sábado, 3 de outubro de 2026

O ÚLTIMO BANQUETE REAL OFERECIDO EM PORTUGAL

A angustia no jantar...


Aquando da visita a Portugal do Chefe de Estado do Brasil, o marechal Hermes Rodrigues da Fonseca (1855-1923), a 1 de outubro de 1910, o Presidente do Brasil, convidou o Rei D. Manuel II (1888-1932), para um banquete no Palácio de Belém, no dia 3 de outubro de 1910, este seria o último banquete oficial da Monarquia em Portugal. Na memória do mordomo do Palácio de Belém, Vital Ferreira Fontes (1861-1955), seria este jantar do banquete, como que "um prenúncio angustiado do fim da Monarquia em Portugal". Segundo os relatos, o evento começou às 8 horas da noite e foram convidadas 40 pessoas. O Palácio de Belém, estava destinado, desde Setembro de 1908, a alojar Chefes de Estado, Príncipes e missões estrangeiras em visita oficial a Lisboa. Era um jantar de retribuição protocolar, pois o Rei D. Manuel II tinha oferecido um banquete no dia da chegada a Portugal do Presidente  Hermes da Fonseca, a 1 de outubro de 1910, na sua casa no Palácio das Necessidades. Este banquete ficou marcado por grande sumptuosidade, pois o Palácio de Belém tinha recebido uma nova mobília de sala de jantar, no estilo Henrique II, como recomendou o parecer da Academia de Belas Artes, assinado pelos arquitectos José Luís Monteiro e José Alexandre Soares. Construída pelo retomado marceneiro Victor de Alcântara Knotz. Este conjunto de mobília era formado por: aparador, trinchantes, mesa de jantar, cadeiras de marroquino (couro), espelho e biombo. O mesmo marceneiro já tinha feito, por exemplo, o mobiliário da Sala das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa; móveis e boiseries  para o palacete Lambertini, na avenida da Liberdade. Portanto, para a visita de Hermes da Fonseca, o Palácio apresentava uma mobília requintada e recém-estreada. Devido ao número significativo de comensais previstos e à disposição da mesa em U, é muito provável que o banquete se tenha preparado numa outra sala do Palácio de Belém. Talvez a Sala Dourada, contígua à sala de jantar principal, muito maior, com acesso directo à varanda, ainda próxima da copa, da estufa e do elevador de louça existente, que fazia subir os pratos do piso da cozinha para o andar nobre. E deu-se início ao requintado banquete, misturaram-se várias geografias: do Porto à Escócia, de Moscovo à Boémia e a Argenteuil, não faltando, por pertinência e gentileza, invocações do Brasil, na entrada o Crème Brésilienne e na sobremesa os Gateaux São Paulo. 


Hermes Rodrigues da Fonseca 1855-1923, 
presidente do Brasil à chegada 
a Portugal (arq. pess.)


Couraçado brasileiro São Paulo onde viajou o Presidente Hermes da Fonseca 
aquando da sua visita a Portugal em 1910 (arq. priv.)


Tripulação do couraçado brasileiro São Paulo aquando da chegada 
do Presidente Hermes da Fonseca a Portugal em 1910
(arq. pess.)


Momento do desembarque  Portugal  com comitiva de Hermes da Fonseca 
presidente do Brasil em 1 de outubro de 1910 (arq. pess.)


Rei D. Manoel II 1888-1932 (arq. pess.)


Rei D. Manuel II e Hermes da Fonseca com a comitiva que integrou a visita de Estado a Portugal
 em 1 outubro de 1910 (arq. pess.)

O Rei D. Manuel II e Hermes da Fonseca, 
a bordo do couraçado "São Paulo", 
no dia 3 de outubro de 1910, 
foto Joshua Benoliel 
(arq. priv.)

Fachada principal do Palácio de Belém no início do séc. XX, foto Eduardo Portugal (arq. AML)

Nova mobília de sala de jantar, no Palácio de Belém, estilo Henrique II
 onde decorreu o jantar do dia 3 de outubro de 1910 (arq. priv.)


Sala Dourada no Palácio de Belém na actualidade, local onde decorreu o último banquete real 
em 3 de outubro de 1910 (foto Rui Ocoha)

Mesa do banquete oferecido em 3 de outubro de 1910 no Palácio de Belém,
 foto Joshua Benoliel (arq. pess.)


Na mesa deste que seria o último banquete real oferecido em Portugal, foi usado um serviço em porcelana de Limoges, cidade francesa que ganhou fama por causa das muitas fábricas de porcelana que tinha na sua área. Este serviço, concretamente, foi produzido pela Havilland & Co., encomendado, parte em 1901, e muito acrescentado de mais peças em 1903, precisamente para dotar o Palácio de Belém de um serviço qualificado para servir chefes de Estado ou pessoas das relações da família real. Sobre este  serviço de Limoges da Havilland & Co., usado no jantar de 3 de outubro de 1910, as memórias relatadas por Vital Fontes são prenunciadoras e cite-se: "Os pratos eram retirados quase sem lhes terem tocado, como se durante o jantar começasse já a perder-se a pertinência da sua utilização, anunciando a sua desconstrução enquanto dispositivo de poder na mesa Real". A coroa, é uma elemento identitário claro demais para poder ser ultrapassado. Talvez por isso se compreenda a compra, logo em 1912, de um novo serviço também de Limoges com 952 peças, remetendo-se o serviço Real, hoje espalhado pelas colecções de vários palácios nacionais e em colecções privadas, para a condição de objecto museológico. Como curiosidade, nos inventários de bens do Palácio de Belém, além do serviço de Limoges, registam-se as peças que acompanhariam a chamada "1.ª mesa": como copos de cristal Baccarat e talheres Christofle. 


Peças do serviço de jantar em porcelana de Limoges da Casa Real Portuguesa 
fabricado por Havilland & Co. (col. Museu da Presidência da República)

Prato e marca de fabrico, pertencente ao serviço de jantar em porcelana da Casa Real Portuguesa
 fabricado em Limoges por Havilland & Co. (col. MN)

Peças pertencentes à baixela da Casa Real Portuguesa utilizadas em banquetes 
e no dia a dia dos monarcas (col. Palácio Nacional da Ajuda)


Peças pertencentes à baixela da Casa Real Portuguesa utilizadas em banquetes oficiais 
(col. Palácio da Cidadela de Cascais)



Neste famoso jantar, o Presidente Hermes Rodrigues da Fonseca, como anfitrião, ficou sentado à direita de D. Manuel II que, por sua vez, deu a direita ao Presidente do Conselho de Ministros, António Teixeira de Sousa (1857-1917). Quem superintendeu na organização do banquete foi o chefe do Protocolo, José Batalha de Freitas. A operacionalização coube aos servidores do Palácio, entre eles certamente Vital Fontes, que ditou as suas memórias algumas décadas mais tarde. Foram recompensados com "cinquenta libras ouro", deixados por Hermes da Fonseca. Além do Rei D. Manuel II, o banquete juntou na mesma sala ainda o ministro da Guerra, o comandante da Divisão Militar de Lisboa, o ministro da Marinha, o comandante das guardas municipais e o comandante de Lanceiros 2. Dos 40 convidados, fizeram também parte: D. Afonso, tio do Rei, os membros do Governo, os 5 presidentes dos Conselhos de Ministros do ainda curto reinado de D. Manuel, alguns ministros honorários, altas chefias militares, o chefe do protocolo, José Batalha de Freitas; o marquês de Faial, o conde de Sabugosa, e mais alguns "homens do serviço do monarca". Da comitiva brasileira, reconhecemos o diplomata acreditado em Lisboa, José Pereira da Costa Mota e o capitão-tenente Américo Pimentel, "ajudante de ordens" do Presidente Hermes da Fonseca que já citámos. Provavelmente, outras personalidades brasileiras poderão ter estado presentes. Basicamente, quase todas as altas chefias militares estavam a jantar salmão do rio Adour e faisões da Boémia ao lado do Rei, enquanto cerca de dois mil soldados e marinheiros se revoltavam na capital.  Apesar de ter uma guarda de honra à porta do palácio, D. Manuel II entrou por uma das portas laterais. Para esta ocasião, o menu do jantar foi elegantemente impresso com as armas reais, ainda que a refeição fosse de retribuição do Presidente do Brasil. O francês era, desde há muito, a língua habitual no discurso dos sabores da esfera social mais chique e elegante. Desse menu de luxo pomposamente distribuído em francês e do qual faziam parte:

Consommé double Royal

Crême brésilienne 

Saumon de l’Adour à l’Ecossaise

Escalopes de ris de veau Francillou

Cuissot de chevrenil Moscovite

Purés de Marrons

Suprème de poularde Amélie

Marquise au Porto

Faisans de Bohème sur canapé

Coeurs de Romaine

Asperges d’Argenteuil-Sauce Aurore

Corbeilles de fruits glacés

Gateaux São Paulo

Panter de friandises

Desserts

Para lá do menu francês, como exigia a mais distinta nobreza da época, a acompanhar o jantar foram servidos oito vinhos diferentes, entre os quais um único português, um Vinho do Porto de 1815. Entretanto na cozinha do palácio vivia-se uma grande azafama dos cozinheiros na preparação dos diversos pratos requintados para a ocasião.Seguiu-se o salmão do rio Adour preparado à escocesa, os escalopes de vitela e a perna de veado moscovita com puré de castanhas. Quando chegaram os supremos de frango, o Rei manteve-se pouco falador e com um aspecto triste, no momento de servir os canapés de faisão da Boémia, o comandante de Lanceiros 2 levantou-se e pegou no telefone para pedir que dois esquadrões daquele regimento se dirijam ao palácio a fim de acompanharem o automóvel real no seu regresso às Necessidades. Era grande a preocupação, tristeza e desanimo sentida pelo jovem Rei D. Manoel previu desta forma o fim do seu reinado durante este requintado banquete oferecido e servido no Palácio de Belém, local que o viu nascer.



Lugares à mesa para os convidados do banquete oferecido no Palácio de Belém 
em 3 de outubro de 1910 (arq. priv.)


 
                         O jovem Rei D. Manoel II e o Presidente do Brasil Hermes da Fonseca (arq. priv.)                
                           
António Teixeira de Sousa  1857-1917, 
Presidente do Conselho de Ministros
(arq. priv.)


Algumas das personalidades presentes no último banquete real 
de 3 de outubro de 1910 no Palácio de Belém (arq. priv.)

Menu du dîner, ou menu do jantar, do último banquete
da Monarquia Portuguesa, no Palácio de Belém.
 em 3 de outubro de 1910 (arq. priv.)

Na cozinha do palácio vivia-se uma grande azafama dos cozinheiros na preparação 
dos diversos pratos requintados para a ocasião (arq. priv.)


 Iguarias salgadas e doces como as servidas aos convidados 
                                              no banquete de 3 de outubro de 1910 (arq. pess.)                                       


O ambiente durante o banquete de 3 de outubro de 1910 no Palácio de Belém 
com os convidados presentes (arq. pess.)


O jovem Rei D. Manuel II manteve-se pouco falador, com um aspecto
 triste e angustiado durante o banquete, foto Joshua Benoliel 
(col. priv.)



Por volta das 21h 20, o Rei D. Manuel II escreveu a seguinte mensagem na margem do cartão do menu: "Peço-lhe o favor de mandar apressar um pouco o jantar". Mal o empregado leu a mensagem, mandou que não se servissem os espargos. Vieram logo as taças de frutas cristalizadas, os "bolos de São Paulo" e as restantes sobremesas. A preocupação, a angústia do que se estaria a forjar levou o Rei a dar ordem para que se encurtasse o jantar, por isso suprimiram-se alguns pratos, o que causou como que uma desorientação na copa e na mesa. Os pratos chocavam-se e os talheres tlintavam, o que nunca acontecia nos banquetes do Paço. Segundo ainda relatos, D. Manuel falava pouco ou quase nada, ao contrário do Presidente Hermes da Fonseca, que desenvolvia a sua afectuosa e habitual alegria. Ainda terá havido tempo para as considerações finais e um pequeno discurso de agradecimentos, como é da praxe, no entanto o jantar terminou às 10 horas da noite, segundo o Presidente do Conselho de Ministros António Teixeira de Sousa, ninguém foi ao jardim para acelerar o desfecho do jantar e o café foi servido na varanda. O Presidente dos Estados Unidos do Brasil vinha da Alemanha, no couraçado "São Paulo". Tinha sido eleito em março anterior e só viria a tomar posse no dia 15 de novembro seguinte, dia da instauração da República no Brasil e, coincidência, data do aniversário do Rei D. Manuel II, nascido no Palácio de Belém. Hoje, sabemos que os preparativos da revolução republicana estavam em curso, mas certamente que a chegada do couraçado "São Paulo" a Lisboa terá propiciado ou pelo menos criado uma atmosfera favorável à vitória do movimento republicano. O presidente do Conselho de Ministros, António Teixeira de Sousa, escreveu na sua obra Para a História da Revolução: "Saí para o Paço de Belém, mais para prevenir o Rei, os ministros e os comandantes, do que para jantar. No caminho, obtive a certeza de que nessa noite se faria a revolução." À saída de D. Manuel II do Palácio de Belém, o hino real tocou pela última vez. De referir que relativamente a este último banquete real oferecido no Palácio de Belém, não existem registos fotográficos que o documentem em detalhe, tendo por esse motivo de se recorrer a imagens de arquivo ilustrativas da época. O Rei nessa noite regressou ao Palácio das Necessidades, de onde partiu no dia seguinte para Mafra. Vindas de Sintra juntaram-se-lhe mais tarde as Rainhas Dona Maria Pia e Dona Amélia. O Presidente Hermes da Fonseca dormiu nessa noite no Palácio de Belém e ainda almoçou no dia seguinte, retirando-se para o couraçado "São Paulo", fundeado no Tejo. Nele permaneceu vários dias, assistindo à instauração da República em Portugal. Pouco mais de 24 horas depois deste último banquete era proclamada a República pelas 9 horas da manhã do dia 5 de outubro de 1910, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa (Paços do Concelho), pela voz de José Relvas (1858-1929). A proclamação da República em Portugal foi amplamente divulgada e anunciada por todos os jornais e revistas da época, igualmente não se fizeram esperar as sátiras a esta visita presidencial num momento de transição de regime como este em Portugal.



Final do banquete de 3 de outubro de 1910 com os convidados presentes 
e os últimos discursos da praxe (arq. pess.)


Palácio das Necessidades para onde o Rei D. Manoel II regressa após o banquete
 no Palácio de Belém e vê cair o seu reinado in postal ilustrado 
(col. pess.)


Rei D. Manoel II no seu escritório no Palácio das Necessidades pouco antes do exílio (arq. priv.)


Fachada da Câmara Municipal de Lisboa durante a proclamação República Portuguesa
 no dia 5 de outubro de 1910 pelas 9 horas da manhã (arq. AML)


Proclamação República Portuguesa no dia 5 de outubro de 1910 pelas 9 horas da manhã, 
na varanda da Câmara Municipal de Lisboa por José Relvas (arq. AML)


O jornal A Lucta de Brito Camacho, edição de 5 de outubro de 1910 
alusivo à proclamação da Republica (arq. priv.)


Sátira à visita a Portugal do Presidente do Brasil Hermes da Fonseca em 1910 (arq. pess.)



Texto: 

Paulo Nogueira 


Fontes e bibliografia: 

Illustração Portugueza n.º 242, de 10 de Outubro de 1910

António, Teixeira de Sousa, Para a História da Revolução. Coimbra: Liv. Ed. Moura Marques & Paraisos, 1912, 2 volumes. 

António, Teixeira de Sousa, A força Pública na Revolução: Réplica ao ex-Coronel Albuquerque. Coimbra: Ed. Moura Marques, 1913. 

Maria Antónia Pinto de Matos, A porcelana no Palácio de Belém in Ourivesaria e porcelana do Palácio de Belém, coord. geral Diogo Gaspar. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2005, 83-154. 

Vital Fontes; Rogério García Pérez, Vital Fontes – Servidor de Reis e de Presidentes. Lisboa: Imprensa Nacional/Museu da Presidência da República, 2018


sábado, 12 de setembro de 2026

QUINTAS E PALÁCIOS EM LISBOA E NOS SEUS ARREDORES

Durante os séculos XVII, XVIII  e XIX vão surgindo grandes quintas nos arredores da cidade de Lisboa que eram constituídas, na sua maioria, por  uma propriedade com casa apalaçada de  dois pisos, salvo algumas excepções, piso térreo e superior, área de lazer, jardins, capela e equipamentos de apoio às actividades agrícolas como estrebarias, currais, campos de rega e poços. Eram na sua maioria casas de campo da elite da capital Lisboa onde se juntava o lazer ao rendimento. A cidade de Lisboa devido ao seu clima, luz, situação geográfica e sendo a capital de um vasto império colonial durante séculos, resultaram numa grande quantidade de palácios e quintas mandados construir por famílias nobres ao longo dos tempos.  É pois vasta a quantidade de quintas, palácios e palacetes na cidade de Lisboa e nos seus arredores, algumas destas propriedades já desaparecidas ou em vias de desaparecer, mas também alguns casos excelentes exemplos de restauro e reedificação. Umas sendo propriedades privadas ou do Estado, com mais ou menos importância que outras, mas todas elas integradas numa zona, num tempo e época com histórias para contar, influenciando de forma directa e indirecta a origem de certas localidades, assim como toponímias da capital. De todas essas propriedades, existentes, é aqui dado a conhecer alguns desses exemplos.


 Quinta Grande da Damaia ou Quinta dos Condes da Lousã

Situa-se esta propriedade na actual Rua Carvalho Araújo, antiga Estrada da A-da-Maia, na Damaia, na freguesia das Águas Livres do concelho da Amadora. Este imóvel dominou em tempos um vasto território, na então aldeia da Damaia ou A-da-Maya, encontrando-se actualmente rodeado por uma urbanização dos anos 60. Possivelmente edificada em finais dos século XVII e primeiro terço do século XVIII, período em que teria pertencido aos Condes de Coculim, a propriedade, posicionada em lugar sobranceiro sobre à aldeia, possuía vastos terrenos agrícolas bem como um jardim privado, dominando assim a paisagem. Em termos de edificado, seria constituída pelo palácio propriamente dito e ainda uma pequena capela com orago a Nossa Senhora da Conceição. A construção do edifício data do século XVIII, tendo o corpo central da fachada norte sido restaurado no século XIX. Era a casa principal da Quinta Grande da Damaia, como também foi designada esta propriedade, tratando-se de uma casa de campo típica da região lisboeta, com reboco cor-de-rosa e pilastras de pedra. Do seu conjunto destacam-se os múltiplos telhados que compõem o edifício e os conjuntos de painéis de azulejos de temática alegórica, no alçado posterior (Quatro Estações) e no terraço lateral sul (Virtudes). Segundo um inventario e estudo por Santos Simões em 1960, que assim conclui e descreveu: "Todos estes azulejos são de uma mesma oficina e época, muito provavelmente de 1740-50, aparecendo já as avivagens a branco, típicas do ciclo oficinal de Bartolomeu Antunes, se bem que o desenho das figurações me parece de qualidade inferior ao do mestre azulejeiro. De manifesto interesse são os azulejos de figura avulsa, os quais, se bem que de motivos convencionais, são pelo menos alguns tratados com uma liberdade e singeleza que ainda não vira. São particularmente notáveis certos galos, cães, pássaros e barcos". A Quinta Grande da Damaia ou Quinta dos Condes da Lousã, pertence ao grupo de quintas construídas nos arredores de Lisboa, ao longo do século XVIII, de que também fazem parte, no território da Amadora, a Quinta do Assentista e a Quinta do Outeiro (tema já abordado em artigo anterior) e que serviria de habitação sazonal aos seus proprietários. Trata-se de um edifício de planta em U, onde foram colocados, à entrada, painéis de azulejos com a representação de vasos floridos, datados de 1730, não sendo, porém o seu local de origem. A fachada principal, correspondente à fachada de acesso à habitação, apresenta três corpos em ressalto. No caso particular da quinta da Damaia deve-se a sua configuração geral ao facto da entrada principal se fazer à altura do andar nobre, e por a fachada, a posterior, estar aberta para a paisagem circundante com um terraço entre dois torreões. Este edifício é composto por grandes divisões, com tectos em masseira, destacando-se de todo o conjunto a profusão de azulejos colocados na fachada posterior e que representam as Virtudes e os Pecados Capitais e no terraço lateral esquerdo as Quatro Estações. A capela particular, cuja padroeira era a Nossa Senhora da Conceição e onde, anualmente, se realizava uma festa dedicada à mesma, aberta à população da aldeia da A-da-Maya e da região. Só posteriormente, já no início do século XIX, a propriedade passou para a posse dos Condes de Lousã. Estes Condes tiveram grande protagonismo social e político durante quase todo o século XIX, passando inclusive a quinta a designar-se por "Quinta dos Condes da Lousã". Por essa época, estes novos proprietários ganham grande notoriedade junto da população da aldeia da Damaia, dada a festa anual realizada em prol de Nossa Senhora da Conceição, havendo a abertura da propriedade aos aldeões. Segundo registos da época: "Na Ermida de Nossa Sra. da Conceição, na Damaya, propriedade do Conde da Louzã, fazia-se a festa do orago, na oitava do Espírito Santo, com missa cantada e dois sermões. Embora a capela fosse propriedade do fidalgo, o povo fazia a festa que metia fogo «do ar», na véspera e no próprio dia, ao princípio da missa, à elevação e ao fim da missa. Também se fazia um pequeno arraial. O proprietário da capela apenas emprestava o templo e as alfaias." Por motivos desconhecidos e dos quais não foram encontrados registos e sem data concreta, a capela desta propriedade foi demolida. 



Fachada do palácio dos Condes da Lousã na Damaia em meados dos anos 70 do séc. XX 
(arq. pess.)

Aspecto da Quinta Grande da Damaia e do palácio dos Conde da Lousã junto à aldeia de A-da-Maia, 
em pintura naife do início do séc. XX (arq. pess.)


Painel de azulejos do palácio dos Condes da Lousã representando a Caridade datados de 1740 50, 
foto João Miguel dos Santos Simões em 1960 (arq. priv.)


Painéis de azulejos do palácio dos Condes da Lousã representando o Verão e Outono, 
de 1740/50, foto João Miguel dos Santos Simões em 1960 (arq. priv.)



Planta geral do palácio da Quinta Grande da Damaia ou dos Condes da Lousã
(arq. priv.)



Fachada principal do palácio dos Condes da Lousã na Damaia 
em meados dos anos 90 do séc. XX (arq. priv.)

Aspecto do exterior do palácio dos Condes da Lousão 
com painéis de azulejos nos anos 90 (arq. priv.)


Aspecto do jardim pertencente ao palácio da Quinta Grande da Damaia 
em meados dos anos 90 (arq. priv.)


Aspecto do hall de entrada do palácio da Quinta Grande da Damia
em meados dos anos 90 (arq. priv.)

Os designados tectos de masseira idênticos aos existentes outrora 
no palácio dos Condes da Lousã (arq. pess.)

Painéis de azulejos no terraço lateral do palácio dos Condes da Lousã representando
 as Quatro Estações em meados dos anos 90 do séc. XX 
(arq. priv.)

Nossa Senhora da Conceição padroeira da capela 
da Quinta dos Condes da Lousã (arq. priv.)

Festejos semelhantes aos do Espírito Santo realizados pela população da aldeia
 junto à Quinta dos Condes da Lousã, por Roque Gameiro (arq. pess.)


Da sua história, sabe-se que em 1813 a quinta era habitada apenas pelos caseiros. Era uma grande propriedade rural que em 1869 se compunha segundo registos; "de palácio, jardim, pomar, vinha, árvores de fruto, oliveiras e terras de semeadura, tendo água nativa de dois poços e de uma nascente contígua".  A propriedade assim se manteve até meados do século XX. Na primeira década do século XX, tendo sido pertença do conhecido cientista Manuel António Gomes (1868-1933), mais conhecido por Padre Himalaya, famoso pelas suas invenções, pioneiro do aproveitamento da energia solar e introdutor em Portugal do interesse pelas energias renováveis. Este novo proprietário, conduziria no local algumas das suas experiências empíricas e científicas. Teriam talvez sido estas que o levariam a vender a propriedade de modo a liquidar dívidas, vendendo o imóvel a um senhor Gomes Cardoso por volta de 1927. Entre 1959 e 1963 são "destacadas" trinta e oito parcelas de terreno desta quinta, parcelas essas que a partir de 1961 passam a ser identificadas como lotes de terreno para construção,  embora, como a situação actual da antiga propriedade demonstra, todas as parcelas desanexadas, independentemente da sua natureza urbana ou rústica e da finalidade declarada na desanexação, tenham tido como destino a construção urbana. Terá sido igualmente neste período, particularmente entre as décadas de 50 e 60 que a Quinta começaria a perder a sua envolvência paisagística particularmente, os campos agrícolas da aldeia da Damaia para dar lugar a urbanizações menos classificadas e que votariam o lado Sul da propriedade à condição de logradouro dessas mesmas edificações, mantendo-se somente a frente de rua ou entrada nobre do edifício e uma porção menos significativa do jardim. No histórico da Quinta Grande ou dos Condes da Lousã, é de referir ainda a realização de um conjunto de obras de conservação e restauro que decorreram nesta casa, de acordo com o registo do imóvel no SIPA e que demonstram a vontade dos antigos proprietários, à data, de preservarem e recuperaram a casa. Estas obras decorreram na década de 50, tendo sido substituídas as caixilharias, renovada a cobertura, criadas instalações sanitárias no 2.º piso do edifício, e substituído o pavimento de madeira por tijoleira em alguns compartimentos do piso térreo. Já na década de 90, realizou-se a substituição parcial do telhado. A par de todos estes elementos históricos devemos destacar ainda, para memória futura, todos os seus elementos arquitectónicos e artísticos que a particularizam no conjunto das demais quintas de recreio do Concelho da Amadora. Da propriedade original restou o palácio, propriedade privada até meados dos anos 90 do século XX, no qual os proprietários mantiveram o edifício conservado e com alguma aparência do que foi outrora, mas breve a degradação, após a sua venda, tomaria conta do imóvel e jardim adjacente.


De como era composta a propriedade dos Condes da Lousão em 1869, segundo registos, 
o palácio, jardim e os terrenos agrícolas contíguos
(arq. priv.)

Padre Himalaya (1868-1933), célebre residente desta propriedade 
com um dos seus inventos (arq. priv.)

Aspecto do exterior do palácio dos Condes da Lousã num registo 
de meados dos anos 40 do séc. XX (arq. priv.)


Aspecto do palácio dos Condes da Lousã integrado no povoado da aldeia da Damaia 
em meados dos anos 40 do séc. XX, foto Eduardo Portugal 
(arq. pess.)

Decoração de uma divisão do palácio dos Condes de Lousã 
na época dos últimos proprietários nos anos 90
 (arq. priv.)


Em 2003, a Câmara Municipal da Amadora adquiriu o imóvel, com o objectivo de assegurar a sua preservação. A Quinta dos Condes da Lousã foi classificada como Imóvel de Interesse Público, pela publicação em Diário da República de 24 de dezembro de 2012. A sua destruição é de tal forma extrema que quem a visitar atraído pelas fotografias do livro "Quintas e palácios nos arredores de Lisboa" de Anne de Stoop, publicado em 1986, ou pelas indicações sobre o património cultural do concelho, disponibilizadas no sítio electrónico da Câmara Municipal da Amadora, que incluem a fotografia de uma das fachadas azulejadas do Palácio, terá uma sensação de irrealidade, sendo provável que julgue existir engano no local. De recordar que o projecto municipal de revitalização (2006) e a classificação tardia de “Imóvel de Interesse Público” [Portaria n.º 740-As/2012, DR, 2.ª série, n.º 248 (suplemento), de 24.12.2012], não impediram a degradação e a visível ruína do imóvel. Desapareceram os telhados que Caldas descreve como "uma interessante adaptação dos tradicionais telhados múltiplos da região"], os tectos de masseira existentes em todas as salas, que, com os azulejos que revestiam duas das fachadas exteriores, foram considerados os elementos mais interessantes do imóvel. Os azulejos, terão sido retirados pelo Município para evitar o seu desaparecimento ou destruição. Nos espaços exteriores, a desolação é idêntica. A poente da casa resta um espaço vazio abandonado e nas traseiras, a sul, uma zona que em tempos terá sido um pequeno jardim ordenado e que, já sem qualquer sentido de relação com a casa, continua a servir, como há 40 anos, de logradouro da urbanização envolvente. Conclusivamente, este imóvel permaneceu votado à intrusão e vandalismo. Presentemente encontra-se inacessível, emparedado, destituído dos seus elementos originais, oito telhados característicos, tectos de masseira, azulejos interiores e exteriores, rebocos e pinturas murais, tudo em estado de pré-ruína, sem manutenção evidente e virtualmente irrecuperável. O estado de degradação e a incúria por parte de quem de direito da autarquia, resultou na perda significativa de elementos arquitectónico, históricos e decorativos. A área do lado da rua Carvalho Araújo, frente à fachada do edifício do palácio dos Condes da Lousã, transformou-se numa autentica lixeira a céu aberto, pela falta de civismo de muito que ali habitam e pela falta de legislação e fiscalização da autarquia local. Lamentavelmente, e as provas estão à vista de todos, pois a degradação foi progressiva, está consumado o abandono deste edifício, que em breve ficará reduzido a um monte de escombros. Mais um crime contra a memória da freguesia onde se insere e à sua história, se não for acudido a tempo.


Fachada do palácio dos Condes da Lousã na Damaia em ruínas em 2008 
(arq. pess.)


O aspecto degradado da entrada principal do palácio dos Condes da Lousã na Damaia em 2008 
(arq. priv.)

Aspecto das traseiras em ruínas do palácio Condes da Lousã na Damaia em 2020 
(foto Tiago Rodrigues)

Aspecto do  palácio dos Condes da Lousã na Damaia em ruínas e janelas emparedadas em 2020
 (foto Tiago Rodrigues)

Detalhe do estado da estrutura dos tectos do edifício do palácio dos Condes da Lousã 
na Damaia em 2020 (foto Tiago Rodrigues)

Parte do que outrora fez parte do espaço ajardinado do palácio Condes da Lousã na Damaia 
em 2020 (Tiago Rodrigues)

Complexo que engloba o que resta da Quinta dos Condes da Lousã 
na actualidade visto pelo Googlemaps




Fachada e estado em que se encontra o palácio dos Condes da Lousã na Damaia 
na actualidade, 2026 (fotos Paulo Nogueira)


Estado em que se encontra o edifício do palácio dos Condes da Lousã na Damaia 
na actualidade, 2026 (foto Paulo Nogueira)


Espaço que outrora foi um dos jardins do palácio dos Conde da Lousã na actualidade, 2026 
(foto Paulo Nogueira)


Aspecto do estado actual do edifício do palácio dos Condes da Lousã numa vista aérea (arq. priv.)


Aspecto das traseiras do palácio dos Condes da Lousã em completa degradação e ruína 
na actualidade, 2026 (foto Paulo Nogueira)


Detalhe arquitectónico do palácio dos Condes 
da Lousã na Damaia na actualidade, 2026
(foto Paulo Nogueira)


A lixeira frente à fachada do palácio dos Condes da Lousã na Damaia, na actualidade
(foto Paulo Nogueira)


Estado degradado do palácio dos Condes da Lousã na Damaia visto da Rua Carvalho Araújo 
na actualidade, 2026 (foto Paulo Nogueira)




Texto: 

Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:

PROENÇA, Padre Álvaro, Benfica através dos tempos, Lisboa, edição Ulmeiro, 1954

STOOP, Anne de, Quintas e palácios nos arredores de Lisboa. Porto, Livraria Civilização editora, 1986.

CALDAS, João Vieira – A Casa Rural dos Arredores de Lisboa no Século XVIII. Porto: FAUP Publicações, 1999

Publicação on-line: Da Revitalização à Ruína, o caso paradigmático da Quinta Grande, por ANA CELESTE GLÓRIA; CATARINA DIZ DE ALMEIDA; DANIELA V. DE FREITAS SIMÕES, IHA-FCSH/UNL e DINÂMIA’CET-ISCTE-IUL