A angustia no jantar...
Aquando da visita a Portugal do Chefe de Estado do Brasil, o marechal Hermes Rodrigues da Fonseca (1855-1923), a 1 de outubro de 1910, o Presidente do Brasil, convidou o Rei D. Manuel II (1888-1932), para um banquete no Palácio de Belém, no dia 3 de outubro de 1910, este seria o último banquete oficial da Monarquia em Portugal. Na memória do mordomo do Palácio de Belém, Vital Ferreira Fontes (1861-1955), seria este jantar do banquete, como que "um prenúncio angustiado do fim da Monarquia em Portugal". Segundo os relatos, o evento começou às 8 horas da noite e foram convidadas 40 pessoas. O Palácio de Belém, estava destinado, desde Setembro de 1908, a alojar Chefes de Estado, Príncipes e missões estrangeiras em visita oficial a Lisboa. Era um jantar de retribuição protocolar, pois o Rei D. Manuel II tinha oferecido um banquete no dia da chegada a Portugal do Presidente Hermes da Fonseca, a 1 de outubro de 1910, na sua casa no Palácio das Necessidades. Este banquete ficou marcado por grande sumptuosidade, pois o Palácio de Belém tinha recebido uma nova mobília de sala de jantar, no estilo Henrique II, como recomendou o parecer da Academia de Belas Artes, assinado pelos arquitectos José Luís Monteiro e José Alexandre Soares. Construída pelo retomado marceneiro Victor de Alcântara Knotz. Este conjunto de mobília era formado por: aparador, trinchantes, mesa de jantar, cadeiras de marroquino (couro), espelho e biombo. O mesmo marceneiro já tinha feito, por exemplo, o mobiliário da Sala das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa; móveis e boiseries para o palacete Lambertini, na avenida da Liberdade. Portanto, para a visita de Hermes da Fonseca, o Palácio apresentava uma mobília requintada e recém-estreada. Devido ao número significativo de comensais previstos e à disposição da mesa em U, é muito provável que o banquete se tenha preparado numa outra sala do Palácio de Belém. Talvez a Sala Dourada, contígua à sala de jantar principal, muito maior, com acesso directo à varanda, ainda próxima da copa, da estufa e do elevador de louça existente, que fazia subir os pratos do piso da cozinha para o andar nobre. E deu-se início ao requintado banquete, misturaram-se várias geografias: do Porto à Escócia, de Moscovo à Boémia e a Argenteuil, não faltando, por pertinência e gentileza, invocações do Brasil, na entrada o Crème Brésilienne e na sobremesa os Gateaux São Paulo.
Na mesa deste que seria o último banquete real oferecido em Portugal, foi usado um serviço em porcelana de Limoges, cidade francesa que ganhou fama por causa das muitas fábricas de porcelana que tinha na sua área. Este serviço, concretamente, foi produzido pela Havilland & Co., encomendado, parte em 1901, e muito acrescentado de mais peças em 1903, precisamente para dotar o Palácio de Belém de um serviço qualificado para servir chefes de Estado ou pessoas das relações da família real. Sobre este serviço de Limoges da Havilland & Co., usado no jantar de 3 de outubro de 1910, as memórias relatadas por Vital Fontes são prenunciadoras e cite-se: "Os pratos eram retirados quase sem lhes terem tocado, como se durante o jantar começasse já a perder-se a pertinência da sua utilização, anunciando a sua desconstrução enquanto dispositivo de poder na mesa Real". A coroa, é uma elemento identitário claro demais para poder ser ultrapassado. Talvez por isso se compreenda a compra, logo em 1912, de um novo serviço também de Limoges com 952 peças, remetendo-se o serviço Real, hoje espalhado pelas colecções de vários palácios nacionais e em colecções privadas, para a condição de objecto museológico. Como curiosidade, nos inventários de bens do Palácio de Belém, além do serviço de Limoges, registam-se as peças que acompanhariam a chamada "1.ª mesa": como copos de cristal Baccarat e talheres Christofle.
Neste famoso jantar, o Presidente Hermes Rodrigues da Fonseca, como anfitrião, ficou sentado à direita de D. Manuel II que, por sua vez, deu a direita ao Presidente do Conselho de Ministros, António Teixeira de Sousa (1857-1917). Quem superintendeu na organização do banquete foi o chefe do Protocolo, José Batalha de Freitas. A operacionalização coube aos servidores do Palácio, entre eles certamente Vital Fontes, que ditou as suas memórias algumas décadas mais tarde. Foram recompensados com "cinquenta libras ouro", deixados por Hermes da Fonseca. Além do Rei D. Manuel II, o banquete juntou na mesma sala ainda o ministro da Guerra, o comandante da Divisão Militar de Lisboa, o ministro da Marinha, o comandante das guardas municipais e o comandante de Lanceiros 2. Dos 40 convidados, fizeram também parte: D. Afonso, tio do Rei, os membros do Governo, os 5 presidentes dos Conselhos de Ministros do ainda curto reinado de D. Manuel, alguns ministros honorários, altas chefias militares, o chefe do protocolo, José Batalha de Freitas; o marquês de Faial, o conde de Sabugosa, e mais alguns "homens do serviço do monarca". Da comitiva brasileira, reconhecemos o diplomata acreditado em Lisboa, José Pereira da Costa Mota e o capitão-tenente Américo Pimentel, "ajudante de ordens" do Presidente Hermes da Fonseca que já citámos. Provavelmente, outras personalidades brasileiras poderão ter estado presentes. Basicamente, quase todas as altas chefias militares estavam a jantar salmão do rio Adour e faisões da Boémia ao lado do Rei, enquanto cerca de dois mil soldados e marinheiros se revoltavam na capital. Apesar de ter uma guarda de honra à porta do palácio, D. Manuel II entrou por uma das portas laterais. Para esta ocasião, o menu do jantar foi elegantemente impresso com as armas reais, ainda que a refeição fosse de retribuição do Presidente do Brasil. O francês era, desde há muito, a língua habitual no discurso dos sabores da esfera social mais chique e elegante. Desse menu de luxo pomposamente distribuído em francês e do qual faziam parte:
Consommé double Royal
Crême brésilienne
Saumon de l’Adour à l’Ecossaise
Escalopes de ris de veau Francillou
Cuissot de chevrenil Moscovite
Purés de Marrons
Suprème de poularde Amélie
Marquise au Porto
Faisans de Bohème sur canapé
Coeurs de Romaine
Asperges d’Argenteuil-Sauce Aurore
Corbeilles de fruits glacés
Gateaux São Paulo
Panter de friandises
Desserts
Para lá do menu francês, como exigia a mais distinta nobreza da época, a acompanhar o jantar foram servidos oito vinhos diferentes, entre os quais um único português, um Vinho do Porto de 1815. Entretanto na cozinha do palácio vivia-se uma grande azafama dos cozinheiros na preparação dos diversos pratos requintados para a ocasião.Seguiu-se o salmão do rio Adour preparado à escocesa, os escalopes de vitela e a perna de veado moscovita com puré de castanhas. Quando chegaram os supremos de frango, o Rei manteve-se pouco falador e com um aspecto triste, no momento de servir os canapés de faisão da Boémia, o comandante de Lanceiros 2 levantou-se e pegou no telefone para pedir que dois esquadrões daquele regimento se dirijam ao palácio a fim de acompanharem o automóvel real no seu regresso às Necessidades. Era grande a preocupação, tristeza e desanimo sentida pelo jovem Rei D. Manoel previu desta forma o fim do seu reinado durante este requintado banquete oferecido e servido no Palácio de Belém, local que o viu nascer.
António Teixeira de Sousa 1857-1917,
Por volta das 21h 20, o Rei D. Manuel II escreveu a seguinte mensagem na margem do cartão do menu: "Peço-lhe o favor de mandar apressar um pouco o jantar". Mal o empregado leu a mensagem, mandou que não se servissem os espargos. Vieram logo as taças de frutas cristalizadas, os "bolos de São Paulo" e as restantes sobremesas. A preocupação, a angústia do que se estaria a forjar levou o Rei a dar ordem para que se encurtasse o jantar, por isso suprimiram-se alguns pratos, o que causou como que uma desorientação na copa e na mesa. Os pratos chocavam-se e os talheres tlintavam, o que nunca acontecia nos banquetes do Paço. Segundo ainda relatos, D. Manuel falava pouco ou quase nada, ao contrário do Presidente Hermes da Fonseca, que desenvolvia a sua afectuosa e habitual alegria. Ainda terá havido tempo para as considerações finais e um pequeno discurso de agradecimentos, como é da praxe, no entanto o jantar terminou às 10 horas da noite, segundo o Presidente do Conselho de Ministros António Teixeira de Sousa, ninguém foi ao jardim para acelerar o desfecho do jantar e o café foi servido na varanda. O Presidente dos Estados Unidos do Brasil vinha da Alemanha, no couraçado "São Paulo". Tinha sido eleito em março anterior e só viria a tomar posse no dia 15 de novembro seguinte, dia da instauração da República no Brasil e, coincidência, data do aniversário do Rei D. Manuel II, nascido no Palácio de Belém. Hoje, sabemos que os preparativos da revolução republicana estavam em curso, mas certamente que a chegada do couraçado "São Paulo" a Lisboa terá propiciado ou pelo menos criado uma atmosfera favorável à vitória do movimento republicano. O presidente do Conselho de Ministros, António Teixeira de Sousa, escreveu na sua obra Para a História da Revolução: "Saí para o Paço de Belém, mais para prevenir o Rei, os ministros e os comandantes, do que para jantar. No caminho, obtive a certeza de que nessa noite se faria a revolução." À saída de D. Manuel II do Palácio de Belém, o hino real tocou pela última vez. De referir que relativamente a este último banquete real oferecido no Palácio de Belém, não existem registos fotográficos que o documentem em detalhe, tendo por esse motivo de se recorrer a imagens de arquivo ilustrativas da época. O Rei nessa noite regressou ao Palácio das Necessidades, de onde partiu no dia seguinte para Mafra. Vindas de Sintra juntaram-se-lhe mais tarde as Rainhas Dona Maria Pia e Dona Amélia. O Presidente Hermes da Fonseca dormiu nessa noite no Palácio de Belém e ainda almoçou no dia seguinte, retirando-se para o couraçado "São Paulo", fundeado no Tejo. Nele permaneceu vários dias, assistindo à instauração da República em Portugal. Pouco mais de 24 horas depois deste último banquete era proclamada a República pelas 9 horas da manhã do dia 5 de outubro de 1910, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa (Paços do Concelho), pela voz de José Relvas (1858-1929). A proclamação da República em Portugal foi amplamente divulgada e anunciada por todos os jornais e revistas da época, igualmente não se fizeram esperar as sátiras a esta visita presidencial num momento de transição de regime como este em Portugal.
Texto:
Paulo Nogueira
Fontes e bibliografia:
Illustração Portugueza n.º 242, de 10 de Outubro de 1910
António, Teixeira de Sousa, Para a História da Revolução. Coimbra: Liv. Ed. Moura Marques & Paraisos, 1912, 2 volumes.
António, Teixeira de Sousa, A força Pública na Revolução: Réplica ao ex-Coronel Albuquerque. Coimbra: Ed. Moura Marques, 1913.
Maria Antónia Pinto de Matos, A porcelana no Palácio de Belém in Ourivesaria e porcelana do Palácio de Belém, coord. geral Diogo Gaspar. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2005, 83-154.
Vital Fontes; Rogério García Pérez, Vital Fontes – Servidor de Reis e de Presidentes. Lisboa: Imprensa Nacional/Museu da Presidência da República, 2018

































