sexta-feira, 18 de setembro de 2020

GRANDES ERROS DA HISTÓRIA E DA HUMANIDADE


Diz-se que errar é humano e o ser humano sempre cometeu erros, sem os erros, certamente não chegaríamos aos acertos. No entanto existem erros que ficam para a história. Seja um simples erro doméstico, a um erro no mundo do desporto, que pode levar a uma derrota, um erro a nível profissional ou técnico, que pode levar a uma verdadeira tragédia, outros erros resultaram em grandes descobertas quer a nível científico quer a nível de sucessos nas artes e letras. Ao longo da história da humanidade ocorreram vários erros com marcas, algumas profundas, que ficaram até aos nossos dias. São alguns desses erros mais marcantes da história da humanidade que aqui vão ser brevemente recordados.

"O ser humano não pode deixar de cometer erros; é com os erros, que os homens de bom senso aprendem a sabedoria para o futuro."

PLUTARCO




Misteriosa inclinação da Torre de Pisa

A Torre de Pisa, foi projectada ao que se julga pelo arquitecto Diotisalvi, para ser o campanário independente da Catedral de Pisa, localizada na Toscana, centro-oeste da Itália. Esta torre é uma obra de arte construída em mármore branco, realizada em três fases ao longo de um período de cerca de 177 anos. Tendo sido iniciada a sua construção em 9 de agosto de 1173, destinada a ficar na vertical, a torre começou a inclinar-se para sudeste logo após o início da construção, com a progressão de construção para o terceiro andar em 1178, devido a uma fundação mal construída e a um solo de fundação mal consolidado. No entanto, o verdadeiro problema foi o tipo de solo onde foi erigida, que por ser constituído essencialmente de areia e argila, não teria firmeza suficiente para sustentar uma obra daquela dimensão. Conclusão, parte do terreno começou a afundar, levando consigo as fundações da torre. Isto deveu-se a uma fundação de meros três metros sobre um subsolo fraco e instável, um projecto que falhou desde o início. De forma a tentar disfarçar a inclinação, o engenheiro encarregue do projecto apareceu com uma ideia genial, achou ele. Só que não. Ao tentar construir os restantes cinco andares ligeiramente mais altos do lado em que a torre afundou, compensando a altura perdida com o afundamento, conseguiu apenas que o excesso de peso enterrasse ainda mais o edifício. E assim ficou, apesar das várias tentativas pra resolver o problema, levadas a cabo ao longo dos séculos. Em 1198 os relógios da torre foram temporariamente colocados no terceiro andar da construção inacabada. Devido a este contratempo, a obra demorou cerca de 150 anos a ser concluída, tendo passado pelas mãos de três engenheiros, Bonanno Pisano (1170 - ?), que construiu os três primeiros andares, Giovanni di Simone que a elevou até ao sexto andar e Tommaso Pisano, que a concluiu em 1319. Ao longo de séculos foram feitas uma série de intervenções no solo, a inclinação da torre progrediu cerca de vinte centímetros. Passados uns anos, a progressão da inclinação estabilizou em cerca de um milímetro por ano. Em 1990, mais de 600 anos depois da torre ter ficado pronta, foi interditada por questões de segurança. Com 4,5 metros de inclinação, temia-se que  pudesse colapsar a qualquer momento. Em 1993 foram iniciados trabalhos de restauro e consolidação da torre. Em 2018, verificou-se que a inclinação da Torre de Pisa tinha sido reduzida em 0,5º, o que equivale a aproximadamente 4 cm. Devido a este facto, os pesquisadores acreditam que a torre tenha ganho pelo menos 200 anos de sobrevivência. Actualmente, depois de todas as obras a que foi submetido, o monumento que tem aproximadamente 14 700 toneladas e 55,8 metros de altura a exercer força sobre a inclinação de quase quatro metros, deixou de se inclinar e a aproximadamente cada ano irá endireitar-se um pouco, garantem os especialistas, apesar de se tratar de valores muito altos. A Torre de Pisa continua em pé, após mais de 600 anos e 4 terremotos, isto devido ás caracteristicas do solo onde está assente. Assim aproximadamente durante os próximos três séculos não haverá motivo de preocupação para com este erro de engenharia do passado, a torre é controlada e conservada graças a meios tecnológicos avançados.



 


Batalha desastrosa de Alcácer-Quibir

A Batalha de Alcácer-Quibir ou "Batalha dos Três Reis", como ficou conhecida entre os marroquinos, ocorreu a 4 de agosto de 1578 entre Portugal e três reis muçulmanos. Portugal organizou uma força militar constituída por 17.000 homens, dos quais 5.000 eram mercenários estrangeiros, tudo com o propósito de aliviar a pressão dos muçulmanos, ou mouros como eram denominados, sobre as fortalezas portuguesas. Liderados pelo rei de Portugal D. Sebastião (1554 - 1578), a armada partiu de Lisboa em 25 de junho de 1578, fez escala em Cadiz e aportou em Tânger, seguindo depois para Arzila. Nessa oportunidade os portugueses cometeram um primeiro erro, pois as tropas foram mandadas seguir a pé de Arzila para Larache, quando o percurso poderia ter sido feito por via marítima, o que permitiria maior descanso às tropas e o necessário reabastecimento de víveres e água. A partir de Larache a força afastou-se da costa em direcção a Alcácer-Quibir. De referir que no século XVI, grande parte das vitórias portuguesas ocorreu na zona costeira, onde era possível fazer valer a vantagem do poder de fogo dos seus navios de guerra. Longe dos navios, enfrentando o calor de uma região praticamente desértica, um exército superior em efectivo e combatendo no seu território, os portugueses não adoptaram as medidas de segurança necessárias. O rei D. Sebastião recusou-se terminantemente a ouvir os conselhos dos oficiais mais experientes, que ponderavam que o exército se devia manter próximo dos canhões dos navios. Alguns dos comandantes, diante da controvertida decisão, chegam a falar em prender o rei, para impedi-lo de levar o seu plano adiante. As forças muçulmanas compreendiam que não poderiam enfrentar os portugueses perto da costa, e não avançaram em direcção à força invasora, preferindo que os portugueses tomassem a iniciativa de combate. Por decisão do rei, o exército rumou finalmente em direcção a sul afastando-se do litoral. Quando as forças portuguesas estabeleceram contacto com o exército mouro, em 4 de agosto, encontravam-se em marcha há sete dias e depararam-se com as forças muçulmanas de 60.000 combatentes, ultrapassando os efectivos militares portugueses numa razão de quatro para um. No início do combate os arcabuzeiros muçulmanos dispararam contra os portugueses e, em seguida, uma carga de cavalaria ligeira moura forçou as primeiras linhas portuguesas a recuar de forma desordenada. O exército cansado e extenuado reagiu mal, recuando desordenadamente e gerando uma enorme confusão, quando a primeira linha se misturou com as tropas na retaguarda. A resposta portuguesa foi rápida, mas ineficaz. No que parece ter sido uma tentativa para desarticular o ímpeto do ataque muçulmano, uma força portuguesa, aparentemente de cavalaria, penetrou as linhas muçulmanas, mas foi subjugada pelos mouros em maior número. O rei D. Sebastião, perante a derrota inevitável, recusa uma vez mais os conselhos de outros nobres para que se renda, dizendo-lhes segundo registos: "Senhores, a liberdade real só há de se perder com a vida". Os nobres que o acompanhavam a cavalo conformam-se em prosseguir o combate até ao fim, tendo-lhes ainda D. Sebastião dito: "Morrer sim, mas devagar!" Metade do efectivo das tropas portuguesas morreu na batalha e a outra metade foi feita prisioneira. Muitos poucos voltaram. Apesar de se duvidar da morte do rei português, é provável que ele tenha perecido nesta batalha, ficou desse facto uma lenda. O resultado e as consequências do desastre da batalha de Alcácer-Quibir foram catastróficos para Portugal. O rei D. Sebastião desaparecera, deixando como sucessor o seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (1512 - 1580), que veio a falecer sem descendência dois anos depois. Assim levanta-se uma crise dinástica ameaçando a independência de Portugal face a Espanha, pois um dos candidatos à sucessão era Filipe II de Espanha (1527 - 1598). A maioria da nobreza portuguesa que participou nesta batalha ou morreu ou foi feita prisioneira. Para pagar os elevados resgates exigidos pelos mouros, o país ficou endividado e debilitado economicamente. A batalha ditou ainda o início do fim da Dinastia de Avis e do período de expansão iniciado com a vitória na Batalha de Aljubarrota. A crise dinástica resultou, dois anos mais tarde, na perda da independência de Portugal por 60 anos, com a união ibérica sob a dinastia Filipina entre 1580 e 1 de dezembro de 1640.




 
Distração de um padeiro que saiu cara

Em 1666, Thomas Farriner (1615 - 1670), padeiro londrino em Pudding Lane fornecedor da corte do rei Charles II (1630 - 1685), após ter fechado o seu estabelecimento, que ficava no primeiro andar de sua casa, às 22:00h, quatro horas depois, foi acordado por um funcionário (que dormia no piso de baixo). Os fornos não haviam sido totalmente apagados, e uma brasa terá alcançado uma pilha de feno que estava por perto. Tudo começou na manhã de 2 de setembro de 1666, um domingo, ninguém se deu ao trabalho de dar a notícia ao rei Carlos II, que estava nos seus aposentos no palácio de Whitehall. O padeiro Thomas Farriner e a sua família escaparam com vida porque pularam pela janela do andar de cima para a casa ao lado, uma empregada ficou com medo de cair, tentou sair pela porta e acabou por se tornar na primeira vítima. Os vizinhos correram para ajudar a conter o fogo, era importante agir com rapidez porque a cidade de Londres ainda tinha uma arquitectura medieval de ruas estreitas e casas muito próximas umas das outras, a grande maioria feitas em madeira de carvalho e com telhado de colmo e alcatrão, um material que evita a entrada da chuva, mas altamente inflamável. Por volta das 7:00h da manhã, segundo relatos, 300 casas estavam destruídas e o fogo já atingia a Ponte de Londres, onde era permitido morar e havia depósitos de pólvora, armazenada em barris de madeira. Com as chamas, o local transformou-se numa armadilha. Centenas fugiam com cobertores sobre a cabeça, carregando baús e todos os bens que podiam levar. As chamas tomaram enormes proporções, quando o fogo parecia incontrolável, bastava olhar para a direcção do vento, projectar para onde as chamas se dirigiam e derrubar as casas que estivessem no caminho, foi este o processo adoptado para algum controle do incêndio. Durante a tarde, as chamas chegaram aos arredores do rio Tamisa, onde havia depósitos de madeira, carvão e azeite. As explosões que se seguiram pioraram um quadro que já era preocupante. Como se não bastasse, o fogo barrou o acesso às condutas de abastecimento da água do rio. Ainda assim, o xerife da cidade não mudou de atitude, até que foi desautorizado pelo rei na segunda-feira à noite. Enquanto isso, tempestades de chamas atingiam parte da biblioteca do Sion College, o palácio Bridewell, três cadeias, os portões Ludgate, Aldersgate e Newgate e o centro financeiro. Na noite de 4 de setembro, terça-feira, chegou a vez da Catedral de São Paulo. Ao fim de 4 dias, 1800 km2 da cidade tornaram-se em cinzas com a destruição de 13200 casas e 87 igrejas. Os registros da época declararam um total de 100 mil desalojados e nove óbitos. Mas pesquisas actuais afirmam que milhares de pessoas podem ter morrido nesse incêndio, já que as pessoas mais pobres da população e da classe média não eram mantidas nos registos. O episódio causado por uma distração de um padeiro londrino ficaria conhecido como o Grande Incêndio de Londres.





Venda do Alaska

No ano de 1867, os Estados Unidos compraram o território do Alaska ao Império Russo. A operação foi conduzida pelo Secretário de Estado norte-americano William Henry Seward (1801 - 1872). À época, a transacção foi considerada absurda e era referida como "a loucura de Seward" (William H. Seward's folly). O território comprado, com área aproximada de 1 600 000 km², constitui o actual Estado norte americano do Alaska. A compra do Alaska adicionou mais de 1,5 milhão de quilómetros quadrados aos EUA. Com isso, se analisarmos apenas o preço do quilómetro quadrado hoje naquele Estado, estima-se que o território vale 150 vezes mais do que Washington pagou por ele no século XIX. Mas o Alaska é muito mais que um pedaço de terra gelada, é também um enorme depósito de recursos naturais, menos de 20 anos depois de o negócio ser fechado, instalou-se uma corrida ao ouro na região. Além disso, em meados do século XX companhias de prospecção de petróleo encontraram enormes reservas no norte do Estado que, desde então, têm sido exploradas de maneira intensa e rendem milhares de dólares. O Alaska transformou-se numa poderosa economia. Tem uma população que se aproxima de 1 milhão de habitantes e um PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 44 bilhões anuais. Por outras palavras, se o Estado do Alaska produz anualmente mais de 400 vezes o que a Rússia ganhou ao vender o território. O que parecia ter sido "a loucura de Seward" afinal foi um excelente negócio para os EUA.




 
Invasão da URSS por parte dos alemães
 
Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, Adolf Hitler (1889 - 1945) ordenou que as suas tropas invadissem a então URSS. A operação "Barbarossa" foi o nome de código para a invasão da União Soviética pelas Potências do Eixo, iniciada em 22 de junho de 1941. Contando com mais de 3 milhões de soldados, conquistaram rapidamente as fronteiras. Muitos generais alemães discordavam desta campanha por causa da sua dificuldade e, em geral, todos concordavam que uma vitória contra a União Soviética deveria ser estabelecida de maneira rápida para evitar a reorganização da resistência inimiga e o esgotamento total dos recursos alemães. Foi considerada uma das maiores invasões efectuadas em guerras na história da humanidade. Do ponto de vista da guerra, essa invasão era vital para que a Alemanha mantivesse a sua economia em funcionamento. No entanto a URSS foi salva da derrota absoluta principalmente pelo tamanho do território e dos seus exércitos. O fulminante ataque alemão cercou a cidade de Leningrado, conquistou Kiev e chegou a poucos quilómetros de Moscovo. Entretanto, como previsto, o ímpeto dos exércitos alemães perdeu força no final de novembro. A cidade de Moscovo havia sido eficientemente defendida pelo general Gueorgui Konstantinovitch Júkov (1896 - 1974), e a chegada do inverno determinou a estagnação dos alemães no front oriental. O ataque alemão perdeu fôlego por falta de recursos, fardas inadequadas para os militares enfrentarem o frio do rigoroso clima local, pela vastidão do território e do exército soviético. A denominada "estação da lama" ou "rasputitsa" (que, literalmente, significa algo como "sem estrada"), que dificulta seriamente a circulação de veículos, sobretudo se forem pesados e não dispuserem de lagartas, fenómeno que volta a ocorrer na Primavera, em resultado do degelo. A lama já se revelara um sério obstáculo para a Grande Armée de Napoleão, em 1812, mas os alemães parecem não ter tirado daí qualquer lição e uma vez mais este erro foi a sua derrota. Foi sugerido a Adolf Hitler que o confronto contra a União Soviética fosse resolvido diplomaticamente, porém ele continuou a acreditar na derrota e seguiu com os ataques. As grandes derrotas alemãs na União Soviética aconteceram em Stalingrado e, posteriormente, em Kursk. Em vez de "vitória e glória", os soldados alemães conheceram a fome, os piolhos, as queimaduras pelo frio, a gangrena e a morte por hipotermia. Escusado será dizer que foram derrotados.





Acto precipitado
 
Em 1976 um dos fundadores da Apple Computer, Ronald Gerald Tito Wayne (1934), vendeu as suas acções por cerca de 800 dólares. Tudo terá acontecido porque Ronald Gerald Tito Wayne terá vindo a descobrir que a Byte Shop, uma pequena rede de lojas de informática com quem tinham estabelecido um acordo, não tinha uma reputação muito boa em termos de saldar as suas dívidas. Por esse motivo Ronald Gerald Tito Wayne terá dito aos restantes sócios que ajudaria os dois no que pudesse, mas que se desligaria oficialmente da empresa Apple Computer, com medo de como aquele negócio arriscado poderia prejudicar as suas finanças. Actualmente, se ainda possuísse os seus 10%, teria uma fortuna estimada em 67 bilhões de dólares. Foi uma decisão mal calculada e muito precipitada. Actualmente, Ronald Gerald Tito Wayne vive numa casa simples na cidade de Pahrump, a 800 km de Cupertino no Estado da Califórnia, onde fica a sede da Apple Computer.





Acidente nuclear de Chernobyl
 
Entre 25 e 26 de abril de 1986, ocorreu o acidente nuclear catastrófico no reactor nuclear nº 4 da Central Nuclear de Chernobyl, perto da cidade de Pripiat, no norte da Ucrânia Soviética, próximo da fronteira com a Bielorrússia Soviética. Este acidente ocorreu durante um teste de segurança ao início da madrugada que simulava uma falta de energia da estação, durante a qual os sistemas de segurança de emergência e de regulação de energia foram intencionalmente desligados. Uma combinação de falhas inerentes no projecto do reactor, bem como dos operadores dos reactores que organizaram o núcleo de uma maneira contrária à lista de verificação para o teste, resultou em condições de reacção descontroladas. A água superaquecida foi instantaneamente transformada em vapor com uma pressão muito elevada, causando uma explosão de vapor destrutiva e um subsequente incêndio durante cerca de nove dias. O incêndio foi finalmente controlado em 4 de maio de 1986. Com tudo isto, as cinzas dos produtos de fissão lançadas na atmosfera pelo incêndio precipitaram-se sobre partes da União Soviética e da Europa Ocidental. Cerca de 68 mil pessoas foram evacuadas, inclusive da própria cidade de Chernobyl. O levantamento e a detecção de pontos isolados de precipitação fora desta zona ao longo do ano resultaram na evacuação de outras 135 mil pessoas. O número total de vítimas, incluindo os mortos devido ao desastre, continua a ser uma questão controversa e disputada. Durante o acidente, os efeitos da explosão de vapor causaram duas mortes dentro da instalação, uma imediatamente após a explosão e a outra por uma dose letal de radiação. Nos dias e semanas após o acidente, 134 militares foram hospitalizados com síndrome aguda da radiação (SAR), dos quais 28 bombeiros e funcionários morreram em poucos meses. Além disso, cerca de catorze mortes por cancro induzido por radiação entre esse grupo de 134 sobreviventes ocorreram nos dez anos seguintes. Entre a população em geral, um excedente de 15 mortes infantis por cancro de tiroide foi documentado em 2011. Levará mais tempo a pesquisa para determinar definitivamente o risco relativo elevado de casos de cancro entre os funcionários sobreviventes, aqueles que foram hospitalizados inicialmente com SAR e a população em geral. A catástrofe de Chernobyl é considerada o acidente nuclear mais desastroso da história da humanidade, tanto em termos de custo quanto de baixas. Anatoly Stepanovitch Diatlov (1931 - 1995), vice-engenheiro-chefe da Central Nuclear de Chernobyl, acabou por ser uma das faces principais do desastre, já que foi sob a sua supervisão que o teste de segurança fracassou levando ao acidente. Ele foi condenado por "má gestão criminosa de empreendimentos potencialmente explosivos" e sentenciado a dez anos de prisão, mas ele apenas cumpriu três. Anatoly Dyatlov, contudo, negou a responsabilidade pelo acidente. Ele dizia-se assombrado pelo que aconteceu culpou o ocorrido a falhas mecânicas e de design dos reactores RBMK e não a falha humana. Para muitos especialistas, a causa do desastre em Chernobyl foi uma combinação dos dois, tanto falha mecânica quanto humana, mas o teste supervisionado por Anatoly Dyatlov foi considerado "incompetente" e ele próprio negligente diante do ocorrido.





Best seller rejeitado
 
Em 1995, a escritora Joanne Kathleen Rowling (1965), terminou o seu manuscrito de "Harry Potter and the Philosopher's Stone", no seu titulo original em inglês ("Harry Potter e a Pedra Filosofal", título em português), numa velha máquina de escrever. Após a resposta entusiástica de Bryony Evens, um revisor que foi convidado a analisar os três primeiros capítulos da obra, a Christopher Little Literary Agency concordou em representar Joanne Kathleen Rowling na procura de uma editora. O livro foi entregue a doze editoras, das quais todas recusaram o manuscrito da obra. Um ano depois, ela finalmente recebeu sinal verde e 1500 libras de adiantamento, do editor Barry Cunningham da Bloomsbury, uma editora de Londres. A decisão de publicar a obra em livro de Joanne Kathleen Rowling deveu-se muito a Alice Newton, a filha de oito de anos do presidente da editora, que leu o primeiro capítulo e imediatamente exigiu o segundo a seu pai. Embora a editora Barry Cunningham da Bloomsbury tenha concordado em publicar o livro, o responsável da editora terá aconselhado Joanne Kathleen Rowling a procurar um emprego, já que as chances de conseguir dinheiro através de um livro infantil iriam ser mínimas. Logo depois, em 1997, a autora Joanne Kathleen Rowling recebeu uma concessão de 8 mil libras da Scottish Arts Council para continuar a escrever a série. Em junho de 1997, a editora Barry Cunningham da Bloomsbury publicou "Harry Potter e a Pedra Filosofal" com uma impressão inicial de mil cópias, sendo que 500 delas foram distribuídas em bibliotecas. Actualmente, tais cópias são avaliadas entre 16 e 25 mil libras. Em outubro de 1998, a produtora cinematográfica Warner Bros. comprou os direitos para os filmes dos dois primeiros livros por uma quantia de sete dígitos. A adaptação de "Harry Potter e a Pedra Filosofal" foi lançada em 16 de novembro de 2001 e "Harry Potter e a Câmara Secreta" em 15 de novembro de 2002. Entre esse momento e 2013, mais de 400 milhões de cópias do livro "Harry Potter" foram vendidas no mundo, transformando esse livro um dos mais lidos de toda a história da humanidade. Depois do sucesso de "Harry Potter", Joanne Kathleen Rowling reergueu-se financeiramente e foi da pobreza a uma riqueza multimilionária em cinco anos. Ela é a autora britânica com o maior número de vendas, chegando a mais de 238 milhões de libras em livros vendidos. Desde então, muitas obras de sucesso se seguiram a este primeiro sucesso até à actualidade. Uma vez mais se provou que por vezes o erro de rejeitar certas obras pode ter esta consequência, uma aposta errada para uns e uma aposta acertada para outros.










Texto:
Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:
OBERHOLTZER, Ellis Paxson, A History of the United States since the Civil War, Volume I, 1917
TALWICK, Maria, A Torre de Pisa, Edições Record, 1985

SHCHERBAK, Yurii, Chernobyl (em russo e inglês), New York: Soviet Writers/St. Martin's Press, 1991

Londres em chamas, Revista História Viva, nº 38, páginas 22 e 23, dezembro de 2006.

J. K. Rowling, Revista Forbes. 14 de junho de 2007

BAKER, Lee, The Second World War on the Eastern Front, Pearson Longman, London,2009
SILVA, Libório Manuel, A Nau Catrineta e a História Trágico-Marítima: Lições de Liderança, Centro Atlântico, Portugal, 2010

FAWCETT,Bill, Os 100 Grandes Erros da História, Clube do Autor, Lisboa 2012

LINZMAYER, Owen W, "Chapter one: The Forgotten Founder", Apple Confidential: The Real Story of Apple Computer, Inc. No Starch Press , 2015



terça-feira, 8 de setembro de 2020

IMAGENS COM HISTÓRIA


"Uma imagem vale mais que mil palavras"

  Confúcio


Desde que a humanidade conseguiu retratar através de imagens nos mais diversos suportes, os momentos históricos quer de guerras, dramas sociais, conquistas e até as situações mais bizarras da vida, estavam por si só a criar a base de dados com os registos e as provas concretas da sua própria história para as gerações vindouras e a posteridade. Com isto surge o poder da imagem. Processo esse que se valorizou cada mais até à actualidade, com o objectivo de manter essa base de dados, sempre actualizada a cada acontecimento e dia que passa.






Em 10 de maio de 1869, as duas grandes companhias ferroviárias dos Estados Unidos uniram as suas linhas férreas na Promontory Summit, local Território de Utah e a partir dai forjaram o destino de uma nação. O local Histórico Nacional Golden Spike compartilha as histórias das pessoas e ambientes que definem a conclusão da primeira Linha de Caminho de Ferro Transcontinental e registado pelo fotógrafo Andrew Joseph Russell (1829 - 1902). A Primeira Ferrovia Transcontinental é o nome popular da linha ferroviária dos Estados Unidos (conhecida à época como "Pacific Railroad") ficou completa em 1869 entre Council Bluffs, Iowa/Omaha, Nebraska (via Ogden, Utah e Sacramento, Califórnia) e Alameda, Califórnia. Esta ligação ferroviária ligou as costas do Atlântico e Pacífico por caminho de ferro pela primeira vez na história. Autorizada pelo Acto Ferroviário do Pacífico de 1862 e sustentada pelo governo norte-americano, ela foi o culminar de um movimento de longas décadas para a construção da linha e uma coroação das façanhas da presidência de Abraham Lincoln (1809 - 1865), apesar de ter sido concluída quatro anos após sua morte. A construção da ferrovia requereu enormes feitos da engenharia e do trabalho na passagem de planícies e altas montanhas pelas companhias Union Pacific Railroad e Central Pacific Railroad, que construíram a linha ocidental e oriental, respectivamente. A ferrovia foi considerada o maior feito tecnológico norte-americano do século XIX. O Promontory Summit foi por um período uma cidade temporária durante a construção do caminho de ferro, mas tempos depois foi demolida, e desde aquela época não possui população permanente. Desde 1957 o local tem sido preservado como parte do Sítio Histórico Nacional da Cavilha de Ouro ou Golden Spike National Historic Site. No local encontram-se réplicas das duas locomotivas que participaram do acto em 1869, a Jupiter e a Union Pacific No. 119. Ocorrem também nesse local ainda hoje encenações que recriam a cerimónia do designado Golden Spike.






Um triste e cobarde acontecimento ocorrido em Lisboa no dia 1 de fevereiro de 1908 onde nenhum fotógrafo esteve presente mas que mais tarde alguém fez a reconstituição em imagem. Na manhã desse fatídico dia, a comitiva régia, composta pelo rei de Portugal D. Carlos I (1863 - 1908), sua esposa D. Amélia de Orleães (1865 - 1951), seus dois filhos o mais velho D. Luís Filipe de Bragança (1887 - 1908), o mais novo D. Manuel II de Portugal (1889 - 1932), chegou ao Barreiro no comboio real, ao final da tarde, vindos de Vila Viçosa, onde tomou o vapor "D. Luiz", com destino ao Terreiro do Paço, em Lisboa, onde desembarcaram, na Estação Fluvial Sul e Sueste, por volta das 5 horas da tarde. A escolta resumia-se aos batedores protocolares e a um oficial a cavalo, Francisco Figueira Freire, ao lado da carruagem do rei. Quando a carruagem circulava junto ao lado ocidental da praça ouve-se um tiro e desencadeia-se o tiroteio. Um homem de barbas, passada a carruagem, dirige-se para o meio da rua, leva à cara a carabina que tinha escondida sob a sua capa, põe o joelho no chão e faz pontaria disparando. O tiro atravessou o pescoço do rei, matando-o imediatamente. Começa o tiroteio, outros atiradores, em diversos pontos da praça, atiram sobre a carruagem, que fica crivada de balas. Os populares desatam a correr em pânico. O condutor da carruagem, Bento Caparica, é atingido numa mão. Com uma precisão e um sangue frio mortais, o primeiro atirador, mais tarde identificado como Manuel Buíça (1876 - 1908), professor primário expulso do Exército, volta a disparar. O seu segundo tiro vara o ombro do rei, cujo corpo descai para a direita, ficando de costas para o lado esquerdo da carruagem. Aproveitando isto, surge a correr de debaixo das arcadas um segundo regicida, Alfredo Luís da Costa (1883 - 1908), empregado do comércio e editor de obras de escândalo, que pondo o pé sobre o estribo da carruagem, ergue-se à altura dos passageiros e dispara sobre o rei já tombado. A rainha D. Amélia, já de pé, fustiga-o com a única arma de que dispunha, um ramo de flores, gritando "Infames! Infames!" O criminoso volta-se para o príncipe D. Luís Filipe, que se levanta e saca do revólver do bolso do sobretudo, mas é atingido no peito. A bala, de pequeno calibre, não penetra o esterno (segundo outros relatos, atravessa-lhe um pulmão, mas não era uma ferida mortal) e o príncipe, sem hesitar, aproveitando porventura a distracção fornecida pela actuação inesperada da rainha sua mãe, desfecha quatro tiros rápidos sobre o atacante, que tomba da carruagem. Mas ao levantar-se D. Luís Filipe fica na linha de tiro e o assassino da carabina atira a matar, uma bala de grosso calibre atinge-o na face esquerda, saindo pela nuca. D. Manuel vê o seu irmão já tombado e tenta estancar-lhe o sangue com um lenço, que logo fica ensopado. D. Amélia permanece de pé, gritando por ajuda. Manuel Buíça volta a fazer pontaria (sobre o infante? sobre a rainha?) mas é impedido de disparar sobre a carruagem pela intervenção de Henrique da Silva Valente, simples soldado de Infantaria 12, que passava no local, e que se lança sobre ele de mãos nuas. O Regicídio de 1 de fevereiro de 1908, ocorrido em Lisboa na Praça do Comércio, que na época era mais conhecida por Terreiro do Paço, marcou profundamente a História de Portugal, uma vez que dele resultou a morte do rei D. Carlos I e do seu filho e herdeiro, o Príncipe Real D. Luís Filipe de Bragança, marcando o fim da última tentativa séria de reforma da Monarquia Constitucional e gerando uma nova escalada de violência na vida pública do país. Após o regicídio, subiu ao trono D. Manuel II, filho mais novo de D. Carlos I, com apenas 18 anos de idade. Com falta de preparação para governar, teve muitas dificuldades em repor a ordem no país e em conter a fúria republicana contra a monarquia. Estavam reunidas as condições para uma revolução e consequente substituição da monarquia pela república.






No dia 5 de setembro de 1936 durante a Guerra Civil Espanhola, o miliciano republicano Federico Borrell Garcia (1913 - 1936), é fotografado no exacto momento em que é atingido fatalmente durante um combate em Cerro Muriano, front de Córdoba. A imagem é conhecida como The Falling Soldier (Morte de um Miliciano), sendo um dos mais conhecidos instantâneos da história da fotografia, é a morte em directo captada pelo fotógrafo de guerra húngaro Robert Capa de seu nome verdadeiro  Endre Erno Friedmann (1913 - 1954). Acreditava-se que a poderosa e forte cena tivesse sido capturada em Cerro Muriano, durante a Guerra Civil Espanhola, contudo, alguns historiadores mais tarde descobriram uma série de inconsistências na foto intitulada "Morte de um Miliciano" (The Falling Soldier). Os próprios companheiros de Borrell García terão informado que ele foi morto enquanto se escondia atrás de uma árvore (e não em campo aberto como a imagem mostra). Além disso, é dito que Borrell García era supostamente muito diferente do homem da fotografia. Outra evidência é que a imagem parece ter sido fotografada na cidade de Espejo, cerca de 60 km de distância de Cerro Muriano. A famosa foto foi publicada em 23 de setembro na revista francesa e um ano depois na revista americana "Time". A fotografia transformou-se ela própria num ícone do fotojornalismo na sua expressão mais heroica, mais comprometida com o real. E, como tal, não podia escapar à polémica. A certa altura, discutiu-se se o instantâneo captava um acontecimento verdadeiro ou se tinha antes sido encenado pelo próprio fotógrafo Robert Capa e pela sua companheira Gerda Taro (1910-1939), também repórter fotográfica a seguir a guerra pelo lado dos republicanos. Depois de investigações feitas mais em rigor chegou-se à conclusão tratar-se de facto de Federico Borrel García, ou "Taino", um anarquista que integrou a Federação Ibérica da Juventude Libertária e se juntou à Coluna Alcoiana para, nesse tarde de setembro de 1936, defender essa força do ataque franquista. Estas dúvidas e reservas não retiram nada do valor e do simbolismo histórico, nem da qualidade jornalística e mesmo estética desta obra. Assumidos admiradores do fotógrafo Robert Capa e do seu contributo para o fotojornalismo do século XX, os autores de "A Sombra do Iceberg", ainda segundo o jornal El País, destacam a brilhante composição da imagem do miliciano, o seu dramatismo e o significado que ela adquiriu relativamente à tragédia que se abateu sobre o povo espanhol com a Guerra Civil.


 



Fotografia imortalizada pela revista "Life" com o titulo V-J Day in Times Square. Durante o anúncio do fim da guerra contra o Japão, em 14 de agosto de 1945, o fotógrafo Alfred Eisenstaedt (1898 - 1995), registou um marinheiro beijando uma jovem mulher enfermeira vestida de branco em Times Square. A fotografia foi originalmente publicada uma semana após ser feita, na revista "Life", entre muitas outras fotografias das celebrações deste evento que foram apresentados numa secção de doze páginas chamada Victory. A pose era a favorita dos fotógrafos que faziam a cobertura da guerra e muitos deles incentivavam as pessoas a fazer a mesma cena. Porém, Alfred Eisenstaedt estava a fotografar um acontecimento espontâneo, que ocorreu em Times Square no dia do anúncio do fim da guerra contra o Japão feito pelo presidente norte americano Harry S. Truman (1884 - 1972). Perdurou um grande mistério sobre a identidade dos dois personagens da foto durante décadas. No entanto a jovem enfermeira Edith Shain escreveu a Alfred Eisenstaedt no final de 1970 afirmando ser a mulher da fotografia. Em agosto de 1945, Edith Shain estava a trabalhar num hospital de Nova York como enfermeira quando ela e um amigo ouviram no rádio que a Segunda Guerra Mundial tinha terminado. Eles foram a Times Square, onde todos celebravam e, assim que ela chegou e saiu do metro, o marinheiro agarrou-a num abraço e beijou-a. Ela contou que naquele momento pensou que poderia ser bom deixá-lo beijá-la uma vez que ele lutou por ela durante a guerra. Em 20 de junho de 2010, Edith Shain faleceu aos 91 anos, após uma batalha contra um cancro. Outra mulher de seu nome Greta Zimmer Friedman (1924 - 2016), uma auxiliar de odontologia, também afirmou ser a jovem da foto. Ela encontrou-se com George Mendonsa (1923 - 2019), o suposto marinheiro, em 2012, tendo ela falecido em 2016. A identidade do marinheiro permaneceu desconhecida e controversa. Um perito forense do departamento da polícia de Houston, analisou a fotografia de 14 de agosto de 1945 com algumas de Glenn Edward McDuffie (1927 - 2014), centrando-se no rosto, e concluiu que era ele o marinheiro da imagem do fotógrafo Alfred Eisenstaedt. Glenn McDuffie faleceu em março de 2014. Porém, na década de 2010 chegou-se à conclusão que o marinheiro era George Mendonsa, que em 2012, se encontrou com Greta Zimmer Friedman, balizando serem o casal da fotografia. Mas está é apenas uma das versões.






Em 11 de junho de 1963 durante uma manifestação na cidade de Saigon, Vietnam do Sul, contra a política religiosa do governo de Ngo Dinh Diem (1901 - 1963), o monge budista vietnamita Thich Quang Duc (1897 - 1963), originalmente batizado de Lâm Văn Tức, o monge Mahayana, depois de se ter regado com gasolina ateou fogo ao seu próprio corpo num processo de autoimolação. Durante o seu suicídio o acto do monge foi filmado por repórteres e fotografado por Malcolm Wilde Browne (1931 - 2012), vindo essa sua foto ser premiada com os prémios Pulitzer e Foto do Ano da World Press Photo. O repórter David Halberstam (1934 - 2007) também recebeu um prémio Pulitzer pela sua reportagem escrita do ocorrido. Este monge budista foi considerado um Bodhisattva, uma vez que mesmo tendo sido queimado e posteriormente re-cremado, consta que o seu coração permaneceu intacto. Isso aumentou o impacto da sua morte mundialmente, tornando-o um verdadeiro mártire da resistência contra a política religiosa do governo autoritário na região.






O voo da US Airways 1549, um voo comercial de passageiros de rotina, que iria de Nova York para Charlotte, Carolina do Norte, em 15 de janeiro de 2009, fez uma amaragem de emergência nas águas do rio Hudson, adjacente a Manhattan, seis minutos após descolar do Aeroporto LaGuardia. Enquanto ganhava altitude, a aeronave, um Airbus A320-214 (registro: N106US), movido por dois motores GE Aviation/Snecma CFM56-5B4/P, atingiu um grupo de gansos-do-Canadá, que resultou numa imediata perda de potência de ambos os motores. O piloto Chesley Sullenberger (1951), informou o controlador de tráfego dizendo: "Estaremos no Hudson". Logo após a mensagem, a comunicação foi cortada. A tripulação determinou que a aeronave não poderia alcançar a sua posição, logo a nordeste da ponte George Washington, decidiram guiar a aeronave para sul e estabeleceu o seu curso em direcção ao rio Hudson, amarando então o avião virtualmente intacto perto do Intrepid Sea-Air-Space Museum, no centro de Manhattan. Logo após esta situação de emergência no rio, os 155 passageiros do avião parcialmente submergido e em naufrágio saíram e foram todos resgatados por embarcações próximas. Os tripulantes começaram a conduzir os passageiros para as asas do avião e a um bote salva-vidas. Apenas resultaram cinco pessoas com ferimentos graves, uma das quais foi a comissária de bordo Doreen Welsh, que teve sérios cortes numa perna. No total, setenta e oito pessoas foram tratadas, a maioria com pequenos ferimentos e por hipotermia. Toda a tripulação do voo 1549 foi mais tarde condecorada com a Medalha de Mestre da Guild of Air Pilots and Air Navigators. No momento da entrega das medalhas, foi dito que; "Esta aterragem de emergência e a evacuação da aeronave, sem a perda de nenhuma vida humana, é uma conquista heroica e única da aviação". Vários foram os fotógrafos e repórteres de imagem que no momento captaram imagens históricas deste acidente que poderia ter tido consequências mais graves.


 

 
 

Texto:
Paulo Nogueira

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

13 LENDAS FAMOSAS PORTUGUESAS

 



  

Portugal é um país extremamente rico em histórias, mitos e antigas lendas, que inspiram costumes e superstições. São às centenas as lendas portuguesas, contos, ditos e crenças populares que fazem da nossa cultura tão rica e interessante. Contadas aos serões nos frios invernos pelos nossos ancestrais, de lobisomens a fadas, bruxas a sereias, fantasmas e almas-penadas a milagres de santos, não há criatura que o nosso folclore não inclua, à excepção, talvez, de vampiros, pois não é tema que faça parte do nosso imaginário lendário. Mas nem todas as lendas portuguesas de terror se tratam. Muitas delas revelam terras e gentes de coragem, histórias de vingança, justiça, amores impossíveis e amores perfeitos, outras dizem respeito a acontecimentos verídicos mas com toques de imaginação, provavelmente para aumentar a carga dramática ou heróica do que realmente sucedeu. Lendas contadas de forma um pouco diferente, consoante a região e quem as conta, mas com a mesma essência. São muitas essas lendas e diversificadas, relembre-mos pois, sem superstições, algumas dessas 13 lendas portuguesas. Como advertência, nem todas as ilustrações apresentadas no artigo se referem às lendas em questão, são muitas delas adaptações do autor.




Lenda da Moura da Ponte de Chaves

Reza a lenda de Chaves que no século XII, uma jovem de origem moura ficara noiva do primo, Abed, filho de um guerreiro mouro que tinha sido feito alcaide depois da retoma das terras Flavienses pelos mouros. A jovem, apesar de ter aceitado o noivado, não amava o futuro marido. Anos mais tarde, os cristãos voltaram para reconquistar Chaves, e a jovem moura foi feita refém por um guerreiro cristão. A moura e o cristão apaixonaram-se vivendo felizes, enquanto o seu prometido e o seu tio fugiram de Chaves. Os cristãos ganharam a guerra restabelecendo-se a paz. Abed, que sabia do caso, nunca perdoou, e voltou à cidade vestido de mendigo, para se vingar. Um dia esperou-a na ponte romana de Trajano, quando a viu aproximar-se, pediu-lhe esmola. A moura, que lhe estendeu a mão, cruzou olhares com ele e o mouro rejeitado rogou-lhe a praga dizendo: "Para sempre ficarás encantada sob o terceiro arco desta ponte. Só o amor de um cavaleiro cristão, não aquele que te levou, poderá salvar-te." Ouviu-se um grito de mulher. A jovem tinha reconhecido Abed. Diz-se que a moura desapareceu como por magia, só umas poucas damas cristãs foram testemunhas. Desesperado, o guerreiro cristão que com ela vivia de tudo fez para a encontrar. Procurou incessantemente na ponte e até pagou para que lhe trouxessem Abed vivo para quebrar o encanto. O amado procurou a sua moura por toda a parte mas nunca a encontrou, acabando por morrer de tristeza e saudade, ao fim de alguns anos. A moura encantada da ponte nunca mais foi vista. Anos mais tarde, diz o povo que, numa noite de S. João, passava um cavaleiro cristão pela ponte quando ouviu murmúrios e pedidos de socorro. Então, uma voz de mulher pediu-lhe para descer ao terceiro arco da ponte e dar-lhe um beijo. Mas o cavaleiro hesitou. Tocou no crucifixo que trazia ao peito, recordando-se dos contos que a mãe lhe costumava contar sobre as desgraças de cavaleiros entregues aos feitiços de mouras encantadas. Perante estes pensamentos, olhou para o cavalo, montou-o e partiu, jurando nunca mais ali passar à meia-noite. Assim, ficou a moura da ponte de Chaves encantada para sempre sob o terceiro arco. Diz a lenda que agora, nas noites de São João, é possível ouvir os lamentos da moura encantada, que está eternamente castigada por se ter apaixonado um dia.
 
 
 
Após a reconquista de  Chaves pelos cristãos,
a jovem moura foi feita refém
por um guerreiro cristão
(arq. priv.)


 

A lenda reza que o jovem guerreiro cristão e a jovem moura
se apaixonaram (arq. pess.)


Abed vestido de mendigo esperou a jovem moura pedindo-lhe esmola
cruzaram olhares e ele rejeitado rogou-lhe uma praga
 (arq. pess.)



Ponte Romana de Chaves, também referida como ponte de Trajano, localiza-se sobre o rio Tâmega
onde reza a lenda que ficou a moura encantada sobre o terceiro arco para sempre (arq. priv.)





A Lenda da Senhora que Passou

Em Vila Verde, Braga, também uma freguesia chamada Paçô ficou marcada por um amor impossível. A lenda de Paçô conta que, certo dia, pai e filha caminhavam pela estrada quando resolveram parar para descansar. A filha, Joana, desceu a um riacho para beber água e se refrescar. De súbito o espanto da jovem veio quando o riacho lhe falou, com voz de homem! Ela, assustada, ouviu, como o riacho lhe dizia que pelo amor que lhe tinha, se transformaria em rio para a seguir. O riacho com voz de homem pediu à jovem Joana que lhe beijasse as águas e dissesse baixinho "Amor", para selar a promessa. A jovem assim fez, mas de seguida correu para o pai que a chamava. À noite, enquanto o pai dormia, Joana esgueirou-se para ver se o riacho a seguira. Desceu deparando-se com um rio! A moça pediu ao rio que se mostrasse na forma de homem, pedido ao que o rio acedeu. No momento em que o rio se fazia homem, o pai de Joana apareceu, vendo a filha com um rapaz, ficou fora de si e levou-a para longe. O rio feito homem só pôde ver a sua amada a desaparecer. No dia seguinte, conta o povo, ouviam-se lamentos com voz de homem vindos dos lados do rio. "A senhora passou por aqui? Passou? Passou?", perguntava a voz. Diz a lenda que de tanto repetir estas palavras, o lugar ficou conhecido por Passô, e o rio chamou-se Rio Homem. Da jovem Joana, nunca mais se soube, mas a sua memória continua viva em Vila Verde.



Reza a lenda que o riacho com voz de homem pediu à jovem Joana
que lhe beijasse as águas e dissesse baixinho "Amor"
 para selar a promessa (arq. pess.)



Diz a lenda que a moça pediu ao rio que se mostrasse na forma de homem,
pedido ao que o rio acedeu (arq. priv.)



Devido a esta lenda o lugar ficou conhecido por Passô, e o rio chamou-se Rio Homem (arq. priv.)





Lenda dos Estremoços ou Estremoz

Conta-se que há muitos séculos um homem, uma mulher e uma criança viajavam numa carruagem pela planície do Alentejo. Ódios políticos e falsos delitos tinham atirado esta família para a estrada sem fim, procuravam por isso um novo lar numa terra bem longínqua. Depois de tão longa viagem, o calor apertava e a sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam de descansar, fugir ao sol dessa planície imensa que ficava para além do rio Tejo. De súbito apareceu ao longe uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto, um tremoceiro, o único abrigo que encontraram no caminho. A família armou uma tenda e ali passou a noite. Na manhã seguinte, foram acordados pelo dono daquelas terras com os seus homens que reclamava da presença da família na sua propriedade sem a sua autorização. Ao ouvir que a família era perseguida, embora injustamente, por delitos que não tinham cometido, o velho proprietário mandou-os sair imediatamente. Sentindo-se insultados, mas de consciência tranquila, os forasteiros recusaram-se a abandonar o abrigo do tremoceiro. Passado algum tempo, pai e mãe deram por falta da filha. Esta tinha ido encontrar-se com o velho proprietário. Disse-lhe que os seus pais eram gente nobre e honesta com capacidade para fazer daquele local uma linda povoação. Convencido pela inteligência, simplicidade e coragem da menina, o velho proprietário foi ter com os pais e aceitou a sua presença nas suas terras e ajuda. Anos mais tarde, a povoação de tão próspera, recebeu o foral do rei D. Afonso III. Foram tantas as sugestões de nomes para a terra, que o velho proprietário resolveu deixar à criança a escolha. Em homenagem à árvore, deu-lhe o nome de Estremoços (nome dado aos tremoços naquela época). Hoje é conhecida por cidade de Estremoz e o tremoceiro esta representado no brasão da cidade.



Há muitos séculos um homem, uma mulher e uma criança
viajavam numa carruagem pela planície do Alentejo
 (arq. priv.)



Sombra larga e acolhedora, como um oásis no deserto, um tremoceiro em pleno Alentejo (arq. priv.)



Convencido pela inteligência e coragem da menina, o velho proprietário
  foi ter com os pais e aceitou a sua presença e ajuda.
Anos mais tarde, a povoação recebeu o foral do rei D. Afonso III
(col. priv.)




O brasão de Estremoz com o tremoceiro da lenda presente
(arq. priv.)



Vista da cidade de Estremoz e o seu castelo na actualidade (arq. priv.)





Lenda da Dama do Pé de Cabra

Desta lenda existem algumas versões, são as seguintes narradas as mais conhecidas. Conta-se que na actual região da Beira Alta, mais concretamente na aldeia histórica de Marialva vivia há muitos séculos atrás uma donzela muito formosa. Um certo dia um nobre encantado com a sua beleza e querendo desposá-la encomendou os serviços de um sapateiro pedindo-lhe que fizesse uns sapatos para a donzela em questão. Como se tratava de uma surpresa o sapateiro teria de arranjar uma maneira de conseguir fazer um molde dos pés da donzela para acertar no tamanho do pé, certo dia e sem que esta desse por isso espalhou farinha aos pés da cama da donzela para que quando esta se levantasse, deixasse a marca na farinha espalhada no chão e assim aconteceu. O sapateiro percebeu pela forma deixada no chão que a donzela tinha "pés de cabra", mas mesmo assim fez uns sapatos adequados. Quando o nobre entrega o presente à donzela, esta com o desgosto de saber que já todos sabiam do seu defeito, atira-se da torre do castelo. A donzela chamava-se Maria Alva, ainda hoje mesmo em ruínas, podemos ver a torre do castelo. Diz a lenda nas crenças populares, que se pode ver a Dama Pé de Cabra vagar na torre de menagem do castelo que se encontra em ruínas. Já numa outra versão, talvez a mais famosa, conta-se que D. Diogo Lopes, nobre senhor da Biscaia, caçava nos seus domínios, quando esperava um porco montês, foi surpreendido ao longe por um lindo cantar de uma linda mulher. De tão encantado ofereceu-lhe o seu coração, as suas terras e os seus vassalos se com ele se casasse. A dama impôs-lhe como única condição a de ele nunca mais se benzer. Só tempos mais tarde, já no seu castelo, D. Diogo se apercebeu que a dama tinha um pé forcado, como o de uma cabra. Não obstante, viveram muitos anos felizes e desta união tiveram dois filhos: Inigo Guerra e Dona Sol. Um dia, depois de uma boa caçada, D. Diogo premiou o seu grande alão com um osso, mas a podenga preta de sua mulher matou o cão para se apoderar do pedaço de javali. Surpreendido com tal violência, D. Diogo benzeu-se. A Dama de Pé de Cabra deu um grito e começou a elevar-se no ar, com a sua filha Dona Sol, saindo ambas por uma janela sob um céu de breu estrelado para nunca mais serem vistas. Com o desgosto, D. Diogo decidiu ir guerrear contra os mouros durante anos, acabando por ficar cativo em Toledo. Sem saber como resgatar o pai, D. Inigo resolveu procurar a mãe, que se tornara, segundo uns, numa fada, segundo outros, numa alma penada. A Dama de Pé de Cabra decidiu ajudar o filho, dando-lhe um onagro, uma espécie de cavalo selvagem, que o transportou a Toledo. Aí, o onagro abriu a porta da cela com um coice e pai e filho cavalgaram em fuga, mas, no caminho, encontraram um cruzeiro de pedra que fez o animal estacar. A voz da Dama de Pé de Cabra instruiu o onagro para evitar a cruz. Ao ouvir aquela voz, depois de tantos anos e sem saber da aliança do filho com a mãe, D. Diogo Lopes benzeu-se, o que fez com que o onagro os cuspisse da cela, a terra tremesse e abrisse, deixando ver o fogo do Inferno, que engoliu o animal. Com o susto, pai e filho desmaiaram. D. Diogo, nos poucos anos que ainda viveu, ia todos os dias à missa e todas as semanas se confessava. Já D. Inigo nunca mais entrou numa igreja e crê-se que tinha um pacto com o Diabo, pois, a partir de então, não havia batalha que não vencesse.

 

O sapateiro percebeu pela forma deixada no chão que a donzela tinha pés de cabra
 mas mesmo assim fez uns sapatos adequados (col. pess.)



Diz a lenda nas crenças populares, que se pode ver a Dama Pé de Cabra vagar na torre de menagem
do castelo de Marialva que se encontra em ruínas (arq. priv.)


 
 
D. Diogo Lopes é surpreendido durante uma caçada
por uma linda mulher que cantava (arq. pess.)
 
 

Diz a lenda que a Dama de Pé de Cabra deu um grito e começou a elevar-se no ar com a sua filha Dona Sol,
saindo ambas por uma janela sob um céu de breu estrelado para nunca mais serem vistas (arq. priv.)



D. Diogo Lopes benzeu-se, o que fez com que o onagro os cuspisse da cela, a terra tremesse e abrisse,
deixando ver o fogo do Inferno, que engoliu o animal (col. pess.)



D. Inigo a partir de então, não havia batalha que não vencesse contra os mouros (arq. priv.)




Lenda de Santa Iria

Conta a história que na antiga Nabância (hoje Tomar) nasceu Iria, uma bela jovem de seu nome Iria ou Eirena, pertencente a uma rica família da região. Desde cedo, Iria descobriu a sua vocação religiosa tendo entrado para um mosteiro. A jovem Iria recebeu educação esmerada e professou num mosteiro de monjas beneditinas, o qual era governado pelo seu tio, o abade Sélio. Devido à sua beleza e inteligência, Iria cedo congregou a afeição das religiosas assim como das pessoas da terra, sobretudo dos jovens e dos fidalgos, que disputavam entre si as virtudes de Iria. A região à época era governada pelo príncipe Castinaldo, cujo filho Britaldo tinha por hábito compor trovas junto da igreja de S. Pedro. Um dia, Britaldo viu Iria, ficando perdidamente apaixonado por ela. Ficou doente de amor e em estado febril, desesperado, reclamava a presença da jovem. Iria pediu-lhe que a esquecesse, porque o seu coração tal como o seu amor eram de Deus. Britaldo concordou, sob a condição de que ela não pertencesse a mais nenhum homem. Dos amores de Britaldo teve conhecimento Remígio, um monge director espiritual de Iria, ao qual também a beleza da donzela não lhe passara despercebida. Ardendo de ciúmes, o monge Remígio deu a Iria uma tisana que se pretendeu embruxada, e que lhe fez surgir no corpo opulência própria da gravidez. Por esse motivo ela foi expulsa de imediato do convento, recolhendo-se junto do rio para orar de desespero. Britaldo ao saber ficou furioso, perdido de ciúmes, seguiu-a num dos seus habituais passeios ao rio Nabão e aí, Iria foi assassinada à traição por um servo de Britaldo ou pelo próprio, foi apunhalada e atirado o seu corpo à água. O corpo de Iria foi levado pelas águas do rio Nabão até ao rio Zêzere e daí ao Tejo. Depois de muitas buscas feitas e quando estavam quase a desistir, o corpo de Iria foi encontrado junto da cidade de Scalabis (Santarém), encerrado como por milagre num belo sepulcro de mármore. Quiseram retirá-lo, mas as águas do Tejo, que tinham baixado de repente para mostrar o túmulo, voltaram a subir, cobrindo para sempre o sepulcro da mártir. O povo rendeu-se ao milagre e foi consideranda Santa, a partir de então, a cidade passou a chamar-se de Santa Iria, mais tarde Santarém. Cerca de seis séculos depois, diz a lenda que as águas do Tejo voltaram a abrir-se para revelar o túmulo à rainha Santa D. Isabel que venerava Santa Iria, mandando colocar o padrão que ainda hoje se encontra na Ribeira de Santarém onde se pode ler nas inscrições:

A D. S IRENAM OR D. INIS DL NEDIOTI


HICTAGVS IRENASACROTEGITOSSA SE PVLCHRO


QV.ª VTVIRCO MARTIR EVLGETINARCEPOLI

 


Diz a lenda que um dia, Britaldo viu Iria, ficando
perdidamente apaixonado por ela (col. pess.)



Dos amores de Britaldo teve conhecimento Remígio, monge director 
espiritual de Iria, ao qual também a beleza da donzela
não lhe passara despercebida (arq. pess.)



O assassinato de Iria numa litografia de Manuel Macedo
e Alfredo Roque Gameiro, 1904 (arq. priv.)



Rio Nabão em Tomar que segundo a lenda levou Iria nas suas águas (foto Paulo Nogueira)



Convento de Santa Iria de Tomar junto ao rio Nabão (arq. priv.)

 
 
A rainha D. Isabel, mandou colocar o padrão a Santa Iria que ainda hoje se encontra
 na Ribeira de Santarém (arq. priv.)
 
 


Lenda da Senhora da Nazaré

Conta a lenda que ao nascer do dia 14 de setembro de 1182, D. Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, caçava junto ao litoral, envolto por um denso nevoeiro, perto das suas terras, quando avistou um veado que de imediato começou a perseguir. O veado dirigiu-se para o cimo de uma falésia. D. Fuas, no meio do nevoeiro, isolou-se dos seus companheiros. Quando se deu conta de estar no topo da falésia, à beira do precipício, em perigo de morte, reconheceu o local. Estava mesmo ao lado de uma gruta onde se venerava uma imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus. Rogou então, em voz alta: "Senhora, Valei-me!". De imediato, miraculosamente o cavalo estacou, fincando as patas no penedo rochoso suspenso sobre o vazio, o Bico do Milagre, salvando-se assim o cavaleiro e a sua montada da morte certa que adviria de uma queda de mais de cem metros. Diz o povo que ainda se podem ver as marcas das ferraduras do cavalo de D. Fuas Roupinho marcadas na rocha. Após esta situação, conta a lenda que D. Fuas Roupinho desmontou, desceu até à gruta para rezar e agradecer pelo milagre. De seguida mandou os seus companheiros chamar pedreiros para construírem uma capela sobre a gruta, em memória do milagre, a Ermida da Memória, para aí ser exposta à veneração dos fiéis a milagrosa imagem. Antes de entaipar a gruta os pedreiros desfizeram o altar ali existente e entre as pedras, inesperadamente, encontraram um cofre em marfim contendo algumas relíquias e um pergaminho, no qual se identificavam as relíquias como sendo de São Brás e São Bartolomeu, relatando igualmente a história da pequena imagem esculpida em madeira, policromada, representando a Santíssima Virgem Maria sentada num banco baixo a amamentar o Menino Jesus. Segundo o pergaminho a imagem terá sido venerada desde os primeiros tempos do cristianismo em Nazaré, na Galileia, tendo sido salva no século V, dos movimentos iconoclastas, pelo monge grego Ciríaco. Este transportou-a até ao mosteiro de Cauliniana, perto de Mérida, onde permaneceu até 711, ano da batalha de Guadalete, após a qual derrotadas pelos muçulmanos, as forças cristãs fugiram para Norte. A imagem foi então trazida por Frei Romano, monge de Cauliniana, e por D. Rodrigo, o último rei Visigodo. Perante o avanço islâmico, o Rei e Frei Romano, um dos monges ali residentes, decidiram partir para lugar seguro, levando consigo a pequena imagem mariana, um cofre e caixa com relíquias, assim como um relato das circunstâncias da fuga. Chegaram ao Monte de São Bartolomeu, nas proximidades da actual Nazaré. O monarca e o monge separaram-se tendo o primeiro permanecido no local e o segundo levado o ícone juntamente com as relíquias para um monte vizinho. Aí Frei Romano para se abrigar construiu um pequeno nicho entre os rochedos, com a sua morte e a partida de D. Rodrigo para o norte, a imagem ficou esquecida na pequena lapa construída pelo monge, no actual promontório do Sítio (Nazaré).



Representação do milagre a D. Fuas Roupinho
durante uma caçada (arq. priv.)



Bico do Milagre, diz o povo que ainda se podem ver as marcas das ferraduras do cavalo
de D. Fuas Roupinho marcadas na rocha (arq. priv.)



Representação da chegada da imagem de Nossa Senhora ao promontório,
com os seus protagonistas, D. Rodrigo e Frei Romano (arq. priv.)



Imagem de Nossa Senhora da Nazaré
(arq. priv.)



Capela da Memoria na Nazaré mandada erguer por D. Fuas Roupinho (foto Paulo Nogueira)



Registo do séc. XVIII alusivo ao Milagre da Senhora da Nazaré
e á sua lenda (col. pess.)

 



Lenda do Galo de Barcelos

Conta-se que os habitantes de Barcelos andavam alarmados com um crime, do qual ainda não se tinha descoberto o criminoso que o cometera. Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades resolveram prendê-lo, apesar dos seus juramentos de inocência, que estava apenas de passagem em peregrinação a Santiago de Compostela, em cumprimento de uma promessa como era tradição na época, sendo devoto fiel de São Paulo e da Virgem Santíssima. No entanto, acabou sendo condenado à morte na forca. O homem desesperado com esta decisão e sabendo que estava inocente, pediu que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização, levaram-no à residência do magistrado, que nesse momento se banqueteava numa grande sala com alguns amigos. O galego voltou a afirmar a sua inocência e, perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a grande mesa junto de outras iguarias, exclamando:
- "É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem!"
Perante gargalhadas e risos, que não se fizeram esperar, mas pelo sim pelo não, ninguém tocou no galo. O juiz empurrou o prato para o lado e ignorou o apelo. Pois o que parecia impossível aconteceu, quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ergueu-se na mesa e cantou perante o espanto de todos os que zombaram do pobre galego. Após tal acontecimento mais ninguém duvidava da inocência daquele galego peregrino. Compreendendo o seu erro, o juiz correu para a forca descobrindo que o galego se salvara graças a um nó mal feito. O pobre homem foi imediatamente solto e mandado em paz e dado como encerrado o caso. Alguns anos mais tarde, o galego teria voltado a Barcelos para esculpir o Monumento do Senhor do Galo em louvor à Virgem Maria e a Santiago Maior. Monumento que se encontra actualmente no Museu Arqueológico de Barcelos. Diz-se que o primeiro galo em cerâmica baseado nesta lenda foi feito pelo artesão Domingos Côto. Desde então, o Galo de Barcelos passou a figura popular e foi-se espalhando, fortalecendo ao longo das décadas a tradição, imortalizado na arte não só da cidade de Barcelos, mas de todo Portugal, seja de cerâmica, madeira ou outros materiais. É o souvenir português mais famoso!
 


Galego peregrino para Santiago de Compostela que se tornou suspeito
 de um crime que não cometeu (col. pess.)

 

Banquete do magistrado onde o galo assado diz a lenda que cantou perante a inocência do galego
(arq. priv.)



Monumento do Senhor do Galo em louvor à Virgem Maria
e a Santiago Maior esculpido pelo galego
condenado injustamente
(foto Paulo Nogueira)



A figura típica em cerâmica do tradicional galo de Barcelos
 que surgiu da lenda (arq. pess.)





Lenda do Penhor de Justiça
 
Uma lenda local narra que D. Garcia, alcaide do Castelo de Penha Garcia, há muito que cortejava D. Branca, uma jovem de rara beleza, filha do poderoso governador de Monsanto, uma aldeia próxima. Conta-se que numa certa noite de grande temporal, D. Garcia raptou D. Branca da casa de seu pai. Nessa mesma noite o governador deu ordem aos seus soldados para procurarem e perseguirem por todas as redondezas D. Garcia, afim de o capturar e fazer justiça. Após meses de perseguição implacável, pelas terras da Beira, D. Garcia finalmente acabou por ser capturado nas encostas da serrania pelos homens do governador. Embora as práticas do género, à época, fossem punidas com a pena capital, diante dos insistentes apelos da filha, que implorou a seu pai, o poderoso governador poupou a vida a D. Garcia, condenando-o, alternativamente, à perda do braço esquerdo, como penhor de justiça. Conta-se que desde à séculos, muitos terem já visto o vulto do fantasma do decepado D. Garcia em noites de grandes temporais. De acordo com os habitantes locais, a figura lendária do decepado D. Garcia, continua vigiando, do alto das torres, o morro sobranceiro de Monsanto.



Castelo de Penha Garcia onde D. Garcia era alcaide, desenho de Duarte de Armas em 1509 (arq. priv.)



Numa noite de grande temporal, D. Garcia raptou D. Branca da casa de seu pai (col. pess.)



Conta-se que desde à séculos, muitos terem já visto o fantasma
do decepado D. Garcia vigiando do alto das torres
em noites de grandes temporais
(col. pess.)



Castelo de Penha Garcia na actualidade, onde há quem diga que em noites de temporal
 D. Garcia continua vigiando nas muralhas (arq. priv.)



Castelo de Monsanto sobranceiro a Penha Garcia na actualidade (arq. priv.)





Lenda da Boca do Inferno

Esta lenda passa-se na zona de Cascais, onde se conta que em tempos existiu um castelo habitado por um feiticeiro demoníaco, (a par da versão de diz ser um gigante malévolo). Esse feiticeiro e figura malévola escolheu a mais bela donzela da zona para se casar, mas ao vê-la em pessoa e perante a rejeição desta, decidiu prendê-la e esconde-la, louco de ciúmes pela beleza desta. Obcecado pela beleza da jovem e irritado por não ser correspondido, o homem fechou-a numa torre inacessível, perto do mar e contratou um fiel cavaleiro para a guardar. A donzela ficou confinada a uma torre solitária, com o cavaleiro de guarda, sem nunca se poderem ver. Os anos passaram e os dois conversavam, fazendo companhia um ao outro, até que o cavaleiro um dia, atendendo à sua curiosidade, decidiu subir à torre para ver a sua amiga. Diz a lenda que, quando o cavaleiro abriu a porta, ficou embasbacado com a beleza daquela donzela e rapidamente se enamorou dela. Os apaixonados decidiram fugir a cavalo, esquecendo-se que o feiticeiro enfeitiçara a donzela e de tudo sabia. Assim, fugiram num cavalo branco do feiticeiro e galoparam seguindo os rochedos da costa, numa bela noite de luar. O feiticeiro, enraivecido e sedento de vingança, invocou uma tempestade fortíssima que atingiu os rochedos por onde os amantes fugiam. Conta a lenda que os rochedos abriram-se como uma boca, e as águas engoliram a donzela e o cavaleiro, despenhando-os no mar irascível. Esse buraco nunca mais fechou e em dias de tempestade parece que o próprio local se lamenta da tragédia que ali se viveu. A população local começou a chamar-lhe "Boca do Inferno", pelo destino infeliz que o par teve. O povo em dias de vento e tempestade, parecem querer contar a todos a infeliz história daqueles dois amantes.



Porto e vila de Cascais no séc. XVI, numa gravura publicada
por Georg Braun e Frans Hogenberg (arq. priv.)


O feiticeiro ou gigante malévolo da lenda que vivia em Cascais (arq. priv.)



Diz a lenda que o cavaleiro ficou surpreso com a beleza daquela donzela
 e rapidamente se enamorou dela (col. pess.)


Os rochedos abriram-se como uma boca, e as águas engoliram
a donzela e o cavaleiro, despenhando-os no mar irascível
 (col. pess.)



Boca do Inferno na actualidade em dia de mar agitado e tempestade (arq. priv.)





Lenda da Lagoa do Negro
 
Esta lenda conta a história de como a Lagoa do Negro, na ilha Terceira no arquipélago dos Açores, apareceu. Conta-se que, há séculos, existia uma família nobre na ilha Terceira, com escravos negros como era habito à época. A única filha do patriarca era submissa e receava o pai, conta-se que aceitou sem questionar um casamento imposto. Mas não havia amor, no entanto nessa época a mulher, por educação e honestidade, submetia-se ao marido. Porém ninguém manda nos sentimentos, nem mesmo a mulher mais digna. A moça, presa num casamento por conveniência do pai, apaixonou-se por um dos escravos da casa, que também a amava. Nessa época os criados negros de então não eram vistos como seres humanos, com sentimentos. Ninguém sequer imaginava que tivessem atrevimento de se apaixonar pela sua senhora. Contrariando todas estas leis, criadas pelos interesses dos homens, o escravo negro e a morgada enamoraram-se, denunciando apenas no olhar tímido, mas expressivo, o sentimento que os unia. Um dia o escravo negro falou com a sua amada e, juntos, chegaram à conclusão que o seu amor era impossível no mundo em que viviam. Só poderiam viver juntos se fugissem. No entanto, o marido da morgada tinha ordenado a uma das aias da esposa que a seguisse por todo o lado. Certo dia a aia que seguia a morgada para todo o lado, escutou os apaixonados a falar do seu amor, tendo de imediato ido contar ao seu amo. Este, vexado e enraivecido, ordenou que se prendesse o escravo. O homem negro, ao ouvir cães de caça e cavalos ao longe, percebeu que o buscavam pondo-se em fuga. Fugiu pelos montes e vales, até não mais conseguir correr, parou numa região no interior da ilha deixando-se cair em desespero. Diz a lenda que o escravo negro começou a chorar tanto e com tanta tristeza, que as suas lágrimas fizeram nascer uma lagoa à sua frente. Assustado e encurralado, ouvindo os cavalos cada vez mais próximos, correu colina acima atirando-se para a lagoa, onde morreu afogado. Localiza-se esta Lagoa do Negro na freguesia dos Altares, concelho de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores num ambiente de aspecto escandinavo.



O escravo negro e a morgada enamoraram-se, denunciando apenas no olhar tímido,
mas expressivo, o sentimento que os unia (col. priv.)



O homem negro, ao ouvir cães de caça e cavalos ao longe,
percebeu que o buscavam pondo-se em fuga (arq. priv.)



Diz a lenda que o escravo negro começou a chorar tanto e com tanta tristeza,
que as suas lágrimas fizeram nascer uma lagoa à sua frente (col. priv.)



Lagoa do Negro localiza-se na freguesia dos Altares, concelho de Angra do Heroísmo,
na ilha Terceira, nos Açores (foto Duarte Diniz)





Lenda da Senhora do Monte

Conta-se que no final do século XV, a cerca de 1 quilómetro acima de onde se situa actualmente a igreja de Nossa Senhora do Monte, na localidade do Terreiro da Luta, uma menina brincava durante a tarde com uma pastorinha. A pastorinha ofereceu uma merenda a esta menina. A pastorinha, muito satisfeita, contou o sucedido à sua família, que não acreditou na sua história, por ser improvável que naquela mata deserta e tão afastada da povoação aparecesse uma menina. Na tarde do outro dia, a menina voltou a brincar com a pastorinha que voltou a dar-lhe merenda, e a pastorinha contou novamente à família. No dia seguinte, à hora indicada pela pastorinha, o seu pai foi de modo oculto observar a cena. Foi quando viu sobre uma pedra uma pequena imagem de Maria Santíssima e, à sua frente, a inocente pastorinha que se apressou a dizer-lhe que era aquela imagem a menina de quem lhe falava. O pai, perplexo, não ousou tocar a imagem e comunicou o facto à autoridade, que mandou colocar a imagem na Capela da Encarnação, próxima da actual igreja de Nossa Senhora do Monte. Deu-se, desde então, este nome àquela venerada imagem. Outra versão da lenda conta que nos primeiros tempos da colonização da ilha da Madeira, havia uma ribeira de água límpida e abundante, rodeada de terras férteis. Conta-se que um dia, um homem abastado canalizou a água da ribeira para as suas terras. A água era vital para a sobrevivência dos demais, pelo que, desesperada, a população resolveu fazer uma procissão à Senhora do Monte, implorando a sua ajuda. Pouco depois a água voltou a correr na ribeira e o povo, usando em seu benefício a ideia do desvio da água, construiu regos (ou cales) que tornaram férteis muitos campos e quintas. A ribeira ficou a ser conhecida como a ribeira de Cales e o milagre da Senhora do Monte ficou para sempre na memória popular madeirense.

 

Representação da lenda da aparição de Nossa Senhora Monte a uma menina
no final do séc. XV (col. priv.)



Imagem de Nossa Senhora do Monte (arq. priv.)



A ribeira ficou a ser conhecida como a ribeira de Cales
e o milagre da Senhora do Monte ficou para sempre
 na memória popular madeirense (arq. priv.)



Levada nas serras da ilha da Madeira também associadas à lenda de Cales
e Nossa Senhora do Monte (arq. priv.)



Igreja e Santuário de Nossa Senhora do Monte no Funchal na actualidade
(foto Paulo Nogueira)





Lenda das Obras de Santa Engrácia

Diz a lenda que em meados de 1630, uma bela donzela de seu nome Violante, filha de um importante fidalgo de Lisboa, ter-se-ia perdido de amores por um cristão-novo, de seu nome Simão Pires Solis. O pai da jovem, que não via com bons olhos o amor dos dois apaixonados, mandou encerrar a filha no convento de Santa Clara que se situava ao lado da igreja de Santa Engrácia, ainda em construção. O jovem Simão Pires Solis não negou o seu amor por Violante e cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante. Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele. Por coincidência, nessa noite, foi roubado o relicário da mártir portuguesa Santa Engrácia, tão cara à infanta D. Maria. No dia seguinte, na data combinada, Simão Pires Solis foi acordado pelos homens do rei, que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia, situada muito perto do convento. Para não comprometer Violante, Simão Solis não quis revelar a razão porque havia sido visto no local na noite anterior. Apesar de invocar repetidamente a sua inocência, Simão Solis foi preso e condenado à morte na fogueira devido ao facto e agravado pela sua ascendência judaica. A cerimónia da execução teve lugar junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já haviam começado. Reza a lenda que quando as labaredas envolveram o corpo de Simão Solis, este gritou que era tão certo morrer inocente como aquelas obras nunca mais acabarem. Ainda, segundo a lenda, anos mais tarde, a noviça Violante terá sido chamada à presença de um moribundo quando este estava às portas da morte, pois queria confessar-lhe que tinha sido ele o ladrão do relicário de Santa Engrácia. Conhecedor da relação secreta de Simão Solis e Violante, tinha incriminado o jovem rapaz, que por ali era visto quase todas as noites, e queria agora pedir perdão à mulher que perdera o seu amor da maneira mais cruel e injusta que alguém poderia perder. No entanto o perdão foi aceite por Violante. Certo é que as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão Pires Solis pareciam nunca mais terminar. De tal forma, que o povo se habituou a comparar tudo aquilo que parece não ter fim às obras de Santa Engrácia, surgindo daí o ditado popular.

 

Conta a lenda que o pai da jovem Violante mandou encerrar a filha no convento de Santa Clara
que se situava ao lado da igreja de Santa Engrácia ainda em construção (col. pess.)



Relicário da mártir portuguesa Santa Engrácia que,
diz a tradição ter sido roubado no ano de 1630
dando origem à lenda (col. priv.)



Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão Solis, este gritou que era tão certo morrer inocente 
como aquelas obras nunca mais acabarem (col. priv.)



As obras da nova igreja de Santa Engrácia ainda em meados dos sec. XIX
in Archivo Pittoresco (arq. pess.)



Fase final de construção da igreja de Santa Engrácia em 1966 (arq. AML)



Igreja de Santa Engrácia, hoje Panteão Nacional já terminada 
(foto Paulo Nogueira)


 


Lenda da Costureirinha

 Esta é uma das lendas que mais versões tem por todo o Baixo Alentejo. Conta uma delas que no início do século XX havia no Baixo Alentejo uma costureira que trabalhava muito, incluindo ao Domingo. Por isso, por não respeitar o dia sagrado segundo a tradição católica, Deus castigou-a e fez com que andasse a vaguear no mundo dos vivos, depois da sua morte. Outra versão é que esta costureira tinha feito uma promessa a S. Francisco, em vida, e nunca a cumpriu até morrer. Assim, deveria redimir-se, passando um período de errância, antes de subir aos céus. O motivo não se sabe, mas o que se sabe é que a costureirinha se tornou alma-penada e vagueava entre os vivos, invisível. Outras versões contam que em tempos que já lá vão, uma certa costureira fez um vestido de noiva para a filha, mas esta morreu antes do casamento. Cheia de tristeza, a senhora terá continuado a costurar por toda a eternidade. Conta-se ainda que uma certa costureira adoeceu gravemente. Com intuito de recuperar a sua saúde prometeu que doaria a sua máquina de costura caso melhorasse. Porém, assim que recuperou esqueceu-se do prometido, por isso quando faleceu, como castigo, foi obrigada a continuar a costurar. Em todas as versões diz-se até hoje que no silêncio da noite, ouvia-se a costureirinha a coser, e muitos ouviam a máquina a trabalhar, a tesoura a cortar, o dedal a cair. No entanto, esta assombração não assustava os alentejanos, pois a costureirinha era familiar. E agora, será que ainda se sente?



A costureira que trabalhava muito, incluindo ao Domingo
e por não respeitar o dia sagrado da tradição
 católica foi castigada (col. pess.)



Certa costureira fez um vestido de noiva para a filha, mas esta morreu antes do casamento
(arq. priv.)



Costureira que na lenda se esqueceu da sua promessa
continuando por isso a sua labuta (col. pess.)



Em todas as versões diz-se até hoje que no silêncio da noite
 ouviam a máquina da costureira a trabalhar,
a tesoura a cortar, o dedal a cair
 (arq. priv.)




Se estas lendas e outras mais têm o seu quê de verdade, não sabemos, e talvez nunca venhamos a saber. No entanto algumas destas lendas portuguesas deram nome a cidades, localidades, a vilas, e até originaram rituais. Agora resta-nos esperar que os que ainda conhecem muitas dessas lendas, as continuem a contar e a passar de geração em geração.



Resta-nos esperar que os que ainda conhecem muitas dessas lendas,
as continuem a contar e a passar de geração em geração
(arq. pess.)







Texto:
Paulo Nogueira

 

Fontes e bibliografia:
HERCULANO, Alexandre, Lendas e Narrativas, Imprensa Nacional/Viúva de Bertrand e Filhos, Lisboa, 1851
RAMOS, Feliciano, Contos, Lendas e Narrativas, Seleccção, introdução e anotações literárias, 3a edição revista e ampliada, Livraria Cruz, Braga, 1959
MELLO, Fernando Ribeiro de, Antologia do Conto Fantástico Português, Colecção Antologia, Edições Afrodite, Lisboa 1974 
FURTADO-BRUM, Ângela, Açores, Lendas e Outras Histórias (2a. ed), Ribeiro & Caravana Editores, Ponta Delgada, 1999
MOUTINHO, José Viale, Portugal Lendário, Tesouro da tradição popular, Circulo de Leitores, Lisboa, 2015