualmente seguido de um maremoto que se crê ter atingido a altura de 20 metros assim como de vários incêndios na cidade, tendo feito certamente mais de 10 mil mortos (há quem aponte para um número superior). Foi um dos sismos mais mortíferos da história, marcando o que alguns historiadores chamam a pré-história da Europa Moderna. Na actualidade os sismólogos estimam que o sismo de 1755 terá atingido magnitudes entre 8,7 a 9 na escala de Richter. O terramoto de 1755 teve também um enorme impacto político e socioeconômico na sociedade portuguesa do século XVIII, dando por consequência origem aos primeiros estudos científicos do efeito de um sismo numa área alargada, marcando assim o nascimento da sismologia moderna. O epicentro deste sismo não é conhecido com precisão, havendo diversos sismólogos que propõem locais distanciados de centenas de quilómetros. No entanto, todos convergem para um epicentro, no mar, entre 150 a 500 quilómetros a sudoeste de Lisboa. Isto devido a um forte sismo, ocorrido em 1969 no Banco de Gorringe, este local tem sido apontado como tendo forte probabilidade de aí se ter situado o epicentro em 1755.




                            Lisboa antes e durante o terremoto de 1755 in gravura de Mateus Sautter séc. XVIII (col. priv.)




                                         Ilustrações mostrando o desespero dos lisboetas durante o terramoto de1755 (col. priv.)


                             Gravura representando Lisboa durante o terramoto e o maremoto seguido de 1755 (col. priv.)



                                              Gravura alemã alusiva ao terramoto e maremoto de Lisboa em 1 de novembro de 1755
                                                                                                                  (col. priv.)
 
                            



 Perspectiva da vila de Setúbal, vista da Casa do Trapixe no sítio de Troia por Teotónio Banha (col. pess.)






Localização potencial do epicentro do terramoto de 1755
e tempos de chegada do maremoto, em horas após o sismo
(arq. priv.)
                                   



Relatos da época afirmam que os abalos foram sentidos, consoante o local, durante entre seis minutos a duas horas e meia, causando fissuras enormes de que ainda hoje há vestígios em Lisboa. Muita gente neste dia de feriado santo àquela hora, encontrava-se nas igrejas da cidade, tendo por isso muitas sobrevivido à catástrofe mas uma grande maioria não, devido ao desabamento das mesmas. De salientar que algumas zonas dos arredores de Lisboa, nas designadas áreas fora de portas, como exemplos; Odivelas, onde o famoso convento foi afectado, tendo-se registado vítimas mortais, também a zona de Benfica sofreu com o sismo, um caso entre vários foi a igreja matriz de Nossa Senhora do Amparo que se encontrava em fase de construção, foi afectada pelo sismo, aqui registaram-se poucas vítimas mortais, segundo os registos da época. O cura João da Mata no seu registo escreveu sobre os acontecimentos em Benfica: "No Terramoto, a maior ruina foi na Igreja Nova que se andava fazendo, e até agora se lhe não buliu, tem várias propriedades (a freguesia) no mesmo estado e outras que se acham já reformadas".
Como um dos exemplos dessas reformas foi a casa solarenga e capela de Nossa Senhora dos Prazeres da quinta do Outeiro perto de Benfica, que sofreu alguns danos, poucos ainda assim segundo os registos, tendo sido reformada e reedificada em 1767. Já a região de Cascais foi seriamente afectada, tendo provocado a morte a centenas de pessoas, arrasando as duas paróquias da vila, a de Nossa Senhora da Assunção e Ressureição de Cristo, causando avultados estragos nas restantes freguesias do concelho: Nossa Senhora dos Remédios (Carcavelos), São Domingos de Rana e São Vicente de Alcabideche. Já por exemplo a região de Almada não sofreu danos com o terramoto, tendo-se portanto mantido muitas edificações mais antigas até hoje. Outra zona de Lisboa que não sentiu as consequências nefastas do terramoto de 1755 foi Campo de Ourique, assim como o Grande Aqueduto das Águas Livres (tema a desenvolver em próximo artigo), existente nesse local da cidade, que ficou intacto por estar assente numa placa tectónica segura. Da mesma forma as zonas mais altas da cidade de Lisboa praticamente ficaram intactas, mantendo ainda hoje o aspecto medieval que tinham antes do terramoto. O registo do padre Manuel Portal é a mais rica e completa fonte sobre os efeitos do terramoto, tendo descrito, detalhadamente e na primeira pessoa, o decurso do terremoto e a vida lisboeta nos meses que se seguiram. A intensidade do terramoto em Lisboa e no cabo de São Vicente. Com os vários desmoronamentos ocorridos, os sobreviventes procuraram refúgio na zona ribeirinha da cidade e assistiram ao recuo das águas, revelando o fundo do rio cheio de destroços de navios e cargas perdidas. Devido às fortes crenças religiosas da época, foi atribuído por alguns a este fenómeno, algo de divino, como que milagre de salvação, tendo portanto surgido um espaço seguro na cidade. Mas pura ilusão, poucas minutos depois, o maremoto, com, segundo relatos, de ondas com mais de 10 metros, fez submergir a zona ribeirinha e o centro da cidade de Lisboa, tendo as águas penetrado cerca de 250 metros e que varreu o Terreiro do Paço, tendo chegado, segundo relatos também da época, até meio do que hoje é a avenida da Liberdade. Desse acontecimento entre outros relacionados, terá surgido a expressão popular, já referida em artigo anterior "Rés-vés Campo de Ourique".  O maremoto que se tinha formado submergiu a ilha e o farol do Bugio, alguns dos barcos que se encontravam no rio Tejo foram arrastados acabando por se afundar. Nas áreas que não foram afectadas pelo maremoto, o fogo logo se alastrou devido a lareiras e fornos acesos assim como velas, visto ser um dia de comemorações católicas e os incêndios terão durado pelo menos cinco dias. Todos acabaram practicamente por fugir e havia quem os apagasse. Com medo das réplicas do sismo que se seguiram, muitos habitantes optaram por sair da cidade e procurar guarida em casa de familiares, ou em mosteiros não danificados que ai improvisaram hospitais, outros ainda optaram por construir barracas feitas com pano e madeira em quintas e conventos na periferia da cidade de Lisboa. A própria família real instalou-se provisoriamente em tendas nos jardins do palácio de Belém.




Aspecto dos efeitos do terramoto e maremoto de 1755 em Lisboa (col. pess.)


 
 

                                          Efeitos do terramoto acompanhado de maremoto em Lisboa no ano de 1755 (col. pess.)





                                     Recriação do maremoto após o terramoto de Lisboa em 1755 (arq. Smithsonian Channel)




Gravura alemã alusiva ao maremoto originado pelo terramoto de 1755
por Vinkeles & F. Bohn (col. pess.)
 
 

Gravura da época do terramoto de 1755 mostrando o desespero dos sobreviventes,
por Markowsky (col. pess.)




                                            Igreja de Nossa Senhora do Amparo em Benfica na actualidade (arq. priv.)




Palacete da quinta do Outeiro na actualidade (foto Paulo Nogueira)




    Aspecto da vila de Cascais numa gravura publicada por Georg Braun e Frans Hogenberg 1572 (col. priv.)




Alusão ao terramoto de 1755 e suas vitimas (col. pess.)
                                             



                        Perspectiva do grande Aqueduto das Águas Livres de Lisboa em meados do séc. XVIII (col. pess.)




                                    Gravura estrangeira mostrando a destruição feita pelo terramoto de 1755 (col. pess.)



Aspecto da destruição causada pelo terramoto de Lisboa de 1755
e a população abandonando a cidade (col. priv.)




Ruíram durante o terramoto de 1755, importantes edifícios da cidade de Lisboa, como o Paço Real, onde hoje se situa a Praça do Comércio, perdendo-se obras de arte importantes incluindo pinturas de Ticiano, Rubens e Correggio, assim como a sua biblioteca onde cerca de 70 mil volumes se perderam. Também o faustoso teatro da corte, a Ópera do Tejo ou a Real Casa da Ópera, inaugurado seis meses antes junto ao rio Tejo, na Ribeira das Naus, anexo ao Paço Real. O grande e importante Hospital Real de Todos os Santos (já citado em artigo anterior), onde os incêndios ocorridos e desabamentos vitimaram muitos pacientes, assim como o palácio do duque do Cadaval, o arquivo da Torre do Tombo cujos documentos foram salvos, o mesmo não acontecendo com a biblioteca dos Dominicanos e dos Franciscanos. Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos e incontáveis construções de arquitectura do período manuelino arrasadas. O importante Arsenal da marinha assim como os edifícios da Alfândega desapareceram. Muitas das igrejas e conventos que existiam por toda a cidade de Lisboa ficaram seriamente danificadas e até destruídos com o terramoto, caso de parte da Sé de Lisboa, as Basílicas de São Paulo, Santa Catarina, São Vicente de Fora, o famoso Convento do Carmo (cujas ruinas ainda hoje se podem ver) e o da Trindade. Igualmente a destruição destes dois importantes edifícios deu origem a uma expressão popular (tema a desenvolver em próximo artigo). Ao todo terão sido destruídos cerca de 10 000 edifícios e terão morrido entre 12 000 a 15 000 pessoas, ou até mais talvez. (Estudo modernos indicam que numa cidade com cerca de 275.000 habitantes terão morrido entre 70 a 90.000 pessoas).
O nível de destruição do terramoto, sem menção ao tsunami, e focando os incêndios, no "Novo Atlas para uso da mocidade portugueza" (1782), o tradutor corrige em nota o autor francês dizendo:
"O Autor, mal informado do que aconteceu a esta capital no referido Terramoto, asseverou que ela ficara inteiramente arrasada, quando é certo que em mais de duas partes ficou em pé, e que somente o incêndio, que lhe sobreveio, abrasou, e consumiu os edifícios, tesouros, móveis, riquezas, preciosidades, alfaias, etc. ficando unicamente as paredes. Porém, de tudo o mais raro, que se perdeu, foi a grande Livraria de Sua Majestade - rara pelos manuscritos e originais da Antiguidade que conservava - perda sem dúvida lamentável para os sábios."




                                 Vista em pintura a óleo da praça do Rossio em 1740, visível o Hospital Real de Todos os Santos,
                                                  o chafariz do Rossio,  e o Convento de São Domingos de Lisboa (col. priv.)
                                                                   


                                                       Vista em pintura a óleo do Paço Real da Ribeira em 1740 (col. priv.)



Paço da Ribeira em gravura aguarelada sobre papel de origem francesa do séc. XVIII (col. pess.)
                       



   Mapa de origem francesa da zona ribeirinha de Lisboa antes do terramoto de 1755 (col. priv.)
   
 



    Ruinas da Ópera do Tejo após o terramoto de 1755 por Jacques Philippe Le Bas, 1757 (col. pess.)



   Ruinas da Praça da Patriarcal após o terramoto de 1755 por Jacques Philippe Le Bas, 1757 (col. pess.)




                                  Ruinas da Sé de Lisboa após o terramoto de 1755 por Jacques Philippe Le Bas, 1757 (col. pess.)




                                              Ex-voto da segunda metade do século XVIII alusivo ao terramoto de 1755
                                                                                 pintura a óleo (col. Museu da Cidade, Lisboa)




            Aspecto do convento do Carmo antes do terramoto de 1755 (col. priv.)



                                                 Maquete do Convento do Carmo (col. Museu da Cidade, Lisboa)



                                                    Convento do Carmo visto do Rossio (foto Georges Jansoone)



       Interior das ruínas do Convento do Carmo na actualidade (arq. pess.)
                                    


Aspeto geral do interior das ruinas da igreja do Carmo (foto Bert K.)





A família real portuguesa escapou a esta catástrofe. O rei D. José I (1714 - 1777) e a corte tinham deixado a cidade depois de assistir a uma missa ao amanhecer, encontrando-se em Santa Maria de Belém, nos arredores de Lisboa, na altura do terramoto. A ausência do rei na capital deveu-se à vontade das princesas de passar o feriado fora da cidade. Depois da catástrofe o rei D. José I ganhou uma fobia a edifícios em alvenaria e viveu o resto da sua vida num complexo luxuoso de tendas no Alto da Ajuda, denominado como Real Barraca da Ajuda, em Lisboa. Tal como o rei, também Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 - 1782), mais tarde marquês de Pombal, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e futuro primeiro-ministro, sobreviveu ao terramoto. Com o mesmo pragmatismo que caracterizou a sua futura governação, ordenou ao exército a imediata reconstrução de Lisboa, punindo de modo severo quem pilhasse bens e habitações. Mandando levantar forcas para as punições mais severas. Conta-se que à pergunta: "E agora?", terá respondido: "Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos". A sua rápida resolução levou a organizar equipas de bombeiros para combater os incêndios e recolher os milhares de cadáveres para evitar epidemias. Ao contrário do costume, mas com a devida autorização escrita do Patriarca de Lisboa, muitos corpos foram carregados por prisioneiros incumbidos desse serviço e transportados em barcaças, sendo depois deitados ao mar, ao largo da barra do Tejo. Por curiosidade, quando confrontado com o que fazer com os pedaços dos corpos despedaçados que iam ser lançados ao mar, misturados uns com os outros, Sebastião José de Carvalho e Melo terá respondido: "Deus lá no Céu, saberá a que corpo pertencem". De referir que Lisboa já havia sofrido vários terramotos sem grandes consequências, oito no século XI, cinco no século XVI, incluindo o de 1531 que destruiu 1.500 casas e o de 1597 que destruiu três ruas. Anos antes no século XVIII, foram mencionados os terramotos de 1724 e o de 1750, este último no dia da morte do rei D. João V, mas ambos sem consequências de maior.




Rei D. José I 1714 - 1777 (col. priv.)


 

                                          Detalhe da Real Barraca da Ajuda na obra de 1763 "Vista e Perspectiva da Barra e Costa
                                                                      da Cidade de Lisboa" (arq. Biblioteca Nacional de Portugal)




Pintura a óleo de 1760 representando as vitimas do terramoto
                                                                               junto às ruinas da igreja de Sta Catarina (col. priv.)




Lisboa sendo saqueada por malfeitores após o terramoto de 1755
(col. priv.)

 
 

Ruínas de Lisboa após o terramoto de 1755, os sobreviventes viveram em tendas assim como
as instalações hospitalares e forcas para condenados por J.A. Steislinger 1755 (col. priv.)

 


O terramoto de 1755 abalou muito mais que a cidade de Lisboa e os seus edifícios, Lisboa era a capital de um país profundamente católico, com grande tradição de conventos e igrejas empenhados na evangelização das suas colónias. O facto de  terramoto ter ocorrido num dia santo e ter destruído várias igrejas importante levantou muitas questões religiosas na Europa. Para a mentalidade religiosa do século XVIII, seria uma manifestação de ira divina de difícil explicação. Na política do país, o terramoto foi também devastador. O ministro Sebastião José de Carvalho e Melo era o favorito do rei mas não do agrado da alta nobreza, que competia pelo poder e favores do monarca. Depois desse dia 1 de novembro, a eficácia da resposta do marquês de Pombal (cujo o título lhe é atribuído em 1770), a esta situação resultante do terramoto, garante-lhe um maior poder e influência perante o rei D. José I, que também aproveita para reforçar o seu poder e consolidar o Absolutismo. Tudo isto leva a uma série de consequências no seio da política, da sociedade e da igreja em Portugal a partir de então. Assunto esse que dará um capitulo com muitos assuntos e temas a desenvolver.
Igualmente o ano de 1755 insere-se numa era fulcral de uma grande transformação social: o designado Iluminismo, o Capitalismo e a Revolução Industrial, que irão lançar as bases de uma sociedade moderna em alguns países da Europa Ocidental. Foram inúmeras as gravuras representando o acontecimento de Lisboa que circularam por toda a Europa durante o resto do século XVIII e ainda ao longo do século XIX, muitas das quais realizadas por estrangeiros e por consequência com exageros e falhas paisagísticas. O terramoto influenciou de forma determinante muitos pensadores europeus do Iluminismo. Foram muitos os filósofos do século XVIII, que fizeram menção ou aludiram ao terramoto nos seus escritos, dos quais se destaca Voltaire (1694 - 1778), no seu Candide e no "Poème sur le desastre de Lisbonne" ("Poema sobre o desastre de Lisboa") de 1756 ou ainda as cartas a Jean-Jacques Rosseau a Voltaire. A arbitrariedade da sobrevivência foi, provavelmente, o que mais marcou o autor, que satirizou a ideia, defendida por autores como Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 - 1716) e Alexander Pope (1688 - 1744), de que "este é o melhor dos mundos possíveis"; ou como escreveu, Theodor Adorno (1903 - 1969) "o terramoto de Lisboa foi suficiente para Voltaire refutar a teodiceia de Leibniz" (Negative Dialectics, 361). Já no século XX, também citando Adorno, o terramoto passou a ser comparado ao Holocausto, uma catástrofe de tais dimensões que só poderia ter um impacto profundo e transformador na cultura e filosofia europeias. Esta interpretação de Theodor Adorno serve de ilustração à sua interpretação da história, que é bastante crítica da sociedade.




  Marquês de Pombal e a cidade de Lisboa, por Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet
(col. Museu da Cidade, Lisboa)

 


                                               Exemplo de gravura alemã alusiva a terramoto de 1755 (col. pess.)




                                                  Alusão do séc. XVIII aos filósofos Voltaire e Rosseau (col. pess.)






                                   Páginas de duas obras de Voltaire referente ao terramoto de Lisboa de 1755 (col. priv.) 



                                              Publicação alemã alusiva ao terramoto em Lisboa de 1755 (col. priv.)



 Gravura num estilo um tanto naïf alusiva ao terramoto 1755
                                                                            e toda a sua tragédia humana e religiosa (col. pess.)
                                                                  



 
Após o terramoto o ministro e o rei encomendaram aos arquitectos e engenheiros reais vários projectos, e em menos de um ano depois do terramoto já não se encontravam em Lisboa ruínas e os trabalhos de reconstrução iam adiantados. Foram apresentados vários projectos para a reconstrução da cidade de Lisboa por engenheiros e arquitectos como Manuel da Maia (1677 - 1768), engenheiro-mor do reino, e de um total de 6 plantas traçadas pelos seus colaboradores, foi escolhida a de Eugénio Santos (1711 - 1760), arquitecto do Senado da cidade, que chefiou os trabalhos até 1760, altura em que faleceu, tendo sido substituído por Carlos Mardel (1696 - 1763), arquitecto húngaro imigrado em Portugal. O rei D. José I desejava uma cidade nova e ordenada, com grandes praças, avenidas largas e rectilíneas, que viriam a marcar a planta da nova cidade. Reza a lenda ter sido à época perguntado ao Marquês de Pombal para que serviam ruas tão largas, ao que este terá respondido que "um dia hão-de achá-las estreitas…."
A cidade medieval de ruas labirínticas e estreitas deu lugar a um traçado racional de linhas rectilíneas em que os prédios teriam todos a mesma altura. Para os esgotos que agora passariam a existir, foi ordenado que tivessem a dimensão onde um homem pudesse andar a cavalo dentro deles. Destaque para a Praça do Comércio, majestosa "sala de entrada" na cidade e Lisboa, com a estátua equestre do rei D. José I, da autoria do escultor Machado de Castro (1731 - 1822). O novo centro da cidade, hoje conhecido por Baixa Pombalina, é uma das zonas nobres da cidade de Lisboa. Serão dos primeiros edifícios do mundo a serem construídos com protecções à prova de sismos (anti sísmicas), designada de "gaiola pombalinas", uma estrutura interior em madeira com travamento, projetcada para distribuir as forças sísmicas, que foram testadas em modelos de madeira, utilizando-se tropas a marchar para simular as vibrações de um sismo. Para prevenção e combate aos incêndios, todos os quarteirões tinham poços nos saguões e as paredes entre edifícios eram mais altas que o telhado para prevenir a progressão do fogo (as designadas paredes corta-fogo). Outras cidades portuguesas afectadas pelo sismo como Vila Real de Santo António no Algarve, foram reconstruídas de acordo com princípios pombalinos, o mesmo se aplicou a vilas como a Golegã. Na cidade Lisboa a designada Baixa ou também chamada "Baixa Pombalina", tem esta designação por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência do terramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 23,5 hectares. Situa-se esta área entre o Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, junto ao rio Tejo, até ao Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinal entre o Cais do Sodré, Chiado e o Carmo, de um lado e a Sé, e a colina do castelo de São Jorge do outro. A Baixa é formada por um conjunto de ruas rectas e perpendiculares organizadas para ambos os lados de um eixo central constituído pela rua Augusta. Os edifícios têm uma arquitectura semelhante, com rés-do-chão comerciais e andares superiores para habitação. As fundações dos edifícios assentam sobre estacaria em pinho verde, cravada em terrenos de aluvião abaixo do nível freático, servindo de embasamento para os alicerces. Ao nível das lojas, as salas são abobadadas com tijoleira e rematadas por arcos de cantaria. A Baixa dispôs da primeira verdadeira rede de esgotos domésticos, dando para colectores subterrâneos sob as ruas. Foi apreciada como candidata portuguesa à lista de Património Mundial em 7 de dezembro de 2004, declarando-a superior às áreas planeadas em Edimburgo, Turim e Londres; inclusivamente, a inscrição alega que os planos da reconstrução de Londres após o Grande Incêndio "não implementa princípios gerais", tais como os conseguidos na zona pombalina.


 

Ilustração mostrando Sebastião José de Carvalho e Melo  com os arquitectos e engenheiros
estudando planos para a nova cidade (col. priv.)
 





                                                  Mapa de Lisboa em 1755 da autoria do engenheiro-coronel Carlos Mardel e
                                                                                 do capitão Eugénio dos Santos (arq. priv.)




Carlos Mardel 1696 - 1763 (col. priv.)


 
Alçado da fachada e planta de edifício típico da Baixa Pombalina (arq. priv.)



                                            Maquete de "gaiola pombalina", um sistema de construção anti sísmica do século XVIII,
                                                                     utilizado na Baixa Pombalina (col. Museu da Cidade, Lisboa)



 
                                                      Estátua equestre do rei D. José I em Lisboa (col. pess.)


 
Vista da Praça do Comércio no séc. XVIII por Gaspar Frois Machado (atribuído)
(col. Museu da Cidade, Lisboa)
 
 
 
Planta da cidade de Vila Real de Santo António após a reconstrução (arq. priv.)
 
 

Notícia da destruição da Real Torre do Tombo de 1763
por Manuel da Maia (arq. priv.)
 


                                                Praça D. Pedro no Rossio em Lisboa no início do século XIX,
                                                                vendo-se a nova arquitectura da Baixa da cidade (col. pess.)





                              Aspecto da Praça do Comércio na actualidade e estátua equestre do rei D. José I (arq. pess.)




                                       Vista da Praça do Rossio na actualidade com os edifícios pombalinos (arq. pess.)


Aspecto da Praça da Figueira na actualidade com as ruas perpendiculares e rectilíneas pombalinas
(arq. pess.)


Vista da cidade de Lisboa e Castelo de São Jorge do miradouro da Senhora do Monte (arq. priv.)




As causas geológicas do terramoto e da actividade sísmica na região de Lisboa, são ainda causa de grandes debates científicos, existindo indícios geológicos da ocorrência de grandes abalos sísmicos com uma periocidade de aproximadamente 300 anos. Lisboa encontra-se junto de uma falha tectónica, mas a grande maioria dos terramotos tão intensos como o sismo de 1755 só acontece nas zonas de fronteira entre placas. Alguns geólogos portugueses avançam a ideia de que o sismo estaria relacionado com a chamada zona de "subducção" do Oceano Atlântico, entre as placas tectónicas euroasiáticas e africana. Ate há pouco tempo, a versão mais aceite era a que a colocava no banco de Gorringe, montanha submarina situada a Sudoeste do Cabo de S. Vicente. Recentemente surgiram outras propostas que apontam para uma estrutura geológica submersa a uma distância intermédia entre o banco de Gorringe e o cabo de S. Vicente - e uma falha de 70 km de extensão, descoberta em 1999, e que foi denominada falha do Marquês de Pombal. Também para Lisboa, fica a imagem de uma cidade reconstruída em termos modernos, já que a destruição que o terramoto ocasionou, obrigou a um esforço de reconstrução sem precedentes, abrindo novos caminhos a nível da arquitectura, da engenharia civil, do urbanismo, patentes na designada "baixa pombalina" de Lisboa. A cidade de Lisboa, segundo alguns, nunca mais foi a mesma desde então, no entanto nem tudo se perdeu e a sua história manteve-se e outra começou dai em diante, no entanto, a sua luz e beleza, essa nunca se perdeu.




     Vista aérea da cidade de Lisboa vendo-se a Baixa pombalina coma as suas ruas rectilíneas típicas (arq. priv.)



                                             Vista panorâmica da Praça do Comércio na actualidade (arq. priv.)



Mapa com as falhas sísmicas e origens dos sismos de Lisboa ao longo dos tempos (arq. priv.)




Vista da colina do Castelo de São Jorge (arq. pess.)
 
 
                                       Vista da cidade de Lisboa e o Tejo a partir do Castelo de São Jorge (arq. pess.)







                                                            Vídeo do Smithsonian Channel de reconstituição
                                                                                  do terramoto e maremoto de Lisboa em 1755
                                                                                       










Texto:
Paulo Nogueira





Fontes e bibliografia:
MOREIRA DE MENDONÇA, Joaquim José, História Universal dos Terramotos, 1758, p. 116 - 117
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, volume VI O Despotismo Iluminado [1750 - 1807], Editorial Verbo, Lisboa, 1982
PROENÇA, Álvaro Padre, Benfica Através dos Tempos, col. Memória local, 2ª edição de 2004, edições Ulmeiro, Lisboa