terça-feira, 14 de abril de 2026

QUINTAS E PALÁCIOS EM LISBOA E NOS SEUS ARREDORES

Durante os séculos XVII, XVIII  e XIX vão surgindo grandes quintas nos arredores da cidade de Lisboa que eram constituídas, na sua maioria, por uma casa apalaçada com dois pisos, térreo e superior, área de lazer, jardins, capela e equipamentos de apoio às actividades agrícolas como estrebarias, currais, campos de rega e poços. Eram na sua maioria casas de campo da elite da capital Lisboa onde se juntava o lazer ao rendimento. A cidade de Lisboa devido ao seu clima, luz, situação geográfica e sendo a capital de um vasto império colonial durante séculos, resultaram numa grande quantidade de palácios e quintas mandados construir por famílias nobres ao longo dos tempos.  É pois vasta a quantidade de quintas, palácios e palacetes na cidade de Lisboa e nos seus arredores, algumas destas propriedades já desaparecidas ou em vias de desaparecer, mas também alguns casos excelentes exemplos de restauro e reedificação. Umas sendo propriedades privadas ou do Estado, com mais ou menos importância que outras, mas todas elas integradas numa zona, num tempo e época com histórias para contar, influenciando de forma directa e indirecta a origem de certas localidades, assim como toponímias da capital. De todas essas propriedades, existentes, é aqui dado a conhecer alguns desses exemplos.


Palácio de Pedro de Roxas e Azevedo ou dos Senhores da Trofa

Este edifício está situado entre a Calçada da Graça e a Travessa das Mónicas, frente ao Jardim da Graça, na actual Freguesia de São Vicente em Lisboa. É um imóvel do século XVII, rasgado por portais e janelas em cantaria trabalhada, mantendo ainda hoje uma fachada seiscentista, sobre o jardim, que não corresponde nada ao seu aspecto interior. Numa gravura de Bráunio de meados de 1596, mostra-nos no local, com suficiente exactidão, um bloco de edifícios, em forma de trapézio, conjunto de aparente grandeza, com um vasto pátio interior dotado de uma cisterna. No local desses edifícios, Pedro de Roxas e Azevedo  (1594 - 1642), fidalgo da Casa Real, conselheiro da Fazenda de Capa e Espada, provedor da Casa da Índia, alcaide-mor de Portalegre, que, em alta posição, manda construir, segundo documentação: "un noble palacio en Lisboa, junto al convento de Gracia." As limitações actuais do edifício enquadram-se mutatis mutandis no que vem na planta de Lisboa de 1650, de Tinoco, data muito aproximada da construção de Pedro Roxas. Admite-se que Pedro de Roxas e Azevedo, herdeiro ou comprador, terá aproveitado parte do existente ou, fazendo dele tábua rasa, erguera tudo de novo desde os alicerces. De referir que esta zona da cidade, à época era essencialmente agrícola e permaneceu durante séculos muito pouco habitada. A partir do século XVI começam a construir-se vários palácios, como o dos Condes de Vale dos Reis (actual Vila Sousa), o de António Ribeiro Barros (perto do Convento das Mónicas), o Palácio Figueira (calçada da Graça) e o dos Senhores de Trofa. 


Frontão do Palácio dos Senhores da Trofa  na Calçada da Graça, na actualidade 
(foto Paulo Nogueira)


Gravura de Braúlio de Lisboa em 1596, onde na marca circular 
se vê o local onde Pedro  Roxas e Azevedo 
mandou construir o seu palácio 
(arq. pess.)


Construções do palácio de Pedro  Roxas e Azevedo em 1596, 
in gravura de Braúlio (arq. pess.)




Palácio dos Senhores da Trofa na Calçada da Graça em 1939, foto Eduardo Portugal (arq. AML)



Planta toponímica de 1650 com a localização do palácio dos Senhores da Trofa,
 numa gravura de Tinoco (arq. pess.)



Já no século XVIII, Luiz Thomaz de Lemos de Carvalho e Vasconcellos, 9º senhor da Trofa, foi o 1º senhor do palácio da Calçada da Graça, em Lisboa. Moço fidalgo da Casa Real (15.6.1709), foi capitão-mor de Aveiro (16.2.1732) e superintendente das caudelarias da comarca. Nasceu a 13.3.1697 na Casa da Trofa e faleceu a 27.10.1756, com 59 anos de idade, indo a sepultar ao panteão da família. Este foi um dos poucos edifícios que não ruíram com o Grande Terramoto de 1755. O portal de entrada que ainda mostra sinais da sua imponência, encimado pelo brasão dos Senhores da Trofa, do séc. XVIII no frontão do palácio, desemboca por um corredor sob o palácio e é sustentado por um arco de volta perfeita. Estendendo-se ao longo de três grandes blocos, forma um pátio, conhecido como "Pátio do Barbosa". No interior, as casas distribuem-se em redor do que foi, possivelmente, o pátio de honra, no centro do mesmo pátio ainda podemos ver o que resta da antiga cisterna. O edifício que foi o Palácio dos Senhores da Trofa (Carvalhos e Lemos), veio mais tarde à posse de Francisco Barbosa, que o herdou de um seu familiar com o mesmo nome. Após o Grande Terramoto de 1755, e à semelhança de muitos imóveis na cidade de Lisboa que se encontravam desabitados, acabaram sendo ocupados por muitas famílias desalojadas desta tragédia que assolou a cidade de Lisboa em especial. Segundo um Auto de Posse dos Senhores da Trofa de 28 de julho de 1795, há menção de vários espaços do palácio ocupados por diferentes pessoas identificadas no documento. Entre os quais o Palácio do Lemos, Senhores da Trofa no Largo e Calçada da Graça, em Lisboa, que tomou D. Isabel Antónia do Carmo de Lemos e Roxas de por morte de seu tio Bernardo de Lemos e Roxas.


Brasão dos Senhores da Trofa, do séc. XVIII no frontão do palácio
(arq. pess.)


Auto de posse dos Senhores da Trofa em 28 de Julho de 1795 
(arq. priv.)



Este imóvel, igualmente e à semelhança de outros da cidade de Lisboa, com a crescente urbanização da capital a partir do século XIX, acabou integrada no novo urbanismo da cidade e fazendo parte de um dos Bairros da Capital. Dado que certas dependências do palácio foram ficando vagas, é possível que, ainda no final do século XVIII, este imóvel tenha vindo gradualmente a ser ocupado por famílias deslocadas de outros pontos da cidade, situação que será acelerada com o século XIX industrial. Todos os espaços interiores do antigo palácio foram alterados e totalmente descaracterizados, tendo sido convertidos em habitações, algumas com condições muito precárias. Aqui foi instalada no pátio principal do palácio, uma vila habitacional, onde muitas famílias aí nasceram e viveram durante gerações. Do edifício original apenas o frontão mantêm alguns traços arquitectónicos originais, com alterações posteriores. Esta vila ficou conhecida pela designação de "Pátio do Barbosa", por ter pertencido a Francisco Barbosa, ou "Pátio das Cobras", provavelmente, conta-se, devido a certos moradores mais conflituosos, que aqui terão vivido. É hoje uma mole construída e intensamente ocupada ao longo da Calçada da Graça, desde o Largo da Graça até ao Largo de Santo André. Já no início do século XXI este imóvel foi adquirido por um particular tendo sido totalmente remodelado e requalificado no seu interior. Uma parte do edifício alberga actualmente um hostel, à semelhança do que sucedeu em muitos espaços da cidade de Lisboa, ainda um bar e um restaurante típico.


Palácio dos Senhores da Trofa na Calçada da Graça em meados dos anos 40
 já adaptado a vila  habitacional, foto Paulo Guedes (arq. AML)


Planta toponímica de 1956 com a localização 
do palácio dos Senhores da Trofa, 
autoria do engº A. E, Abrantes 
(arq. pess.)


Aspecto do pátio interior do palácio dos Senhores da Trofa 
em meados de 1980 (arq. priv.)



Complexo que foi outrora o palácio dos Senhores da Trofa, 
depois das sucessivas adaptações na actualidade 
pelo Googlemaps


Fachada do Palácio dos Senhores da Trofa na Calçada da Graça na actualidade (arq. priv.)


Aspecto do pátio de entrada do palácio dos Senhores da Trofa 
na actualidade após requalificação (foto Paulo Nogueira)


Parte lateral do palácio dos Senhores da Trofa vista da Calçada da Graça 
na actualidade após a requalificação (foto Paulo Nogueira)


Esquina do edifício do palácio dos Senhores da Trofa 
com detalhes arquitectónicos do séc. XVII, 
vista da Calçada da Graça na actualidade 
(foto Paulo Nogueira)


Palácio dos Senhores da Trofa visto do jardim da Graça na actualidade 
(foto Paulo Nogueira)


Palácio dos Senhores da Trofa e zona envolvente visto a partir do jardim da Graça 
na actualidade (foto Paulo Nogueira)


Vista da área onde se situa o outrora palácio dos Senhores da Trofa, 
depois das sucessivas adaptações na actualidade pelo Googlemaps





Texto: 

Paulo Nogueira


Bibliografia:

PROENÇA, Raul, (dir. de), Guia de Portugal, Vol. I, Lisboa, 1924 

 LEÃO, Luís Ferros Ponce de, Portas e Brasões de Lisboa, Lisboa, s.d. 

ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VII, Lisboa, 1950 

SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Depois do Terramoto. Subsídios para a História dos Bairros Ocidentais de Lisboa, Vol. IV, Lisboa, 1967 

Olisipo, Boletim do Grupo de Amigos de Lisboa, nº 142 – 143, Anos 1979 - 1980