Acerca dos navios adquiridos e utilizados pelo rei D. Carlos de Bragança (1865 - 1908), é habitual referir quatro iates, que (por comodidade) designavam-se Amélia I, II, III e IV. A designação dada às embarcações em honra da esposa do rei D. Carlos I, Amélia de Orleães, de seu nome completo em francês: Marie Amélie Louise Hélène d’Orleães (1865 – 1951), e a última rainha consorte de Portugal e Algarves de 1889 até ao assassinato do marido em 1908. Quando, em boa verdade, houve uma outra embarcação com esse nome que, jamais, é incluída nessa lista. Talvez pelo facto desse primeiro iate "Amélia" ser propriedade privada do príncipe real (contrariamente aos outros, que foram integrados na Armada Portuguesa) e apresentar características muito diferentes das dos navios sucessores, usados, simultaneamente, como objectos de recreio e como unidades de apoio aos estudos da oceanografia, tão apaixonadamente desenvolvidos pelo rei D. Carlos I de Portugal. Muitos foram os desenhos, aguarelas e ilustrações, realizadas pelo rei D. Carlos I ao longo de anos de todas as suas belas embarcações que foi possuindo, cada uma com características diferentes umas das outros.
Iate Amélia I
Construído pelos estaleiros ingleses W. Alissup & Co, de Preston, em 1878, tendo sido o ex-Ossian, ex-Dava e ex-Mast. Foi adquirido, dez anos depois, pelo rei D. Carlos I em 1888, chegando a Cascais em 3 de Setembro deste ano. O seu casco era de ferro, possuía um comprimento de 33,84 metros, deslocava 147 toneladas e atingia uma velocidade de 10 nós e dispunha de propulsão mista: vela e vapor. Como meio propulsor principal, dispunha de uma máquina Compound de dois cilindros verticais com 30HP. Tinha três embarcações e vários apetrechos para os estudos oceanográficos a que o monarca se dedicava. Adquirido, em segunda mão, por D. Carlos, duque de Bragança, recebeu o nome de "Amélia", tendo a designação oficial de iate de recreio, embora tenha servido de base móvel aos primeiros trabalhos oceanográficos empreendidos por D. Carlos de Bragança. Como se sabe, o príncipe e depois rei D. Carlos I foi muito criticado no seu tempo, por empregar verbas avultadas e consideráveis na aquisição de barcos e de mudar de iates como "quem muda de camisa". Dizia-se, então, que, nessa matéria, ele não olhava a gastos e que isso ocasionava problemas nas finanças de um país de recursos limitados que, se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico. Hoje, um século decorrido sobre a trágica morte do soberano, começa a reconhecer-se a utilidade dessas despesas, afinal justificadas pelos frutos recolhidos no campo da oceanografia, ciência na qual o rei D. Carlos I foi um dos grandes peritos internacionais do seu tempo. Foi utilizado pelo rei D. Carlos I nas campanhas de investigação oceanográfica, protagonista da primeira expedição científica foi utilizado pela primeira vez em 1896, que o tornaram num cientista marítimo de renome mundial. Tinha o senão de baloiçar imenso mesmo com mar bonançoso. Além disso era desprovido de laboratório o que no entanto rapidamente se veio a tornar imprescindível desde as primeiras excursões nas nossas costas. Apesar de já dispor de algum equipamento científico (mas não de um verdadeiro laboratório) e de estar dotado com três pequenas embarcações de suporte logístico, era muito instável, mesmo em mar pouco agitado, e rapidamente descontentou o príncipe, que o considerou inadequado para o apoiar nos estudos marinhos que ele queria desenvolver. D. Carlos I acabou, rapidamente, por trocá-lo por um novo iate, que recebeu o mesmo nome de Amélia. Em 1897 foi trocado pelo então iate Geraldine, que virá a ser o iate Amélia II.
Iate Amélia II
Construído pelos estaleiros ingleses Ramage and Fergunson em Leith, Escócia, em 1880, foi baptizado Geraldine, sendo adquirido em 1897 pelo rei D. Carlos I em troca do iate anterior e rebaptizado Amélia II. Construído em ferro, deslocava 301 toneladas, tinha 45 metros, um calado de 3,20 metros e atingia a velocidade de 11 nós. Dispunha de instalação eléctrica alimentada por um dínamo e era propulsionado por meio de uma máquina Compound de dois cilindros verticais que accionavam um hélice de três pás, com uma potência de 320HP . Armava esta embarcação com três mastros e gurupés, onde içava três latinos, um redondo à proa e duas velas de proa. A sua guarnição era de 20 homens, não incluindo os oficiais e um naturalista. Pouca informação técnica se encontrou sobre este navio. Como o anterior Amélia I tinha todos os apetrechos necessários para as campanhas oceanográficas e todos os instrumentos para a rápida preparação e conservação de exemplares. Ao ser adquirido por D. Carlos I, tal como o seu antecessor, foi rebaptizado com o nome da esposa do monarca, a rainha D. Amélia de Orleães. Tal como o iate antecessor, o Amélia II destinava-se, primariamente a ser um navio de investigação oceanográfica, actividade em que D. Carlos I estava profundamente envolvido e que o tornou num cientista de renome mundial. Para isso o Amélia II estava equipado com quatro embarcações miúdas (uma das quais a vapor), instrumentos para recolha, preparação e a conservação de exemplares, além de alojamentos para os investigadores. Na qualidade de iate real, o Amélia II efectuou diversas viagens ao serviço régio, destacando-se entre muitas, algumas divulgadas em publicações da época, em outubro de 1897 ao Algarve, com a subida do Rio Guadiana até ao Pomarão, e em julho de 1898 o embarque do Rei D. Carlos I para assistir a um exercício de torpedos ao largo de Cascais. Nesse mesmo ano, aquando das comemorações do Terceiro Centenário do Descobrimentos do Caminho Marítimo para a Índia, foi nele que a bordo o rei assistiu às regatas de vela que se realizaram em Cascais, acompanhado de outras individualidades, membros do corpo diplomático e comandantes de navios estrangeiros que na ocasião se encontravam no Rio Tejo. No dia 12 de abril de 1899, o iate Amélia II fez a sua última saída para o mar, tendo nesse ano sido substituído mais tarde pelo iate Yacona, que viria a ser o iate Amélia III a partir de 1899.
Iate Amélia III
Foi construído em Inglaterra nos estaleiros de Inghern, J. Scott & Co., em 1898 onde se denominava Yacona e foi adquirido em 1899 pelo rei D. Carlos I. O seu casco era em aço, deslocava 650 toneladas e tinha uma guarnição de 36 homens, incluindo três oficiais de marinha, um médico e um naturalista, O seu comprimento era de 54,86 metros, calava 4 metros e atingia urna velocidade de 13 nós. Esta embarcação deu entrada no rio Tejo em 17 de abril de 1899 e foi atracar em Paço de Arcos junto ao seu antecessor. Era um navio de propulsão mista (vela/vapor), de três mastros, que dispunha de uma máquina Compound desenvolvendo uma potência de 320 cv. Dispunha de uma máquina, de tríplice expansão vertical de 3 cilindros, de 95 Hp e um dínamo de 85 volts e 46 amperes com 300 rotações. Quando este dínamo não trabalhava a iluminação eléctrica era assegurada por 35 acumuladores, enquanto o funcionamento do motor era assegurado por 6 outros acumuladores que forneciam um potencial de 12 volts e uma corrente de 6 amperes. O hélice dispunha de 4 pás. Foi considerado por portaria como navio da Armada Portuguesa tripulado por oficiais da Marinha da Casa Militar de El-Rei e ficando a antiga tripulação daquele navio considerada adida ao Corpo de Marinheiros. Passou assim , pela primeira vez, um iate real propriedade pessoal do rei para navio de Estado. Era considerado muito elegante devido ao caimento da popa e da proa, possuía velas de proa e latinos largos em dois mastros, podendo no traquete armar um redondo. Participou em diversas campanhas oceanográficas dirigidas pelo rei D. Carlos I, com a colaboração de oficiais da Armada. Sendo muito mais espaçoso do que os primeiros iates de D. Carlos I, foi possível converter as suas áreas de lazer em laboratórios e outros locais de estudo. Estava armado com um canhão-arpão para captura de cetáceos. Foi bastante utilizado pela família real para viagens e passeios. Em 1901 foi utilizado pelos soberanos na "Visita Régia" à Madeira e aos Açores, evento único na história destes arquipélagos. Em 1901 foi trocado pelo iate Banshee que viria para Portugal receber o nome de Amélia, tal como os seus antecessores. A sua equipagem compreendia 20 homens e reunia condições para receber a bordo uma equipa de 20 investigadores, que assistia o rei, cada vez mais envolvido na pesquisa oceanográfica. O iate Amélia III apoiou as campanhas científicas promovidas por D. Carlos I nos anos de 1897 e de 1898. Apesar das melhorias oferecidas por um espaço mais vasto, também este iate carecia das condições julgadas ideais pelo rei. O iate Amélia III foi um iate ao serviço do rei D. Carlos I de Portugal, entre 1899 e 1901. Curiosamente o iate Amélia III, foi adquirido pela Marinha dos Estados Unidos em 1917, tendo sido transferido, em 1921, para o Governo Insular das Filipinas. Designado para servir como iate oficial do Governador Geral, e rebaptizado com o nome Apo, foi utilizado para viagens de inspecção por Leonard Wood, Henry Stimson, Dwight Davis e Theodore Roosevelt Jr. Em 1932, foi devolvido ao Governo Federal dos Estados Unidos.
Iate Amélia IV
Originalmente denominado iate SS Banshee, este iate foi construído em 1899 nos estaleiros Ramage and Ferguson, em Leith, na Escócia, de acordo com com os planos de um cruzeiro de 2ª classe. Foi adquirido em 1901 pelo rei D. Carlos I em troca do anterior iate Amélia III. Este iate que viria para Portugal receber o nome de Amélia IV, o último e definitivo dos "Amélia". Esta nova embarcação chegou a Cascais em 2 de Novembro de 1901. Com casco em aço, um comprimento de 70,1 metros e um deslocamento de 1370 toneladas, atingia uma velocidade de 14 nós. Este iate era muito maior, pesando aproximadamente 1.370 toneladas, com 70 metros de comprimento, 9 metros de boca e 5,6 metros de calado. Era movido por um motor a vapor de 1.800 HP, de tríplice expansão, 3 cilindros, 2 caldeiras tubulares, com uma auxiliar e 3 fornalhas, que lhe conferia uma velocidade de 15 nós, e estava equipado como uma escuna. Dispunha de capacidade para 183 toneladas de carvão. Estava armado com quatro canhões de 1 libra e tinha uma tripulação de 74 homens. Dispunha a bordo seis embarcações, sendo uma a vapor e outra movida a electricidade. Tinha todos os apetrechos necessários aos trabalhos oceanográficos. Estava equipado com uma máquina de 650 cv, que lhe imprimia uma velocidade máxima de 14 nós. A sua guarnição oscilava entre 36 e 45 homens. Projectado como um cruzador ligeiro, este navio assemelhava-se, nas dimensões e no aparato, ao célebre Princesse Anne II de Alberto I do Mónaco, outro príncipe que fez da oceanografia a paixão da sua vida. Mais do que uma embarcação de recreio, o iate Amélia IV era um navio orientado para a pesquisa oceanográfica, a actividade extra política preferida do monarca. Que, com o passar do tempo e com a experiência adquirida no decorrer de três campanhas de estudo, se tornara, incontestavelmente, uma figura reconhecida pela comunidade científica. Este iate era um navio praticamente novo, já que fora construído em 1898, sendo muito mais espaçoso do que os primeiros iates de D. Carlos I, foi possível converter as suas áreas de lazer em laboratórios e outros locais de estudo. Do mais genuíno estilo inglês, as camarinhas proporcionavam um ambiente acolhedor e privado. Toda a sua decoração interior dos espaços de camarotes e salas eram ricamente decorados em madeira, ao estilo vitoriano muito em voga na época em que foi construído, como atestam alguns registos fotográficos da época pelo célebre fotografo inglês Arthur William Debenham (1845 - 1936). Estava armado, esta embarcação, com um canhão-arpão para captura de cetáceos. Participou em duas campanhas oceanográficas: em 1899 e 1901. Apesar das suas evidentes qualidades, o iate Amélia IV não conseguiu satisfazer, ainda assim, as ambições do cientista Carlos de Bragança. No entanto, a multi funcionalidade no iate Amélia IV ia bastante mais além do que nos antecessores já que projecto do navio era o de um cruzador de 2ª classe que, além de poder servir de navio de guerra para a marinha Portuguesa, tinha instalações para ser utilizado como iate Real e como navio de investigação oceanográfica. Na sequência do golpe militar que implantou a república em Portugal, em 5 de outubro de 1910, foi no iate Amélia IV que o último Rei de Portugal, D. Manuel II, a sua família e comitiva embarcaram, a partir da Ericeira, para se dirigirem para o exílio, sendo conduzidos a Gibraltar. Após a implantação da Republica foi considerado cruzador e rebaptizado de N.R.P. 5 de Outubro. Até ao seu abate, ocorrido em 1937, este histórico navio participou em várias missões hidrográficas, tanto na costa de Portugal continental como nas das ilhas da Madeira e de Porto Santo. Esta última embarcação real, foi muito marcante e simbólica, na história dos iates Reais Portugueses. Após o desmantelamento deste último navio, quando este foi abatido ao efectivo em 1938, foram retiradas de bordo o interior dos camarins reais, preservando-se também algumas baixelas de louças, faqueiros e cristais que fizeram parte da palamenta. Numa sala do Museu de Marinha em Lisboa, que é dedicada às camarinhas do Iate Real Amélia, os luxuosos alojamentos destinados ao rei D. Carlos Î e à rainha D. Amélia estão preservados e expostos. Em 1990 as Colecções Philae, editou um belíssimo prato em porcelana, edição limitada, em homenagem ao rei D. Carlos I e alusivo ao "Iate Real Amélia", numa ilustração executada apelo monarca em 1899, homenageando também esta embarcação histórica.
Texto:
Paulo Nogueira
Fontes e bibliografia:
Branco e Negro semanário illustrado, nº 81 de 19 de Outubro de 1897
Diário Illustrado de Novembro de 1901
BRAGANÇA. (D. Carlos de, Rei de Portugal), BULLETIN DES CAMPAGNES SCIENTIFIQUES ACCOMPLIES SUR LE YACHT "AMELIA". Imprimerie Nationale. Lisbonne. 1902
Rei de Portugal, D. Carlos de Bragança, DIÁRIO NÁUTICO DO YACHT AMÉLIA CAMPANHA OCEANOGRÁFICA REALIZADA EM 1897, 3.ª Edição. Oficinas gráficas do Instituto Hidrográfico. Lisboa. 1988
Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001
Revista da Armada, Publicação Oficial da Marinha, 2011


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