Durante os séculos XVII, XVIII e XIX vão surgindo grandes quintas nos arredores da cidade de Lisboa que eram constituídas, na sua maioria, por uma propriedade com casa apalaçada de dois pisos, salvo algumas excepções, piso térreo e superior, área de lazer, jardins, capela e equipamentos de apoio às actividades agrícolas como estrebarias, currais, campos de rega e poços. Eram na sua maioria casas de campo da elite da capital Lisboa onde se juntava o lazer ao rendimento. A cidade de Lisboa devido ao seu clima, luz, situação geográfica e sendo a capital de um vasto império colonial durante séculos, resultaram numa grande quantidade de palácios e quintas mandados construir por famílias nobres ao longo dos tempos. É pois vasta a quantidade de quintas, palácios e palacetes na cidade de Lisboa e nos seus arredores, algumas destas propriedades já desaparecidas ou em vias de desaparecer, mas também alguns casos excelentes exemplos de restauro e reedificação. Umas sendo propriedades privadas ou do Estado, com mais ou menos importância que outras, mas todas elas integradas numa zona, num tempo e época com histórias para contar, influenciando de forma directa e indirecta a origem de certas localidades, assim como toponímias da capital. De todas essas propriedades, existentes, é aqui dado a conhecer alguns desses exemplos.
Quinta Grande da Damaia ou Quinta dos Condes da Lousã
Situa-se esta propriedade na actual Rua Carvalho Araújo, antiga Estrada da A-da-Maia, na Damaia, na freguesia das Águas Livres do concelho da Amadora. Este imóvel dominou em tempos um vasto território, na então aldeia da Damaia ou A-da-Maya, encontrando-se actualmente rodeado por uma urbanização dos anos 60. Possivelmente edificada em finais dos século XVII e primeiro terço do século XVIII, período em que teria pertencido aos Condes de Coculim, a propriedade, posicionada em lugar sobranceiro sobre à aldeia, possuía vastos terrenos agrícolas bem como um jardim privado, dominando assim a paisagem. Em termos de edificado, seria constituída pelo palácio propriamente dito e ainda uma pequena capela com orago a Nossa Senhora da Conceição. A construção do edifício data do século XVIII, tendo o corpo central da fachada norte sido restaurado no século XIX. Era a casa principal da Quinta Grande da Damaia, como também foi designada esta propriedade, tratando-se de uma casa de campo típica da região lisboeta, com reboco cor-de-rosa e pilastras de pedra. Do seu conjunto destacam-se os múltiplos telhados que compõem o edifício e os conjuntos de painéis de azulejos de temática alegórica, no alçado posterior (Quatro Estações) e no terraço lateral sul (Virtudes). Segundo um inventario e estudo por Santos Simões em 1960, que assim conclui e descreveu: "Todos estes azulejos são de uma mesma oficina e época, muito provavelmente de 1740-50, aparecendo já as avivagens a branco, típicas do ciclo oficinal de Bartolomeu Antunes, se bem que o desenho das figurações me parece de qualidade inferior ao do mestre azulejeiro. De manifesto interesse são os azulejos de figura avulsa, os quais, se bem que de motivos convencionais, são pelo menos alguns tratados com uma liberdade e singeleza que ainda não vira. São particularmente notáveis certos galos, cães, pássaros e barcos". A Quinta Grande da Damaia ou Quinta dos Condes da Lousã, pertence ao grupo de quintas construídas nos arredores de Lisboa, ao longo do século XVIII, de que também fazem parte, no território da Amadora, a Quinta do Assentista e a Quinta do Outeiro (tema já abordado em artigo anterior) e que serviria de habitação sazonal aos seus proprietários. Trata-se de um edifício de planta em U, onde foram colocados, à entrada, painéis de azulejos com a representação de vasos floridos, datados de 1730, não sendo, porém o seu local de origem. A fachada principal, correspondente à fachada de acesso à habitação, apresenta três corpos em ressalto. No caso particular da quinta da Damaia deve-se a sua configuração geral ao facto da entrada principal se fazer à altura do andar nobre, e por a fachada, a posterior, estar aberta para a paisagem circundante com um terraço entre dois torreões. Este edifício é composto por grandes divisões, com tectos em masseira, destacando-se de todo o conjunto a profusão de azulejos colocados na fachada posterior e que representam as Virtudes e os Pecados Capitais e no terraço lateral esquerdo as Quatro Estações. A capela particular, cuja padroeira era a Nossa Senhora da Conceição e onde, anualmente, se realizava uma festa dedicada à mesma, aberta à população da aldeia da A-da-Maya e da região. Só posteriormente, já no início do século XIX, a propriedade passou para a posse dos Condes de Lousã. Estes Condes tiveram grande protagonismo social e político durante quase todo o século XIX, passando inclusive a quinta a designar-se por "Quinta dos Condes da Lousã". Por essa época, estes novos proprietários ganham grande notoriedade junto da população da aldeia da Damaia, dada a festa anual realizada em prol de Nossa Senhora da Conceição, havendo a abertura da propriedade aos aldeões. Segundo registos da época: "Na Ermida de Nossa Sra. da Conceição, na Damaya, propriedade do Conde da Louzã, fazia-se a festa do orago, na oitava do Espírito Santo, com missa cantada e dois sermões. Embora a capela fosse propriedade do fidalgo, o povo fazia a festa que metia fogo «do ar», na véspera e no próprio dia, ao princípio da missa, à elevação e ao fim da missa. Também se fazia um pequeno arraial. O proprietário da capela apenas emprestava o templo e as alfaias." Por motivos desconhecidos e dos quais não foram encontrados registos e sem data concreta, a capela desta propriedade foi demolida.
Da sua história, sabe-se que em 1813 a quinta era habitada apenas pelos caseiros. Era uma grande propriedade rural que em 1869 se compunha segundo registos; "de palácio, jardim, pomar, vinha, árvores de fruto, oliveiras e terras de semeadura, tendo água nativa de dois poços e de uma nascente contígua". A propriedade assim se manteve até meados do século XX. Na primeira década do século XX, tendo sido pertença do conhecido cientista Manuel António Gomes (1868-1933), mais conhecido por Padre Himalaya, famoso pelas suas invenções, pioneiro do aproveitamento da energia solar e introdutor em Portugal do interesse pelas energias renováveis. Este novo proprietário, conduziria no local algumas das suas experiências empíricas e científicas. Teriam talvez sido estas que o levariam a vender a propriedade de modo a liquidar dívidas, vendendo o imóvel a um senhor Gomes Cardoso por volta de 1927. Entre 1959 e 1963 são "destacadas" trinta e oito parcelas de terreno desta quinta, parcelas essas que a partir de 1961 passam a ser identificadas como lotes de terreno para construção, embora, como a situação actual da antiga propriedade demonstra, todas as parcelas desanexadas, independentemente da sua natureza urbana ou rústica e da finalidade declarada na desanexação, tenham tido como destino a construção urbana. Terá sido igualmente neste período, particularmente entre as décadas de 50 e 60 que a Quinta começaria a perder a sua envolvência paisagística particularmente, os campos agrícolas da aldeia da Damaia para dar lugar a urbanizações menos classificadas e que votariam o lado Sul da propriedade à condição de logradouro dessas mesmas edificações, mantendo-se somente a frente de rua ou entrada nobre do edifício e uma porção menos significativa do jardim. No histórico da Quinta Grande ou dos Condes da Lousã, é de referir ainda a realização de um conjunto de obras de conservação e restauro que decorreram nesta casa, de acordo com o registo do imóvel no SIPA e que demonstram a vontade dos antigos proprietários, à data, de preservarem e recuperaram a casa. Estas obras decorreram na década de 50, tendo sido substituídas as caixilharias, renovada a cobertura, criadas instalações sanitárias no 2.º piso do edifício, e substituído o pavimento de madeira por tijoleira em alguns compartimentos do piso térreo. Já na década de 90, realizou-se a substituição parcial do telhado. A par de todos estes elementos históricos devemos destacar ainda, para memória futura, todos os seus elementos arquitectónicos e artísticos que a particularizam no conjunto das demais quintas de recreio do Concelho da Amadora. Da propriedade original restou o palácio, propriedade privada até meados dos anos 90 do século XX, no qual os proprietários mantiveram o edifício conservado e com alguma aparência do que foi outrora, mas breve a degradação, após a sua venda, tomaria conta do imóvel e jardim adjacente.
Em 2003, a Câmara Municipal da Amadora adquiriu o imóvel, com o objectivo de assegurar a sua preservação. A Quinta dos Condes da Lousã foi classificada como Imóvel de Interesse Público, pela publicação em Diário da República de 24 de dezembro de 2012. A sua destruição é de tal forma extrema que quem a visitar atraído pelas fotografias do livro "Quintas e palácios nos arredores de Lisboa" de Anne de Stoop, publicado em 1986, ou pelas indicações sobre o património cultural do concelho, disponibilizadas no sítio electrónico da Câmara Municipal da Amadora, que incluem a fotografia de uma das fachadas azulejadas do Palácio, terá uma sensação de irrealidade, sendo provável que julgue existir engano no local. De recordar que o projecto municipal de revitalização (2006) e a classificação tardia de “Imóvel de Interesse Público” [Portaria n.º 740-As/2012, DR, 2.ª série, n.º 248 (suplemento), de 24.12.2012], não impediram a degradação e a visível ruína do imóvel. Desapareceram os telhados que Caldas descreve como "uma interessante adaptação dos tradicionais telhados múltiplos da região"], os tectos de masseira existentes em todas as salas, que, com os azulejos que revestiam duas das fachadas exteriores, foram considerados os elementos mais interessantes do imóvel. Os azulejos, terão sido retirados pelo Município para evitar o seu desaparecimento ou destruição. Nos espaços exteriores, a desolação é idêntica. A poente da casa resta um espaço vazio abandonado e nas traseiras, a sul, uma zona que em tempos terá sido um pequeno jardim ordenado e que, já sem qualquer sentido de relação com a casa, continua a servir, como há 40 anos, de logradouro da urbanização envolvente. Conclusivamente, este imóvel permaneceu votado à intrusão e vandalismo. Presentemente encontra-se inacessível, emparedado, destituído dos seus elementos originais, oito telhados característicos, tectos de masseira, azulejos interiores e exteriores, rebocos e pinturas murais, tudo em estado de pré-ruína, sem manutenção evidente e virtualmente irrecuperável. O estado de degradação e a incúria por parte de quem de direito da autarquia, resultou na perda significativa de elementos arquitectónico, históricos e decorativos. A área do lado da rua Carvalho Araújo, frente à fachada do edifício do palácio dos Condes da Lousã, transformou-se numa autentica lixeira a céu aberto, pela falta de civismo de muito que ali habitam e pela falta de legislação e fiscalização da autarquia local. Lamentavelmente, e as provas estão à vista de todos, pois a degradação foi progressiva, está consumado o abandono deste edifício, que em breve ficará reduzido a um monte de escombros. Mais um crime contra a memória da freguesia onde se insere e à sua história, se não for acudido a tempo.
Texto:
Paulo Nogueira
Fontes e bibliografia:
PROENÇA, Padre Álvaro, Benfica através dos tempos, Lisboa, edição Ulmeiro, 1954
STOOP, Anne de, Quintas e palácios nos arredores de Lisboa. Porto, Livraria Civilização editora, 1986.
CALDAS, João Vieira – A Casa Rural dos Arredores de Lisboa no Século XVIII. Porto: FAUP Publicações, 1999
Publicação on-line: Da Revitalização à Ruína, o caso paradigmático da Quinta Grande, por ANA CELESTE GLÓRIA; CATARINA DIZ DE ALMEIDA; DANIELA V. DE FREITAS SIMÕES, IHA-FCSH/UNL e DINÂMIA’CET-ISCTE-IUL















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