terça-feira, 14 de abril de 2026

QUINTAS E PALÁCIOS EM LISBOA E NOS SEUS ARREDORES

Durante os séculos XVII, XVIII  e XIX vão surgindo grandes quintas nos arredores da cidade de Lisboa que eram constituídas, na sua maioria, por uma casa apalaçada com dois pisos, térreo e superior, área de lazer, jardins, capela e equipamentos de apoio às actividades agrícolas como estrebarias, currais, campos de rega e poços. Eram na sua maioria casas de campo da elite da capital Lisboa onde se juntava o lazer ao rendimento. A cidade de Lisboa devido ao seu clima, luz, situação geográfica e sendo a capital de um vasto império colonial durante séculos, resultaram numa grande quantidade de palácios e quintas mandados construir por famílias nobres ao longo dos tempos.  É pois vasta a quantidade de quintas, palácios e palacetes na cidade de Lisboa e nos seus arredores, algumas destas propriedades já desaparecidas ou em vias de desaparecer, mas também alguns casos excelentes exemplos de restauro e reedificação. Umas sendo propriedades privadas ou do Estado, com mais ou menos importância que outras, mas todas elas integradas numa zona, num tempo e época com histórias para contar, influenciando de forma directa e indirecta a origem de certas localidades, assim como toponímias da capital. De todas essas propriedades, existentes, é aqui dado a conhecer alguns desses exemplos.


Palácio de Pedro de Roxas e Azevedo ou dos Senhores da Trofa

Este edifício está situado entre a Calçada da Graça e a Travessa das Mónicas, frente ao Jardim da Graça, na actual Freguesia de São Vicente em Lisboa. É um imóvel do século XVII, rasgado por portais e janelas em cantaria trabalhada, mantendo ainda hoje uma fachada seiscentista, sobre o jardim, que não corresponde nada ao seu aspecto interior. Numa gravura de Bráunio de meados de 1596, mostra-nos no local, com suficiente exactidão, um bloco de edifícios, em forma de trapézio, conjunto de aparente grandeza, com um vasto pátio interior dotado de uma cisterna. No local desses edifícios, Pedro de Roxas e Azevedo  (1594 - 1642), fidalgo da Casa Real, conselheiro da Fazenda de Capa e Espada, provedor da Casa da Índia, alcaide-mor de Portalegre, que, em alta posição, manda construir, segundo documentação: "un noble palacio en Lisboa, junto al convento de Gracia." As limitações actuais do edifício enquadram-se mutatis mutandis no que vem na planta de Lisboa de 1650, de Tinoco, data muito aproximada da construção de Pedro Roxas. Admite-se que Pedro de Roxas e Azevedo, herdeiro ou comprador, terá aproveitado parte do existente ou, fazendo dele tábua rasa, erguera tudo de novo desde os alicerces. De referir que esta zona da cidade, à época era essencialmente agrícola e permaneceu durante séculos muito pouco habitada. A partir do século XVI começam a construir-se vários palácios, como o dos Condes de Vale dos Reis (actual Vila Sousa), o de António Ribeiro Barros (perto do Convento das Mónicas), o Palácio Figueira (calçada da Graça) e o dos Senhores de Trofa. 


Frontão do Palácio dos Senhores da Trofa  na Calçada da Graça, na actualidade 
(foto Paulo Nogueira)


Gravura de Braúlio de Lisboa em 1596, onde na marca circular 
se vê o local onde Pedro  Roxas e Azevedo 
mandou construir o seu palácio 
(arq. pess.)


Construções do palácio de Pedro  Roxas e Azevedo em 1596, 
in gravura de Braúlio (arq. pess.)




Palácio dos Senhores da Trofa na Calçada da Graça em 1939, foto Eduardo Portugal (arq. AML)



Planta toponímica de 1650 com a localização do palácio dos Senhores da Trofa,
 numa gravura de Tinoco (arq. pess.)



Já no século XVIII, Luiz Thomaz de Lemos de Carvalho e Vasconcellos, 9º senhor da Trofa, foi o 1º senhor do palácio da Calçada da Graça, em Lisboa. Moço fidalgo da Casa Real (15.6.1709), foi capitão-mor de Aveiro (16.2.1732) e superintendente das caudelarias da comarca. Nasceu a 13.3.1697 na Casa da Trofa e faleceu a 27.10.1756, com 59 anos de idade, indo a sepultar ao panteão da família. Este foi um dos poucos edifícios que não ruíram com o Grande Terramoto de 1755. O portal de entrada que ainda mostra sinais da sua imponência, encimado pelo brasão dos Senhores da Trofa, do séc. XVIII no frontão do palácio, desemboca por um corredor sob o palácio e é sustentado por um arco de volta perfeita. Estendendo-se ao longo de três grandes blocos, forma um pátio, conhecido como "Pátio do Barbosa". No interior, as casas distribuem-se em redor do que foi, possivelmente, o pátio de honra, no centro do mesmo pátio ainda podemos ver o que resta da antiga cisterna. O edifício que foi o Palácio dos Senhores da Trofa (Carvalhos e Lemos), veio mais tarde à posse de Francisco Barbosa, que o herdou de um seu familiar com o mesmo nome. Após o Grande Terramoto de 1755, e à semelhança de muitos imóveis na cidade de Lisboa que se encontravam desabitados, acabaram sendo ocupados por muitas famílias desalojadas desta tragédia que assolou a cidade de Lisboa em especial. Segundo um Auto de Posse dos Senhores da Trofa de 28 de julho de 1795, há menção de vários espaços do palácio ocupados por diferentes pessoas identificadas no documento. Entre os quais o Palácio do Lemos, Senhores da Trofa no Largo e Calçada da Graça, em Lisboa, que tomou D. Isabel Antónia do Carmo de Lemos e Roxas de por morte de seu tio Bernardo de Lemos e Roxas.


Brasão dos Senhores da Trofa, do séc. XVIII no frontão do palácio
(arq. pess.)


Auto de posse dos Senhores da Trofa em 28 de Julho de 1795 
(arq. priv.)



Este imóvel, igualmente e à semelhança de outros da cidade de Lisboa, com a crescente urbanização da capital a partir do século XIX, acabou integrada no novo urbanismo da cidade e fazendo parte de um dos Bairros da Capital. Dado que certas dependências do palácio foram ficando vagas, é possível que, ainda no final do século XVIII, este imóvel tenha vindo gradualmente a ser ocupado por famílias deslocadas de outros pontos da cidade, situação que será acelerada com o século XIX industrial. Todos os espaços interiores do antigo palácio foram alterados e totalmente descaracterizados, tendo sido convertidos em habitações, algumas com condições muito precárias. Aqui foi instalada no pátio principal do palácio, uma vila habitacional, onde muitas famílias aí nasceram e viveram durante gerações. Do edifício original apenas o frontão mantêm alguns traços arquitectónicos originais, com alterações posteriores. Esta vila ficou conhecida pela designação de "Pátio do Barbosa", por ter pertencido a Francisco Barbosa, ou "Pátio das Cobras", provavelmente, conta-se, devido a certos moradores mais conflituosos, que aqui terão vivido. É hoje uma mole construída e intensamente ocupada ao longo da Calçada da Graça, desde o Largo da Graça até ao Largo de Santo André. Já no início do século XXI este imóvel foi adquirido por um particular tendo sido totalmente remodelado e requalificado no seu interior. Uma parte do edifício alberga actualmente um hostel, à semelhança do que sucedeu em muitos espaços da cidade de Lisboa, ainda um bar e um restaurante típico.


Palácio dos Senhores da Trofa na Calçada da Graça em meados dos anos 40
 já adaptado a vila  habitacional, foto Paulo Guedes (arq. AML)


Planta toponímica de 1956 com a localização 
do palácio dos Senhores da Trofa, 
autoria do engº A. E, Abrantes 
(arq. pess.)


Aspecto do pátio interior do palácio dos Senhores da Trofa 
em meados de 1980 (arq. priv.)



Complexo que foi outrora o palácio dos Senhores da Trofa, 
depois das sucessivas adaptações na actualidade 
pelo Googlemaps


Fachada do Palácio dos Senhores da Trofa na Calçada da Graça na actualidade (arq. priv.)


Aspecto do pátio de entrada do palácio dos Senhores da Trofa 
na actualidade após requalificação (foto Paulo Nogueira)


Parte lateral do palácio dos Senhores da Trofa vista da Calçada da Graça 
na actualidade após a requalificação (foto Paulo Nogueira)


Esquina do edifício do palácio dos Senhores da Trofa 
com detalhes arquitectónicos do séc. XVII, 
vista da Calçada da Graça na actualidade 
(foto Paulo Nogueira)


Palácio dos Senhores da Trofa visto do jardim da Graça na actualidade 
(foto Paulo Nogueira)


Palácio dos Senhores da Trofa e zona envolvente visto a partir do jardim da Graça 
na actualidade (foto Paulo Nogueira)


Vista da área onde se situa o outrora palácio dos Senhores da Trofa, 
depois das sucessivas adaptações na actualidade pelo Googlemaps





Texto: 

Paulo Nogueira


Bibliografia:

PROENÇA, Raul, (dir. de), Guia de Portugal, Vol. I, Lisboa, 1924 

 LEÃO, Luís Ferros Ponce de, Portas e Brasões de Lisboa, Lisboa, s.d. 

ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VII, Lisboa, 1950 

SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do Terramoto. Subsídios para a História dos Bairros Ocidentais de Lisboa, Vol. IV, Lisboa, 1967 

Olisipo, Boletim do Grupo de Amigos de Lisboa, nº 142 – 143, Anos 1979 - 1980




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

IATES REAIS PORTUGUESES "AMÉLIA"




Acerca dos navios adquiridos e utilizados pelo rei D. Carlos de Bragança (1865 - 1908), é habitual referir quatro iates, que (por comodidade) designavam-se Amélia I, II, III e IV. A designação dada às embarcações em honra da esposa do rei D. Carlos I, Amélia de Orleães, de seu nome completo em francês: Marie Amélie Louise Hélène d’Orleães (1865 – 1951), e a última rainha consorte de Portugal e Algarves de 1889 até ao assassinato do marido em 1908. Quando, em boa verdade, houve uma outra embarcação com esse nome que, jamais, é incluída nessa lista. Talvez pelo facto desse primeiro iate "Amélia" ser propriedade privada do príncipe real (contrariamente aos outros, que foram integrados na Armada Portuguesa) e apresentar características muito diferentes das dos navios sucessores, usados, simultaneamente, como objectos de recreio e como unidades de apoio aos estudos da oceanografia, tão apaixonadamente desenvolvidos pelo rei D. Carlos I de Portugal. Muitos foram os desenhos, aguarelas e ilustrações, realizadas pelo rei D. Carlos I ao longo de anos de todas as suas belas embarcações que foi possuindo, cada uma com características diferentes umas das outros.


O iate Amélia de recreio à vela, diferente dos demais sucessores (arq. pess.)


D. Amélia de Orleães (1865 – 1951), 
rainha consorte de Portugal
(arq. priv.)




Iate Amélia I

Construído pelos estaleiros ingleses W. Alissup & Co, de Preston, em 1878, tendo sido o ex-Ossian, ex-Dava e ex-Mast. Foi adquirido, dez anos depois, pelo rei D. Carlos I em 1888, chegando a Cascais em 3 de Setembro deste ano. O seu casco era de ferro, possuía um comprimento de 33,84 metros, deslocava 147 toneladas e atingia uma velocidade de 10 nós e dispunha de propulsão mista: vela e vapor. Como meio propulsor principal, dispunha de uma máquina Compound de dois cilindros verticais com 30HP. Tinha três embarcações e vários apetrechos para os estudos oceanográficos a que o monarca se dedicava. Adquirido, em segunda mão, por D. Carlos, duque de Bragança, recebeu o nome de "Amélia", tendo a designação oficial de iate de recreio, embora tenha servido de base móvel aos primeiros trabalhos oceanográficos empreendidos por D. Carlos de Bragança. Como se sabe, o príncipe e depois rei D. Carlos I foi muito criticado no seu tempo, por empregar verbas avultadas e consideráveis na aquisição de barcos e de mudar de iates como "quem muda de camisa". Dizia-se, então, que, nessa matéria, ele não olhava a gastos e que isso ocasionava problemas nas finanças de um país de recursos limitados que, se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico. Hoje, um século decorrido sobre a trágica morte do soberano, começa a reconhecer-se a utilidade dessas despesas, afinal justificadas pelos frutos recolhidos no campo da oceanografia, ciência na qual o rei D. Carlos I foi um dos grandes peritos internacionais do seu tempo. Foi utilizado pelo rei D. Carlos I nas campanhas de investigação oceanográfica, protagonista da primeira expedição científica foi utilizado pela primeira vez em 1896, que o tornaram num cientista marítimo de renome mundial. Tinha o senão de baloiçar imenso mesmo com mar bonançoso. Além disso era desprovido de laboratório o que no entanto rapidamente se veio a tornar imprescindível desde as primeiras excursões nas nossas costas. Apesar de já dispor de algum equipamento científico (mas não de um verdadeiro laboratório) e de estar dotado com três pequenas embarcações de suporte logístico, era muito instável, mesmo em mar pouco agitado, e rapidamente descontentou o príncipe, que o considerou inadequado para o apoiar nos estudos marinhos que ele queria desenvolver. D. Carlos I acabou, rapidamente, por trocá-lo por um novo iate, que recebeu o mesmo nome de Amélia. Em 1897 foi trocado pelo então iate Geraldine, que virá a ser o iate Amélia II.


O iate Amélia I em 1878, ilustração à pena do rei D. Carlos I (arq. pess.)



O iate Amélia I numa aguarela pintada pelo rei D. Carlos I em 1889 (col. priv.)



Esquema do motor a vapor,  máquina Compound de dois cilindros verticais com 30HP,
 idêntico ao que equipava o iate Amélia I (arq. pess.)



Primeiro iate Amélia durante uma viagem da família real entre Setúbal e Lisboa em 1888 (arq. priv.)



Iate Amélia I, pintado por D. Carlos de Bragança (col. Fundação da Casa de Bragança)


Iate Amélia I em 1896 numa estampa a sépia sobre papel 
reprodução de original de rei D. Carlos I (col. pess.)


Edição da primeira "Campanha Oceanographica"
levada a cabo com o iate Amélia I em 1896 
(col. pess.)


O iate Amélia I em 1896 por Captain William Duggan R. (col. priv.)




Iate Amélia II

Construído pelos estaleiros ingleses Ramage and Fergunson em Leith, Escócia, em 1880, foi baptizado Geraldine, sendo adquirido em 1897 pelo rei D. Carlos I em troca do iate anterior e rebaptizado Amélia II. Construído em ferro, deslocava 301 toneladas, tinha 45 metros, um calado de 3,20 metros e atingia a velocidade de 11 nós. Dispunha de instalação eléctrica alimentada por um dínamo e era propulsionado por meio de uma máquina Compound de dois cilindros verticais que accionavam um hélice de três pás, com uma potência de 320HP . Armava esta embarcação com três mastros e gurupés, onde içava três latinos, um redondo à proa e duas velas de proa. A sua guarnição era de 20 homens, não incluindo os oficiais e um naturalista. Pouca informação técnica se encontrou sobre este navio. Como o anterior Amélia I tinha todos os apetrechos necessários para as campanhas oceanográficas e todos os instrumentos para a rápida preparação e conservação de exemplares. Ao ser adquirido por D. Carlos I, tal como o seu antecessor, foi rebaptizado com o nome da esposa do monarca, a rainha D. Amélia de Orleães. Tal como o iate antecessor, o Amélia II destinava-se, primariamente a ser um navio de investigação oceanográfica, actividade em que D. Carlos I estava profundamente envolvido e que o tornou num cientista de renome mundial. Para isso o Amélia II estava equipado com quatro embarcações miúdas (uma das quais a vapor), instrumentos para recolha, preparação e a conservação de exemplares, além de alojamentos para os investigadores. Na qualidade de iate real, o Amélia II  efectuou diversas viagens ao serviço régio, destacando-se entre muitas, algumas divulgadas em publicações da época, em outubro de 1897 ao Algarve, com a subida do Rio Guadiana até ao Pomarão, e em julho de 1898 o embarque do Rei D. Carlos I para assistir a um exercício de torpedos ao largo de Cascais. Nesse mesmo ano, aquando das comemorações do Terceiro Centenário do Descobrimentos do Caminho Marítimo para a Índia, foi nele que a bordo o rei assistiu às regatas de vela que se realizaram em Cascais, acompanhado de outras individualidades, membros do corpo diplomático e comandantes de navios estrangeiros que na ocasião se encontravam no Rio Tejo. No dia 12 de abril de 1899, o iate Amélia II fez a sua última saída para o mar, tendo nesse ano sido substituído mais tarde pelo  iate Yacona, que viria a ser o iate Amélia III a partir de 1899.


O iate Amélia II em 1897, ilustração à pena do rei D. Carlos I (arq. pess.)


Desenho do iate Amélia II e esquema de cores (arq. pess.)


Tipo de motor a vapor, máquina Compound de dois cilindros verticais,
 idêntico ao que equipava o iate Amélia II (arq. pess.)


O iate Amélia II em meados de 1897 em ilustração colorida da época (arq. pess.)


O iate Amélia II subindo o rio Guadiana in publicação "Branco e Negro" de 1897 (arq. pess.)



O iate Amélia II numa aguarela sobre papel por D. Carlos em 1897 (col. priv.)

Rei D. Carlos I com Albert Girard e o conde de Mafra a bordo do iate Amélia II em 1897 
(col. Museu do Mar)


Pagina ilustrada do diário náutico do iate real Amélia II de 1897 (arq. priv.)


Um aspecto do iate Amélia II em 1898 (arq. priv.)


Iate Amélia III

Foi construído em Inglaterra nos estaleiros de Inghern, J. Scott & Co.em 1898 onde se denominava Yacona e foi adquirido em 1899 pelo rei D. Carlos I. O seu casco era em aço, deslocava 650 toneladas e tinha uma guarnição de 36 homens, incluindo três oficiais de marinha, um médico e um naturalista, O seu comprimento era de 54,86 metros, calava 4 metros e atingia urna velocidade de 13 nós. Esta embarcação deu entrada no rio Tejo em 17 de abril de 1899 e foi atracar em Paço de Arcos junto ao seu antecessor. Era um navio de propulsão mista (vela/vapor), de três mastros, que dispunha de uma máquina Compound desenvolvendo uma potência de 320 cv. Dispunha de uma máquina, de tríplice expansão vertical de 3 cilindros, de 95 Hp e um dínamo de 85 volts e 46 amperes com 300 rotações. Quando este dínamo não trabalhava a iluminação eléctrica era assegurada por 35 acumuladores, enquanto o funcionamento do motor era assegurado por 6 outros acumuladores que forneciam um potencial de 12 volts e uma corrente de 6 amperes. O hélice dispunha de 4 pás. Foi considerado por portaria como navio da Armada Portuguesa tripulado por oficiais da Marinha da Casa Militar de El-Rei e ficando a antiga tripulação daquele navio considerada adida ao Corpo de Marinheiros. Passou assim , pela primeira vez, um iate real propriedade pessoal do rei para navio de Estado. Era considerado muito elegante devido ao caimento da popa e da proa, possuía velas de proa e latinos largos em dois mastros, podendo no traquete armar um redondo. Participou em diversas campanhas oceanográficas dirigidas pelo rei D. Carlos I, com a colaboração de oficiais da Armada.  Sendo muito mais espaçoso do que os primeiros iates de D. Carlos I, foi possível converter as suas áreas de lazer em laboratórios e outros locais de estudo. Estava armado com um canhão-arpão para captura de cetáceos. Foi bastante utilizado pela família real para viagens e passeios. Em 1901 foi utilizado pelos soberanos na "Visita Régia" à Madeira e aos Açores, evento único na história destes arquipélagos. Em 1901 foi trocado pelo iate Banshee que viria para Portugal receber o nome de Amélia, tal como os seus antecessores. A sua equipagem compreendia 20 homens e reunia condições para receber a bordo uma equipa de 20 investigadores, que assistia o rei, cada vez mais envolvido na pesquisa oceanográfica. O iate Amélia III apoiou as campanhas científicas promovidas por D. Carlos I nos anos de 1897 e de 1898. Apesar das melhorias oferecidas por um espaço mais vasto, também este iate carecia das condições julgadas ideais pelo rei. O iate Amélia III foi um iate ao serviço do rei D. Carlos I de Portugal, entre 1899 e 1901. Curiosamente o iate Amélia III, foi adquirido pela Marinha dos Estados Unidos em 1917, tendo sido transferido, em 1921, para o Governo Insular das Filipinas. Designado para servir como iate oficial do Governador Geral, e rebaptizado com o nome Apo, foi utilizado para viagens de inspecção por Leonard Wood, Henry Stimson, Dwight Davis e Theodore Roosevelt Jr. Em 1932, foi devolvido ao Governo Federal dos Estados Unidos.



O iate Amélia III em 1899, ilustração à pena do rei D. Carlos I (arq. pess.)


O iate Amélia III em 1899 numa aguarela do rei D. Carlos I (col. priv.)


Tipo de motor a vapor, máquina Compound de tríplice expansão vertical,
 idêntico ao que equipava o iate Amélia III (arq. pess.)



Desenhos a tinta da China pelo rei D. Carlos I em 1899 do iate Amélia III 
vistos dos lado esquerdo e direito (col. Paço das Necessidades)


O iate Amélia III fundeado no Rio Tejo em 1900 junto ao Arsenal da Marinha (arq. priv.)


Rei D. Carlos I a bordo do iate Amélia III num momento de lazer (arq. priv.)


O iate Amália III convertido novamente em iate Ycona durante a Primeira Grande Guerra Mundial 
com bandeira dos EUA (arq. priv.)


Iate Amélia IV

Originalmente denominado iate SS Banshee, este iate foi construído em 1899 nos estaleiros Ramage and Ferguson, em Leith, na Escócia, de acordo com com os planos de um cruzeiro de 2ª classe. Foi adquirido em 1901 pelo rei D. Carlos I em troca do anterior iate Amélia III. Este iate que viria para Portugal receber o nome de Amélia IV, o último e definitivo dos "Amélia". Esta nova embarcação chegou a Cascais em 2 de Novembro de 1901. Com casco em aço, um comprimento de 70,1 metros e um deslocamento de 1370 toneladas, atingia uma velocidade de 14 nós. Este iate era muito maior, pesando aproximadamente 1.370 toneladas, com 70 metros de comprimento, 9 metros de boca e 5,6 metros de calado. Era movido por um motor a vapor de 1.800 HP, de tríplice expansão, 3 cilindros, 2 caldeiras tubulares, com uma auxiliar e 3 fornalhas, que lhe conferia uma velocidade de 15 nós, e estava equipado como uma escuna. Dispunha de capacidade para 183 toneladas de carvão. Estava armado com quatro canhões de 1 libra e tinha uma tripulação de 74 homens. Dispunha a bordo seis embarcações, sendo uma a vapor e outra movida a electricidade. Tinha todos os apetrechos necessários aos trabalhos oceanográficos. Estava equipado com uma máquina de 650 cv, que lhe imprimia uma velocidade máxima de 14 nós. A sua guarnição oscilava entre 36 e 45 homens. Projectado como um cruzador ligeiro, este navio assemelhava-se, nas dimensões e no aparato, ao célebre Princesse Anne II de Alberto I do Mónaco, outro príncipe que fez da oceanografia a paixão da sua vida. Mais do que uma embarcação de recreio, o iate Amélia IV era um navio orientado para a pesquisa oceanográfica, a actividade extra política preferida do monarca. Que, com o passar do tempo e com a experiência adquirida no decorrer de três campanhas de estudo, se tornara, incontestavelmente, uma figura reconhecida pela comunidade científica. Este iate era um navio praticamente novo, já que fora construído em 1898, sendo muito mais espaçoso do que os primeiros iates de D. Carlos I, foi possível converter as suas áreas de lazer em laboratórios e outros locais de estudo. Do mais genuíno estilo inglês, as camarinhas proporcionavam um ambiente acolhedor e privado. Toda a sua decoração interior dos espaços de camarotes e salas eram ricamente decorados em madeira, ao estilo vitoriano muito em voga na época em que foi construído, como atestam alguns registos fotográficos da época pelo célebre fotografo inglês Arthur William Debenham (1845 - 1936). Estava armado, esta embarcação, com um canhão-arpão para captura de cetáceos. Participou em duas campanhas oceanográficas: em 1899 e 1901. Apesar das suas evidentes qualidades, o iate Amélia IV não conseguiu satisfazer, ainda assim, as ambições do cientista Carlos de Bragança. No entanto, a multi funcionalidade no iate Amélia IV ia bastante mais além do que nos antecessores já que projecto do navio era o de um cruzador de 2ª classe que, além de poder servir de navio de guerra para a marinha Portuguesa, tinha instalações para ser utilizado como iate Real e como navio de investigação oceanográfica. Na sequência do golpe militar que implantou a república em Portugal, em 5 de outubro de 1910, foi no iate Amélia IV que o último Rei de Portugal, D. Manuel II, a sua família e comitiva  embarcaram, a partir da Ericeira, para se dirigirem para o exílio, sendo conduzidos a Gibraltar. Após a implantação da Republica foi considerado cruzador e  rebaptizado de N.R.P. 5 de Outubro. Até ao seu abate, ocorrido em 1937, este histórico navio participou em várias missões hidrográficas, tanto na costa de Portugal continental como nas das ilhas da Madeira e de Porto Santo. Esta última embarcação real, foi muito marcante e simbólica, na história dos iates Reais Portugueses. Após o desmantelamento deste último navio, quando este foi abatido ao efectivo em 1938, foram retiradas de bordo o interior dos camarins reais, preservando-se também algumas baixelas de louças, faqueiros e cristais que fizeram parte da palamenta. Numa sala do Museu de Marinha em Lisboa, que é dedicada às camarinhas do Iate Real Amélia, os luxuosos alojamentos destinados ao rei D. Carlos Î e à rainha D. Amélia estão preservados e expostos. Em 1990 as Colecções Philae, editou um belíssimo prato em porcelana, edição limitada, em homenagem ao rei D. Carlos I e alusivo ao "Iate Real Amélia", numa ilustração executada apelo monarca em 1899, homenageando também esta embarcação histórica.


O iata Amélia IV em gravura de apresentação (arq. pess.)


O futuro iate Amélia IV, enquanto iate SS Banshee, em 1900 
por Arthur William Debenham (arq. priv.)


Aspecto do futuro iate real português Amélia IV
enquanto iate SS Banshee, em 1900
(arq. priv.)




Aspectos do interior do então iate SS Banshee, futuro iate Amélia IV em 1900, 
fotos Arthur William Debenham (arq. priv.)


Publicidade de 1897 dos estaleiros ingleses construtores do iate SS Banshee
futuro iate real Amélia IV (arq. pess.)


Motor a vapor idêntico ao que equipava o iate Amélia IV, 1.800 HP, 
de tríplice expansão, 3 cilindros e fornalhas (arq. pess.)


Desenho do iate Amélia IV e esquema de cores (arq. pess.)



O iate Amélia IV em 1899, numa ilustração do rei D. Carlos I (col. pess.)



Notícia alusiva à entrada em Lisboa do novo iate Amália IV 
em 1901 in "Diário Illustrado"(arq. priv.)

O iate Amélia IV fundeado no rio Tejo na zona da Junqueira (arq. priv.)

Vista da proa do iate Amélia IV em 1901 (arq. priv.)


Rei D. Carlos I a bordo do iate Amélia IV em 1901 (arq. priv.)


Rei D. Carlos e comitiva a bordo do iate Amélia IV em 1901 (arq. priv.)



Menu de almoço servido a bordo do iate real Amélia IV em 1902 com ilustração 
presumivelmente executada pelo rei D. Carlos I (col. pess.)


Ilustração do iate Amélia IV do diário de bordo do Comandante Pinto Basto de 1902 (arq. BNP)

O iate Amélia IV no Arsenal de Nápoles em 1903 (arq. pess.)


Um bergantim da Casa Real aproxima-se do Iate Real Amélia IV 
em 1904 em pleno rio Tejo (arq. priv.)


O iate Amélia IV numa doca do porto de Lisboa em meados de 1904 (arq. priv.)


O iate Amélia IV no rio Tejo, frente a Lisboa em 1906 (arq. priv.)


Postal ilustrado com o iate real Amélia IV, frente ao Arsenal em 1909 (col. pess.)


Fuga da família real portuguesa em 5 de outubro de 1910 e comitiva, na Ericeira para o iate Amélia IV
rumo a Gibraltar in revista "Illustração Portugueza" de 1910  (arq. pess.)


Alusão ao iate Amélia IV, que conduziu a família real portuguesa ao exílio 
em 5 de outubro de 1910 (arq. pess.)


A última bandeira de comodoro do Real Club Naval hasteada no iate Amélia IV 
na sua chegada a Gibraltar aquando da fuga
 da família Real Portuguesa em 1910
 (col. priv.)


O antigo iate Amélia IV em 1917 já convertido no cruzador NRP 5 de Outubro (arq. pess.)



Bóia salva vidas pertencente ao iate Amelia IV (col.priv.)



Baixela em prata utilizada a bordo do iate Amélia IV 
(preservada no Museu de Marinha em Lisboa)



Parte da baixela em porcelana utilizada a bordo do iate Amélia IV 
(preservada no Museu de Marinha em Lisboa)


Modelo do iate Real Português Amélia IV (col Museu de Marinha em Lisboa)


Camarinha da rainha no iate Amélia IV preservada no Museu de Marinha de Lisboa na actualidade



Prato em porcelana da Colecção Philae, "Iacht Real Amélia", 
Edição Limitada, 1990, frente e verso (col. pess.)








Texto: 

Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:

Branco e Negro semanário illustrado, nº 81 de 19 de Outubro de 1897

Diário Illustrado de Novembro de 1901

BRAGANÇA. (D. Carlos de, Rei de Portugal), BULLETIN DES CAMPAGNES SCIENTIFIQUES ACCOMPLIES SUR LE YACHT "AMELIA". Imprimerie Nationale. Lisbonne. 1902

Rei de Portugal, D. Carlos de Bragança, DIÁRIO NÁUTICO DO YACHT AMÉLIA CAMPANHA OCEANOGRÁFICA REALIZADA EM 1897, 3.ª Edição. Oficinas gráficas do Instituto Hidrográfico. Lisboa. 1988

Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001

Revista da Armada, Publicação Oficial da Marinha, 2011