segunda-feira, 24 de maio de 2021

AS CHINESAS MILAGROSAS OU "CHINESAS DOS BICHOS"

A primeira grande conturbação urbana da Primeira República portuguesa...




No dia 19 de novembro de 1911, instalaram-se no Hotel Algarve na Rua da Padaria nº 24, na Baixa de Lisboa, duas curandeiras chinesas, provenientes de Xangai. Pouco mais de um ano tinha passado após a implantação da República em Portugal, uns meros meses após a aprovação da primeira constituição republicana e como Presidente da República o Dr. Manuel de Arriaga (1840 - 1917), isto enquanto a norte se vivia um jogo de toca-e-foge com as hostes monárquicas de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861 -1944). As referidas senhoras chinesas, ao que consta irmãs, de nome Ajus a mais velha com 33 anos e Joé a mais nova com 29 anos, haviam atravessado o sul de Espanha, permanecendo algum tempo em Huelva e Sevilha, e depois rumaram ao Algarve, tendo passado algum tempo em Loulé e Faro antes de rumarem a Lisboa. As duas orientais, o marido de Ajus, de seu nome Sain Chain e os dois filhos, saíram de Xangai quatro meses antes, tendo percorrido a Áustria, Itália e França, antes de chegarem Espanha, com o mesmo intuito de negócio de curandeiras. Joé também casada terá deixado um filho entregue aos cuidados da avó na China. As duas irmãs Ajus e Joé depois de instaladas no hotel com a família, descansaram da viagem na sua primeira noite em Lisboa e, na manhã seguinte, acompanhadas de um cicerone, meteram-se num trem de aluguer e foram até ao Terreiro do Paço, onde abriram de imediato um consultório ao ar livre, vendo-se em poucos minutos cercadas de enfermos rendidos às suas enigmáticas intervenções. Este aparato deu nas vistas perante as autoridades, o que seria apenas o princípio de uma conturbada história. As duas irmãs chinesas, de pequena estatura rapidamente ganhariam fama e apoio popular pela sua alegada capacidade de curar problemas oftalmológicos através da aplicação de curativos e de massagens que culminavam na extracção dos "bichos" causadores das afecções oculares. Ambas apenas falavam a sua língua nativa, o mandarim, fazendo-se entender por sinais e um mau pronunciado castelhano. Segundo os registos da época referem sobre os seus supostos tratamentos: "extraindo dos olhos […] uns bichos parecidos com os alimentados no interior dos frutos". Este suposto tratamento consistia em, após aplicar algumas gotas de um líquido, massajar as fontes com "dois pauzinhos" de sândalo, fazendo sair "bichos" dos olhos dos doentes. Várias pessoas afirmam ter recuperado a visão após o tratamento das "chinesas milagrosas", o que arrasta multidões, algumas vindas até de fora da capital, esperançosas de encontrarem curas para as suas doenças de olhos. As irmãs chinesas inicialmente, apenas aceitavam dos mais remediados as voluntárias contribuições que entendessem ofertar, nada exigido por caridade aos pacientes mais pobres. Eram às centenas as pessoas para obter este tratamento "miraculoso" na Rua da Padaria que as curandeiras efectuavam no quarto do Hotel Algarve onde residiam. O jornal O Século anuncia estarem estas curandeiras a devolver a vista a cegos com esta técnica. Por sua vez o jornal A Capital na sua edição de 20 de novembro de 1911, publica na primeira página um cartoon de sátira aos supostos tratamentos das curandeiras chinesas. De referir que neste período havia inúmeros tipos de curandeiros para quase todos os males, alguns até anunciavam nas importantes publicações da época.


Dr. Manuel de Arriaga 1840 - 1917 Presidente da República de Portugal 
 em postal ilustrado de 1911 (col. pess.)


O Presidente da República Dr. Manuel de Arriaga, nas comemorações do primeiro aniversário 
da República em Portugal, foto Joshua Benoliel (arq. AML)



A pacata Rua da Padaria em Lisboa onde se situava o Hotel Algarve 
no início do séc. XX (arq. AML)


Ajus e Joé pouco tempo após a sua chegada a Lisboa, 
fotografadas por Joshua Benoliel em 1911 
(arq. pess.)


Terreiro do Paço no inicio do séc. XX, local publico onde as curandeiras chinesas iniciaram
 as suas consultas a céu aberto em Lisboa, foto Paulo Guedes (arq. AML)


As irmãs chinesas Ajus e Joé em 1911 no seu quarto do Hotel Algarve com os seus aparatos 
onde praticavam a sua actividade, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Página do jornal A Capital de 20 de novembro de 1911 com cartoon 
alusivo à técnica das curandeiras chinesas 
(arq. Hemeroteca Digital) 


Cartoon alusivo à técnica das curandeiras chinesas publicado no jornal A Capital 
de 20 de novembro de 1911 (arq. pess.)



Estes ajuntamentos de muitos mirones junto da improvisada clínica a céu aberto no Terreiro do Paço e no Hotel Algarve, ia crescendo, atraindo por isso cada vez mais as atenções das forças policiais. Entretanto, as autoridades intervêm e o Governador Civil de Lisboa, Francisco Eusébio Lourenço Leão (1864 - 1926), ele próprio médico de formação, proíbe as curandeiras de realizar consultas, alegando prática ilegal de Medicina. Confrontado com as declarações de melhoras dos doentes, diz, em entrevista ao jornal A Capital, tratar-se apenas do poder da sugestão e denuncia os perigos sanitários das intervenções das curandeiras afirmando: "Eu sinto grande comiseração por esses infelizes que, na ânsia de uma cura, ou mesmo de simples melhoras, se abalançam a tudo, fazem os maiores sacrifícios e crêem nos milagres com que pretendem explorá-los criaturas sem escrúpulos; mas o dever de todos nós, que conhecemos a ignóbil exploração, é defendê-los mesmo contra eles próprios, evitando não só essa exploração como sobretudo os perigos que dela resultam." Porém, o seu grande sucesso gerou enorme afluência às ruas envolventes do hotel, a histeria colectiva popular cresce e verificar-se-ia mesmo algum tumulto por parte dos populares que tentavam aceder às "consultas" dadas no referido hotel onde permaneciam. Entendendo que eram a ignorância e o desespero do povo o que levava tantos doentes a procurar as curandeiras, Francisco Eusébio Lourenço Leão, decidiu “defendê-los mesmo contra eles próprios” e fez parar a prática destas. Esta actuação gerou um enorme movimento de protesto popular. Criaram-se comissões populares para interpelação do parlamento, Governo Civil, Ministério do Interior e até do Presidente da República, em defesa de Ajus e Joé, pedindo inclusive que as curandeiras possam exercer  livremente as suas actividades. Considerado o tema escaldante, o ministro do Interior remete-o para o Parlamento, onde só Manuel de Brito Camacho (1862 - 1934), médico, politico e jornalista, ousa afirmar tratar-se de um mero assunto de polícia. Não obtendo grande resposta, a contestação popular continuou com ajuntamentos nas imediações do hotel e grandes filas de cegos e pacientes oftalmológicos. A 25 de novembro, as autoridades por ordem do Governo Civil, entram com dificuldade devido aos ajuntamentos, no Hotel Algarve e mesmo perante o impedimento da multidão, encaminham as duas curandeiras e família dali para um comboio que os conduz até Vila Franca de Xira, tendo sido depois metidas numa carruagem de 2.ª classe no comboio para Badajoz, acompanhadas de 4 guardas, numa expulsão expedita do território português. Esta decisão governamental de expulsão das chinesas, ira acender um rastilho de protestos, no Parlamento e nos ministérios, congregando multidões em inflamados comícios. Muitas das publicações da época satirizaram a situação de diversas formas. O problema, no entanto, estava apenas a começar, porque o "sequestro" das misteriosas mulheres orientais fez vir ao de cima uma ira popular imprevista. De repente, as chinesas pareciam representar toda uma promessa de um futuro melhor que a recém experimentada República tardava em cumprir.


Povo aglomerado esperando consulta na Rua da Padaria junto ao Hotel Algarve
 onde viviam as chinesas curandeiras em 1911, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Dr. Francisco Euzebio Lourenço  Leão 1864 - 1926,
 Governador Civil de Lisboa (col. pess.)


Multidão à porta do Ministério do Interior pedindo que às chinesas seja concedido licença 
para exercer a sua actividade livremente em 24 de novembro de 1911, 
foto A. C. Lima (arq. pess.)


Comissão de populares no Terreiro do Paço que foi ao Parlamento, vendo-se ao centro uma mulher 
que diz ter sido curada pelas chinesas em 24 de  novembro de 1911, 
foto A. C. Lima (arq. pess.)


Grupo de cegos junto ao Ministério do Interior manifestando-se a favor das chinesas curandeiras 
em 24 de novembro de 1911, foto Joshua Benoliel (arq. pess.)



Manuel de Brito Camacho 1862-1934, 
médico, politico e jornalista
(arq. priv.)


Cartoon alusivo à expulsão das chinesas publicado no jornal A Capital 
de 25 de novembro de 1911 (arq. pess.)


Povo protestando contra a expulsão das chinesas milagrosas na Rua da Padaria 
em 25 de novembro de 1911, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Página do jornal A Capital de 26 de novembro de 1911 com a notícia 
da expulsão das curandeiras "chinesas dos bichos" 
(arq. Hemeroteca Digital)




No dia seguinte, a 26 de novembro, uma comissão composta por António Bellá, Constantino Mendes, Gaspar da Silva, Manuel Augusto Ferreira, Júlio Cruz, José da Veiga, Armando Almeida, e José Candeias, resolve promover um comício de protesto contra a expulsão das "Chinesas dos Bichos" às 2 horas da tarde, junto à Igreja dos Anjos: ouvem-se inflamados discursos, a indignação aumentou grandemente de tom, invocando-se abuso da autoridade republicana e ilegalidade nos procedimentos contra as estrangeiras. Gerou-se um comício de protesto junto à igreja dos Anjos que percorrerá Lisboa, com várias deambulações desde a Avenida Almirante Reis até chegar ao Rossio, onde uma tentativa de intervenção de António Maria de Azevedo Machado Santos (1875 - 1921), a grande figura da implantação da República, terminará em perseguição e no cerco com a destruição da loja Casa das Águas onde este se refugiou. A multidão encaminha-se em massa para a Rotunda, onde se realiza novo comício. Daí, a multidão marcha pela Avenida da Liberdade em direcção ao Governo Civil. Como Francisco Eusébio Lourenço Leão não estava presente, a multidão dispersou, e parte seguiu para a redacção do jornal republicano A Lucta, onde se manifestou contra o seu fundador Manuel de Brito Camacho. Receando-se mais manifestações, e devido à proximidade da multidão à residência do Presidente da República Dr. Manuel de Arriaga, que na época era o Palácio da Horta Seca, montaram guarda em frente ao palácio, uma força de infantaria e uma outra de cavalaria da Guarda Nacional Republicana.  A intervenção de marinheiros e da cavalaria da Guarda Nacional Republicana consegue resgatar António Maria de Azevedo Machado Santos, que acaba saindo num automóvel da loja Casa das Águas onde se mantinha refugiado da ira popular. Mas os tumultos continuam e de forma mais acesa no Rossio, até que por fim, junto ao café A Brazileira do Rossio (estabelecimento inaugurado nesse ano de 1911), se dá uma intensa troca de tiros entre populares e a guarda durante a noite. Destes desacatos e troca de tiros ficaram marcas bem visíveis com furos dos tiros nas montras do famoso café lisboeta, havendo relatos de mais estabelecimentos danificados na mesma zona como a sucursal no Rossio do jornal O Século. Da troca de tiros entre a guarda e o povo resultaram em 46 feridos, cinco dos quais em estado grave. Dos feridos em estado grave vieram a resultar duas vítimas mortais. Foram as vítimas mortais o chapeleiro José da Costa Cabral, de 30 anos, que faleceu na manhã do dia 27 na Enfermaria de São Sebastião do Hospital de São José, após ter sido atingido com dois tiros no peito na Rua do Amparo e a segunda vítima mortal, o ourives João Borges dos Santos de 17 anos com um tiro na cabeça quando atravessava o Rossio. Houve ainda a registar várias detenções entre eles o sindicalista Constantino Mendes. Foi igualmente detido em Sacavém de um dos organizadores de um comício a favor das chinesas. Muitas das publicações da época deram ênfase a este acontecimento, em especial a revista Illustração Portugueza do dia 4 de dezembro de 1911, onde foram publicadas fotos e relatos dos acontecimentos mais marcantes.


Comício de protesto junto à igreja dos Anjos, contra a expulsão das chinesas 
em 26 de novembro de 1911, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Comício a favor das curandeiras chinesas na Av. Almirante Reis no dia 26 de novembro de 1911, 
foto Joshua Benoliel (arq. pess.)


António Maria de Azevedo Machado Santos 1875 - 1921, 
grande figura da implantação da República 
que tentou intervir nos tumultos no Rossio
(arq. pess.)


Loja Casa das Águas onde se refugiou Machado dos Santos em novembro de 1911, 
foto Joshua Benoliel (arq. pess.)


Fachada do Palácio da Horta Seca, residência do Presidente da República em 1911, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Aspecto dos danos com furos dos tiros na montra do café Brasileira do Rossio 
após os tumultos em 26 de novembro de 1911 (arq. AML)


Sucursal do jornal O Século no Rossio com montra destruída após os distúrbios de 26 de novembro de 1911, 
foto Joshua Benoliel (arq. priv.)


Notícia do jornal A Capital de dia 27 de novembro de 1911 
alusiva a vítima mortal e detenções causadas 
pelos tumultos do dia anterior
(arq. Hemeroteca Digital)






Artigo alusivo às chinesas milagrosas publicado pela
Illustração Portugueza de 4 dezembro de 1911
(arq. pess.)



Um acontecimento caricato este à primeira vista, retratado por muitos ilustradores em forma de caricaturas alusivas ao assunto em diversas publicações, mas no qual uma análise mais profunda consegue detectar sinais de certa uma insatisfação que se fazia sentir, que irá aflorar com muito maior pungência em momentos posteriores. Treze meses apenas tinham passado sobre a implantação da República em Portugal, Lisboa e depois outros pontos de País foram assolados por uma tal revolta popular, que o novo sistema político e os seus protagonistas tremeram na base. E o que esteve na origem de tal tumulto não foram os realistas que ainda brandiam armas no Norte e esgrimiam argumentos nos tribunais que os julgavam por conspiração mas sim duas simples curandeiras populares. A elite republicana via-se como sendo agente duma modernização necessária da sociedade portuguesa. Um movimento que teria de se realizar, à força se necessário, imposto num povo pouco escolarizado e do qual essa mesma elite desconfiava, considerando-o pouco capaz e manipulável. Concluindo, a populaça acusava o regime republicano de todos os seus males. A retórica anti-republicana que aflorou a espaços nos discursos dos protestos da "chinesas dos bichos" não desmente a possibilidade de manipulação temida por muitos dirigentes republicanos. A actuação das autoridades, com motivos legítimos, foi transformada num abuso destinado a favorecer os privilégios dos médicos, alegadamente apenas interessados em dinheiro e não em resultados, promovido por um deles, Francisco Eusébio Lourenço Leão, um republicano convicto. Mas mesmo na primeira página do jornal A Capital, jornal de tendência republicana, do dia seguinte, aparece a crítica de que o grande potenciador do grau dos tumultos foi a atitude superior e dogmática das autoridades, e o recurso inicial a violência policial desnecessária. Perante uma população gravemente necessitada de cuidados médicos, presa a uma vida de grandes dificuldades neste período, não terá havido a necessária abordagem pedagógica, observa-se. A intervenção de António Maria de Azevedo Machado Santos viria demasiado tarde, com os ânimos já exaltados, e acabaria não só por falhar nos intuitos de acalmar e explicar, como seria mesmo o rastilho que alimentaria o fim trágico dos protestos. Cúmulo das ironias, António Maria de Azevedo Machado Santos, o vencedor da revolta da Rotunda, fundador da República, torna-se de súbito o inimigo público dos que, um anos antes, o haviam levado em ombros e aplaudido. Apesar destas críticas, a postura dogmática e de modernização forçada continuaria a ser a abordagem prevalecente nos anos que se iram seguir. Numa sessão do parlamento o deputado Adriano Mendes de Vasconcellos (1867 - 1946), acusa o Governo de "abuso de poder" e de "ataque à Constituição" no resgate das chinesas. O Ministro da Interior Silvestre José Falcão de Sousa Pereira de Berredo (1866 - 1927) , argumenta terem sido as próprias curandeiras a querer sair "apavoradas com o barulho que se fazia em volta delas". Na resposta, o deputado põe termo à discussão ironizando a situação afirmando que: "...foi facílimo compreender que as chinesas o que queriam era ir-se embora, para se verem livres da perseguição do povo!..."  Com isto a oposição conservadora e tradicionalista acabaria por tirar dela uma boa vantagem, aproveitando para fazer comícios em volta do caso e atacar adversários políticos. Tudo para decepção dos republicanos, que julgavam Lisboa positivista e livre-pensadora. Assim terminará o estranho episódio das "Chinesas Milagrosas", a primeira grande conturbação urbana da Primeira República portuguesa. As duas irmãs chinesas curandeiras saíram de Portugal em direcção a Espanha e aí, ao que foi noticiado, regressaram à sua actividade "clínica", o que as levaria a ser novamente expulsas. Ninguém mais soube do seu paradeiro durante algum tempo. No entanto em 1912 surge um registo de uma notícia de que as "chinesas dos bichos" tinham sido desmascaradas desta vez no Brasil. Médicos brasileiros teriam descoberto o truque das curandeiras na cidade do Rio de Janeiro, as quais escondiam larvas de moscas debaixo da língua e que eram cuidadosamente levadas por meio de pauzinhos para os olhos dos supostos pacientes. Sendo este truque muito usual à época em algumas partes da China e nomeadamente em Macau. Segundo registos e noticias, este caso das duas irmãs chinesas curandeiras não terá sido o único ocorrido no Brasil. A partir daqui nada mais se soube das duas irmãs chinesas Ajus e Joé. Mesmo com a notícia publicada mais tarde sobre a denúncia das chinesas, tal não parece ter afectado a aura das curandeiras perante o povo simples, ignorante e carente. Afinal, acreditar naquilo em que se quer acreditar, seria o principio de terapia da sugestão. Não deixou este episódio aparentemente banal por razões de fanatismo e crença popular, causar os primeiros tumultos urbanos na Primeira Republica portuguesa, outros se seguiriam por motivos diferentes e perante o descontentamento do povo das gerações vindouras. Com o tempo outros problemas mais prementes surgem em breve na sociedade portuguesa, tal como uma sucessão de greves, um golpe de estado contra o regime de Manuel de Arriaga e a acelerada cadência de novos governos que se instalou neste período. No entanto este fenómeno das chinesas curandeiras, com todo o mal estar gerado entre povo apoiante e governo contra, assim como entre facções politicas que se aproveitaram para conseguir vantagens tendo o povo do seu lado, continua muito actual na nossa sociedade.


Ilustração em forma de caricatura alusiva à expulsão das chinesas por Eusébio Leão, 
na publicação O Zé de 5 de dezembro de 1911 (arq. priv.)


Alusão em caricatura à expulsão das chinesas pelas autoridades portuguesas 
na publicação O Zé de 5 dezembro de 1911 (arq. priv.)


Caricatura de políticos republicanos numa discussão ministerial em postal ilustrado de 1911 (col. pess.)


Ambiente da Assembleia Nacional Constituinte em 1911, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Caricatura alusiva ao Parlamento e os seus constituintes na publicação O Zé 
de 12 de novembro de 1912 (arq. priv.)


Cidade do Rio de Janeiro em 1912 onde as irmãs curandeiras Ajus e Joé 
viriam a ser novamente desmascaradas e expulsas (arq. pess.)


Publicação brasileira O Malho de 16 de março de 1912 com alusão 
em caricatura do perigo das curandeiras chinesas no Brasil
 que as levaria à expulsão (arq. pess.)



Revolucionários durante o golpe de estado ocorrido em 14 de maio de 1915, 
foto Anselmo Franco (arq. AML)


Revolta popular de 14 de maio de 1915, a população em frente aos Paços do Concelho assiste à proclamação 
da Junta Revolucionária, foto Joshua Benoliel (arq. AML)





Texto: 

Paulo Nogueira



Fontes e bibliografia:

Jornal A Capital nº 473 de 20 de novembro de 1911

Jornal A Capital nº 479 de 26 de novembro de 1911

Brasil - Portugal, revista quinzenal ilustrada, nº 309 de 1 de dezembro de 1911

Illustração Portugueza, nº 302 de 4 de dezembro de 1911

O Malho, nº 496 de 16 de março de 1912

FERNADES, Joaquim, As Curandeiras Chinesas, Um motim que abalou a I República, 1ª edição, Editora gradiva, Lisboa, 2014



quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

PROFISSÕES DE ANTIGAMENTE

Os tipos populares de Lisboa desaparecidos...




Os tempos mudam e com ele novos métodos de trabalho surgem, algumas profissões antigas acabaram por desaparecer por causa da tecnologia ou, simplesmente, por causa da mudança de hábitos e tradições. Algo que, sejamos honestos, não podemos evitar e, na grande maioria dos casos, libertou as pessoas de ofícios ou funções pouco remuneradas ou até degradantes. Algumas foram extintas de forma repentina e outras foram perdendo importância com o tempo. Certas profissões do passado tornaram-se verdadeiros símbolos urbanos típicos do imaginário das grandes cidades, no caso concreto, da cidade de Lisboa e representativas dos costumes mais pitorescos da capital. Tais ocupações, integradas num conjunto amplo e variado de figuras que normalmente se designam por tipos populares, podem ser interpretadas, de um certo ponto de vista, como uma síntese temática da cidade. Muitos foram os artistas, nacionais e estrangeiros que ao longo dos séculos retrataram, nos mais diversos suportes, estes tipos populares. Os tipos populares de Lisboa conjugam, assim, nas suas figuras estereotipadas, não apenas traços emblemáticos da cidade que remetem para épocas passadas, cuja divisão do trabalho conduzia a uma organização  sócio-profissional específica, mas também traços ambientais e culturais que permanecem: o rio que se abre para o mar, as hortas e os campos que a rodeiam, as fontes e chafarizes, os grandes mercados abastecedores de produtos frescos, certas formas alimentares, uma traça urbana particular e algumas festividades colectivas. Em Lisboa, como em outras grandes cidades, a inserção no mercado de trabalho constitui um passo decisivo para a integração dos seus habitantes e, muito particularmente, para a inserção de imigrantes recém-chegados, venham eles do interior ou do litoral, de outras cidades ou de pequenas aldeias, do país ou do estrangeiro. Com efeito, os designados tipos populares referem-se, na sua maioria, a vendedores ambulantes, ou prestadores de serviços vários ao domicílio, mulheres e homens  que povoaram as ruas da cidade de Lisboa em épocas passadas, parando nas praças, de giga à cabeça ou trazendo um burro pela arreata, sucedendo-se uns aos outros durante certas horas do dia, em cumprimento dos horário favoráveis à venda dos seus produtos ou consoante as épocas do ano e sempre associados aos seus pregões. Iniciavam os seus pregões logo que tocavam as 9:00 da manhã na Sé de Lisboa. Estes pregões ecoavam pelas ruas de Lisboa de outros tempos no seu quotidiano e atravessaram diversas épocas da história de Portugal e da cidade. Cada actividade tinha um traje próprio, como que, uma farda de trabalho, que imprimia dignidade à profissão. Muitas destas profissões com ou sem pregões, já antes do Grande Terramoto de 1755 se viam e ouviam pelas ruas da capital, depois, já no período das Guerras entre liberais e absolutistas, atravessaram as fases conturbadas das grandes epidemias de Lisboa do século XIX, o regicídio e o fim da monarquia portuguesa com o início do regime republicano e os tempos difíceis do Estado Novo. Certas profissões foram desaparecendo, outras mantiveram-se e outras ainda surgiram com os novos tempos.  Algumas dessas figuras fazem hoje parte do folclore urbano. Dessas antigas profissões, poucas, sobreviveram ou tiveram de se adaptar aos tempos modernos, outras estão em vias de extinção, como são os casos do amolador, o limpa chaminés, ou o engraxador de rua. Recordemos algumas dessas profissões já extintas, as mais marcantes e típicas, mas que ficaram na memória colectiva assim como na história dos bairros da cidade de Lisboa.


Quotidiano urbano no Largo dos Remolares, actual Cais do Sodré em 1785,
 pintura de Joaquim Marques (col. priv.)


Ambiente com figuras típicas populares na Rua da Cotovia em Lisboa 
no início do séc. XIX (col. pess.)


Ambiente da Rua Augusta e comércio em 1885 (col. pess.)


Ambiente da Rua Serpa Pinto em Lisboa com vendedores ambulantes de azeite e petróleo 
e moços de fretes galegos nos finais do séc. XIX (arq. AML)


Figuras típicas populares de Lisboa, aguadeiro, petrolino e vaga lumes 
na Rua de São Miguel  no início do séc. XX,
 foto José Artur Leitão Bárcia (arq. AML)


Vendedores na Rua Marcos Portugal em Lisboa no início do séc. XX, 
foto Machado & Souza (arq. AML)


Ambiente de comércio na Rua do Arco do Marquês d'Alegrete 
em finais do séc. XIX por Roque Gameiro, em 1910
(col. Museu de Lisboa)


Ambiente do quotidiano de Lisboa na Rua Garrett com o aguadeiro e as costureiras
 no início do séc. XX (arq. AML)



Ardina e moço de fretes galego na Rua do Norte no Bairro Alto em 1960, 
foto Arnaldo Madureira (arq. AML)



Comercio de Lisboa numa rua de Alvalade nos anos 60, foto Arnaldo Madureira (arq. AML)


Uma profissão de rua em Lisboa em 1975 na Avenida Fontes Pereira de Melo, 
foto Rob Mieremet (arq. priv.)




O aguadeiro

O aguadeiro era uma das profissões desaparecidas, das mais antigas da cidade de Lisboa, também justificável pela importante necessidade. Eram homens que vendiam água de casa em casa, quando ainda não existia o Aqueduto das Águas Livres, às vezes a residentes nos pontos mais altos dos bairros tradicionais, depois em muitas carvoarias/tabernas espalhadas pela cidade e, por fim, em restaurantes. Normalmente os aguadeiros, abasteciam-se em fontes de água potável e em chafarizes, como em Alfama ou Largo do Carmo, por exemplo, esperando pacientemente a sua vez em longas filas. O aguadeiro transportava depois a água num barril de 50 litros que colocava sobre o ombro ou utilizava uma carroça para transportar o precioso líquido. Na sua labuta diária  lá iam trepando íngremes calçadas, subindo escadinhas, calcorreando ruas e travessas, sempre a apregoar:

 "Aú! Aúúúúúúú!"  

"Há água fresquinha! Quem quer, quem quer?" 

Na Lisboa dos séculos XVIII, XIX e até início do século XX, os aguadeiros eram uma das figuras mais típicas. Inicialmente foi uma profissão de homens negros, mais tarde estas figuras típicas eram maioritariamente de origem galega, oriundos de Tuy e Pontevedra. Em registos de 1830, só aguadeiros em Lisboa eram cerca de 3.454 e eram considerados uma comunidade estrangeira muito unida. A sua tarefa era tão exigente e exigia tanto esforço que os aguadeiros eram os únicos vendedores a quem se consentia entrar porta dentro, a fim de verter o precioso líquido directamente para o pote ou talha de barro, de onde os moradores, usando pequenos púcaros, dele se iam servindo à medida das necessidades domésticas. A profissão estava regulamentada, e era necessária uma autorização do Senado da Câmara. Com a vulgarização da água canalizada esta profissão desapareceu. Segundo uma anedota do século XIX, os galegos regressados à sua terra natal, costumavam aconselhar aos demais que estavam de partida para Lisboa: "Vão para Lisboa, que é uma bela cidade, mas com gente muito estúpida. Lá até podemos vender água e eles compram-nos uma coisa que já é deles!" A chegada da água do rio Alviela a Lisboa, em 1880, e a progressiva canalização até às casas dos lisboetas, foi um acontecimento que sinalizou progresso e evolução, mas que, ao mesmo tempo, contribuiu para a ruína de uma classe que, durante muitos e muitos anos, fora tão típica da capital. No entanto durante as primeiras décadas do século XX ainda era possível ver algumas destas figuras típicas da cidade de Lisboa pelas ruas dos bairros mais antigos vendendo o tão precioso liquido de porta em porta. Segundo relatos e registos fotográficos da época, os últimos profissionais que restaram deste ramo, estiveram em actividade, embora já em escasso número, até ao início dos anos 60 do século XX.


Aguadeiro de Lisboa em meados do séc. XVIII (col. pess.)


Ambiente citadino com os aguadeiros de Lisboa no início do século XIX 
recriado por Roque Gameiro (col. priv.)


Aguadeiros de Lisboa durante o abastecimento no Largo do Carmo em meados so séc. XIX, 
por Charles Legrand (col. pess.)


Aguadeiros de Lisboa, desenho de E. J. Maia, 1846 (col. pess.)


Aguadeiros de Lisboa em meados do séc. XIX in Colecção Palhares 2ª série 
(col. pess.)


Galegos aguadeiros de Lisboa em 1898, por Roque Gameiro 
(col. pess.)


O aguadeiro de Lisboa no início do séc. XX, por Roque Gameiro 
(col. pess.)


Aguadeiro no arco da Travessa do Monte, entrada da quinta do Monteiro, 
no início séc. XX, foto Artur Leitão Bárcia (arq. AML)


Aguadeiros no chafariz de Dentro ou de Alfama em 1907, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Aguadeiro de Lisboa do início do séc.XX em postal ilustrado (col. pess.)


Aguadeiros de Lisboa abastecendo-se no Largo do Chafariz de Dentro em 1929 (arq. jornal O Século)


Dos últimos aguadeiros de Lisboa numa rua de Alfama nos anos 60 do séc. XX 
em postal ilustrado (col. pess.)




Carregadores galegos

Os carregadores, moços de fretes, moços de esquina ou ainda "pau de corda", como eram conhecidos em Lisboa, era um tipo de trabalho tradicionalmente realizado, uma vez mais, por indivíduos que emigraram da Galiza para Portugal, principalmente no século XVIII e XIX com o intuito de ser aguadeiros. A figura típica em alguns pontos estratégicos da capital e em esquinas com as suas cordas e padiolas, com o seu calção com "folhos", jaqueta apertada, boné de pala em pele, efectuavam todas as tarefas pesadas que numa época sem apoios mecânicos nenhuns são fáceis de imaginar. Em finais do século XIX um dos locais habituais para se encontrar um destes carregadores era no Largo das Duas Igrejas no Chiado mesmo de frente à Casa Havaneza, havia a designação de  "Ilha dos Galegos" àquele local durante anos. Mas havia mais pontos estratégicos na cidade de Lisboa onde se reuniam e eram fáceis de encontrar, como no Rossio, Terreiro do Paço, Graça e Alcântara, onde eram procurados para ajustar os serviços que deles se pretendia. Os galegos dedicavam-se a pequenos trabalhos: venda ambulante, levar e trazer encomendas e fazer mudanças… Sendo a sua maior actividade transportar mobílias nas mudanças que os lisboetas tivessem de efectuar. Eram denominados de  "pau e corda" porque por vezes faziam o transporte das mobílias a pau e corda, nas mudanças que faziam de semestre a semestre. Dizia-se então que dois galegos e uma corda eram capazes de transportar quase toda a mobília de uma casa num só dia. Dai deriva a expressões idiomáticas como "trabalhar como um galego". Encarregavam-se de desmanchar em casa os móveis, acomodando-os nas padiolas, amarrados com cordas e depois dois ou quatro homens, consoante o volume a transportar e o peso, a passo certo, cadenciado mas alternado, seguiam com o transporte até ao novo lar onde montavam tudo novamente com muito cuidado, no que eram mestres. Eram igualmente estes moços de fretes que tinham a complexa mas necessária tarefa de transportar os cadáveres desde o local onde morriam até à morgue e até puxar bombas de incêndio pelas ruas estreitas dos bairros populares quando ocorria um incêndio. Eram preferidos para estas funções não só pela sua maior vivacidade e prontidão, mas também pela ambição de ganhar dinheiro, (patente em muitos emigrantes), levando-os a sujeitar-se a qualquer trabalho por duro e ingrato que fosse. Esta sujeição mesquinha prende-se com a poupança de dinheiro, levava-os a dormir nas imundas designadas "Casas da Malta". Por vezes eram muito bem pagos porque havia certos serviços que os obrigava a grande descrição, como levar cartas confidenciais a destinos secretos. Segundo registos por cada serviço deste tipo pagava-se cinco tostões de boa prata. No cinema português numa famosa cena do filme "A Vizinha do Lado" de 1945 de António Lopes Ribeiro (1908 -1995), pode assistir-se a uma representação de uma destas situações em que a figura do galego aparece como portador de recados mais íntimos. Era uma profissão autorizada, nos finais dos anos 60 do século XX, o Governo Civil de Lisboa já não passava novas licenças para esta profissão. Com o evoluir dos tempos e o uso de transportes mecanizados, estas figuras deixaram de fazer parte do quotidiano da cidade de Lisboa. Muitos destes homens e seus descendentes acabaram enriquecendo e mudaram de ramo passando a donos de tabernas, carvoarias, mercearias, restaurantes, hotéis e pensões.


Moço de esquina carregador galego nas ruas de Lisboa 
com o seu tradicional boné e corda ao ombro
 em 1898, por Roque Gameiro (col. pess.)


Carregadores moços de fretes galegos de Lisboa durante um serviço junto à estação do Rossio
 em finais do séc. XIX (arq. AML)


Carregadores moços de fretes na esquina da Travessa da Espera 
com a Rua do Norte no Bairro Alto no início do séc. XX
(arq. AML)


Carregadores moços de fretes galegos de Lisboa na ilha dos galegos no Largo do Chiado em 1907, 
foto de Joshua Benoliel (arq. AML)


Carregadores moços de fretes galegos esperando um serviço numa esquina de Lisboa em 1908, 
foto de Joshua Benoliel (arq. AML)



Carregadores  moços de fretes galegos de Lisboa no transporte de um piano em 1908, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Carregadores moços de fretes galegos de Lisboa esperando serviço na Rua do Comercio em 1910, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Carregadores moços de fretes galegos de corda e pau durante um serviço em Lisboa 
em meados dos anos 30 (arq. priv.)


Carregadores moços de fretes galegos durante uma mudança na Rua de São Lázaro em Lisboa em 1930,
 foto Ferreira da Cunha (arq. AML)


Dos últimos carregadores galegos moços de fretes de Lisboa 
em meados dos anos 50 do séc. XX (arq. priv.)




O amolador

Os primeiros amoladores eram indivíduos vindos da Galiza, embora, a certa altura, tivesse surgido também um grupo originário do concelho de Arganil.  A designação “amolador” está relacionada com o facto de o profissional que corria as ruas dos bairros populares da capital a afiar ou aguçar facas, tesouras, navalhas, etc., em pedra mole (a mó de amolar). Também arranjando não só chapéus de chuva, mas também louça partida com a aplicação de grampos de metal ou "gatos", para unir as peças danificadas, daí lhes chamarem "deita-gatos”. Desde meados do século XVIII que estes homens calcorreavam as ruas de Lisboa. Anteriormente, havia uma maquineta mais simples constituída por uma pequena mesa que o amolador transportava ao ombro ou então, o que se tornou mais tradicional, as traquitanas-oficinas, onde girava uma pedra de esmeril accionada por uma correia de transmissão que passava pelo eixo da roda transportadora e onde, com um pedal, o amolador produzia a força necessária à rotação daquela, e, assim, por contacto na superfície esmerilada, afiava facas, navalhas ou tesouras. O vestuário de início, era usando um dólman verde, mais colete azul e calças pretas com lenço castanho ao pescoço. Depois, amolador que se prezasse, usava chapéu, casaco, colete azul-escuro e calças castanhas. Por sua vez, o ajudante trajava jaqueta e calça azuladas e colete castanho-escuro. E veio por último a ganga azul, a boina preta, o casaco de fazenda e as calças de bombazine. A forma de eles se fazerem anunciar, muita gente ainda a recorda: um toque com um instrumento de sopro que não é senão uma variante da flauta de Pã e que o amolador tangia correndo a escala musical, do grave para o agudo e vice-versa, com uns floreados pelo meio. O pregão era igualmente muito simples:

Àmoladôôôôôr! Amola-se facas e tesouras!” ou "Amolador á porta.... amola facas, tesouras e canivetes... arranja chapéus de chuva..." ? 

Popularmente as pessoas criaram o hábito de, quando o ouviam exclamar: “-Vem aí chuva!”. Também esta figura típica do amolador foi inspiração para muitos artistas portugueses, nomeadamente os que imortalizaram a cidade de Lisboa e os seus tipos nas suas obras. A sua presença é assinalada ainda hoje por poucos que insistem em manter esta actividade pelas ruas de Lisboa e a tal maquineta tipo carrinho de mão foi substituída por uma bicicleta ou motociclo. É uma das actividades tradicionais ambulantes que tende em desaparecer.


Amolador de facas e tesouras de Lisboa em finais do do séc. XVIII 
(col. pess.)


Amolador de facas e tesouras de Lisboa em 1898, 
por Roque Gameiro (col. pess.)


Amolador de facas e tesouras de Lisboa no início do séc. XX, 
por Roque Gameiro (col. pess.)


Amolador de facas e tesouras numa rua de Lisboa no início do séc. XX, 
foto Charles Chusseau-Flaviens (arq. GEH)


Amolador de facas e tesouras de Lisboa com o seu engenho 
em postal ilustrado do início do séc. XX (col. pess.)


Amolador de facas e tesouras na Rua da Conceição na Baixa de Lisboa no início do séc. XX (arq. AML)


Amolador de facas e tesouras de Lisboa em postal ilustrado 
do início do séc. XX 
(col. pess.)


Amolador na sua actividade "deitando gatos" em pratos numa rua de Lisboa em 1957, 
foto John Gutmann (arq. priv.)


Amolador de facas e tesouras de Lisboa em meados dos anos 60 (arq. priv.)


Jovem amolador de facas e tesouras numa rua de Lisboa em meados dos anos 60 (arq. priv.)



Dos poucos amolador de facas e tesouras de Lisboa que resistem 
na actualidade utilizando bicicleta na Praça da Alegria 
foto (Virgílio Santos)




Varinas e varinos

Toda a gente fala das varinas, e raramente de outras gentes que vendiam igualmente peixe na cidade de Lisboa. A explicação é fácil: os homens e as mulheres de Ovar (de onde e arredores constituíam um grupo social extremamente bem implantado em quase todas as tarefas ligadas ao principal porto do País. Um verdadeiro monopólio. Começaram por ser Ovarinas, porque eram principalmente de Ovar, Murtosa e outras localidades perto de Aveiro, e vinham para Lisboa em busca de trabalho. Mulheres de têmpera rija, habituadas às durezas do campo e da pesca, tornaram-se num símbolo da cidade de Lisboa, com os seus pregões e as suas vestimentas características. Também com a sua relativa liberdade e esperteza afiada na vivência de rua e de bairro. A varina lisboeta enverga invariavelmente um corpete de flanela, uma cinta de lã a altear a saia axadrezada, um avental, um lenço de ramagens cruzado sobre as espáduas e um chapéu redondo de feltro, achatado, com as abas reviradas. A rodilha ou “sogra”, sobre a qual assenta a canastra forrada de oleado, e a “patrona”, bolsinha lateral para o dinheiro. De inverno usavam, pelas costas, um xaile de lã espesso que cruza no peito e amarra nas costas, de forma a permitir a mobilidade dos braços. Em Lisboa, ao longo do século XIX, a comunidade instala-se sobretudo no bairro da Madragoa, marcando indelevelmente a memória colectiva, vindo a confundir-se rapidamente, graças sobretudo às mulheres, com a própria urbe. Quando apareciam na capital os pescadores vindos da Trafaria e da Costa de Caparica, a vender directamente o peixe que tinham acabado de recolher na noite anterior (quase sempre, de muito boa qualidade e a preços mais baixos…), em especial a sardinha, havia “paus por pedras”. Também eram figura típica da cidade os varinos, homens que igualmente vendiam peixe pelas ruas de Lisboa. O varino provem de regiões costeiras a norte do Mondego. Alguns investigadores, identificam a sua origem na região de Ovar. Chegavam à foz do Tejo sazonalmente à pesca do sável, quando a faina terminava regressavam habitualmente às suas terras. No entanto, muitos foram-se fixando em Lisboa, em bairros como a Madragoa e Alfama, ou junto ao rio, constituindo várias comunidades piscatórias. No entanto, na foz do Tejo, estes homens dividem-se entre a pesca e o transporte de mercadorias entre as duas margens. O seu traje é constituído por camisa de algodão e calças de pano cru, largas, de forma a que poderem ser arregaçadas. Usa camisola de lã grossa e faixa preta na cintura. Na cabeça, para proteger das intempéries ou do sol, um barrete de lã, neste caso preto. No tempo frio, o varino vestia um capote de saragoça, comprido e com gola larga ou capuz. Nos pés, sempre descalços no mar, usavam em terra socos de madeira e carneira. Com as suas canastras, uma de cada lado, suspensas num pau a atravessar, que transportavam às costas pela cidade. Poucos saberão, no entanto, que o pregão: “Ó viva da Costa”, depois adoptado pelas próprias varinas, se ficou a dever aos pescadores da Caparica, sendo que a costa a que se referiam era mesmo a Costa de Caparica. Assim as varinas de Lisboa calcorreavam as ruas descalças, apregoando o seu peixe com pregões variados embora uns fossem mais famosos como:

" Olha sardinha boa bela e fresquinha"

"Ó viva da Cooooosta! Há carapau e sardinha linda! Olha a faneca linda!"

 A partir de 1928, surge, em Lisboa, legislação obrigando-as a andar calçadas. Começaram, então, a usar chinelas mas, fora das ruas da cidade, continuavam a andar descalças. Muitas destas mulheres quando não vendiam peixe pelas ruas de Lisboa, dedicavam-se à descarga do carvão das fragatas nas docas para a fábrica de gás da Boavista e na Central Tejo em Belém. No tempo do Estado Novo, em todas as gravuras de figuras típicas, estas surgem calçadas com a exclusão das que trabalhavam na faina da pesca. As varinas foram também, por mérito próprio, fonte de inspiração para gerações de artistas, desde Raphael Bordallo Pinheiro (1846 - 1905), a Roque Gameiro (1864 - 1935) a Stuart Carvalhais (1887 - 1961), que as retractaram nos mais diversos meios. A política do Estado Novo não queria pés descalços, por serem símbolo de pobreza… No entanto foram símbolo da cidade de Lisboa e de como depois o Estado Novo e apropria da sua presença por força da propaganda oficial assumindo, assim, um papel icónico no imaginário local e internacional. A figura das varinas de Lisboa têm sido celebradas pelas canções e pelo Teatro de Revista. Cantou-se-lhes a pose, os pregões, o olhar, os trajes, os tamancos e as descargas do carvão. Muitas varinas passaram o seu pregão e a sua canastra de mãe para filha, isto até ao final dos anos 60 do século XX. Já a partir dos anos 70 do século XX, aos poucos, a tradicional varina vai desaparecendo do quotidiano da cidade. A canastra das varinas passou a ser banca de mercado através das suas netas e bisnetas. A imagem das tradicionais varinas de Lisboa de canastra à cabeça, fazem hoje parte do passado da cidade de Lisboa, tendo muitas delas ficado na memória colectiva de muitos lisboetas.


Varina de Lisboa em meados do séc. XIX in Colecção Palhares 2ª série
(col. pess.)


Varina vendendo peixe em Lisboa, em meados do séc. XIX 
in Colecção Palhares 2ª séria (col. pess.)


Varina de Lisboa, desenho de Nogueira da Silva, 1858 (col. pess.)


Cena popular ribeirinha com varinas e varinos em 1868, aguarela sobre papel 
por Rafael Bordalo Pinheiro (col. Museu Bordalo Pinheiro)


Varina de Lisboa vendendo o seu peixe em meados do séc. XIX, 
por Raphael Bordallo Pinheiro (col. pess.)



Varinas de Lisboa no Cais do Sodré em meados da década de 1880 (arq. priv.)



Varinas de Lisboa em 1897 por Roque Gameiro (col. pess.)


Varina de Lisboa em 1898 por Roque Gameiro (col. pess.)


Varina a passar no Arco Escuro, em Alfama em finais do séc. XIX, 
por Roque Gameiro (col. Museu de Lisboa)


Varina de Lisboa no Cais da Ribeira Nova em finais do séc. XIX (arq. AML)


Varinas de Lisboa com as suas canastras na Calçada Ribeiro Santos em finais do séc. XIX (arq. AML)


Varinas de Lisboa na descarga do carvão no Cais da Ribeira no início do séc. XX, 
foto Charles Chusseau Flaviens (arq. AML)


Vendedor de peixe ou varino de Lisboa no início do séc. XX, 
por Roque Gameiro (col. pess.)


Varino e varina de Lisboa na Praça Duque da Terceira em 1901, foto Garcia Nunes (arq. AML)


Alusão às varinas e a Lisboa em postal ilustrado do início do séc. XX (col. priv.)


Varinas de Lisboa na Rua de Santa Cruz do Castelo em 1908, 
foto Machado & Souza (arq. AML)


Varinas de Lisboa no Largo do Duque da Terceira em 1909, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Vendedor de peixe de Lisboa em postal ilustrado do início do séc. XX
(col. pess.)


Varinas descalças vendedoras de peixe de Lisboa 
em postal ilustrado do início do séc. XX 
(col. pess.)


Varinas e varino de Lisboa em meados do séc. XX,
 por Stuart Carvalhais (col. priv.)


Varinas com as suas canastras e por obrigatoriedade já calçadas, numa rua em Lisboa 
no inicio dos anos 30 do séc. XX (arq. AML)


Jovens varinas de Lisboa com as suas tradicionais canastras em meados dos anos 40 (arq. priv.)


Varinas de Lisboa no Cais da Ribeira em 1970, foto Eduardo Gageiro (arq. AML)




Vendedores de galinhas vivas

As vendedoras de galinhas vivas das ruas de Lisboa eram varinas que normalmente, se dedicavam à venda do peixe pela manhã, como tal trajavam, desde a canastra, entretecida de verga até à "sogra" na cabeça para lhe dar equilíbrio, socas nos pés, lenço ao pescoço, saia rodada e farta de panos, avental e fundos bolsos. Com uma blusa de motivos originais e uma ampla bolsa à cinta, sempre descalças até às novas leis impostas que o proibiu. Conhecidas também como as "galinheiras", calcorreavam as ruas da cidade de Lisboa com galináceos vivos sobre a cabeça num cesto-gaiola protegidas por uma rede de cordel esticada com uma pequena estaca central, dando a forma de gaiola e por vezes  um galo ao braço. Garantiam sempre às freguesas que todas as galinhas eram boas poedeiras. Assim andavam de rua em rua da cidade, desde os bairros das avenidas novas até aos bairros mais populares de Lisboa apregoando num tom agudo e arrastado: 

“Galiiiinhas! Quem nas quer, e com ovo!”

Algumas como mercadoria extra traziam cestas com ovos para um negócio extra. Como por vezes já conheciam bem a clientela, pois, naqueles tempos, só comia galinha quem estava doente ou em dia de festa. Também há registo de homens que comercializavam galinhas vivas pelas ruas da capital, fazendo o transporte da mercadoria e das grandes gaiolas em burros, se bem que na sua grande maioria eram mulheres que se dedicavam mais a este tipo de negócio. Nessa época e até a meados dos anos 40, muitas pessoas na cidade de Lisboa criavam e compravam criação para ter em casa, como reserva alimentar,  pela falta de espaço e condições mantinham-nas em pequenas gaiolas sobre os telhados, junto às águas furtadas eu em varandas das traseiras. Por diversas razões e condições de higiene este tipo de negócio desapareceu no início dos anos 60, embora ainda resistissem alguns destes vendedores até aos anos 70 do século XX.


Vendedora de galinhas vivas 
das ruas de Lisboa 
no início do séc. XX 
por Roque Gameiro 
(col. pess.)


Vendedora de galinhas vivas na Rua Rodrigo da Fonseca em 1906, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Criada de servir e vendedora de galinhas vivas, na Rua Barata Salgueiro em 1906, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Vendedora de galinhas vivas de Lisboa
 em postal ilustrado de 1906 
(col. pess.)


Vendedora de galinhas vivas numa rua do Bairro Alto no início do séc. XX 
(arq. AML)


Vendedor de galinhas vivas de Lisboa utilizando burro em 1948, 
foto de Fernando Martinez Pozal (arq. AML)




Vendedores de mexilhão e ostras

Foi um tipo de profissão ambulante iniciada em Lisboa por os negros escravos trazidos para Portugal, que começaram, pelo menos a partir do século XVI, a exercer a venda de comestíveis pela cidade de Lisboa. Segundo registos em 1620 quando foi publicado o "Livro da Grandezas de Lisboa", da autoria de Frei Nicolau de Oliveira, este quantificou em mais de 200, o número de "negras que vendem pela cidade toda a sorte de marisco de concha e legumes cozidos." À época as condições das cozinhas da maioria da  população não permitiam que nelas fossem efectuados grandes cozinhados. Daí a profusão de vendedores ambulantes que percorriam a cidade de Lisboa logo pela manhã. Em Lisboa, nos finais do século XIX, ainda eram famosas as mulheres negras da fava rica e do mexilhão. Popularmente denominadas por as "pretas do mexilhão" eram figuras típicas das ruas de Lisboa e já com clientela habitual. A fava rica, o grão de bico, o cus-cus, o arroz doce, o mexilhão, o berbigão e outros pratos já cozinhados facilitavam a vida dos habitantes. Estas vendedoras de mexilhão cozinhado com azeite, alho, cebola e colorau, punham um tacho dentro de uma celha de madeira ou de uma cesta de palha que cobriam com um pano branco e colocavam-no à cabeça. Pelas ruas da cidade apregoavam: 

"Iérri éérre, mexilhão! pró petisco do patrão!"  

Em finais dos anos 50 do século XX ainda era possível ouvir o pregão do mexilhão, ao final da noite entre os meses de abril e setembro. Pregão este cantarolado por peixeiros e peixeiras, muitas vezes com o menu completo, apregoando:

 "I...érri éérre, mexilhão/com molho à fragateira/ es eu alho zaraquitalho/ e azeite de Santarém/ ele é pouco mas sabe bem!"

Outra actividade similar eram os vendedores de ostras de Lisboa. Era tradição todas as tarde os homens das ostras, por norma indivíduos de meia-idade para quem este fraco negócio ia dando para as necessidades da vida. Normalmente eram antigos homens do mar e que depois de retirados da sua profissão recolhiam nos bancos de ostras existentes nas margens sul do rio Tejo, como na Aldeia Galega, actual Montijo e nas proximidades. Depois comercializavam-nas pelas ruas da capital e aos restaurantes onde se cozinhavam bons pitéus. Sempre com o seu pregão:

"Quem quer ostras?"

"Ostras, ostras!"

A maioria deste tipo de actividade manteve-se até ao final do século XIX, representada em muitas  litografias e registos fotográficos da época, no entanto outras ainda mantiveram-se até meados do século XX. Com o aumento progressivo da poluição no rio Tejo as ostras desapareceram assim como outras espécies e estes petiscos muito apreciados por alguns desapareceram, tal como os seus típicos vendedores.


Vendedora negra de mexilhão das ruas de Lisboa em 1842 
(col. pess.)


Vendedora negra de mexilhão e o seu pregão das ruas de Lisboa 
em meados do séc. XIX, em postal ilustrado (col. pess.)


A popularmente denominada preta vendedora de mexilhão 
das ruas de Lisboa em 1888 (col. priv.)


Vendedor de ostras das ruas de Lisboa 
no início do séc. XX
por Roque Gameiro
(col. pess.)


Vendedores de ostras no início do séc. XX na Rua de São Roque, actual Rua da Misericórdia, 
foto de Alberto C. Lima (arq. AML)


Vendedores de ostras em meados de 1914 na Rua da Madalena, foto Charles Chusseau-Flaviens
(arq. G.E.H.)




Vendedores de perus

Eram vendedores da região saloia dos arredores de Lisboa que vinham à cidade por norma apenas numa época específica do ano. Por tradição no início do mês de dezembro e até ao Natal, começavam a aparecer os saloios trazendo consigo bandos de perus pelas ruas da zona da Baixa, Largo de São Domingos, até ao Rossio e Restauradores, apregoando bem alto os méritos das aves. Na primeira década do século XX, no Largo Trindade Coelho e Largo do Camões, outra das zonas onde se concentravam os mercadores de perus, brandindo as suas longas canas. Assim conduziam e mantinham os bandos de perus em perfeita disciplina, soltando ao mesmo tempo os seus estridentes pregões:

"Méér-c´ò casál de perús!…"

"Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!!"

"Olha óóó pru da roda vó-óóó-a!"

Por vezes, um animal era esmagado por uma carroça, um automóvel ou um transporte público, entre gritaria e gargalhadas. Conta quem ainda assistiu a estas cenas, que entre os gritos dos vendedores e a chinfrineira feita pelas aves, era por vezes difícil entabular conversa e regatear o preço. Segundo os conhecedores, os perus mais tenros e suculentos eram os mais teimosos e renitentes. À força de terem levado com a cana, tinham ficado com a carne mais mole e mais saborosa. Eram esses que deviam ser comprados, levados para casa e depois embebedados com bagaço, degolados, limpos e cuidadosamente cozinhados, garantindo um magnífico jantar natalício. Esta imagem dos vendedores de perus era um dos «quadros» que mais emprestavam a Lisboa o carácter de uma época festiva, tal como hoje as grandes iluminações das ruas e das montras. Os regulamentos municipais de higiene pública e o comércio de porta aberta acabaram com esta tradição natalícia. A tradição de vender perus nas ruas de Lisboa na época do Natal durou pelo menos até às primeiras décadas do século XX, no entanto em algumas zonas dos arredores de Lisboa até meados dos anos 60 do século XX ainda era possível ver este tipo de vendedores por altura do Natal. 


Alusão ao vendedor de perus de Lisboa na revista O Occidente 
de 21 de dezembro de 1890 (arq. priv.)



Venda de perus no Natal em Lisboa na Praça D. Pedro IV em 1891, foto Augusto Bobone (arq. AML)


Vendedor de perus no Natal em Lisboa no Largo de São Domingos em 1891, 
foto Vasco Gouveia de Figueiredo (arq. AML)



Venda de perus no Natal em Lisboa na Praça dos Restauradores em 1891, foto Augusto Bobone (arq. AML)



Vendedor de perus nas ruas de Lisboa por altura do Natal no início do séc. XX, 
por Roque Gameiro (col. pess.)



Vendedor de perus a caminho de Lisboa em postal ilustrado do início do séc. XX (col. pess.)


Vendedores de perus na época do Natal em Lisboa no Largo de São Domingos no início do séc. XX, 
foto Paulo Guedes (arq. AML)




A mulher da fava-rica

Eram vendedoras que andavam pelas ruas da Lisboa antiga de meados do século XIX e XX, sempre de panela à cabeça, protegida dentro de um cesto de verga e anunciavam gritando um dos últimos pregões lisboetas de que haverá quem ainda o recorde. A fava-rica era a designação de uma sopa confeccionada e vendida inicialmente por mulheres negras, muito apreciada pelas classes populares, por ser um alimento muito nutritivo, devido ao seu alto teor de proteínas. Uma sopa que nos transporta para o tempo em que os trabalhadores de Lisboa acordavam de madrugada e comiam uma sopa quentinha, nutritiva, já que muitas vezes o pão e outros alimentos essenciais escasseavam, sendo esta a sua primeira refeição do dia, trazida pelas designadas mulheres da fava-rica. O termo culinário fava-rica designa a fava seca, que, depois de cozida, é refogada com azeite, alhos e pimenta. Até ao início do século XX, esta sopa era vendida pelas ruas de Lisboa por mulheres, que apregoavam em voz cantada:

 "Fava Riiiiiica!"

Transporta-nos também para uma frase e termo popular, que tanto ouvimos sem a percebermos bem: "...até vir a mulher da fava-rica". O sentido desta frase popular que  significa que as pessoas gostavam tanto desta sopa que estavam dispostas a esperar o tempo que fosse preciso por ela. Foram famosas as figuras populares de mulheres da fava-rica que vendiam esta iguaria tão apreciada pela cidade de Lisboa e que até finais dos anos 60 do século XX ainda era possível encontrar as últimas vendedoras a apregoar pelos bairros mais típicos da capital. Hoje é algo do passado do qual só ficou a memória e a receita culinária da gastronomia tradicional lisboeta.


A tradicional mulher negra vendedora da fava-rica em Lisboa
no início do séc. XIX (col. pess.)


Mulher negra vendedeira da fava-rica de Lisboa e o seu pregão 
em meados do séc. XIX em postal ilustrado 
(col. pess.)


Vendedora da fava-rica em Lisboa em finais do séc. XIX (col. pess.)


Mulher da fava-rica no início do séc. XX,
 por Roque Gameiro 
(col. pess.)


A mulher da fava-rica em Lisboa no início do sec. XX (arq. priv.)


A tradicional vendedora da fava-rica em Lisboa 
em meados do séc. XX (arq. priv.)


Uma das últimas vendedoras de fava-rica conhecida em Lisboa 
em meados dos anos 60 do séc. XX (arq. priv.)




O ardina vendedor de jornais e revistas

Era a designação dada aos vendedores de jornais de rua que apregoando a notícia chamando a atenção do potencial cliente. Eram habitualmente meninos, crianças que em muitos casos,  constituíam o meio de rendimento de famílias inteiras. Muitos deles tinham menos de 10 anos; eram geralmente explorados por um "empresário" de bairro que os vestia mal e alimentava pior. Descalços, na maior parte das vezes, até a chamada "lei do pé descalço" o proibir, muito magros, sempre munidos de sua sacola, saíam às ruas para apregoar os seus jornais e revistas. Muitos deles mesmo sem saber ler nem escrever, vendiam os jornais que apregoavam pelas ruas e as publicações, anunciando as primeiras notícias do dia. Na ausência das agora recorrentes bancas de jornais e papelarias, vendiam os jornais pelas ruas da cidade e eram uns dos vendedores ambulantes mais frequentes de Lisboa. Figura muito retratada por artistas e muito popular pela sua exposição pública, a sua origem perde-se nos tempos e remete-nos à “notícia” que corria de boca em boca.Muitos certamente, ainda se recordam dos meninos a vender jornais, de sacola ao ombro e voz esganiçada a anunciar as novidades. De manhã, irradiavam do Bairro Alto, onde se concentravam quase todas as tipografias e casas da venda e partiam para os outros bairros da cidade apregoando:

“Olh’ò Notícias, o Século, o Diário da Manhã ou o Novidades!”

Da parte da tarde, era vê-los espalhados pelos cafés e praças do Centro da capital pregoando:

 “Olh’ò Popular, o Lisboa, A Capital e o República!”

Em tempos de grandes dificuldades económicas, muitos deles começavam nesta dura vida logo em crianças e continuavam já adultos na profissão. Muitos ficaram famosos na cidade de Lisboa como; Carlos dos Jornais, o Manuel Dias, o José Araújo entre outros que os mais velhos ainda recordam. O ardina difere do actual distribuidor de jornais gratuitos. Nos nossos dias são somente uma persistente memória do passado.


Ardina de Lisboa vendendo jornais e revistas 
no início do séc. XX, por Roque Gameiro 
(col. pess.)


Ardinas de Lisboa no Largo Conde Barão no início do séc. XX (arq. AML)



Pequenos ardinas de Lisboa no início do séc. XX 
em postal ilustrado (col. pess.)




Ardina de Lisboa frente ao Jardim da Estrela em 1918, foto Rey Colaço (arq. AML)


A figura do ardina de Lisboa descalço em meados do séc. XX, 
por Stuart de Carvalhais (col. priv.)


Ardina criança da Lisboa e o seu pregão 
em postal ilustrado do início do séc. XX
(col. pess.)



Ardina criança da Lisboa em meados dos anos 30 do séc. XX, foto Horácio Novais 
(arq. Fundação Calouste Gulbenkien)


Criança ardina de Lisboa na Praça do Comércio já calçado 
depois da lei imposta nos anos 30 do séc. XX,
 foto João Martins (arq. priv.)


Ardina numa rua de Lisboa apregoando publicações de jornais e revistas 
nos anos 40 do séc. XX (arq. priv.)


Ardina adulto de Lisboa em 1948, foto Fernando Martinez Pozal 
(arq. AML)


Ardina adulto de Lisboa na sua labuta diária nos anos 50 do séc. XX (arq. priv.)


Ardina adulto nas Escadinhas do Duque em Lisboa 
em meados dos anos 60 do séc. XX (arq. priv.)




Vendedores de capilé

Eram vendedores ambulantes que se podiam encontrar em certos pontos da cidade de Lisboa na época de verão e que vendiam este tipo de refresco a quem queria matar a sede nesses dias tórridos de muito calor. O capilé é um xarope feito a partir de folhas de avenca, com um toque de água de flor de laranjeira e açúcar amarelo, diluído em água para uma bebida levemente doce, subtilmente perfumada e extremamente refrescante. O capilé, por si é uma bebida lisboeta característica, de grande popularidade e afamado em outros tempos. A sua receita remonta ao século XVIII, o xarope de capilé é referido no livro de receitas, "O cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinha", da autoria de Lucas Rigaud, no ano de 1780. Em ocasiões de cortejos cívicos, procissões, feiras ou paradas militares, desde que houvesse ajuntamentos, em tempo quente de verão, logo surgiam os típicos vendedores também conhecidos por "homens da água fresquinha ou capilé". Fazia parte dos aparatos de trabalho destes vendedores para este negócio um tabuleiro de chapa de zinco com três ou quatro pernas, tipo mesa, dois copos de vidro, uma ou mais garrafas de xarope de avenca, um açucareiro, limões e um canivete para os cortar. A água vinha em bilhas de barro com uma rolha trespassada por um pedaço de cana, que servia de tubo, para não ter de a destapar mantendo a bebida fresca e isolada. Tinham o requinte, para além da mistura, aromatizá-la com uma casca de limão. Alguns destes vendedores usavam pequenos carros de mão em madeira para transportarem os aparatos do seu negocio. Depois de se instalarem em local estratégico e visível apregoavam a lenga lenga: 

" Água fresquinha ou capilé, copo com água...!"

"Capilé, copo com água! Água fresquinha ou capilé!"

Mesmo que só tivessem um banco como utensílio de trabalho, a freguesia não faltava, com ou sem sede e os copos mal lavados, passados por pouca água à pressa no momento, pois o liquido era precioso para continuar o negócio. Crianças e adultos deliciavam-se com os refrescos destes vendedores. Para além destes vendedores ambulantes de capilé que ficaram famosos na cidade de Lisboa, existiam igualmente estabelecimentos que comercializavam esta bebida, designados de “casa própria”, assim como em  alguns quiosques da cidade. Ainda hoje se comercializa este xarope para a famosa mistura de capilé, a receita é a mesma, mas já não terá o mesmo sabor e encanto de outrora, quando os refrigerantes que hoje conhecemos não existiam e esta bebida no verão era um êxito comparada com as dos nossos dias.


Vendedor de capilé e água fresca em Lisboa 
no início do séc. XX, 
por Roque Gameiro 
(col. pess.)



Vendedor de capilé junto à estação do Rossio em Lisboa no início do séc. XX,
 fotos Charles Chusseau-Flaviens (arq. GEH)


Vendedor de capilé e ardina de Lisboa no Terreiro do Paço no início do séc. XX, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Venda ambulante de água fresca e capilé junto à Fabrica de Gás da Boa Vista em Lisboa em 1908, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)




Vendedores de barquilhos ou "línguas da sogra"

Os vendedores de barquilhos percorriam habitualmente muitas praias do País e também existiam em algumas cidades como Lisboa, tinham um atractivo muito especial em outros tempos. Os barquilhos ou "barquillos", também conhecidos como "línguas da sogra". Feitos a partir de ingredientes básicos de biscoitos é uma massa de bolacha crocante originária da Espanha. Composto por farinha, açúcar ou mel, claras de ovos e manteiga, desenrolados finamente e depois moldados em um cilindro oco ou em um cone.  Foi um tipo de guloseima vendida a partir de meados do século XIX, uma receita importada e uma vez mais comercializada, na maioria por galegos. Eles transportavam consigo um grande pote dispensador de chapa pintado de vermelho, em cuja tampa rodava uma espécie de roleta da sorte com uma pequena esfera que caia numa cavidade com um número da sorte. Para além da antecipação de sentir a bolacha fina e doce a desfazer-se na boca, a venda envolvia um jogo que era um verdadeiro ritual de encanto. Os compradores, sobretudo as crianças, vibravam enquanto rodavam a roleta por cinco réis, que o dispensador metálico de barquilhos tinha no topo. Consoante o número alcançado depois de rodar por três vezes a roleta, assim recebiam igual quantidade de bolachas “tipo americano”, em pequenos rolinhos que faziam a delícia da criançada de outros tempos. Muitas vezes este tipo de jogo causava discussões e grandes algazarras, os mais habilidosos tentavam enganar os vendedores inclinando o recipiente para que assim os números que mais lhes conviesse lhes caber. Pelas ruas, feiras e praias, mal se ouvia o pregão do homem ou mulher da “barquilhera” ou da "língua da sogra", as crianças corriam em bandos para tirar a sua sorte e deleitar-se com a guloseima. Diz quem viveu tal experiência e os saboreou em outros tempos, que os que hoje se vendem, em grandes sacos, são muito mais grossos e sem o sabor de outrora, sem ter metade da graça que o jogo da roleta lhes dava. As "línguas da sogra" como ficaram popularmente mais conhecidos em Portugal, são uma recordação de uma guloseima de outros tempos, que ainda hoje se reinventa mas em outro contexto comercial.



Venda de barquilhos, com roleta numa rua de Lisboa no início do séc. XX, 
foto Ferreira da Cunha (arq. AML)


Vendedor ambulante de barquilhos na praia de Algés nos anos 30 do séc. XX, 
foto Ferreira da Cunha (arq. AML)


Vendedor ambulante de barquilhos na praia de Algés nos anos 30 do séc. XX, 
foto Ferreira da Cunha (arq. AML)


Vendedor ambulante de barquilhos numa praia dos arredores de Lisboa 
nos anos 60 do séc. XX, foto Américo (arq. priv.)




Leiteiros vendedores de leite porta a porta

A partir de finais do século XIX era comum estes comerciantes de leite percorrerem a cidade de Lisboa levando consigo o animal e, a pedido do cliente, procedia à recolha do leite no mesmo instante. Por norma era tradição quase todos estes comerciantes de leite, homens e mulheres, eram originários da região de Arganil, visto sentirem desde sempre uma particular propensão para as actividades ligadas à produção do leite. Eram eles quem percorria a cidade com os animais ou as suas vasilhas leiteiras em chapa de Flandres, alguns deles saloios, vindos dos arredores de Lisboa e, ao assomar à entrada dos prédios, apregoavam:

"Leiteiro !!!"

"Ó menina da janela, venha cá abaixo buscar o leite"

Com efeito, o leite foi durante muito tempo distribuído avulso, de porta em porta, medido à frente das donas de casa ou das criadas de servir. Por vezes, também vendiam manteiga cuja produção lhe está associada. Como é evidente, apesar do seu carácter pitoresco, o passeio de animais pela cidade nunca foi muito recomendável para a conservação da higiene pública. Até ao início do século XX o consumo de leite era reduzido e a venda nas cidades era normalmente feita porta a porta com as vacas que eram ordenhadas no momento. Esta prática só seria proibida em Lisboa a partir de 1920. O leite passou então a ser vendido por leiteiras ou vendedoras de leite, que compravam o leite em pequenas explorações existentes na proximidade dos centros de consumo mais importantes, sendo as condições de produção e distribuição regra geral bastante deficientes. Alguns destes comerciantes por vezes eram acusados pelos clientes da pratica de misturar água no leite para fazer render o produto a comercializar. Esta pratica de vender leite de porta a porta manteve-se até meados dos anos 60 e até 70 do século XX na cidade de Lisboa e seus arredores. Muitas foram as figuras desses vendedores e vendedoras que ao longo de gerações foram ficando na memória de muitos. A partir dos anos 60 do século XX, o leite passou a ser engarrafado e a figura do leiteiro foi desaparecendo. Com o fim desta actividade muitos destes comerciantes fizeram aquilo que agora é usual designar-se por “reconversão profissional” e muitos deles tornaram-se nos conceituados pasteleiros e confeiteiros de Lisboa.



Vendedora de leite porta a porta de Lisboa em 1897 
por Roque Gameiro (col. pess.)


Saloia vendedora de leite porta a porta em Lisboa 
no início do séc. XX (col. pess)


Vendedor de leite porta a porta de Lisboa levando consigo o animal 
no início do séc. XX em postal ilustrado (col. pess.)


Leiteiro de porta a porta de Lisboa na Rua Castilho em 1909, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Leiteiro de porta a porta de Lisboa recolhendo o leite da vaca na Rua Castilho em 1909, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Leiteiras de porta a porta de Lisboa em postal ilustrado 
do início do séc. XX (col. pess.)


Vendedor de leite porta a porta de Lisboa conduzindo os animais no início do séc. XX, 
em postal ilustrado (col. pess.)


Leiteiro ao domicilio na sua actividade diária em Lisboa em 1956, foto Judah Benoliel (arq. AML)



Vendedora de leite porta a porta de Lisboa em meados dos anos 60 do séc. XX (arq. priv.)




A lavadeira

Eram mulheres saloias dos arredores de Lisboa que se dedicavam à lavagem e tratamento da roupa das casas de famílias abastadas da capital desde os meados do século XIX. Já no princípio do século XX, eram muito frequentes as lavadeiras saloias, que vinham de Lisboa buscar e trazer a roupa às freguesas, eram geralmente oriundas da região de Caneças, Loures ou até da Porcalhota. Andavam com grandes trouxas à cabeça, tratavam-nas por saloias, o transporte das roupas para Lisboa era normalmente à 2ª feira de manhã, utilizando o dorso de animais ou em grandes galeras, subindo dolorosamente a Calçada de Carriche até às estalagens como a Estalagem dos Camilos, na Rua do Amparo ou as da Rua do Borratem, entre outras famosas que existiam na cidade de Lisboa, que funcionavam como ponto de partida e de chegada. Daí seguiam a pé para diferentes casas de toda cidade. Lavavam as roupas em tanques ou lavadouros que se localizavam em regra junto a presas de água, rios ou ribeiras, aproveitando-se uma vez mais as condições naturais destes lugares. A forma como lavavam a roupa e a branqueavam, com toda a certeza juntando a sua arte e suor, aos recursos naturais da terra (Sol e água), ganharam fama. Faziam o rol das peças que levavam após uma semana dedicada ao trato da roupa, as lavadeiras entregavam-na, embrulhada nas famosas trouxas. A roupa distinguia-se por marcas que cada possuidora lhe punha: ou as iniciais ou as pequenas estrelas, flores, ilhós, bolas a cheio, etc. Esta imagem das lavadeiras de Caneças ficou imortalizada em muitas personagens de peças de teatro da Revista à Portuguesa e no filme "A aldeia da Roupa Branca" de 1938 de Chianca de Garcia (1898 - 1983), numa famosa interpretação de Beatriz Costa (1907 - 1996). Mais tarde, com os melhoramentos na rede viária e o progresso automóvel, viriam a usar camionetas de aluguer nomeadamente nas camionetas da empresa Arboricultora, Lda, entre outras. Aos poucos, esta actividade foi desaparecendo, empurrada pelo progresso, as últimas lavadeiras deste tipo estiveram em actividade até meados dos anos 70 do século XX. A instalação de água canalizada ao domicílio permitiu a existência de tanques no interior das habitações e, posteriormente, máquinas de lavar roupa, levando as novas gerações a procurar outro tipo de ocupação.


A lavadeira com a sua trouxa de roupa em meados do séc. XIX 
por Henry L'Evêque (col. priv.)


A lavadeira saloia com a sua tradicional trouxa de roupas 
em meados do séc. XIX in Colecção Palhares 2ª série 
(col. pess.)


Lavadeiras saloias lavado roupa no rio na zona da Porcalhota
 em finais do séc. XIX, por Roque Gameiro 
(col. priv.)


Lavadeiras com as suas trouxas de roupas juntamente com saloios em meados do séc. XIX
in Volta do mercado saloio por Roque Gameiro (col. pess.)


Lavadeira pelas ruas de Lisboa com a sua trouxa de roupas
 em 1898, por Roque Gameiro (col. pess.)



A lavadeira saloia com a sua tradicional trouxa de roupas
 no início do séc. XX, por Roque Gameiro 
(col. pess.)



Carroças com lavadeiras com as suas trouxas de roupas no Campo Grande no início do séc. XX,
 foto Paulo Guedes (arq. AML)



Lavandeiras saloias com as suas trouxas de roupas em galeras em Lisboa no início do séc. XX 
em postal ilustrado (col. pess.)



Lavadeiras saloias nos arredores de Lisboa transportando as suas trouxas de roupas no início do séc. XX, 
foto Paulo Guedes (arq. AML)



Lavadeira saloia transportando roupa de clientes na Avenida da Liberdade em Lisboa em 1908, 
foto Augusto Bobone (arq. AML)



Transporte das lavadeiras saloias e suas trouxas de roupas em camionetes de aluguer em Lisboa em 1949, 
foto estúdios Mário Novais (arq. AML)




Vendedores de azeite e petrolino

Eram homens, vendedores ambulantes, que vendiam azeite pelas ruas de Lisboa e arredores, sempre equipado com uma lata onde guardava as medidas e os funis, abasteciam as casas do precioso líquido, usado tanto na cozinha como nas candeias e candeeiros de iluminação doméstica. Assim inicialmente eram designados de azeiteiros. Mais tarde com o aparecimento do petróleo para a iluminação e utilização em fogões, vendiam-no pelas ruas de Lisboa, os petrolinos ou "homem do petroline", vendedores que também mercavam azeite e vinagre, em vasilhas de zinco. Quando a luz eléctrica ainda não tinha chegado às casas de Lisboa e arredores, o combustível usado na iluminação doméstica era sobretudo o petróleo, que, por sua vez, sucedera ao azeite, dominante durante séculos. Estes vendedores transportavam grandes almotolias de chapa de Flandres, às duas e três por vezes, suspensas nos braços e outras às costas. E havia os que utilizavam um burro com cangalhas para o transporte podendo desta forma transportar um maior número de unidades. Muitos destes comerciantes passam a usar carroças para assim se deslocarem pelos bairros de Lisboa e arredores, Incluindo na sua carga os funis e as medidas com que vertiam o petróleo, o azeite e o vinagre para os recipientes dos mais variados clientes. Funis e medidas de folha, mas diferenciados para cada um dos líquidos, presume-se! Habitualmente trajando de riscado cinzento eram considerados tipos pacatos e sérios no negócio. O seu pregão, era muito peculiar e assim entoado:

“Petroliiiiiiiiino… Azeite Doce e Vinagre!”

Este tipo de profissão perdurou em algumas ruas e bairros dos arredores de Lisboa até meados dos anos 80 e início de 90. Exemplo disso foi o Sr. Carlos Carvalho da Graça, que conheci pessoalmente, pois passou a ser uma figura popular e que exerceu esta profissão pelas zonas de Benfica e Buraca, profissão herdada do seu sogro, primeiro com uma carroça anunciando a sua chegada com uma pequena corneta e mais tarde já com um veículo comercial, adaptado a este serviço, vendendo outros produtos, nomeadamente alimentares e até botijas de gás, pelos arredores de Lisboa. Isto aconteceu até meados dos anos 90, sempre mantendo os seus clientes fieis herdados do tempo do seu sogro, no entanto o Sr Carlos foi sempre conhecido por "o petrolino", usava a pequena corneta para se fazer anunciar e sempre entoando o seu pregão simplificado:

 "Petroliiiiiiiiino…". 

Muito provavelmente foi um dos últimos exemplos desta extinta profissão na cidade de Lisboa.


Vendedor de azeite das rua de Lisboa em meados do séc. XIX,
in Colecção Palhares 2ª série (col. pess.)


Vendedor de azeite e petróleo das ruas de Lisboa 
no início do séc. XX por Roque Gmeira
(col. pess.)


Vendedor de azeite e vinagre das ruas de Lisboa transportado por burro 
no início do séc. XX por Roque Gmeira 
(col. pess.)


Vendedor de azeite transportado por burro na Rua da Imprensa Nacional início do séc. XX, 
foto Charles Chusseau Flaviens (arq. AML)


Vendedor de petróleo e azeite das ruas de Lisboa em postal ilustrado
 do início do séc. XX (col. pess.)


Vendedor de azeite e vinagre e petróleo numa rua de Lisboa
 transportado por burro no início do séc. XX (arq. priv.)


Petrolino vendedor de azeite e petróleo de Lisboa transportado em carroça no Campo Grande em 1960, 
foto Arnaldo Madureira (arq. AML)


Carlos Carvalho da Graça "o petrólino", vendedor de azeite e petróleo em carroça nos arredores de Lisboa, 
no final dos anos 60 (arq. priv.)




O vaga-lumes 

Era a designação popular dada aos funcionários inicialmente da Câmara Municipal de Lisboa e mais tarde da Companhia do Gás, que se tornaram famosos nas ruas e bairros da cidade, tinham por função acender todas as noites os candeeiros de iluminação pública da cidade e apaga-los ao raiar do dia. Esta profissão surge com a iluminação pública, no início com candeeiros funcionando a azeite, os famosos candeeiros de cegonha, e mais tarde a gás canalizado dos grandes gasómetros situados junto às fábricas onde era produzido, na Rua da Boavista, actual Avenida 24 Julho e junto à Torre de Belém (tema a desenvolver em próximo artigo). Os trajes destes funcionários eram um blusão largo cinzento e inicialmente chapéu de abas reviradas, mais tarde boné preto de pala. Como apetrechos traziam consigo uma vara aos ombros, no extremo da qual havia chaves de duas lâminas e um casulo com buracos a albergar e a proteger do vento uma pequena lamparina com chama alimentada a petróleo, por vezes também se faziam acompanhar de um escadote. Embora esta profissão existisse em todas as cidades em Lisboa eram conhecidos por "vaga-lumes" ou em forma mais populista e sarcástica por ``caga-Lumes``. E era vê-los diariamente ao fim do dia pelas ruas de Lisboa, quando a luz começava a esmorecer, a azular as sombras pelas esquinas, vinha o "vaga-lumes" de comprida vara ao ombro acender um por um os candeeiros da cidade. Ao princípio da noite, carregando a sua ferramenta o "vaga-lumes" aproximando-se dos candeeiros, que felizmente, ornamentavam as ruas da cidade e, com a chave abria as torneiras do gás por uma pequena janela de vidro, praticada na base, introduzia o casulo com a chama, acendendo de imediato o bico, de queima directa ou a camisa rígida, feita de uma rede de fios de algodão, embebida em óxido de magnésio, a qual incandescia, atingindo rapidamente o rubro-brando e produzindo uma luz muito clara. De madrugada, quando o Sol começava a dar uma luz muito clara, o vaga-lumes vinha fechar o gás, tendo obrigação de limpar todos os aparelhos, para que os vidros estivessem sempre transparentes. No início dos anos 60 do século XX, nos bairros mais pobres e populares de Lisboa, onde ainda não chegara a electricidade, a iluminação pública ainda era feita a gás e podiam ver-se estas figuras típicas a calcorrear as ruas ao final do dia e pela madrugada. No entanto  com a evolução dos tempos e o uso generalizado da electricidade os "vaga-lumes" desapareceram do quotidiano das ruas de Lisboa, uma vez que toda a cidade deixou de usar a luz do gás. 



Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa a acendendo
 os candeeiros de azeite de iluminação pública
 no início do séc. XIX, por Henry L'Evêque
(col. priv.)



O vaga lumes de Lisboa, funcionário da Companhia do Gás 
em meados de 1850 in Colecção Palhares 2ª série
(col. pess.)


O vaga lumes, funcionário da Companhia do Gás fazendo a manutenção de um candeeiro a gás 
na Praça do Comércio em Lisboa no início do séc. XX (arq. AML)



Candeeiro a de iluminação pública a gás de manga incandescente na Rua da Conceição em 1909, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


O "caga-lumes" ou "vaga-lumes" em meados do século XX
 num desenho de Alberto Calderon Dinis 
(col. Museu de Lisboa)




Vendedores ambulantes

Antigamente Lisboa era território onde os vendedores ambulantes abundavam, havia muitos e de várias áreas. Pelas ruas a cidade, era normal encontrar, desde há muito séculos, vendedores ambulantes de hortaliças, morangos, figos, marmelos assados, por norma saloios dos arredores de Lisboa. Nesta produção saloia figuravam também outras delícias, como o requeijão em cestinhos, os bolos "Fofos de Belas", o pão de Meleças, as queijadas de Sintra, a famosa marmelada de Odivelas, os vinhos de Bucelas ou de Colares. Quase todos estes vendedores, sempre acompanhados dos seus pregões típicos. Os vendedores ambulantes de artigos de costura e bijutaria, rendas e tecidos, os "hespanholitos", como eram designados, que traziam da Espanha pequenos pedaços de tentação colorida em fardos de riscado azul e, carregando-os no ombro, ofereciam-nos de casa em casa. Mesmo com a existência de lojas especializadas nestes produtos, alguns destes vendedores ambulantes perduraram até tarde pela cidade de Lisboa e seus arredores, pois vendiam os seus artigos a preços mais acessíveis e de forma personalizada. Podiam encontrar-se os vendedores de quinquilherias, louça de barro, abat-jours, e esponjas naturais, etc. Era frequente encontrar em algumas ruas os funileiros que reparavam todo o tipo de utensílio em chapa de Flandres como o seu pregão: "Funileiro à porta...". Existiam ainda os ferro - velhos, homens que se dedicavam à compra de porta em porta de objectos e utensílios que já não tinham serventia. Muitas vezes era habito os pais meterem medo aos seus filhos com o homem do ferro - velho, dizendo que este os levaria se eles não se comportassem. Era também muito vulgar encontrar vendedores especializados em moda masculina, que vendiam em exclusivo gravatas e chapéus, mantendo-se muitos destes vendedores até tarde pelas ruas e praças da capital. As mulheres que vendiam pelas ruas figos, os "figos de capa rota", com o seu pregão típico, eram também uma constante. Os tão tradicionais vendedores de castanhas assadas com o seu fogareiro na época do Outono com o seu pregão; "Quentes e boas...", estavam por quase todos os locais de grande movimento da cidade, esses vendedores mantêm-se, mesmo que adaptados às condições actuais. E vendedores ambulantes de quase tudo, com ou sem pregão, podiam-se  encontrar a cada esquina, rua e praças de Lisboa, quase todos sempre figuras castiças. Figuras estas, tão tradicionais e típicas da cidade de Lisboa, foram vezes sem conta representadas em personagens e em canções do teatro da Revista à Portuguesa. No entanto as mudanças de hábitos e costumes assim como o ligeiro aumento do poder económico fizeram com que fossem desaparecendo gradualmente das ruas e bairros da capital. Ficaram as memórias de alguns desses comerciantes ambulantes que deixaram de fazer parte do nosso quotidiano. Até aos anos 60 e 70 dos século XX foi possível alguns ainda nas suas actividades diárias. Alguns tipos de vendedores ambulantes mantiveram-se até à actualidade e com o tempo foram-se adaptando aos novos produtos e requisitos, outros reinventaram-se. 


Vendedora ambulante de frutas da cidade de Lisboa em meados do séc. XIX
in Colecção Palhares, 2.ª série (col. pess.)


Vendedor ambulante saloio de hortaliças da cidade de Lisboa 
em meados do séc. XIX in Colecção Palhares, 2.ª série 
(col. pess.)


Vendedora ambulante de legumes e hortaliças de Lisboa no início do séc. XX
 por Roque Gameiro (col. pess.)


Vendedoras ambulantes de marmelos assados de Lisboa e o seu pregão 
nos meados do séc. XX em postal ilustrado (col. pess.)


Vendedor ambulante de artigos de costura e bijouterias da cidade de Lisboa 
em meados do séc. XIX in Colecção Palhares, 2.ª série 
(col. pess.)


Vendedor ambulante de agulhas e alfinetes  de Lisboa em 1898
 por Roque Gameiro (col. pess.)


Vendedor de artigos capelista na Praça do Comércio em 1926 (arq. AML)


Vendedor ambulante de rendas de Lisboa em 1898 
por Roque Gameiro (col. pess.)


Vendedores ambulantes de rendas os "hespanholitos", na Rua dos Caetanos em Lisboa em 1907, 
foto Joshua Benoliel (arq. AML) 


Vendedor de rendas em Lisboa  negociando o seu artigo a uma possível cliente no início do séc. XX , 
foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Vendedor ambulante na Avenida da Liberdade em Lisboa no início do séc. XX (arq. AML)



Vendedor ambulante de esteiras e quinquilharias da cidade de Lisboa 
em meados do séc. XIX in Colecção Palhares, 2.ª série 
(col. pess.)


Vendedora ambulante de louça de barro preto da cidade de Lisboa 
em meados do séc. XIX in Colecção Palhares, 2.ª série 
(col. pess.)


Vendedor ambulante de abat-jours de Lisboa e o seu pregão 
nos finais do séc. XIX em postal ilustrado (col. pess.)


Vendedor ambulante de esponjas naturais na Calçada do Combro em Lisboa em 1913 (arq. AML)


Homem do ferro velho da cidade de Lisboa em meados do séc. XIX
in Colecção Palhares, 2.ª série (col. pess.)


Vendedora ambulante de Lisboa e ambiente da Rua Garrett em 1910, foto Joshua Benoliel (arq. AML)


Vendedor ambulante de artigos masculinos em Lisboa 1948, foto Fernando Pozal (arq. AML)


Vendedor ambulante de castanhas assadas em Lisboa na Rua do Carmo em meados de 1950, 
foto Horácio Novais (arq. Fundação Calouste Gulbenkian)



Vendedores ambulantes de Lisboa na Rua de Marcos Marreiros em meados de 1960, 
foto Arnaldo Madureira (arq. AML)


Vendedoras ambulantes de Lisboa na Rua Morais Soares em 1960, 
foto Arnaldo Madureira (arq. AML)


Vendedoras ambulantes de Lisboa na Alameda Dom Afonso Henriques em 1960, 
foto Arnaldo Madureira (arq. AML)


Vendedores ambulantes tradicionais em Lisboa na Rua Primeira de Dezembro em 1985,
 foto Georges Dussaud (arq. AML)


Vendedora ambulante de fruta nas Amoreiras em Lisboa na actualidade (arq. priv.)


Vendedora ambulante reinventada de artesanato português para turistas 
em Lisboa na actualidade (arq. priv.)


Vendedora ambulante de castanhas assadas no Rossio em Lisboa na actualidade (arq. priv.)


Vendedora ambulante reinventada de sumos naturais de fruta em Lisboa 
em plena Praça Marquês de Pombal na actualidade (arq. priv.)





Nota: Quem tiver memórias ou curiosidades relevantes relativamente a alguma destas profissões já desaparecidas de Lisboa e que queira partilhar, será algo sempre muito bem vindo.




Texto: 
Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:
L'ÉVÊQUE, Henri, Costume of Portugal, Colnaghi & Co, London, 1814
MESQUITA, Alfredo, Colecção Portugal Pittoresco e Illustrado, Lisboa, Empreza da História de Portugal, Sociedade Editora, Lisboa 1903
Illustração Portugueza, nº 129, 10 de Agosto de 1908
Olisipo: Boletim do Grupo, Amigos de Lisboa, Lisboa 1945
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986
DIAS, Marina Tavares, Lisboa Desaparecida. vol. 3, edições Quimera, 1990