quarta-feira, 1 de julho de 2026

OS CRIMES DE LUIZA DE JESUS

 A primeira serial killer portuguesa…



A história também e feita de acontecimentos trágicos e de personagens que contribuíram para essa parte mais negra da vida humana. É o caso de Luiza de Jesus, considerada a primeira criminosa em série em Portugal. Luiza de Jesus nasceu no seio de uma família de modesta condição, na aldeia de Gavinhos, em Figueira do Lorvão, em 10 de dezembro de 1748, actualmente pertencente à freguesia de Penacova, se bem que na altura se encontrava sob a alçada do concelho de Coimbra. Era filha de Manoel Rodrigues e de Marianna Rodrigues, primos direitos. Luiza não usava o apelido dos pais, prática relativamente comum, à época, entre a gente do povo de baixa condição social, por não haver qualquer imposição legal nesse sentido. Luiza de Jesus começou muito cedo a trabalhara como almocreve, comprando e vendendo mercadorias, entre a cidade de Coimbra e a aldeia de Gavinhos ou por toda a freguesia de Figueira do Lorvão. Ainda jovem, casou-se com Manoel Gomes, o qual, porém, na pendência do processo judicial, já teria desaparecido da sua vida. Luiza de Jesus passa também a ser contratada algumas vezes, para fazer serviços secretos a certas famílias abastadas da região, como ir levar crianças à "Roda dos Enjeitados" ou buscar discretamente crianças a essas instituições para serem adoptadas por certas famílias. Nesta época, era muito habito famílias nobres ou abastadas, colocarem recém nascidos ou bebés, fruto de casos furtivos ou proibidos pela família, abandonando as crianças com privacidade na chamada Casa da Roda ou "Roda dos Enjeitados".  A "Roda dos Enjeitados", era um dispositivo de madeira cilíndrico, muito comum em conventos e hospitais. O dispositivo era dividido ao meio e giratório, de um lado, as mães, ou pessoas contratadas para o serviço, colocavam os bebés dentro do dispositivo que o faziam girar no sentido do interior, depois, tocavam a uma sineta para avisar que lá estava um bebé, para que a criança recebesse logo a atenção que merecia. Na Casa da Roda de Coimbra, que funcionava à época no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, eram abandonadas 200 crianças por ano. Apesar dos esforços da instituição, metade estava condenada a morrer, e muitas poucas tinham a sorte de encontrar o carinho de uma família. Como incentivo à adopção, havia a oferta de 600 réis, além de um enxoval e meio metro de tecido grosso de algodão a quem levasse uma criança para a sua casa. 



Luíza de Jesus 1748-1772, retrato robot 
de como seria a sua fisionomia
(arq. priv.)

Aldeia de Gavinhos em Penacova na actualidade, onde Luiza de Jesus nasceu 
em 10 de dezembro de 1748 (arq. pess.)

A vida de Luiza de Jesus como almocreve de produtos entre Coimbra e a aldeia de Gravinhos
(col. pess.)

Aspecto da cidade de Coimbra em meados do séc. XVIII (arq. pess.)


Luiza de Jesus ia buscar crianças de tenra idade com o intuito 
de as entregar a famílias de adopção (arq. priv.)

Roda dos Enjeitados onde as mães, por vezes de famílias nobres ou abastadas, 
colocavam os bebés, fruto de casos proibidos pela família (arq. pess.)



Assim Luiza de Jesus aproveitando o facto de ser contratada muitas vezes por certas famílias para ir buscar crianças e bebés à Casa da Roda de Coimbra, passou a usar esse pretexto para por sua conta ir buscar supostamente em nome de outras famílias, comprometendo-se a entregá-las aos supostos adoptantes. No total, "adoptou" 34 crianças, todos nesta casa. Por cada criança, ela desembolsava os 600 réis, entre outras coisas, o que dá um total de 20 mil réis, valor elevado que representava o equivalente à época, ao ordenado de seis meses de uma cozinheira ou ao ordenado de um ano de uma moça de cozinha do Hospital Real das Caldas. Fornecia nomes e endereços falsos à directora da Casa da Roda de Coimbra, Leocádia Maria da Conceição, e à ama Margarida Joaquina, que confiavam na veracidade das suas afirmações sem nunca confirmarem a sua veracidade. Mas as intenções dela não eram boas, comprovou-se mais tarde que de forma fria e cruel, asfixiava as crianças com as próprias mãos, mal se encontrava sozinha com elas. Seguia depois em direcção ao Monte-Arroio, a poucos metros da Casa da  Roda, onde os enterrava. Por vezes, levava os corpos para o seu casebre, onde os desmembrava, colocando pedaços num pote e guardando-os debaixo da palha ou em buracos no chão. A 1 de abril de 1772, os crimes de Luiza de Jesus chegaram ao fim, quando a freira Angélica Maria num habitual passeio ficou estarrecida ao tropeçar num cadáver que se encontrava mal enterrado, no Monte-Arroio. Foram realizadas escavações e descobriram-se mais dois bebés no local, com marcas de estrangulamento. As suspeitas recaíram sobre Luiza de Jesus, que foi interrogada a 6 de abril sob forte pressão das autoridades e confessou ter assassinado os 3 bebés encontrados. Luiza de Jesus foi levada de imediato para os calabouços da prisão e muitas perguntas desassossegam o espírito de Pina Manique (1733-1805), Intendente Geral da Polícia, à data exercia funções como Juiz do Crime e Desembargador da Casa da Suplicação em Lisboa, tendo sido o magistrado responsável pelo julgamento e condenação de Luiza de Jesus. Apesar da confissão, as autoridades decidiram continuar a investigação, tendo descoberto que a mulher tinha conseguido adoptar diversas crianças, tendo supostamente servido de intermediária, embora nenhum bebé tivesse chegado ao seu destino. A directora da Casa da Roda e a ama foram presas, pelo que hoje chamaríamos de "negligência criminosa", mas foram logo libertadas. Também foi preso o advogado Pascoal Luís Ferreira da Silva, que tinha chegado a atestar a veracidade dos dados fornecidos por Luiza de Jesus. Também ele seria libertado pouco depois, por falta de provas no envolvimento nos crimes. 


Vista da cidade de Coimbra onde Luiza de Jesus cometeu os crimes em meados do séc. XVIII
(arq. pess.)


Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra no sec. XVIII onde funcionou a Casa dos Expostos
 e Roda dos Enjeitados (arq. pess.)

Luiza de Jesus passou a recolher crianças na Casa da Roda de Coimbra
 supostamente em nome de famílias para adopção (arq. pess.)


De forma fria e cruel Luiza de Jesus asfixiava as crianças 
com as próprias mãos, 
mal se encontrava sozinha com elas
(arq. pess.)

Após consumar os crimes Luiza de Jesus fazia desaparecer 
os corpos das crianças de várias formas (arq. pess.)


Freira Angélica Maria estarrecida ao tropeçar durante um passeio 
num cadáver mal enterrado, no Monte-Arroio 
(arq. priv.)

Os achados macabros encontrados pela freira Angélica Maria 
num habitual passeio em Monte-Arroio (arq. priv.)


Pina Manique (1733-1805), Intendente Geral da Polícia
(arq. priv.)



Entretanto, prosseguiam as escavações no Monte-Arroio, e o número de bebés encontrados foi assustador. A 18 de abril, Luiza de Jesus tinha confessado o seu envolvimento na morte de mais 7 crianças, mas já tinham sido descobertos 15 cadáveres. Mais tarde, confessou ter morto mais 9 bebés, mas negou o seu envolvimento nas outras mortes. No entanto as descobertas macabras não ficaram por aqui. Após uma busca à sua casa realizada pelas autoridades, foram encontrados 18 corpos de bebés, oito deles desmembrados e distribuídos em potes, e os restantes 10 enterrados. Portanto, foram encontrados 33 corpos no total. Luiza de Jesus adoptou 34 crianças, mas nunca se descobriu o paradeiro da 34ª criança. Luiza de Jesus só confessou ter asfixiado 28 dos bebés. Após a condenação, recebeu severa sentença a 1 de julho, tendo-se tornado a última mulher a receber a pena de morte em Portugal. Consta nessa sentença: "Levada ao lugar da forca, nele lhe sejam decepadas suas mãos. Depois do que, morra de morte natural de garrote. E dado este, seja o seu corpo queimado, e reduzido a cinzas, para que nunca mais haja memória de semelhante Monstro". Luiza de Jesus foi ainda condenada ao pagamento de cinquenta mil réis para as despesas da Relação. No dia 3 de julho, os mesmos magistrados confirmaram a pena e mandaram executá-la. Segundo os juízes, nunca no nosso país se viu "um monstro de coração tão perverso e corrompido". Assim, Luiza de Jesus foi condenada a percorrer as ruas da cidade de Coimbra com uma corda ao pescoço, enquanto os seus crimes eram lidos em voz alta e queimada com uma tenaz em brasa, "Atazanada, conforme a sentença de 1 de Julho de 1772". no local da forca, como sentença, foram-lhe decepadas as mãos, por fim, acabou por falecer no sistema de garrote e o seu cadáver foi queimado logo após.  O local exacto da execução de Luíza de Jesus em Coimbra não é conhecido com certeza. Existem documentos da época referem apenas que foi levada ao "lugar da forca", sem identificar o ponto preciso. Alguns historiadores apontam para o Largo da Portagem, onde existiu durante séculos o Pelourinho da cidade e onde ocorriam actos públicos de justiça. Ou ainda a zona da Praça do Comércio (antigo Largo de São Bartolomeu), também associada ao antigo Pelourinho de Coimbra e às cerimónias judiciais. Assim, não existe hoje um marco ou monumento que assinale o local da execução de Luiza de Jesus, e a localização exacta perdeu-se. No entanto, a hipótese frequentemente mencionada é na área do Largo da Portagem, por ser o local onde se encontrava o Pelourinho de Coimbra na época da sua execução, em 1772. 


A imagem horrenda e macabra encontrada pelas autoridades 
em casa de Luiza de Jesus (arq. priv.)


Sentença da Casa da Suplicação contra Luiza de Jesus, 
publicada em 1772, pelo impressor da Real Censória, 
António Rodrigues Galhardo
(arq. Histórico Municipal de Coimbra)

Excerto da sentença de Luiza de Jesus do tribunal de Coimbra 
(arq. Histórico Municipal de Coimbra)


Tortura idêntica à aplicada a Luiza de Jesus no patíbulo 
em julho de 1772 (arq. priv.)


Patíbulo com o sistema de garrote onde Luiza de Jesus 
foi executada no dia 1 de julho de 1772 (arq. pess.)

Ilustração reconstituindo o Pelourinho de Coimbra na Portagem 
em meados do sec. XVIII (arq. priv.)



Luiza de Jesus tinha apenas 24 anos quando deu o seu último suspiro mas deixou um legado negro de morte e de terror que ficou para a história pelos piores motivos. O caso de Luiza de Jesus foi um caso mediático na época sendo divulgado através dos famosos "folhetos de cordel", vendidos nas ruas, feiras e praças públicas por vendedores ambulantes e a sua história cantada publicamente por cegos em todo o País, prática habitual nos séculos XVIII e XIX. De referir que crimes desta natureza houve muitos ao longo dos séculos seguintes vários muitos ocultados ou sem provas fundamentadas, mas nenhum com estas dimensões e perversidade. Ficou provado perante a justiça que Luiza de Jesus praticou estes crimes para se desfazer das crianças que ia buscar à instituição de adopção, com o objectivo dos benefícios financeiros que dai advinham. No entanto toda esta coragem, frieza e sangue frio de Luiza de Jesus que a levou a ter praticado estes crimes bárbaros de que foi acusada, possivelmente outros mistérios mais ocultos poderiam ter estado por de traz deste infanticídio. Esta mulher, Luíza de Jesus, foi a quarta  a morrer no patíbulo nesse ano de 1772 e será a última executada por sentença em Portugal. Cerca de 40 anos depois, em 1810, Isabel e Roxas Lemos, conhecida por "Rainha Pamplona", foi condenada à morte por traição, mas conseguirá fugir antes de ser enforcada. De recordar que a pena de morte foi abolida em Portugal pelo Rei D. Luís I (1838 - 1889), através da Carta de Lei de 1 de julho de 1867, que aprovou a Reforma Penal e das Prisões.


Vendedor de folhetos de cordel de meados do séc. XVIII (arq. pess.)

Cego com o seu guia vendedor de folhetos de cordel e cantador público
 de temas polémicos em finais do séc. XVIII (arq. pess.)

Pena de morte abolida em Portugal pela Carta de Lei de 1 de julho de 1867, 
da Reforma Penal e das Prisões (arq. priv.)

Página da Carta de Lei de 1 de julho de 1867, que aprovou 
a Reforma Penal e das Prisões com a abolição
 da pena de morte em Portugal 
(Arquivo Nacional Torre do Tombo)



A vida e morte de Luiza de Jesus, considerada a primeira "serial killer" portuguesa e a última mulher a ser condenada à morte em Portugal, deram origem a uma peça de teatro intitulada  "Luiza de Jesus – A Assassina da Roda". Com texto escrito por Rute de Carvalho Serra, adaptado do romance de um livro com o mesmo titulo da autora, publicado em 2020, em cena no Teatro da Trindade INATEL, entre 29 de abril e 30 de maio de 2021. Em 2025 foi produzido pela RTP um documentário intitulado "Luiza de Jesus - A Macabra História da Maior Serial Killer Portuguesa", sobre a vida e a morte de Luiza de Jesus. Este documentário traça o perfil da mais terrível infanticida portuguesa de todos os tempos, a partir do contexto histórico, de alguns detalhes de uma vida obscura e dos pormenores conhecidos da investigação. Está também prevista a estreia para 2027 do filme "O Meu Nome é Luíza de Jesus", uma produção portuguesa realizada por Frederico Serra.



Capa do livro "Luiza de Jesus - A Assassina da Roda"
 por Rute de Carvalho Serra publicado em 2020 
(arq. priv.)

Imagem da peça teatral "Luiza de Jesus-A Assassina da Roda",
 levada à cena no Teatro de Trindade INATEL em 2021 
(arq. priv.)

Genérico do documentário documentário, produzido pela RTP em 2020 (arq. RTP)




Texto: 

Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:

OLIVEIRA, António Braz de (apresentação e notas). As execuções capitais em Portugal num curioso manuscrito de 1844. Separata da Revista da Biblioteca Nacional, vol. 2, jan-jun de 1982, pp. 109-127.

Esteves, Rita Peixeiro Lopes, Crime no Feminino - Caso de Luíza de Jesus. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018, p. 18-38



Sem comentários:

Enviar um comentário